Português: Análise de "Mestre, são plácidas"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Análise de "Mestre, são plácidas"

 Assunto
 
            O sujeito poético dirige-se ao seu Mestre, Alberto Caeiro, expondo-lhe a aprendizagem que fez, e produz uma série de conselhos destinados a um «nós», no qual ele se inclui, bem como um conjunto de máximas, que contêm ensinamentos de vida e configuram uma proposta de uma filosofia de vida.
 
 
Estrutura interna
 
1.ª parte (1.ª estrofe) – O sujeito poético constata a fugacidade do tempo e sugere como deve ser vivido.
 
2.ª parte (estr. 2 a 4) – O sujeito lírico aconselha o seu interlocutor a conformar-se com a sua condição de ser humano.
 
3.ª parte (estr. 5 e 6) – O sujeito poético justifica o conselho dado: a vida é breve e a morte chegará, inevitavelmente.
 
4.ª parte (estr. 7 e 8) – O sujeito poético apresenta a solução para o(s) problema(s) em debate: uma atitude imperturbável para encarar o sofrimento e a morte.
 
 
Análise do poema
 
▪ O poema é antecedido de uma dedicatória a Alberto Caeiro, que o sujeito poético assume como seu «mestre», no primeiro verso do texto.
 
▪ O sujeito poético, através de uma apóstrofe, dirige-se ao seu Mestre (Alberto Caeiro), ao qual apresenta o resultado de uma reflexão que levou a uma aprendizagem, isto é, ao qual dá conta do que aprendeu. Assim sendo, Alberto Caeiro será o destinatário do discurso do sujeito poético, sendo o propósito desse discurso explicar como se deve viver.
 
▪ O sujeito poético terá descoberto a solução para os problemas que atormentam ambos: o tempo que vai passando até à morte (“Todas as horas que nós perdemos”) será vivido de forma plácida, calma, não angustiada se (oração subordinada adverbial condicional) vivermos a vida de forma moderada, se a encararmos de forma leve.
 
▪ A comparação dos versos 5 e 6 sugere exatamente essa defesa do prazer moderado, de viver a passagem do tempo de forma não angustiada: as flores postas numa jarra simbolizam a beleza da Natureza, beleza essa, no entanto, que é efémera, pois irá murchar (ou seja, morrer). Assim, as flores remetem para a efemeridade da vida, a qual torna inútil qualquer ação. Por outro lado, as jarras são recipientes que podem ser preenchidos ou não; neste poema, configuram uma metáfora para as horas. “Preencher as horas de coisas belas como as flores é um ato estético que contrabalança a sua perda” (GARCEZ, Maria Helena Nery).
 
▪ Na segunda sextilha, o sujeito poético defende que devemos manter uma atitude de indiferença perante as paixões e os sentimentos intensos: “Não há tristezas / Nem alegrias / Na nossa vida”. Pelo contrário, sustenta a abdicação e o manter-se afastado das perturbações do quotidiano. . Se soubermos não viver a vida, mas apenas assistir à mesma, não teremos alegrias nem tristezas.
 
▪ De seguida, defende a sabedoria do sábio incauto, despreocupado, ou seja, que não devemos viver a vida. Note-se como valoriza, neste passo, o ato de pensar e o saber. A forma verbal «decorrê-la» (v. 13) significa deixar que a vida passe, não a vivendo intensamente, com preocupações e ilusões e sem estar consciente de que a morte é uma realidade certa. É uma atitude cerebral, calculada, pensada, adquirida através de um processo mental de autodisciplina.
 
▪ Pelo contrário, a vida deve ser vivida de forma tranquila e plácida, “Tendo as crianças / Por nossas mestras”. As crianças, símbolo da sabedoria e da inocência, da existência tranquila, ensinam-nos a inocência e a simplicidade. Elas vivem sem preocupações, sem consciência da passagem do tempo e da certeza da morte.
 
▪ Além disso, a vida deve ser vivida contemplando a Natureza e bebendo a sabedoria que advém dessa atitude: “E os olhos cheios / de Natureza” (vv. 17-18). É a defesa do bucolismo, que relembra a poesia de Caeiro.
 
▪ Em suma, na segunda e terceira sextilhas, o sujeito poético sugere que a melhor forma de evitar o sofrimento e as preocupações da vida passa por abdicar de uma existência intensa e optar por uma atitude imperturbável face às adversidades.
 
▪ Na quarta estrofe, evocando o bucolismo da Natureza, sugere que nos devemos deixar levar pela vida, que deve ser vivida de forma despreocupada, sem esforço ou agitação, «Conforme calha» (v. 21), usufruindo dela enquanto dura, fruindo de forma tranquila o presente (vv. 22-23) e agindo de modo a que se prolongue (“estar vivendo” – est. 4: o gerúndio remete para uma ação em curso). Daí a utilização das expressões «à beira-rio» e «à beira-estrada», que apontam para a ideia de nos mantermos à margem da vida, não mergulhando nela de cabeça, nem seguindo na estrada com metas ou objetivos.
 
▪ A quinta estrofe centra-se no Tempo:

• habitualmente, na poesia, o Tempo constitui uma metáfora do saber, do amadurecimento, da experiência;

• neste texto, o Tempo tem uma conotação negativa: passa, destrói, produz o envelhecimento;

• o tempo passa e a vida é breve, por isso há que desvalorizar a sua passagem, dado que é esta que nos atormenta;

• por isso ainda, há que aceitar a efemeridade da vida e a inevitabilidade da morte;

• deste modo, o sujeito poético aceita a passagem do tempo, o envelhecimento e a morte de forma voluntária, porque não vale a pena combater o inevitável.

 
▪ A aceitação das circunstâncias que o rodeiam por parte do Homem, sem preocupações, é a melhor forma de as enfrentar. Assim sendo, devemos deixar-nos ir, caminhando para a morte, como se tal nos fosse indiferente. Maliciosos, de modo calculista, devemos aceitar o Destino, como se fosse voluntário, como se fôssemos nós a conduzi-lo.
 
▪ Na estrofe seguinte, o sujeito poético afirma a inutilidade de qualquer esforço: «Não vale a pena / Fazer um gesto.» (vv. 31-32).
 
▪ Que justificação existe para essa afirmação? É impossível escapar à ação cruel do Tempo, que tudo destrói: “Não se resiste / Ao deus atroz / Que os próprios filhos / Devora sempre.” Ou seja, não vale a pena resistirmos à passagem do tempo e à morte; nada podemos fazer para a evitar.
 
▪ O deus atroz é Cronos (ou Saturno para os romanos), a divindade que simboliza o tempo (é daquele termo que derivam palavras atuais que remetem para o tempo, como, por exemplo, «cronómetro», «cronometragem», etc.) e que devorou cinco dos seus seis filhos mal eles nasceram (tinha-lhe sido profetizado que um deles o derrubaria do trono). O sexto, Zeus (ou Júpiter entre os romanos) escapou (graças à ação da mãe, que deu a comer ao esposo uma pedra) e, de facto, acabou por destronar o pai. Assinale-se a presença, nestes versos, da perífrase e do disfemismo.
 
▪ Nas últimas duas sextilhas, o sujeito poético apresenta a solução: “Colhamos flores. / Molhemos leves / As nossas mãos / Nos rios calmos” (vv. 37 a 40). Aproximando-se de Caeiro e do seu sensacionismo, Ricardo Reis sugere que devemos viver o momento presente, de forma moderada e calma, na esteira do carpe diem de Horácio.
 
▪ Os «rios calmos» simbolizam a passagem do tempo (em direção à morte), um movimento constante, aqui associado à ideia da serenidade. Dito de outra forma, há que aceitar tranquila e imperturbavelmente que as coisas são assim. É a aproximação do ideal da ataraxia.
 
▪ As imagens dos versos 43 e 44 sugere que devemos seguir o ritmo e o curso da Natureza e das suas leis. As referências aos «girassóis», às «flores» e aos «rios» apresentam a Natureza como a realidade com que o «nós» se identifica e simbolizam a transitoriedade da vida.
 
▪ Se assim fizermos, encararemos o momento da morte de forma tranquila e viveremos a vida sem sensação de culpa: “Da vida iremos / Tranquilos, tendo / Nem o remorso / De ter vivido.” (note-se o recurso habitual ao eufemismo).
 

Características clássicas do poema

▪ o uso da ode;

▪ o bucolismo: “À beira-rio”, “Colhamos flores”;

▪ a “aurea mediocritas”: “Molhemos leves / As nossas mãos / Nos rios calmos”;

▪ o paganismo: a referência aos deuses greco-latinos;

▪ a aceitação do Tempo e do Destino;

▪ a consciência da vida e da inevitabilidade da morte;

▪ a vivência moderada do momento: “Para aprendermos / Calma também”;

▪ o uso dos modos imperativo e conjuntivo com valor exortativo.

 
 
Dupla mensagem
 
            Nesta ode, há uma dupla mensagem: uma dirige-se ao «Mestre», transmitindo-lhe a aprendizagem de uma determinada filosofia de vida; a outra é destinada ao leitor, que deve aprender uma lição, que consiste num misto de estoicismo e de epicurismo: “a elegância e o prazer sereno que a Natureza nos oferece é a forma de aceitarmos, com disciplina estoica, a certeza da morte.” (Carlos Reis, p. 87).
 
 
Relação entre o «nós» e o Tempo
 
            A questão do Tempo no poema relaciona-se com a figura mitológica de Cronos, a divindade que devorava os filhos com receio de que estes o apeassem do trono.
            Deste modo, o Tempo é uma espécie de pai e, simultaneamente, o devorador/aniquilador do «nós».
            A consciência da inevitabilidade deste facto, ou seja, da passagem do tempo e da morte, exige que o «nós» aprenda a aceitar esse facto, de modo a conformar-se às leis do Tempo.
 
 
Filosofia de vida
 
            O sujeito poético defende uma vida sem envolvimento emocional com o presente e sem expectativas de futuro, de modo a chegar à morte sem preocupações e com o mínimo de sofrimento (“Não a viver”, “tendo / Nem o remorso / De ter vivido”):
            Por outro lado, o sujeito poético aspira a “decorrer” a vida, ou seja, a aceitar voluntariamente o seu destino, aprendendo a viver em conformidade com as leis da Natureza, com calma e lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas, recusando emoções intensas (“tristezas” e “alegrias”), na busca da indiferença à dor, ao sofrimento, em suma, a qualquer sentimento ou emoção intensos.
            Em conclusão, devemos aproveitar a vida enquanto dura, abdicando de sentimentos ou emoções que criem uma ligação mais profunda com o mundo.
 
 
Semelhanças com a poesia de Alberto Caeiro

▪ Palavras que se inscrevem no campo lexical de Natureza (“flores”, “girassóis”, “rio”, “Sol”).

▪ A «aurea mediocritas».

▪ A referência às crianças como modelo de existência tranquila a seguir.

▪ A atitude de contemplação da Natureza.

▪ A atitude panteísta de identificação com os elementos da Natureza.

 

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