quinta-feira, 11 de abril de 2013

"O Quinto Império"

         Na 1.ª estrofe, o sujeito poético lamenta a sorte daqueles que vivem felizes. Ela inicia-se com a oposição «triste» / «contente»: na perspetiva do sujeito poético, a alegria do conformista é triste para ele mesmo, já que ignora o prazer que a aventura que se segue ao sonho lhe pode proporcionar em termos pessoais, e é triste para a sociedade de que faz parte pela razão de que sem ideais e sonhos e sem a ousadia de os tentar concretizar, a sociedade não evolui, estagna e torna-se decadente.
         O ato de sonhar acordado leva quem sonha a agir no sentido de buscar outra realidade através da libertação daquela (a rotineira e banal) que conhece, tal como aconteceu com Ícaro, que quis libertar-se da ilha de Creta, onde se encontrava prisioneiro, voando com as asas de penas e cera que os eu pai, Dédalo, construiu para ele. Foi o sonho que impulsionou Ícaro a voar, daí a referência ao «erguer da asa» no verso 3. O mito grego exemplifica o sonhador que ousa pôr em prática os sonhos, chegando a morrer por eles, como Ícaro.
         A referência à lareira onde arde «mais rubra a brasa» relaciona-se com antigos costumes romanos, já que era costume, sempre que os romanos mudavam de cidade, levar parte das brasas que ardiam nas lareiras das suas antigas casas para as novas, para manter viva a ligação à respetiva terra de origem. Assim, a brasa que arde mais intensamente («mais rubra») é um sinal de partida recusado por aquele que está «Contente com o seu lar» e que, portanto, não deseja a mudança.
         O oximoro que inicia a segunda estrofe retoma a ideia que inicia o poema, agora através de uma frase exclamativa que expressa o desdém do sujeito poético face à aceitação da rotina como se de uma atitude positiva se tratasse; deste modo, o sujeito poético desmistifica o conceito de «felicidade» aceite pela sociedade em geral e que assenta na valorização da vida ao nível mais rudimentar ‑ a vida instintiva ou «a lição da raiz». A lição que podemos retirar da raiz é simples: quem vive apenas por viver, sem sonhos e ideais («porque a vida dura» ‑ v. 7) é semelhante a uma raiz: vive como se estivesse sepultado. Os nomes «raiz« e «sepultura» associam-se ao imobilismo e à ausência de vida e de sonho. Por outro lado, a forma verbal «dura» (v. 7) remete para a existência enquanto mero passar do tempo. Assim, quem «Vive porque a vida dura» não a aproveita e limita-se a existir, a sobreviver. Esta aceitação da vida segundo os instintos conduz à morte do indivíduo porque a vida digna de ser vivida é a que é orientada pelos mitos, pelo sonho, pela loucura de sinal positivo (vide poema “D. Sebastião”), pela partida em direção a horizontes desconhecidos, pela vitória sobre o Mostrengo «porque quem passar além do Bojador / Tem que passar além da dor» (“Mar Português”), pela vontade de chegar «lá» custe o que custar, animado pela fé em Deus («Cheio de Deus, não temo o que virá» ‑ “D. Fernando”). O apego ao conforto do lar, ao espaço familiar, o medo do desconhecido, a fraqueza anímica conduzem à «sepultura», pois só a busca da plenitude confere imortalidade.
         Em suma, estamos perante duas posturas do ser humano, pautadas por traços diferenciados:
                   . mediocridade                          . movido pelo sonho, única forma de atingir
                   . conformismo                             a grandeza de alma («erguer da asa»)
                   . rotina                                     . insatisfação permanente
                   . banalidade                              . inquietação
                   . comodismo                              . visão para lá dos limites da condição /
                   . sem sonhos, projetos, ideais        / finitude humana
                   . apatia                                    . a vida só vale a pena ser vivida se
                   . vida sem sobressaltos                  seguirmos os nossos sonhos

         O tempo não pára e as «eras» ou tempos passados «somem», desaparecem e são substituídos por novos tempos, novas eras.
         No terceiro verso da terceira estrofe, um aforismo defende a insatisfação porque ela é o motor da mudança; quem se contenta com o que tem não sente necessidade de mudar, mas esses não são verdadeiramente «homens», porque o que distingue o ser humano dos outros seres é precisamente a capacidade de imaginar, sonhar, lutar por objetivos e ideais. Deste modo, o mundo avança com os descontentes e não com os acomodados. Note-se que este verso é chave, que ocupa a posição de centralidade (12 versos antes e 12 depois) e que remete para uma condição inerente ao próprio homem: o descontentamento. É esta insatisfação constante que faz o progresso, é o seu agente impulsionador. Nos dois versos finais desta estrofe, o sujeito poético deseja que a grandeza de alma domine / cale as «forças cegas» ou forças da natureza (aquilo que nos prende à terra, ao mundo da matéria), de modo a que o homem se liberte da prisão terrena e se vire para uma dimensão transcendente em busca da plenitude existencial.
         Na penúltima estrofe, o sujeito poético alude aos quatro impérios do «ser que sonhou» (Grécia, Roma, Cristandade, Europa), o qual assistirá ao renascimento da idade do ouro, mito grego segundo o qual a humanidade regressará a um tempo de pureza e de imortalidade que a chegada do Quinto Império vai proporcionar. Assim, «A terra será teatro / Do dia claro, que no atro / Da erma noite começou» (vv. 18 a 20), isto é, das trevas da noite deserta e esta escuridão dará lugar à luz ou verdade ou Quinto Império, que resplandecerá de paz e harmonia. Observe-se a antítese presente nos versos 19 e 20, que coloca em confronto o tempo passado e presente («… atro / Da erma noite…») e o tempo futuro («dia claro»), que se anuncia sob a égide espiritual dos portugueses. Depois dos «quatro / Tempos» (vv. 16-17), os quatro impérios considerados por Pessoa, chegará o Quinto Império. Observe-se igualmente a metáfora aí presente, que transmite a profecia de que o mundo assistirá («será teatro») ao nascimento de um novo império («Do dia claro»).
         Os quatro impérios anteriores morreram. Agora, é tempo de ser descontente do presente e perseguir o sonho de construção futura do Quinto Império, o império espiritual que nascerá da procura da verdade. É neste contexto que o sujeito poético interroga: «Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?». Esta interrogação anuncia o Quinto Império que, sucedendo-se aos quatro anteriores, deles diferirá pela natureza: será o império da «verdade», nascida com a morte de D. Sebastião.

         Relativamente à estrutura interna, sugerem-se duas divisões diferentes do poema:

. 1.ª parte (estrofes 1 e 2) ‑ O sujeito poético lamenta a sorte daqueles que vivem felizes com a mediocridade e faz a apologia do sonho como única forma de aceder a grandes feitos.

. 2.ª parte (estrofe 3) ‑ Reflexão sobre a passagem do tempo e sobre a condição indispensável para ser homem ‑ a insatisfação.

. 3.ª parte (estrofes 4 e 5) ‑ O sujeito poético anuncia, profeticamente, a chegada do Quinto Império.


. 1.ª parte (estrofes 1 a 3) ‑ Reflexão acerca da vivência humana e da importância do sonho.

. 2.ª parte (estrofes 4 e 5) ‑ Anúncio de uma nova época, de um novo império.

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