sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Resumo de Contagem até Zero, de Agatha Christie
Um grupo de advogados reúne-se à volta da lareira para discutir um julgamento recente, o caso Lamorne. Entre eles destaca-se Mr. Treves, um célebre e idoso advogado, conhecido pela sua experiência, discrição e conhecimento na área da criminologia. Embora já retirado da prática por causa da sua idade avançada, todos aguardam com respeito a sua opinião. Enquanto os colegas se concentram apenas nos aspetos técnicos e no valor dos testemunhos, Mr. Treves surpreende-os ao refletir sobre as pessoas envolvidas no processo, lembrando que por trás das leis e provas existem seres humanos apanhados pelo acaso em circunstâncias que os levam inevitavelmente ao tribunal. Refere-se ao encadeamento de pequenos acontecimentos que convergem para um mesmo ponto: a chamada “hora zero”, momento inevitável em que o crime acontece.
Após a reunião, Treves regressa a casa. Já sozinho, reflete: se fosse escritor de romances policiais, começaria não pelo crime em si, mas pelos antecedentes e pelas coincidências que conduzem as pessoas ao local e hora exatos do acontecimento. Porém, ao abrir a correspondência, encontra uma carta que altera os seus planos e reage com contrariedade, regressando bruscamente da reflexão à realidade.
O prólogo estabelece a atmosfera de suspense, introduzindo a figura sábia mas frágil de Mr. Treves, e lançando a ideia central de que os crimes não nascem apenas de um momento, mas de uma cadeia de circunstâncias que convergem para o inevitável.
Angus MacWhirter está internado num hospital após uma tentativa falhada de suicídio. Amargurado e revoltado, lamenta não ter conseguido pôr fim à vida, que considera inútil. Sem saúde, sem emprego, sem dinheiro, sem família ou amigos, acredita que o suicídio teria sido o ato mais lógico e sensato.
Na enfermaria, uma jovem enfermeira ruiva cuida dele com calma e paciência. Angus descarrega a sua frustração, criticando a constante interferência dos outros e defendendo o direito de decidir sobre a própria vida. A enfermeira, com serenidade, contrapõe que o suicídio “não está certo”, por ser pecado e porque uma vida nunca é apenas de quem a vive: pode ter impacto noutras pessoas.
Durante a conversa, Angus revela como perdeu o emprego por recusar mentir num acidente para favorecer o patrão, foi abandonado pela mulher e caiu na miséria. Apesar disso, a enfermeira insiste que ele ainda poderá ter utilidade, mesmo que apenas por estar num certo lugar num momento decisivo.
No fim, Angus percebe que talvez não volte a tentar o suicídio. Embora mantenha dúvidas, a convicção simples da enfermeira – e a sugestão de que a sua vida ainda pode ter um propósito imprevisto – começa a abalar a sua desesperança.
Numa sala silenciosa, alguém escreve, fria e detalhadamente um minucioso plano de assassinato. O processo é descrito como uma criação quase divina, calculando todos os detalhes e possibilidades e deixando até margem para o imprevisível. O autor conclui o plano e escreve uma data em setembro. Em seguida, destrói cuidadosamente os papéis na lareira, conservando-o guardado apenas na sua mente.
O superintendente Battle recebe a notícia de que a filha mais nova, Sylvia, de dezasseis anos, fora acusada de cometer furtos na escola. A diretora, Miss Amphrey, explica-lhe que descobriu a culpada através da psicologia, obtendo da rapariga uma confissão. No entanto, Battle mantém-se impassível e quer falar com a filha. A sós, Sylvia confessa que não roubara nada: apenas se deixou pressionar pelo olhar e pelas insinuações da diretora, acabando por admitir uma culpa que não tinha, sentindo até alívio com a falsa confissão. O pai compreende que a filha não é ladra, mas antes demasiado vulnerável à sugestão, por isso confronta então Miss Amphrey, deixando claro que exigiria investigação policial formal para apurar a verdade. De seguida, regressa a casa com a Sylvia, convencido de que outra aluna (provavelmente Olive Parson) era a verdadeira culpada dos crimes. No carro, consola-a, explicando-lhe que as provações da vida servem para pôr as pessoas à prova, e acrescenta que não deve sentir culpa ou remorso por algo que não fez.
Nevile Strange, um atleta famoso, rico e aparentemente feliz, vive com a jovem e bela esposa Kay, com quem partilha uma relação leve e carinhosa, embora com tensões escondidas. Durante o pequeno-almoço, Kay lamenta terem de passar o verão em Gull’s Point, a casa de Lady Tressilian, que desaprova o novo casamento. A conversa revela ressentimentos: Kay sente-se rejeitada pela família do marido, e Nevile mostra-se ainda perturbado pelo divórcio da primeira mulher, Audrey. A atual vê nela uma figura fria e assustadora, enquanto o tenista admite ter-lhe causado sofrimento a separação e carrega um sentimento de culpa. Nevile propõe que Audrey e Kay se encontrem em Gull’s Point, defendendo que todos poderiam conviver civilizadamente. A esposa reage com estranheza e insegurança, suspeitando que a ideia partiu, na verdade, da primeira mulher. O diálogo deixa claro que, apesar da vida aparentemente perfeita, o casal vive sob a sombra da presença de Audrey, cujo passado com Nevile continua a pesar sobre a nova união.
Lady Tressilian condena a ideia de Nevile Strange de reunir a atual esposa, Kay, e a ex-mulher, Audrey, em Gull’s Point. Conversando com a prima Mary Aldin, critica Kay, considerando-a vulgar, ambiciosa e culpada pela rutura do casamento anterior do tenista. Para a idosa, Audrey é a verdadeira vítima da situação, uma mulher sensível que sofreu muito com o divórcio. Mary, mais ponderada, tenta relativizar a situação, mas também desconfia da carta de Nevile, suspeitando que a iniciativa não partiu dele, mas talvez da própria Audrey, o que intriga Lady Tressilian. Apesar da sua recusa inicial, a velha senhora, desconfiada e relutante, acaba por concordar em convidar a ex-esposa para um almoço, reconhecendo que a jovem pode estar disposta a aceitar o encontro.
Audrey Strange, a primeira mulher de Nevile, visita Lady Tressilian. O narrador apresenta-a como uma figura delicada, pálida, enigmática e serena e de presença quase etérea, como um fantasma que, paradoxalmente, parece mais real do que os vivos. A sua voz é suave e encantadora, reforçando a impressão de serenidade e mistério. Lady Tressilian confronta-a com a carta de Nevile, onde este propõe reunir as duas esposas da sua vida em Gull’s Point. Para a idosa, trata-se de uma ideia absurda e dolorosa, mas Audrey, calma e firme, insiste que aceitar o encontro poderá “simplificar as coisas”. Apesar das objeções da anciã, confirma que deseja ir e que está disposta a enfrentar Kay. Após a sua saída, Lady Tressilian mostra-se exausta e confessa à criada Barrett que já não compreende o mundo moderno. A criada, por sua vez, partilha a impressão de que Audrey é uma presença inesquecível e que Nevile poderá ainda pensar nela, apesar da beleza de Kay. Lady Tressilian, com uma gargalhada amarga, conclui que o tenista se arrependerá por querer juntar as duas mulheres.
Thomas Royde, homem reservado e pouco dado a palavras, prepara a viagem de regresso a Inglaterra após quase oito anos a trabalhar nas plantações da Malásia. O amigo e sócio Allen Drake nota o seu ar fleumático e estranha a decisão, lembrando que Royde já adiara uma visita anterior ao lar, nomeadamente aquando do falecimento do irmão. Fica claro que Thomas esconde algo: cora quando se fala numa mulher, revelando sentimentos por Audrey, prima criada como irmã e ex-esposa de Nevile Strange. A conversa também mostra que não tem grande proximidade com o irmão falecido, Adrian, e que mantém um passado familiar marcado por silêncios e reticências. Royde, porém, limita-se a comentar que pretende rever a família e talvez ficar em Saltcreek, lugar pacato onde “nunca acontece nada”.
Mr. Treves lamenta o encerramento do Marine Hotel, em Leahead, onde se hospedava há vinte e cinco anos e onde se sentia sempre confortável e bem servido. Rufus Lord consola-o e sugere-lhe o Balmoral Court, em Saltcreek, um hotel tradicional dirigido pelo casal Rogers, antigo mordomo e cozinheira de Lord Mounthead, famosos pela excelência do serviço e da comida. O lugar é descrito como tranquilo e adequado ao estilo de vida de Treves, com varanda, terraço e todas as comodidades modernas, incluindo elevador. Além disso, Rufus menciona Lady Tressilian, vizinha próxima e senhora de grande distinção, o que agrada ao velho senhor. Ele considera então a sugestão excelente e decide escrever para pedir informações, planeando instalar-se ali em agosto ou setembro.
Durante um torneio de ténis em St. Loo, Kay Strange observa o marido, Nevile, disputar a meia-final contra o jovem Merrick. Apesar de jogar bem, o primeiro perde a partida, mantendo sempre a postura de “bom desportista”, o que Ted Latimer, amigo de Kay e antigo pretendente, critica enquanto sinal de falta de espírito competitivo. Entre os dois há cumplicidade, recordando a antiga intimidade que tiveram, e uma conversa carregada de ironia e insinuações, revelando que Ted ainda guarda ressentimento por ela ter escolhido casar-se com Nevile. Além disso, a conversa entre ambos deixa transparecer tensões: o homem ironiza sobre a vida da antiga paixão, os seus planos futuros em Gull’s Point e a presença de outros convidados, enquanto Kay, por momentos, confessa sentir medo e estranheza. Mais tarde, Nevile e a esposa conversam sobre Ted, durante a qual o marido demonstra sentimentos de indiferença, confiança e uma crença no «Destino» que os uniu. Kay, porém, surpreende-o ao confessar que foi ela quem manipulou os acontecimentos para o conquistar, revelando o seu lado calculista e estratega, o que deixa o esposo intrigado e com um leve ressentimento.
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