terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Herói em 'Os Lusíadas'

1. O herói nas antigas epopeias

         Nos poemas hindus, a figura do herói é a incarnação de um deus, por isso tudo nele, desde o aspeto físico até à ação que realiza, pode ser pensado ou decorrer fora de todos os moldes humanos, com proporções monstruosas desmedidas.
         Nos poemas homéricos, os heróis assumem a feição humana, sucedendo quase o mesmo com os deuses, concebidos como realizações superiores de tipos humanos, sem as limitações que impedem em cada um destes o realizar-se como desejaria. Mesmo quando intervêm, os deuses fazem-no de forma discreta, o que faz com que a liberdade do herói seja salvaguardada: pode discutir a vantagem ou desvantagem do conselho do deus que o protege, pode até contrariar esse conselho.
         “Os Portugueses do Renascimento levantaram a vida humana a maior altura, deram-lhe novas perspetivas e interesses, fizeram, no campo da ação navegadora e guerreira, o que no campo da arte fizeram os Italianos. Esses homens multímodos, navegantes e guerreiros, políticos e poetas, geógrafos e cronistas, aventureiros e apóstolos, constituem um momento insigne na história da personalidade.” (in Luís de Camões, O Épico, Hernâni Cidade).


2. O herói em Os Lusíadas

2.1. A ação da obra e o herói épico

2.1.1. Na Introdução

         Na esteira da ideologia renascentista, o poema de Camões coloca o homem português no centro do mundo ao atribuir-lhe características humanas e sobre-humanas e ao utilizá-lo como símbolo da confiança nas capacidades humanas.
         O primeiro momento da progressiva construção do herói em Os Lusíadas ocorre na Proposição, na qual Camões sintetiza o conceito de herói e cujos principais dados são os seguintes:
. apresentação da intenção do poeta: glorificar os feitos do povo português, através do seu canto épico, apontando deste logo para a imortalidade como traço essencial do conceito de herói: “As armas e os barões assinalados”; “Daqueles reis que foram dilatando / A Fé, o Império…”; “E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da Morte libertando”;
. a assunção da dimensão coletiva do herói da obra: “Que eu canto o peito ilustre lusitano”;
. a apresentação dos quatro planos do poema:
. o da Viagem: “As armas e os barões assinalados / Que, da ocidental praia lusitana, (…) / Passaram ainda além da Taprobana…”;
. o da História de Portugal: “… reis que foram dilatando / A Fé, o Império…”;
. o da mitologia: “Cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram; / (…) A quem Neptuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta…”;
. o das considerações do poeta: “Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte”.
         Observa-se, desde já, a intenção de Camões imortalizar os portugueses quer pela grandeza dos seus feitos quer pelo facto de suplantarem os deuses antigos (“A quem Neptuno e Marte obedeceram”). Deste modo, o poeta inicia o processo de mitificação do herói, elevando-o a um plano superior e a um estatuto de imortal, que suplanta o dos heróis da Antiguidade, considerados modelos (Ulisses, Alexandre Magno, Trajano, Eneias).
         Na Invocação que se segue à Proposição, Camões invoca as ninfas do Tejo solicitando-lhes que o auxiliem na tarefa que tem em mente. Ora, esta invocação é um outro dado que
reforça o processo de engrandecimento e divinização dos heróis navegadores, dado que o próprio poeta considera que necessita de um estilo e de um talento superiores que sejam adequados à grandiosidade da tarefa.
         Daí que Camões:
. selecione as ninfas do Tejo ‑ as Tágides ‑, divindades por ele criadas, dado que reforça o caráter nacionalista do poema;
. adote o canto épico e um “som alto e sublimado”, um “estilo grandíloco e corrente”, uma “tuba canora e belicosa”, consentâneos com a grandiosidade do povo que se propõe cantar;
. visione uma dimensão universal para o seu poema (“Que se espalhe e se cante no Universo”, já anunciada na Proposição (“Cantando espalharei por toda a parte”).
         A Dedicatória constitui outro momento de glorificação / imortalização dos heróis, sendo que, neste caso, esta se projeta no próprio poeta, dado que, ao cantar a imortalidade dos navegadores, ele se torna igualmente imortal (“Que não é prémio vil ser conhecido / Por um pregão do ninho meu paterno”).

2.1.2. Na viagem de Vasco da Gama à Índia

         A ação central do poema ‑ a viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia ‑ narra a luta dos navegadores, capitaneados por Vasco da Gama, contra as adversidades que surgem no seu trajeto, bem como a recompensa dos seus feitos e do seu heroísmo.
         Essas adversidades, esses obstáculos, são de natureza diversa. Assim, que no episódio da partida das naus de Belém quer no do Velho do Restelo fica bem evidente o clima emocional que envolve a partida dos navegadores: dor, sofrimento, choro, mágoa, saudade, insegurança, oposição familiar e da «voz do bom senso» (a voz do Velho) a esta aventura.
         Noutros momentos da viagem, destacam-se os perigos terríveis que o mar desconhecido oferece. É o caso das chamadas Cousas do Mar: após a passagem do Equador, não obstante a rota ser conhecida, os navegadores portugueses deparam-se com diversos fenómenos característicos das águas quentes dos trópicos ‑ o Fogo de Santelmo e a Tromba Marítima ‑, a que se soma a Tempestade. Perante estes fenómenos, o poeta valoriza o conhecimento e o saber experimentais, tecendo uma crítica implícita àqueles que possuem do mundo apenas um conhecimento livresco, teórico (“Vejam agora os sábios na escrita / Que segredos são estes de Natura!” ‑ V, es. 22). Nestes episódios, a mitificação do herói reside na questão da superação do medo e no desvendar dos segredos da natureza.
         Outro elemento a ter em consideração é a hostilidade dos povos indígenas, nomeadamente as tentativas frustradas das gentes de Quiloa e Moçambique para destruir a armada, que contrastam com o caloroso acolhimento do Rei de Melinde. Note-se que, até no momento em que chegam à Índia, os marinheiros portugueses tiveram de se haver com a hostilidades dos chefes locais.
         O episódio do Adamastor é um dos mais importantes na mitificação do herói, dado que os portugueses desvendam o seu esconderijo, até aí nunca descoberto (mais uma vez, a ação lusa é associada ao conhecimento, ao desvendar do desconhecido). Por outro lado, temos a coragem e a determinação do Gama, que não se deixa intimidar pelo gigante, nem perante as profecias aterradoras, e acaba por o derrotar, facto que simboliza a vitória do humano sobre a divindade. Por outro lado, este episódio liga-se ao da Ilha dos Amores, pois foi a paixão do gigante por Tétis que levou ao castigo de Júpiter, que o transformou num rochedo, constantemente rodeado pelo mar, o lar da sua amada. Ora, quando os portugueses são recebidos como deuses na ilha divina, Tétis une-se a Vasco da Gama, o que significa que os portugueses superaram os deuses na coragem, na determinação e também no amor.
         Quase no final da narração da viagem ao Rei de Melinde, Vasco da Gama relata, de forma emotiva e comovente, o sofrimento e a dor dos marinheiros que morreram devido ao escorbuto, outro elemento que contribui para a referida mitificação ‑ o homem que dá a sua vida pela pátria.
         Por último, o episódio da Ilha dos Amores constitui o auge do processo de mitificação dos portugueses, construído progressivamente ao longo do poema. Neste passo da obra, o amor surge como o prémio e forma de alcançar a imortalidade. De facto, são as próprias deusas que escolhem os navegadores para com eles se relacionarem, legitimando, assim, o seu estatuto de heróis, alcandorando-as ao estatuto divino e imortalizando-os. Por outro lado, a estruturação do episódio traduz a construção progressiva de um ambiente que potencializa a divinização e mitificação dos heróis:
. o aparecimento da Ilha, mágico e súbito (“Que Vénus pelas ondas lha levava / (…) Pera onde a forte armada se enxergava”);
. a descrição idílica e sensorial da Ilha, fiel ao «locus amoenus” clássico;
. os jogos de sedução das ninfas, aconselhadas por Tétis, após o desembarque dos marinheiros;
. a coroação e sagração dos heróis através do amor sensual com as ninfas;
. a constatação de que o esforço e o sacrifício conduzem à fama e à glória;
. os deleites que a Ilha oferece: “deleitosas honras”, “preminências gloriosas”, “os triunfos”, “a fronte coroada / De palma e louro”, “a glória e maravilha”.
         Quer isto dizer que, superados todos os obstáculos, os navegadores recebem o prémio respetivo, representado pelo episódio da Ilha, culminando, desta forma, em glória e prazer, o que se tinha iniciado com dor.

         O protagonista deste plano narrativo é Vasco da Gama, que assume, no final, o estatuto de herói épico. O seu heroísmo revela-se na determinação com que parte de Belém, da “praia de lágrimas”, não consentindo que o seu espírito e essa sua determinação sejam abalados pelo sofrimento e pela dor que testemunha. Revela-se, igualmente, na vontade férrea de cumprir a missão de que foi incumbido, mesmo tendo consciência de que tal tarefa exigiria um esforço sobre-humano (“além do que prometia a força humana”). Revela-se, por último, na capacidade demonstrada de superar as adversidades e de vencer o medo, simbolizado no episódio do Adamastor.

2.1.3. O plano da História de Portugal e o herói

         Depois de situar geograficamente a Europa, a Península Ibérica e Portugal, Vasco da Gama narra a História de Portugal cronologicamente, desde Viriato ao rei D. Manuel. Nesta narrativa, predominam os feitos guerreiros protagonizados por heróis individuais que, no entanto, contribuem para o engrandecimento do verdadeiro herói do poema ‑ o povo português, um herói coletivo.
         O primeiro protagonista da mitificação do herói no plano da História é Viriato, uma figura histórica e simultaneamente mítica apresentada como “Pastor” e “homem forte” que “os feitos teve, / Cuja fama ninguém virá que dome”, ganhando o estatuto de primeiro responsável pela criação do “Reino ilustre” ‑ Portugal.
         No canto III (estâncias 35 a 40), é a vez de Egas Moniz, o amo fiel de D. Afonso Henriques que, ao ver o seu amo cercado pelo inimigo, ofereceu a vida como penhor da lealdade que o soberano deveria prestar ao rei de Castela, seu primo. Levantado o cerco e como o monarca português tardou a cumprir a palavra dada por Egas Moniz, acabando mesmo por se negar a fazê-lo, este decide oferecer a sua vida e a dos seus familiares ao rei de Castela, cuja ira cede diante da dignidade e fidelidade do português (“Mas o Rei vendo a estranha lealdade, / Mais pode, enfim, que a ira, a piedade.” (III, 40).
         Ainda no canto III (estâncias 42 a 54), encontramos o episódio da batalha de Ourique, onde é visível, novamente, o estatuto de herói dos portugueses que, corajosamente, vencem o exército inimigo mouro, que é muito superior em número ao português.
         Segue-se a narração de nova batalha, a de Aljubarrota (IV, estâncias 28 a 45), em cujo desenrolar assume papel preponderante a figura de Nuno Álvares Pereira, o verdadeiro herói, que desafia os seus compatriotas a pegar em armas contra o invasor castelhano. A postura adotada e o discurso proferido configuram em tudo o estatuto de herói:
. a audácia / coragem;
. a liderança;
. a determinação;
. a energia;
. a sabedoria;
. a defesa de um ideal, o da liberdade, e da pátria.
         Por outro lado, este episódio ressalta, mais uma vez, a valentia e a coragem dos portugueses que, não obstante se encontrarem em desvantagem numérica e menos apetrechados de armas, vencem os castelhanos, garantindo a defesa da liberdade e da independência da pátria.
         No que diz respeito à figura real, a narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde engloba todos os reis portugueses até à data, mas não lhes dá igual destaque. Da 1.ª dinastia, destacam-se D. Afonso Henriques, o primeiro monarca lusitano, e D. Afonso IV, em razão da sua luta contra os mouros, evidenciada nos episódios bélicos das batalhas de Ourique e do Salado. Já na segunda dinastia, assumem relevo as figuras de D. João I, pelo papel que desempenhou na defesa da independência nacional, retratado no episódio da batalha de Aljubarrota, e por ter dado início à luta contra os mouros fora do território português, e de D. Manuel, o monarca que cumpriu o sonho do Oriente. Pelo exposto, facilmente se conclui que a narração privilegia os monarcas e os reinados marcados pelos feitos guerreiros, ocupando outros soberanos um lugar secundário, exatamente por os seus reinados não terem sido caracterizados pelos feitos guerreiros ou pelas conquistas.


3. A mitificação do herói

         O mito é uma forma adotada pelos povos para a criação de heróis, que procuram deificar, imortalizar, ganhando com eles um estatuto de exceção no mundo.
         Note-se que, como já foi apontado atrás, o conceito de herói, em Os Lusíadas, não é apresentado de uma só vez, antes se vai construindo ao longo do poema.
         Logo na Proposição, Camões anuncia o herói da sua obra: “eu canto o peito ilustre lusitano” (símbolo de forma e audácia, valor e heroicidade, características portuguesas), ou seja, o valoroso povo português, um herói coletivo que se vai manifestando por heróis individuais ‑ Vasco da Gama, o navegador que concentra em si os esforços de 80 anos (1417-1497), atingindo a Índia, no plano da Viagem, os reis e os heróis, como Nuno Álvares Pereira, no plano da História de Portugal.
         “Camões pretende celebrar feitos gloriosos, dignos de louvor, praticados por pessoas valorosas ‑ navegadores, guerreiros, reis, missionários (…) ‑, votadas à dilatação da Fé e do Império, e que conseguiram ultrapassar todas as barreiras (espaciais e ideais) no mar e em terra, merecendo por isso ser recordadas através dos tempos, ou seja, imortalizadas – “se vão da lei da morte libertando” (I, est. 2) (in Sob o Signo do Império, de J. Oliveira Macedo).
         Ao longo da obra, Camões mitifica este herói e inicia a «tarefa» na Introdução e prossegue-a nas reflexões feitas no final do canto I, quando se debruça sobre a fragilidade do ser humano, considerado “bicho da Terra tão pequeno”, perante os perigos que o espreitam constantemente.
         Ora, nos cantos seguintes, a narração retrata um grupo de navegadores, comandado por Vasco da Gama, que enfrenta os diversos perigos que surgem no seu caminho e no cumprimento da sua missão e que, com determinação, abnegação, coragem e audácia, os supera.
         Por outro lado, os portugueses são ousados e revelam toda a sua ousadia ao navegarem por mares desconhecidos (“mares nunca dantes navegados”) e ao enfrentarem o símbolo desse desconhecido, o Adamastor, resultando deste confronto a vitória sobre o medo, personificada por Vasco da Gama, que enfrenta as ameaças que lhe são dirigidas e prossegue a sua caminhada.
         Significa isto que a viagem retratada no poema é a da descoberta do caminho marítimo para a Índia, no entanto ela representa muito mais do que uma viagem geográfica. De facto, esta é a viagem do confronto do ser humano com os seus limites, do desvendamento dos segredos escondidos, a viagem do conhecimento. Assim, ao ultrapassarem os obstáculos que surgem no seu percurso, os navegadores portugueses superam-se a si mesmos, no sentido de que ultrapassam a sua fragilidade, a sua condição de “bichos da Terra tão pequenos”.
         Pela sua coragem, pela sua determinação, pela sua ousadia, em suma, por terem cumprido a sua missão heróica, os portugueses são premiados enquanto heróis de o prémio que lhes é atribuído é a Ilha dos Amores, símbolo do sonho concretizado, onde o ser humano, colocado ao nível dos deuses, alcança o Amor, a Beleza, a Felicidade e a Harmonia absolutas. Neste contexto, assume especial significado a Máquina do Mundo, revelada a Vasco da Gama por Tétis, à qual têm acesso apenas aqueles que, superando a sua própria condição, como fizeram os nossos navegadores, chegam “além do que prometia a força humana”.
         Isto significa que a mitificação do herói resulta da interação do plano da Mitologia com o plano da Viagem. A intriga dos deuses inicia-se com o primeiro Consílio dos Deuses no Olimpo e termina com o episódio da Ilha dos Amores. No consílio, onde se discuta a abordagem dos deuses à viagem dos portugueses, Vénus, com Marte, seu amante, a seu lado, defende que os navegadores, seus protegidos, concretizem a viagem à Índia. No pólo oposto, encontra-se Baco, que procura impedi-los de concretizar os seus objetivos, por sentir ameaçado o seu domínio no Oriente se ela se efetivar. Derrotada a sua posição no consílio, o deus provoca a animosidade, contra os portugueses, dos povos da costa oriental de África, leva as divindades marítimas a desencadearem uma tempestade e induz os mouros de Calecute a conspirarem contra Vasco da Gama e os seus companheiros. Vénus intervém então em auxílio dos navegadores, que finalizam a sua viagem com pleno sucesso. Para os recompensar, durante a viagem de regresso, auxiliada por Cupido, fá-los desembarcar na Ilha dos Amores, onde os aguardam as ninfas, que os recebem como heróis, ascendendo eles ao plano divino através da concretização dos seus amores com as deusas. Para completar a recompensa, Vénus proporciona ao Gama a contemplação da já referida Máquina do Mundo e, deste modo, à visão do cosmos.
         Assim, através do plano da mitologia, que culmina com a mencionada união dos navegadores portugueses com as deusas do mar e a sua consequente divinização e mitificação, Camões exprime um dos ideais centrais do Renascimento: a confiança na capacidade humana para se opor e suplantar a tradição (os deuses e os heróis da Antiguidade), para superar, em suma, o obscurantismo e para dominar o mundo e a natureza.
         Ao unirem-se às ninfas, portanto, os marinheiros são recompensados com a imortalidade, simbolizada na união com as ninfas e na atribuição das coroas de louros dos heróis divinizados. Deste modo, os portugueses cumprem a missão para que foram escolhidos, enquanto povo predestinado desde o milagre da batalha de Ourique, e que é confirmada por Júpiter no Consílio dos Deuses. Por outro lado, o seu heroísmo fica associado a valores como a coragem, as virtudes militares, a experiência. Falta-lhes, porém, o traço cultural, como Camões denuncia em diferentes momentos. Daí que o conceito de heroísmo assuma, em Os Lusíadas, a forma de um conceito abstrato, de um modelo teórico global: perfeição nos planos moral e intelectual e no domínio da ação, “a imagem de um homem inteiro que impõe a sua vontade à natureza e que afirma a liberdade em face do destino.” (in MATOS, Maria Vitalina Leal, Tópicos para a Leitura de Os Lusíadas).
         No entanto, este modelo não se concretiza na obra camoniana. Basta atentar nas críticas que o poeta faz para se chegar a esta conclusão: à ignorância, à ingratidão, ao egoísmo, à cobiça, ao abuso de poder, à exploração dos mais fracos, etc. Com efeito, estamos na presença de um modelo teórico que Camões procura construir, mas que não se concretiza na prática, pelo menos na sua totalidade.
         Para concluir, recuperamos, de novo, as palavras de Maria Vitalina Leal de Matos: “É verdade que a obra se apresenta como epopeia, inspirada pela euforia renascentista: a proeza dos portugueses realiza-se, os protagonistas alcançam os seus intentos. E o canto (como projeto que desde o início se apresenta, e como valor que se entrega ao Rei) também aí está, perfeito (X, 154-155). Nos dois planos ‑ o do conteúdo e o da poética ‑ Os Lusíadas parecem um poema de satisfação: neles encontramos heróis vitoriosos, inimigos derrotados, obras ditadas por valores superiores, lutas generosas, recompensa magnífica.
         Mas é verdade que a obra não esconde uma face de ceticismo, de amargura e de desconfiança.”


Bibliografia:
- Macedo, J. Oliveira, Sob o Signo do Império
- Cidade, Hernâni, Luís de Camões, o Épico
- Saraiva, A. J. e Lopes, Óscar, História da Literatura Portuguesa
- Coleção Resumos

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