domingo, 27 de janeiro de 2013

'Os Lusíadas': I, 105-106

Canto I, estâncias 105-106

            A reflexão do poeta nestas duas estâncias é motivada por um acontecimento respeitante ao plano da Viagem: a chegada da armada portuguesa a Mombaça, após várias vicissitudes ocorridas em Moçambique e Quiloa, urdidas por Baco.
            Com efeito, após a realização do consílio dos deuses no Olimpo, onde se formam duas correntes – uma de apoio à empresa do Gama – liderada por Vénus – e outra de oposição – chefiada por Baco ‑ e onde Júpiter toma a decisão de auxiliar os portugueses chegarem à Índia, Baco prepara-lhes várias ciladas em Quiloa – Moçambique – e Mombaça, cujo rei tinha sido convencido por ele a aniquilar a frota lusitana.
            Nos quatro versos iniciais da estância 105, o poeta faz alusão à traição que se prepara em Mombaça aos portugueses. De facto, o «recado» (a mensagem) que os enviados trazem é, na aparência e dissimuladamente, de amizade, mas na realidade é de grande perigo (metáfora “debaxo o veneno vem coberto” – v. 2) e de inimizade (v. 3). No entanto, a traição acaba por não se consumar, dado que foi descoberta (“Segundo foi o engano descoberto.” – v. 4).
            Os versos 5 e 6 (observar a metáfora do verso 6) introduzem o tema da reflexão: a insegurança da vida humana, insegurança essa que decorre dos grandes perigos (“Oh! Grandes e gravíssimos perigos! – notar a interjeição e os adjetivos “grandes” e “gravíssimos”, este no grau superlativo absoluto sintético, que conferem um tom hiperbólico aos perigos e à sua gravidade), e da incerteza (“… caminho da vida nunca certo…” – v. 6) que a caracterizam. A exclamação do verso 8 – aliada às dos versos 5 e 6 e à metáfora do verso 6 – reforça a ideia da extrema insegurança que o homem enfrenta.
            Por sua vez, os quatro versos iniciais da estância 106 enunciam os perigos que o ser humano enfrenta, como se pode observar no quadro seguinte:


            Estilisticamente, assume preponderância o recurso ao paralelismo de construção, à anáfora, à hipérbole e à antítese, recursos presentes nesses quatro versos, que evidenciam os perigos a que o ser humano está sujeito tanto no mar como na terra, intensificados pelo recurso à repetição – “tantas”, “tanta”, “tanto”.
            Os últimos quatro versos são apresentados sob a forma de uma interrogação (Poderá o Homem, “bicho da terra tão pequeno”, ultrapassar a sua pequenez face ao universo, muito mais poderoso do que ele?), através da qual (e da anáfora dos vv. 5 e 6) Camões salienta a condição de grande fragilidade do ser humano, que dificilmente conseguirá encontrar um lugar onde possa estar seguro, dada a enorme desproporção entre si e o “Céu sereno”. O poeta conclui, pois, que o Homem dificilmente poderá encontrar segurança e tranquilidade (“Onde pode acolher-se um fraco humano” – v.5) num universo hostil que contra ele se arma, dada a sua pequenez e fragilidade (“Onde terá segura a curta vida” – v. 6 – tema da brevidade da vida humana). A metáfora e hipérbole do verso 8, aliadas à interrogação, enfatizam a referida fragilidade humana e a pouca probabilidade de fazer frente ao universo.
            Tendo em conta o conteúdo da Proposição (I, 1-3) relativamente ao herói de Os Lusíadas, parece ser intenção do poeta, com esta reflexão, exaltar a valentia dos portugueses, que, mesmo sendo pequenos (“bicho da terra tão pequeno” – v. 8), venceram os maiores desafios. Observe-se, ainda, que os dois versos finais constituem uma espécie de ponto de partida para a mitificação dos portugueses enquanto heróis. De facto, não obstante a sua fragilidade enquanto seres humanos, ousam navegar por mares desconhecidos e desafiar a natureza e os diversos perigos, ultrapassando os limites da sua condição humana.
            O tema das duas estâncias é, pois, a fragilidade e a efemeridade da vida humana face aos grandes perigos enfrentados no mar e na terra e às circunstâncias da vida. E o poeta lamenta esses perigos, essa incerteza e insegurança a que o ser humano está exposto, em toda a parte, sem qualquer abrigo ou porto seguro.
            Relativamente à estrutura interna, a reflexão pode dividir-se em três momentos:
. introdução (vv. 1‑4, 105): a traição preparada aos portugueses;
. desenvolvimento (v. 5, 105 – v. 4, 106): os perigos que espreitam o ser humano em terra e no mar;
. conclusão (vv. 6‑8, 106): a fragilidade do ser humano.

7 comentários :

Anónimo disse...

muito interessante e coeso., obg :)

Anónimo disse...

Onde esta a metafora?

Carina Santos disse...

Segundo a minha prof. é Céu que significa "algo superior a nós!", ou seja, a uma força superior não só relacionada com os deuses como o destino... Espero ter ajudado. Beijinhos.

Anónimo disse...

"caminho da vida" a vida É um caminho - metáfora

Daniela Luz disse...

nao da para ver o quadro !!!

Filoctetes Melibeia disse...

Já está reposto.

Obrigado pelo alerta, Daniela.

Anónimo disse...

me deu onda sua pagina
me deu onda tudo aqui escrito
me deu onda
obrigadão pela pagina garoto
eu gosto da sua pagina
pois e o que? amo sua pagina

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