Português: 08/02/26

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Análise de Memórias do Cárcere

    As Memórias do Cárcere iniciam-se com uma longa introdução, intitulada «Discurso Preliminar». Este capítulo introdutório é todo ele autobiográfico. Depois, ao longo da obra, percebemos que Memórias do Cárcere são mais as memórias dos outros que memórias propriamente de Camilo Castelo Branco, isto é, que memórias autobiográficas.

    Memórias do Cárcere constituem um conjunto de histórias, de casos de vida que Camilo conheceu quando esteve preso na cadeia da Relação. Durante o tempo em que esteve encarcerado, conviveu com os outros detidos, conheceu casos de vida, e narrou-os (os crimes, as desgraças que levaram essas pessoas ao cárcere como ele...). É, por isso, um livro com um profundo sentido humanístico, pois nele encontramos histórias de vida extraordinárias no contexto do século XIX português, mas, como é apanágio dos grandes escritores, Camilo captou muito bem a essência humana. Um desses casos de vida mais conhecidos é o de José do Telhado, o mais célebre salteador da História portuguesa. O escritor conheceu-o na prisão e dedicou-lhe um dos capítulos das Memórias do Cárcere para contar a sua história de vida, tendo estreitado com ele uma grande amizade, tão próxima que o salteador lhe terá dito: «Senhor Camilo Castelo Branco, se algum dia alguém lhe quiser fazer mal aqui dentro, é só chamar por mim, que eu estou aqui para o defender”. Camilo retribuiu o gesto, pois, quando o seu julgamento terminou e foi libertado, conseguiu que o seu advogado, o Dr. Marcelino de Matos, se encarregasse da defesa de José do Telhado.

    O primeiro capítulo das Memórias do Cárcere, intitulado «Discurso Preliminar», é totalmente autobiográfico. É nele que Camilo evoca os meses que andou foragido, antes de se entregar às autoridades e foi também nele que António Lopes Ribeiro bebeu o material para compor a introdução do filme que realizou  que surge numa voz-off, assim como também foi buscar elementos à Introdução do Amor de Perdição. Camilo refere a proteção que lhe foi dada pelo advogado (Marcelino de Matos) e pelos amigos Custódio Vieira e Júlio Xavier, durante 15 dias em setembro de 1860. Curiosamente, foi o próprio escritor quem pediu o mandado de captura para entrar na cadeia.

    Nesta mesma introdução, Camilo faz uso de uma técnica de que se socorre com alguma frequência nas suas obras: contrastar um acontecimento dramático com um ambiente / cenário / tempo meteorológico favorável, o que faz aumentar a angústia, o sentido dramático dos acontecimentos. Exemplo dessa técnica é a descrição que faz do dia em que se foi entregar à cadeia: cá fora, está um belo tempo, com o céu azul e o sol a brilhar; quando entra, depara com um “ar glacial e pestilento”, as “paredes pegajosas de humidade”. De seguida, alude à sua primeira passagem por aquela cadeia, em 1846, quando aí esteve preso por causa do envolvimento com Patrícia Emília de Barros, de Vila Real, entre 9 e 16 de outubro. Com ele, são encarceradas pessoas envolvidas nas guerras liberais, nomeadamente a revolta da Maria da Fonte. Na sequência, refere-se à filha que gerou com Patrícia Emília, que, depois de Camilo se fixar no Porto, arranjou maneira de a trazer para junto de si, para ser educada no convento das freiras de São Bento – Convento de São Bento da Avé Maria –, onde depois foi construída a estação ferroviária chamada justamente Estação de São Bento. Essa filha saiu desse convento para se casar com um brasileiro torna-viagem riquíssimo.

    Posteriormente, salta para a segunda vez em que aí esteve preso: fala dos companheiros de prisão, faz mais referências autobiográficas e aos livros que escreveu enquanto esteve preso (Doze Casamentos Felizes – seis ou sete dessas narrativas foram, pois, escritas na cadeia; Romance de um Homem Rico, o seu preferido, escrito com apontamentos que lhe tinham sido dados pelo falecido António José Coutinho, um dos colegas de cárcere, que lhe forneceu, portanto, apontamentos (aqui encontramos um traço característico de Camilo: a encenação – e muitas corresponderiam à realidade – de que as histórias que escrevia não eram inventadas, antes verídicas, baseadas em casos reais. Trata-se de uma forma de captar a atenção do leitor. Ora, a transcrição do registo prisional de Simão Botelho, presente no Amor de Perdição, serve precisamente para colar ao romance o selo da veracidade, da verdade. É como quem diz: Este livro não é fruto da minha imaginação. Eu estou a basear-me num caso de vida real.” Mesmo as personagens ficcionais são moldadas de acordo com pessoas reais. Por exemplo, no Romance de um Homem Rico, quando se refere a Leonor, uma personagem desta obra, dá a entender que foi desenhada tendo por modelo “o coração que estava ao lado dele”, ou seja, Ana Plácido, também ali presa, noutra cela, perto dele. Além disso, confessa que o protagonista, o padre Álvaro, foi copiado de um padre real, chamado António, que era o padre António de Azevedo, irmão do cunhado de Camilo, com o qual conviveu nos tempos em que viveu na casa da irmã e que desempenhou um papel muito importante na sua formação.

    O romance a seguir escrito foi Amor de Perdição: “Desde menino que eu ouvia contar a triste história de meu tio paterno, Simão António Botelho.” Neste passo, não deixa dúvidas quanto à relação de parentesco entre o herói de Amor de Perdição, Simão, e ele mesmo, Camilo, autor. De seguida, sempre na perspetiva de que se limitou a registar, a passar a escrito, uma história verídica, enumera uma série de elementos que lhe serviram de fontes para a escrita: a tradição oral da família (“eu ouvia contar a triste história”) – quando esteve em casa da tia de Vila Real, irmã de Simão, ela contou-lhe a história do tio; o registo prisional que Camilo encontrou; uns maços de papéis antigos que estavam em casa da irmã e ainda testemunhos orais de contemporâneos da história de Simão (“pedi aos contemporâneos que o conheceram notícias e miudezas a fim de entrar de consciência naquele trabalho”). Todas estas referências servem o mesmo propósito: fazer crer ao leitor que o Amor de Perdição narrava uma história, um caso acontecido, verídico, não inventado.

    “Escrevi o romance em quinze dias, os mais atormentados da minha vida. Tão horrorizado tenho deles a memória que nunca mais abrirei o Amor de Perdição.”: ao dizer isto, Camilo está a vincar o paralelismo, a analogia entre a sua situação -está preso na cadeia da Relação por um crime passional, um crime de adultério, e o seu tio Simão Botelho, que também esteve ali preso por um crime passional, segundo Camilo refere na obra. Note-se como duas histórias se entrecruzam, pelo que temos aqui um dos tópicos constantes do programa atual de Português do 11.º ano: a sugestão biográfica. Porquê sugestão? Porque há aqui uma encenação: Camilo sugere que há uma ligação biográfica e uma semelhança, um paralelismo, uma analogia, entre o seu caso, Camilo, e o de seu tio, Simão. Deste modo, o escritor retrata-se a si próprio como um herói romântico, como alguém que está a padecer as penas por ter amado.

Amor de Perdição no cinema

    O primeiro filme baseado em Amor de Perdição foi uma película muda, da autoria de George Pallu, um realizador francês que se tinha fixado no Porto, realizado num estúdio da cidade invicta chamado Invicta Filmes, em 1921.
    Em 1942, António Lopes Ribeiro fez uma adaptação da obra. Em 1978, Manoel de Oliveira fez uma nova versão do romance. Em 2008, encontramos uma adaptação mais livre, refletida logo no título: Um Amor de Perdição. O determinante artigo indefinido «Um» mostra como esta adaptação é, de facto, mais livre e uma transposição para a atualidade: a história de Simão, Teresa e Mariana transporta para a atualidade. O realizador é Mário Barroso, que trabalhou com Manoel de Oliveira como ator e chegou mesmo a interpretar o papel de Camilo Castelo Branco pelo menos em dois filmes do falecido realizador portuense baseados na figura do escritor: O Dia do Desespero (sobre os últimos tempos de vida de Camilo), bem como noutra película anterior, baseada na adaptação de uma obra de Agustina Bessa Luís. Entretanto, Mário Barroso passou a dedicar-se mais à realização e é, portanto, o realizador da mais recente adaptação até ao momento de Amor de Perdição.
    Aquando do início da abordagem de Amor de Perdição no 11.º ano, talvez seja interessante acompanhar a leitura e análise dos capítulos propostos com o visionamento de excertos fílmicos, nomeadamente da versão realizada por António Lopes Ribeiro. Outra estratégia possível de ser adotado é análise de imagens alusivas ao texto, seja de capas das várias edições, seja de outras referentes aos filmes. Neste contexto, o cartaz referente ao filme de 1942 é muito interessante. O seu autor, seguindo o que a película pretendia pôr em evidência, estabelece a ligação entre o autor e o romance, daí que, em primeiro plano, vejamos a figura de Camilo Castelo Branco a escrever, bem como uma série de figuras e de cenas referentes ao Amor de Perdição – as grades, o convento, a prisão, a figura de Simão a correr à paulada uma série de homens (alusão ao episódio do desacato em Viseu, junto à fonte de São Francisco, no qual interveio o filho de Domingos Botelho, que partiu cabeças e cântaros), a personagem de Teresa ladeada por outras que a estão a confortar (religiosas ou primas), trajes de fidalgos, pessoas a cavalo, etc. Ora, não é uma casualidade a presença de Camilo no cartaz. De facto, é uma forma de o realizador dizer que, no seu filme, está a seguir fielmente aquilo que o escritor escreveu e quis mostrar a ligação autobiográfica, que está presente na própria novena, logo na Introdução, entre Camilo e a própria história.
    O início do filme mostra exatamente isso. Ele baseia-se precisamente na Introdução que faz parte do Amor de Perdição, mas não só, pois também há elementos – frases, etc. – que não constam dessa Introdução. Então onde estão esses elementos? Neste ponto, há que convocar outros textos para estabelecer adequadamente a género da obra. Já sabemos que Camilo escreveu esta obra na prisão, nas circunstâncias conhecidas, mas há outro livro que ele escreveu, igualmente baseado nessa experiência de cárcere e na qual faz referências ao Amor de Perdição, nomeadamente a passagem em que diz que escreveu a obra em 15 dias, os dias mais atormentados da sua existência. Esta menção está presente numa obra intitulada Memórias do Cárcere.
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