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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Caracterização de Bertoleza

1. Origem e Condição Social

  • Bertoleza é uma mulher negra e escravizada, descendente direta de africanos escravizados, que simboliza a opressão e a exploração do sistema escravocrata.
  • A sua trajetória como escrava é marcada pelo trabalho árduo, desumanização e falta de acesso a qualquer direito básico
  • Enganada com a promessa de liberdade, acredita poder comprar a sua alforria com o dinheiro acumulado após anos de trabalho, com o apoio de João Romão, mas descobre mais tarde que ainda é legalmente escrava e que foi intencionalmente ludibriada por ele.
  • A sua condição social é caracterizada pelos seguintes traços:

·         Subalternidade e exploração:

·         Bertoleza vive numa situação de extrema subalternidade, tanto no âmbito social quanto nas relações pessoais, sendo retratada como uma figura subalterna, vítima de exploração contínua, seja como escrava de direito ou como trabalhadora livre de facto.

·         Apesar de acreditar ter conquistado algum grau de independência, permanece submetida à opressão de João Romão, que usufrui do seu trabalho sem oferecer contrapartidas justas.

·         Trabalho excessivo: a sua trajetória é marcada pelo trabalho exaustivo, nomeadamente como cozinheira e responsável por diversas atividades que sustentam os empreendimentos do amante.

·         Ausência de direitos:

·         A personagem acredita ser livre, porém, na realidade, não possui autonomia real nem proteção social, pois depende de João Romão, o que a coloca numa posição de vulnerabilidade extrema, tanto emocional como material.

·         Relação com o sistema escravocrata e o racismo estrutural:

·         Formalmente, a escravatura está próxima do seu fim, todavia a sociedade perpetua a marginalização de pessoas negras como Bertoleza, que continuam sujeitas a relações de trabalho similares à escravidão.

·         Na prática, ela é duplamente explorada – como mulher e como negra –, sendo excluída do progresso que ajuda a construir.

·         Desamparo social:

·         Bertoleza não encontra qualquer suporte em nenhuma estrutura da sociedade: não tem familiares ou membros da comunidade que se preocupem com ela e a protejam; o sistema legal apenas reforça a sua condição de mulher explorada, permitindo que João Romão a denuncie como escrava fugitiva.

  • Vive numa situação de extrema subalternidade, tanto no âmbito social quanto nas relações pessoais.

2. Aparência Física

  • Cor da pele:
    • Bertoleza é descrita como uma mulher negra, o que, no contexto da obra, indicia a sua origem e condição social marginalizada.
  • Constituição física:
    • É uma mulher robusta e corpulenta, com um corpo moldado pelo trabalho árduo e constante.
    • A sua força física constitui um reflexo das tarefas pesadas que desempenha diariamente, como cozinhar, transportar pesos e tratar do cortiço.
  • Marcas do trabalho:
    • As suas mãos são grossas e calejadas, evidenciando anos de serviço braçal.
    • A pele apresenta cicatrizes e rugosidades, sinais claros da vida de esforço incessante e de privação.
  • Traços faciais:
    • Os seus eus traços são descritos como ásperos e marcantes, espelhando o sofrimento que pauta a sua vida.
    • Os olhos, cansados e fundos, transmitem um misto de resignação e dureza, resultado das dificuldades enfrentadas.
  • Vestuário:
    • Bertoleza geralmente aparece vestida com roupas simples, pobres e gastas, adequadas à sua condição social e às funções que exerce no dia a dia.
    • As roupas, frequentemente, estão sujas ou marcadas pelo trabalho na cozinha, reforçando a sua associação com o esforço físico constante.
  • Postura:
    • A sua postura demonstra cansaço crónico, refletindo o peso literal e figurativo que marca a sua existência.
    • Apesar disso, há na sua figura uma energia prática, característica de quem está habituada a viver para o trabalho.
  • Cabelos:
    • Os cabelos são crespos, frequentemente presos de maneira funcional, sem qualquer preocupação estética, dado o foco da sua vida ser a sobrevivência e o trabalho.
  • Idade aparente:
    • Apesar de não ser idosa, Bertoleza aparenta ser mais velha do que realmente é, pois o trabalho exaustivo e as condições adversas a que sempre esteve sujeita desgastaram-lhe a aparência.
    • A expressão do rosto evidencia uma vida de privações e sacrifícios.
  • Em suma, o retrato físico de Bertoleza não é apenas um momento descritivo do romance, mas também uma forma de simbolismo naturalista, visto que o seu corpo é apresentado como uma extensão da sua condição social: uma ferramenta explorada até ao limite. Cada detalhe físico reforça a ideia de que atua como representante da classe trabalhadora e do grupo social marginalizado pela sociedade escravocrata e patriarcal da época

3. Caracterização psicológica

1. Trabalhadora e abnegada: É um símbolo da classe trabalhadora, sendo incansável nas suas funções e no seu apoio ao desenvolvimento do cortiço.


2. Resignada e submissa

·         Bertoleza é profundamente resignada ao seu destino, aceitando sem resistência explícita as adversidades e opressões que enfrenta. Por outro lado, aceita passivamente as circunstâncias da sua relação com João Romão, deixando-se explorar tanto como companheira quanto como trabalhadora.

·         Sua submissão está enraizada no condicionamento social e histórico, típico de uma sociedade escravocrata que negava a agência de pessoas como ela.

·         Confia cegamente em João Romão, mesmo quando ele a explora e manipula, evidenciando sua falta de perspetivas de autonomia emocional.


3. Forte e resiliente

·        Apesar de ser submissa, Bertoleza demonstra uma força interior marcante, enfrentando com coragem as dificuldades da vida e aceitando sua condição sem revoltas explícitas.

·        A sua capacidade de suportar o trabalho árduo, os maus-tratos e a exclusão social é um testemunho de sua resiliência psicológica.

·        Essa força, no entanto, é muitas vezes canalizada para o trabalho incessante e não para questionar ou resistir à exploração.


4. Ingénua e vulnerável

·         Bertoleza é apresentada como uma personagem ingénua, especialmente na sua relação com João Romão, em quem confia, mesmo sendo vítima da sua ambição desmedida.

·         Acredita ter alcançado a liberdade e vê no companheiro um protetor, sem perceber que ele a explora para alcançar os seus próprios objetivos.

·         A sua vulnerabilidade emocional impede-a de ver a traição iminente e a manipulação contínua de que é vítima por parte de João Romão.


5. Dedicada e com espírito de sacrifício

·         Bertoleza é extremamente dedicada ao trabalho e à relação com João Romão, muitas vezes em detrimento de si mesma.

·         O sacrifício pessoal é uma característica central da sua personalidade, pois entrega-se completamente ao objetivo de ajudar João Romão a prosperar.

·         Essa dedicação cega faz dela uma personagem trágica, pois tudo o que constrói acaba sendo usado contra si.


6. Solitária e Carente Afetivamente

·         A vida de Bertoleza é marcada pela solidão, dado que não tem família ou apoio comunitário, o que a torna emocionalmente dependente de João Romão.

·         A sua carência afetiva é evidente na maneira como se agarra à relação com ele, vendo-o como sua única fonte de estabilidade e segurança.


7. Grata

·         Bertoleza nutre um sentimento de gratidão ilusória em relação a João Romão, acreditando que ele a ajudou a conquistar sua liberdade.

·         Essa gratidão é manipulada pelo companheiro para a manter submissa, alimentando um ciclo de exploração emocional e material.


8. Medrosa e Desamparada

·         Ao longo da narrativa, Bertoleza demonstra um medo profundo de perder o pouco que acredita ter conquistado, como, por exemplo, a sua liberdade e a relação com João Romão.

·         Esse medo deixa-a desamparada, especialmente quando descobre que foi enganada sobre a sua alforria.


9. Digna: dignidade Trágica

·         Mesmo sujeita à submissão e ao sofrimento, Bertoleza mantém uma certa dignidade trágica, especialmente na sua decisão final de tirar a própria vida.

·         O suicídio é um ato de desespero, mas também de resistência, pois ela recusa-se a ser recapturada como escrava e a perder sua humanidade.


10. Alienada e sem Consciência Crítica

·         Bertoleza é alienada em relação à própria condição de exploração, não desenvolvendo uma consciência crítica sobre a sua situação.

·         Essa alienação reflete o sistema opressor em que vive, que não oferece meios ou possibilidades para que questione o seu lugar na sociedade.


11. Simbolismo Psicológico

·         Psicologicamente, Bertoleza representa o arquétipo da mulher negra escravizada e explorada, cuja força e sacrifício são usados por outros para prosperarem.

·         A sua trajetória psicológica reflete a crítica naturalista à sociedade brasileira, mostrando como os indivíduos mais vulneráveis eram esmagados por um sistema opressor e desumano.


Em suma, Bertoleza é uma mulher forte, porém aprisionada pelas circunstâncias históricas e sociais. Alguns traços, como a submissão, a dedicação e a ingenuidade tornam-na uma personagem profundamente trágica, enquanto a força e a dignidade perante o sofrimento a transformam num símbolo da exploração e resistência das classes oprimidas.


4. Relação com João Romão

1. Início da Relação

·         A relação de Bertoleza com João Romão começa de forma utilitária:

    • João Romão oferece ajuda a Bertoleza para comprar a sua suposta alforria, consolidando um vínculo que se baseia na dependência emocional e material.
    • Para Bertoleza, João Romão representa inicialmente uma possibilidade de liberdade e estabilidade, o que faz com que confie nele cegamente.

·         Já para o amante, Bertoleza é um instrumento de trabalho e um meio para alcançar os seus objetivos económicos.


2. Dependência e Submissão

·         Submissão de Bertoleza:

    • Bertoleza submete-se completamente a João Romão, tanto emocional quanto fisicamente, tornando-se sua companheira e trabalhadora incansável.
    • Acredita que deve lealdade a João Romão por ter "comprado" a sua liberdade, mesmo que isso a mantenha num estado de constante exploração.

·         Dependência emocional:

    • A solidão de Bertoleza leva a que crie uma relação afetiva com João Romão, mesmo que ele não demonstre reciprocidade.
    • O homem torna-se o centro da sua vida, consolidando a sua dependência emocional em relação a ele.

3. Exploração e Desequilíbrio de Poder

·         João Romão vê Bertoleza como uma ferramenta de trabalho, explorando a sua força e dedicação para expandir o seu património. Ela trabalha sem descanso, seja na cozinha, no comércio ou na manutenção do cortiço, contribuindo diretamente para o enriquecimento de João Romão.

·         Há um desequilíbrio extremo de poder na relação: João Romão detém o controle económico, emocional e até legal sobre Bertoleza, manipulando-a sem oferecer qualquer contrapartida justa.


4. Ausência de Amor Verdadeiro

·         A relação não é baseada em amor ou afeto recíproco:

    • Bertoleza nutre sentimentos de gratidão e apego emocional, acreditando num vínculo afetivo com João Romão.
    • João Romão, por outro lado, nunca demonstra amor ou cuidado genuíno por ela, tratando-a como um recurso útil para atingir os seus objetivos materiais.

5. Traição e Abandono Final

·         A traição de João Romão é o clímax da relação:

    • Quando toma consciência de que Bertoleza representa um obstáculo para as suas ambições de ascensão social, denuncia-a às autoridades como escrava fugitiva, para se livrar dela e consolidar um casamento com Zulmira, que lhe garante entrada na elite social.
    • A traição revela a natureza calculista e desumana de João Romão, que descarta Bertoleza quando deixa de ser útil para os seus planos.

6. Papel Simbólico da Relação

·         Simbolismo de exploração:

    • A relação entre os dois é uma metáfora das dinâmicas de exploração de classe, raça e género.
    • João Romão representa o capitalista ambicioso, enquanto Bertoleza simboliza a classe trabalhadora e as mulheres negras exploradas no Brasil do século XIX.

·         Crítica à hipocrisia social:

    • A relação expõe a hipocrisia de uma sociedade que permite a ascensão económica de João Romão, mas às custas da exploração e do sofrimento de pessoas como Bertoleza.

Em suma, a relação entre Bertoleza e João Romão é profundamente desigual, marcada pela exploração, submissão e ausência de reciprocidade emocional. Para João Romão, a escrava é apenas um meio para satisfazer as suas ambições, enquanto, para ela, ele representa segurança e uma esperança ilusória. O desfecho trágico da relação ressalta as injustiças sociais e raciais da época, alinhando-se com a crítica naturalista presente em O Cortiço.


5. Papel no Desenvolvimento do Cortiço

1. Trabalhadora

a.       Trabalho físico e incansável:

a.    Bertoleza é a principal força de trabalho na vida de João Romão, desempenhando tarefas essenciais como cozinhar, lavar, limpar e cuidar da organização geral.

b.   Ela assume também responsabilidades na manutenção do comércio que abastece o cortiço, garantindo o sustento e o lucro que permitem a João Romão expandir os seus negócios.

b.      Instrumento de acumulação de capital:

a.    O trabalho árduo e praticamente gratuito de Bertoleza é uma das bases da prosperidade de João Romão.

b.   Ela representa a classe trabalhadora explorada, cujo esforço e sacrifício alimentam o crescimento do patrimônio alheio.

  1. Estímulo para a ambição de João Romão

a.    Bertoleza, ao unir-se a João Romão, contribui diretamente para que ele concentre a energia e ambição no desenvolvimento do cortiço.

b.    O seu trabalho permite que João Romão poupe recursos e os invista na expansão do cortiço, como a construção de novas casas para arrendar e a ampliação dos negócios.

c.    Figura que facilita o empreendedorismo de João Romão: enquanto Bertoleza se ocupa com as tarefas quotidianas, ele pode dedicar-se exclusivamente à acumulação de riqueza.

3.         Símbolo de continuidade e estabilidade do cortiço

a.    Bertoleza é um dos pilares do funcionamento cotidiano do cortiço. Por um lado, a sua presença garante a alimentação dos trabalhadores e moradores, fortalecendo a dinâmica de produção e sobrevivência no espaço. Por outro, representa a força constante que sustenta a vida no cortiço, mesmo no meio às adversidades e à pobreza.

b.    Estabilidade invisível: embora seja fundamental no desenrolar da narrativa, Bertoleza permanece invisível para o público, sendo entendida apenas como uma peça funcional no mecanismo do cortiço.

4.       Papel no contexto social do cortiço

a.    Bertoleza, como mulher negra e subalterna, simboliza o elo entre a base explorada e os interesses dominantes.

b.    A sua presença reforça a crítica social de O Cortiço, mostrando como a ascensão econômica de figuras como João Romão depende da exploração de trabalhadores como Bertoleza.

  1. Desencadeadora do desfecho da narrativa

a.    O papel de Bertoleza não se limita ao crescimento inicial do cortiço, mas também influencia o desfecho trágico da narrativa. Por um lado, quando João Romão decide traí-la, entregando-a às autoridades como escrava fugitiva, a atitude dele reflete a dinâmica de exploração levada ao extremo. Por outro, esta atitude, que culmina no suicídio de Bertoleza, simboliza o caráter predatório do sistema social e econômico do cortiço.

6.       Simbolismo de classe e raça no desenvolvimento do cortiço

a.    Bertoleza é um símbolo da mão de obra explorada, que sustenta tanto o crescimento material do cortiço quanto a crítica social naturalista de Aluísio Azevedo.

b.    Representa também a confluência das opressões de raça, género e classe, sendo a figura que trabalha incessantemente para um sistema que a descarta quando deixa de ser útil.

c.    A relação entre Bertoleza e o cortiço é uma analogia direta com o funcionamento do capitalismo nascente no Brasil: a riqueza de poucos é construída sobre o trabalho e o sacrifício dos mais pobres.

7.       Impacto final no cortiço

a.    O suicídio de Bertoleza tem um impacto simbólico no cortiço:

                                           i.          marca o ponto culminante da denúncia social de Aluísio Azevedo, evidenciando o custo humano do progresso material;

                                         ii.         o seu sacrifício final expõe as injustiças do sistema social e encerra a trajetória de uma personagem que deu tudo, mas não recebeu nada em troca.

Em suma, o papel de Bertoleza no desenvolvimento do cortiço é essencial tanto do ponto de vista prático quanto simbólico. Ela é a força invisível que sustenta a prosperidade económica de João Romão e a estrutura quotidiana do cortiço. No entanto, a sua trajetória também denuncia a exploração de classe, raça e género, expondo as desigualdades sociais e económicas que marcam o romance. A sua presença reforça a crítica naturalista ao sistema opressor que subjuga os mais vulneráveis para alimentar o progresso de poucos.


6. Simbolismo

a) Símbolo de exploração

·         Bertoleza é um símbolo vivo da exploração:

    • Trabalha incansavelmente sem receber benefícios proporcionais ao seu esforço.
    • A sua dependência emocional e económica de João Romão mantém-na numa situação de servidão disfarçada.

·         Representa o sistema socioeconómico desigual que caracteriza a sociedade brasileira da época, onde a riqueza de poucos é construída sobre o trabalho de muitos.

·         É uma metáfora para a opressão das classes mais baixas, destacando a desigualdade social e racial da época

b) Figura de sacrifício

·         A sua vida é marcada pelo sacrifício constante: sacrifica a liberdade, a saúde e, finalmente, a vida em benefício de João Romão e do sistema que ele representa.

·         O suicídio de Bertoleza é um ato final de resistência e tragédia, destacando a ausência de alternativas reais para os oprimidos.

c) Símbolo da Transição Histórica

·         Bertoleza reflete a transição histórica entre o sistema escravocrata e o trabalho assalariado precário no Brasil:

    • Embora formalmente livre, continua a viver como escrava, subordinada a um sistema que perpetua a desigualdade racial e económica.
    • A sua figura denuncia o facto de a abolição da escravatura não ter trazido mudanças imediatas para a população negra e trabalhadora.
    • A sua trajetória reflete a realidade das mulheres negras escravizadas no Brasil do século XIX.

7. Representatividade social

a) Representação da mulher negra e escravizada

·         Bertoleza simboliza a condição das mulheres negras no Brasil pós-escravidão, ainda profundamente marcadas pela exploração e pela marginalização.

·         Apesar de acreditar estar livre, a sua vida reflete uma escravidão velada, onde o trabalho incessante e a submissão continuam a definir a sua existência.

·         Constitui uma síntese das opressões cruzadas de raça, género e classe, sendo relegada para o papel de servidora e trabalhadora incansável, sem direitos ou reconhecimento.

b) Retrato da classe trabalhadora

·         Como parte da classe trabalhadora explorada, Bertoleza é o motor que impulsiona o desenvolvimento do cortiço e a ascensão económica de João Romão.

·         Representa a massa de trabalhadores anónimos que sustentam o progresso material da sociedade, mas que são descartados quando deixam de ser úteis, recordando, por exemplo, a figura de Bailote em Aparição, romance de Virgílio Ferreira.

c) Exclusão social e invisibilidade

·         Bertoleza vive à margem da sociedade, sem acesso a qualquer suporte institucional ou comunitário.

·         A sua condição reflete a exclusão estrutural de mulheres negras, que, mesmo após o fim da escravidão formal, continuam presas a relações de trabalho abusivas e desiguais.

d) Crítica social:

i) Crítica ao racismo estrutural

·         Bertoleza é um símbolo do racismo estrutural:

o    A sociedade retratada no romance é construída sobre a desumanização, a exploração e a exclusão de pessoas negras.

o    A exploração e traição final de Bertoleza reforçam a ideia de que as relações raciais permanecem baseadas na opressão e na desigualdade.

ii) Desigualdade de género

·         Além de ser negra e pobre, Bertoleza é uma mulher, o que a coloca em uma posição de vulnerabilidade ainda maior.

·         A sua relação com João Romão é marcada pela dependência e pelo abuso, refletindo as dinâmicas de género características de uma sociedade patriarcal.

iii) Representação da exclusão económica

·         A personagem simboliza a classe trabalhadora que vive em condições miseráveis, enquanto os frutos de seu trabalho enriquecem uma elite económica, como João Romão.

·         A sua exploração reflete a crítica naturalista ao capitalismo nascente, onde os mais pobres são reduzidos a ferramentas para o lucro.


8. Desfecho trágico

1. Contexto do suicídio

·         O suicídio de Bertoleza ocorre após João Romão, na sua busca desenfreada por ascensão social, decidir entregá-la às autoridades como escrava fugitiva.

·         Ao perceber que será capturada e devolvida à condição formal de escrava, Bertoleza opta por se suicidar.

·         A cena final é carregada de dramatismo e extremamente simbólica, refletindo o fim de uma existência marcada pela exploração e desamparo.

2. Significado imediato do suicídio

a) Resistência final

·         O ato de suicídio pode ser interpretado como a última forma de resistência de Bertoleza:

o   Ao cometer suicídio, ela recusa submeter-se novamente à condição de escrava, preservando a dignidade frente à brutalidade do sistema opressor.

o   Por outro lado, o suicídio configura um gesto de desespero, mas também de afirmação da sua humanidade diante de uma sociedade que a reduzia a uma mercadoria.

b) Desamparo Absoluto

·         O suicídio evidencia o desamparo total de Bertoleza, que, ao longo da narrativa, é explorada e traída por aqueles em quem confia.

·         Sem família, comunidade ou apoio social, encontra-se completamente isolada, sem alternativas para escapar ao seu destino trágico.

3. Simbolismo social do suicídio

a) Denúncia da exploração

·         A morte de Bertoleza é o culminar da crítica social do romance, simbolizando os custos humanos da exploração.

·         Ela é o retrato do trabalhador que, após ter a sua força física e emocional explorada até o limite, é descartado quando deixa de ser útil.

b) Reflexo do Racismo e da Escravidão

·         O suicídio de Bertoleza escancara a permanência do sistema escravocrata, mesmo após a sua abolição formal: a morte simboliza como as estruturas racistas e opressoras ainda aprisionam as pessoas negras, negando-lhes qualquer possibilidade de liberdade ou dignidade.

·         É um ato de denúncia contra a desumanização promovida pelo racismo estrutural da época.

c) Crítica ao individualismo e à ganância

·         O desfecho também reflete a crítica ao individualismo e à ganância, personificados em João Romão:

o   Ele ascende e enriquece à custa de Bertoleza e, no final, não hesita em a sacrificar para atingir os seus objetivos sociais e económicos.

o   O suicídio expõe a brutalidade das relações humanas no contexto de um sistema marcado pela ambição desmedida e pela falta de solidariedade.

4. Relação com o Naturalismo

a) Determinismo e Tragédia

·         O suicídio de Bertoleza é coerente com a perspectiva naturalista do romance:

o   A personagem é apresentada como vítima das forças sociais e históricas que determinam o seu destino, como o racismo, o machismo e a exploração económica.

o   A sua morte é inevitável dentro desse contexto, reforçando a ideia de que os indivíduos mais vulneráveis não têm escapatória no sistema opressor.

b) Animalização e Desumanização

·         Ao longo do romance, Bertoleza é frequentemente descrita de forma desumanizada, quase como uma extensão das máquinas e do trabalho.

·         O seu suicídio marca a rutura final com essa lógica: ao tirar a própria vida, ela recupera uma dimensão humana, recusando-se a continuar a ser tratada como um objeto.

5. Impacto narrativo e simbólico

a) Clímax da tragédia

·         O suicídio de Bertoleza é o ponto culminante da tragédia do romance, encerrando a sua trajetória com um gesto de forte impacto emocional.

·         Serve como uma espécie de grito silencioso contra a injustiça, denunciando as condições desumanas impostas aos mais vulneráveis.

b) Reflexão sobre a sociedade

·         A morte de Bertoleza força o leitor a confrontar as desigualdades e violência estruturais que permeiam a sociedade retratada na obra.

·         Ela é uma metáfora do sistema que destrói aqueles que mais contribuem para o seu funcionamento, mas que nunca recebem o devido reconhecimento ou justiça.

Em suma, o suicídio de Bertoleza é uma das cenas mais poderosas e simbólicas de O Cortiço. Ele representa a denúncia final de Aluísio Azevedo contra o racismo, a exploração económica e a desumanização das classes trabalhadoras, bem como o desamparo total dos oprimidos na sociedade da época. Para Bertoleza, é tanto um ato de desespero quanto de resistência, marcando o desfecho inevitável de uma vida de opressão. A sua morte destaca a injustiça de um sistema que a explorou até o limite e, finalmente, a descartou.

Análise da cantiga "Abadessa, oí dizer", de Afonso Anes de Cotom

    Esta cantiga de escárnio e maldizer de mestria, da autoria de Afonso Anes de Cotom, é constituída por quatro sétimas, num total de 28 versos de rima emparelhada e interpolada, segundo o esquema rimático ABBACCA, e octossílabos. Nela, encontramos outra sátira dirigida a uma abadessa não identificada.
    Assim, o sujeito poético apresenta-se como recém-casado e órfão [“ogano [há pouco tempo] casei” – v. 5; “nem padre nem madre nom hei.” – v. 13) e dirige-se à abadessa, solicitando-lhe que lhe ensine as técnicas do amor / sexo, pois tinha ouvido dizer que ela era muito conhecedora dessa arte: “Abadessa, oí dizer / que érades mui sabedor / de tod’o bem; e, por amor / de Deus, querede-vos doer / de mim, que ogano casei, / que bem vos juro que nom sei / mais que um asno de foder.” Na última, tanta é a experiência e o conhecimento da abadessa na matéria que o trovador alvitra que as mulheres inexperientes poderiam também recorrer às aulas da religiosa: “e per ensinar a molher / coitada, que a vós veer, / senhor, que nom souber ambrar” (vv. 26 a 28). A expressão “de tod’o bem” indicia o vasto conhecimento da abadessa acerca das práticas sexuais.
    A segunda estrofe repete o conteúdo da primeira: o sujeito lírico ouvir falar acerca das habilidades e da experiência da mulher (“Ca me fazem en sabedor / de vós que havedes bom sem / de foder e de tod’o bem”), por isso faz-lhe um pedido intrigante: “ensinade-me mais, senhor, / como foda, ca o nom sei” (vv. 11-12). Estas palavras parecem insinuar que o trovador já teria tido algum tipo de experiência sexual com a abadessa. Além disso, coloca-se numa posição de inferioridade, pois argumenta que não teve pai nem mãe que o ensinassem, daí a sua falta de conhecimento. Note-se o recurso à expressão “fic’i pastor”, conferindo um tom dramático e, simultaneamente, irónico ao verso, ao afirmar que “fica por aí como um garoto inexperiente”.
    Na terceira cobla, o sujeito poético faz uma proposta à mulher: se aprender com ela o “mester [a arte] de foder” (o calão cru é um traço da linguagem da cantiga), toda a vez que fizer sexo, lembrar-se-á da abadessa e rezará um Pai Nosso por ela: “cada que per foder direi / Pater Noster e enmentarei / a alma [e rezarei pela alma] de quem m’ensinou.” Atente-se na presença da oração subordinada adverbial condicional, que introduz a condição fundamental: as lições da abadessa. Dito de outra forma, o «eu» pede-lhe que lhe ensine o que há de fazer à recente esposa, pois é muito experiente nas artes do sexo, por oposição à sua inexperiência na matéria (antítese experiência / inexperiência). De cada vez que o fizer, ele rezará um Pai Nosso pela abadessa e, desse modo, poderá ganhar “o reino de Deus”, como afirma, sarcasticamente, na derradeira cobla: “E per si podedes gaar, / mia senhor, o reino de Deus, / per ensinar os pobres seus” – vv. 22 a 24).
    O tom de escárnio acentua-se quando afirma que não são os jejuns que a farão ganhar o reino dos céus, mas, sim, a boa ação de “ensinar os pobres seus” (v. 24). Observe-se o uso irónico do determinante indefinido «outro» na expressão “outro jajuar”, que se refere indiretamente ao jejum sexual, isto é, ela ganhará o reino dos céus mais por ensinar-lhe a arte do sexo do que pelo jejum (ou abstinência) sexual. O trovador vai mais longe quando sugere que as próprias mulheres inexperientes deveriam procurar a abadessa e beneficiar dos seus ensinamentos, conhecimento e experiência.
    Em suma, o trovador satiriza a abadessa, que deveria obedecer ao voto de celibato, por, pelo contrário, ser experiente na arte do sexo (certamente por o praticar insistentemente), de tal como que seria capaz não só de ensinar, mas de ganhar a recompensa espiritual máxima (o reino de Deus) pela qualidade dos seus ensinamentos. A religiosa, em tese, não deveria ser versada na arte do sexo, todavia, a realidade da época era bem diferente. É verdade que a vida no interior dos mosteiros, conventos e beatérios nem sempre respeitava os princípios cristãos, as regras da Ordem ou os votos formulados quando os religiosos professavam. Quer a literatura, que as fontes históricas veiculam diversos exemplos de monjas que não levaram uma vida indecorosa, que mantiveram relações sexuais com homens, incluindo clérigos, ou chegaram a ser mães. Foi o caso, por exemplo, da abadessa do monastério burgalês de Las Huelgas nos finais do século XIII, cujo filho, Dom Juan Nunez, foi mestre da Ordem de Calatrava.
    Religiosos, fossem homens ou mulheres, faziam sexo, embora não se saibam as proporções que o comportamento sexual assumiu entre os membros do clero. Seja como for, foi em número suficiente para levar à existência de sátiras como a presente, o que não significa que a cantiga visasse uma abadessa específica.
    Relativamente ao sujeito poético, ao longo da cantiga encontramos expressões que caracterizam, ironicamente, a sua inabilidade no ofício do amor / sexo: “ogano casei” (v. 5); “asno de foder” (v. 7); “fiqu’i pastor” (v. 14).
    Por outro lado, a cantiga evidencia a mistura entre o sagrado e o profano. O primeiro é marcado pela referência a orações (“Pater Noster” – v. 20), ao culto (“reino de Deus” -v. 23; “amor de Deus” – vv. 4-5),ao rito (“jajuar” – v. 25), enquanto o segundo é traduzido pelo ato sexual (“foder” – vv. 7, 10, 17 e 19; “ambrar” – v. 28).
    Além disso, a cantiga representa a ação sexual como acesso ao domínio de um conteúdo, de uma prática, de um método, sendo esse conhecimento atingido através de outrem, no caso, de uma abadessa. Logo, mapeiam-se, no domínio-alvo (ação sexual), saberes relativos ao domínio-fonte (conhecimento), de tal modo que são mapeados, especificamente, saberes sobre o que se aprende empiricamente, descartando os conhecimentos, por exemplo, que se adquirem através dos livros, daí que ocorra, igualmente, nesta cantiga, uma metonímia do tipo parte pelo todo, bem como outra todo pela parte (“mui sabedor de tod’o bem”).

Análise da cantiga "Vós, que por Pero Tinhoso preguntades, se queredes", de Pero Viviães

    Esta cantiga de escárnio e maldizer, da autoria de Pero Viviães, é constituída por três sextilhas (um terceto mais um refrão de três versos), de rima emparelhada (AAARRR) e versos de 15 sílabas métricas (segundo a perspetiva de Rodrigues Lapa; no entanto, a disposição dos cancioneiros é de versos de 7 sílabas métricas).
    De forma genérica, podemos considerar que o sujeito poético se dirige a um TU plural (“Vós”) que deseja saber o paradeiro de Pero Tinhoso. No que diz respeito ao tema, estamos na presença do retrato de um homossexual que é portador de doenças venéreas.
    Assim sendo, podemos desde já ter presente que o alvo d sátira é um indivíduo de nome Pero Tinhoso, sobre o qual não se dispõe de dados que o permitam identificar. Deste modo, “Tinhoso” poderá constituir uma alcunha, embora tenhamos de ter em cinta que o termo aparece duas vezes nos Nobiliários, uma delas em Fernão Pires Tinhoso, tio de Lopo Galo, vassalo dos Briteiros, aparecendo igualmente um Lopo Tinhoso na documentação do mosteiro galego de Toxos Outos, em Santiago de Compostela. Enquanto adjetivo, o vocábulo designa alguém que tem tinha, que é repelente ou nojento, ao passo que, como nome, se refere àquele que sofre de tinha. Assim, se considerarmos que se trata de uma alcunha, é evidente que estamos na presença de um jogo de palavras destinado a satirizar a homossexualidade da pessoa e as doenças venéreas contraídas por essa prática sexual (indiscriminada?). Dito de outra forma, apalavra carrega um tom pejorativo, remetendo para alguém doente, debilitado ou desprezível.
    Passando a uma análise mais pormenorizada da cantiga, o sujeito poético dirige-se, repetimos, a uma terceira pessoa (plural) que o teria questionado querendo saber notícias de Pero Tinhoso. No entanto, o «eu» desconhece «novas», contudo oferece três sinais que mais ninguém conhece, através dos quais se pode (re)conhecê-lo: “traz o toutiço [topo, cabeça] nu”, tem “câncer no pisso” (pénis) e “alvaraz [tumor] no cuu”. Através do recurso ao calão, o sujeito poético ataca a aparência física do alvo da sátira: (uma possível) calvície, cancro do órgão genital e uma úlcera ou ferida no ânus, certamente resultado da prática da homossexualidade. Assim, por meio do calão, da ironia e do sarcasmo, o alvo é satirizado de forma cruel e vulgar.
    Os três primeiros versos de todas as estrofes constituem um «continuum» e são seguidos por um refrão que denuncia as características pelas quais aqueles que procuram por Pero Tinhoso podem encontra-lo: ele possui uma série de doenças venéreas, certamente causadas por práticas homossexuais, do tipo passivo, e que o expõem à vergonha.
    O verso inicial da segunda estrofe liga-se à primeira, confirmando o tal «continuum», através nomeadamente do advérbio de tempo «Já», da forma verbal no pretérito perfeito «preguntastes» e da expressão «noutro dia», que dá a noção de continuidade no discurso: ele já tinha sido questionado nessa altura (vaga e imprecisa, pois não se especifica exatamente a data em que ocorreu) acerca de Pero Tinhoso, porém, nesse momento, não sabia as informações perdidas (“e entom non’as sabia” – v. 8), ao contrário do que sucede agora: “mais por estes três sinaes quem quer o conhosceria”. E repete-se o refrão.
    A última estrofe abre com uma anáfora (com o verso inicial da primeira: “Vós” / “Vós”). O recurso à perifrástica “andades preguntando” indicia que o «vós» tem insistido nas questões sobre Pedro Tinhoso, querendo saber novas dele, insistência essa que sugere que há algo nele peculiar, que desperta interesse, curiosidade. De novo, o sujeito poético elenca três sinais (ou características) que o identificam. No entanto, esses sinais não são imediatamente óbvios, pois exigem ser procurados minuciosamente, como o denuncia o gerúndio «catando». E compreende-se esta ironia, pois as doenças venéreas no pénis e no ânus não são visíveis de imediato; é necessário que a pessoa fique nua e seja olhada com atenção para serem percebidos. Além disso, a forma verbal implica uma observação detalhada, cuidada e paciente, bem como uma busca persistente. Por exemplo, a doença no ânus não é visível a olho nu, necessita até do toque físico para ser desvendada. Por último, o sufixo -ando indica uma ação prolongada, o que confirma que a descoberta dos tais sinais não é imediata, ocorre ao longo de um processo de observação.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Análise da cantiga "Ai Justiça, mal fazedes, que nom", de João Airas de Santiago

    Esta cantiga, da autoria de João Airas de Santiago, é constituída por três sétimas e uma finda de dois versos (dístico), com rima interpolada e emparelhada, segundo o esquema rimático ABBACCA, em versos decassílabos.
    O trovador expressa a sua queixa perante a Justiça, que não quer aplicar a sentença que estabelece o Livro de León a uma dama galega chamada Mor da Cana, eventualmente irmã do trovador Paio da Cana, que lhe queria bem, mas, assim que o teve em seu poder, o matou de amores sem razão: “Ai Justiça, mal fazes, que nom / queredes ora dereito filhar / de Mor da Cana, porque foi matar / Joan’ Airas, ca fez mui sem razom” (vv. 1-4). As leis antigas de Leão estabeleciam que o assassino era enterrado por baixo da sua vítima, daí que o trovador, em nome do “Livro de Leon”, exija que coloquem debaixo de si Dona Mor da Cana, visto que esta o matara de amores. O caráter malicioso da cantiga fica estabelecido a partir daqui: “mais se dereito queredes fazer, [se a Justiça quiser agir corretamente] / ela sô ele devedes a meter [deveis metê-la debaixo dele] / ca o manda o Livro de Leon”.” [pois o manda o Livro de Leon]. De acordo com o sítio cantigas.fcsh.unl.pt, este texto será, provavelmente, o Fuero de León, a mais antiga compilação de leis da Península Ibérica, promulgado em 1017 pelo rei de Leão, Afonso V. Todavia, segundo Eugénio López-Aydillo, dado que a referida pena não se encontra nessa compilação, mas apenas no chamado Fuero de Cuenca, poderemos estar perante um lapso do trovador. Acrescente-se, no entanto, que D. Carolina Michäelis de Vasconcelos refere que, do foral da Lourinhã, consta a pena de enterrar o assassino debaixo do cadáver.
    Deste modo, tendo em conta a primeira estrofe, podemos já afirmar que esta cantiga constitui uma paródia ou amor cortês, nomeadamente ao tópico da morte de amor. Por outro lado, estamos perante o recurso à despersonalização, justificada pela alegada morte do trovador, de quem só uma terceira pessoa poderia assim falar, ou seja, a despersonalização consiste no facto de o poeta falar de si próprio através da voz de um terceiro. Além disso, temos de ter em conta que este recurso está no centro de diversas cantigas de amigo, nas quais diversas vezes a voz feminina que se ouve no texto é, de facto, u mero recurso para a expressão de sentimentos pessoais e até dados biográficos do próprio trovador.
    A segunda estrofe reforça a ideia de que a mulher foi matar o sujeito poético precisamente quando ele mais lhe queria: “e quando lh’el queria mui melhor, / foi-o ela logo matar ali” (vv. 10-11). Por isso, roga que seja observada justiça, aplicando à figura feminina a antiga pena de a sepultar, enquanto “assassina”, debaixo dele, “pois tam gram torto fez” – “metede-a já sô el ua vez, / ca o manda o dereito assi”.
    A terceira estrofe reforça, ainda mais, a mensagem das duas anteriores: quando o trovador acreditava que “houvesse de Mor da Cana bem”, foi “assassinado” por ela, exatamente no momento em que se tornou seu vassalo e a começou a servir: “foi-o ela logo matar por en, / tanto que el em seu poder entrou”. É a sátira clara ao amor cortês, aos tópicos da vassalagem amorosa e da morte de amor. Nos versos finais desta cobla, reitera, novamente, o pedido para que seja feita justiça, “sepultando-a” por baixo dele, fazendo-a, assim, padecer: “metam-na sô el, e padecerá / a que oi a mui gram torto matou”.
    A finda que encerra a composição poética prossegue o tom humorístico e malicioso introduzido a partir do verso 6: quem os vir deitados (“E quen’os ambos vir jazer”), abençoará o “juiz” que “julgou” o caso e determinou a sentença: “Beeito seja aquel que o julgou!” (v. 23). Note-se que este derradeiro verso poderá constituir uma referência equívoca a D. Beito, o símbolo do marido enganado, que é visado em três cantigas de João Airas de Santiago.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Análise da cantiga "Orraca López vi doente um dia", de Afonso Anes do Cotom

    Nesta cantiga, a velhice é concetualizada como doença. O trovador começa por dizer que viu Orraca López doente e, logo de seguida, a própria revela a sua doença: a velhice.
    Ao vê-la doente, o trovador pergunta se ela guareceria (se curaria) e a mulher responde em tom de brincadeira (jograria) que é velha e cuida (pensa) em se cuidar. Como resposta, ele diz que ela pensa grande folia (loucura), pois disso (da velhice) mais vê ele as velhas morrerem.
    Note-se que, na época, os conhecimentos de medicina eram muito limitados. Por exemplo, nos locais afastados das cidades, as doenças eram tratadas por curandeiros e ervas medicinais. Nos meios urbanos, muitos médicos eram judeus, ao passo que, no ambiente rural, persistiam aquelas figuras a quem era atribuída uma competência tradicional e das quais se dizia possuírem duas especiais: velhas, que usavam ervas, e parteiras, que tinham ganho experiência com a prática. Assim, é evidente que a prática da medicina era escassa, sendo algumas doenças encaradas como um castigo divino, o que era agravado pela ocorrência de doenças até então desconhecidas e de pestes que dizimavam a população. Em muitas cidades, os doentes eram colocados em lugares afastados das restantes pessoas para evitar contágios e mais mortes. A lepra é, ao longo dos séculos, um bom exemplo desta prática. Nos Congrés d’Arras, dois trovadores leprosos descrevem o momento em que se despediram dos amigos antes de partirem para a leprosaria.
    Até ao final da Idade Média, a velhice está associada a uma imagem negativa. A mulher velha, só e pobre, situa-se no ponto mais baixo da escala social e é frequentemente equiparada às forças do Mal.
    Esta cantiga assenta no jogo pergunta-resposta, para lhe imprimir vivacidade, assenta na contradição da deixa, da própria figura feminina, “sõo velha e cuid’a guarecer”.
    Note-se que a velhice, no caso dos homens, assume outros contornos, sendo associada à sabedoria e à experiência, à conservação da memória dos ancestrais, obtendo valor social como conselheiros das gerações mais novas. Por seu turno, a mulher velha, se prudente e virtuosa, poderia servir de exemplo às outras, além de ensinar e corrigir as mais jovens. Por outro lado, muitas velhas consideradas anciãs viviam uma vida pecaminosa, isto é, gostavam de tagarelar, escondiam o corpo deformado e amolecido pela idade / velhice com roupas e cosméticos, buscavam com enganos os prazeres da carne a que deveriam ter renunciado há muito. A esta figura da velha arrebicada e pintada, sobrepõe-se a da mulher alcoviteira que se insinua nas casas alheias como mensageira insidiosa, junto das mulheres, das lisonjas dos amantes, e da “vetula” feiticeira que engana por dinheiro, através de adivinhações e sortilégios, mulheres simples que a consultavam.

Conclusões sobre O Cortiço: Conteúdo

    1. Reação dos habitantes do cortiço para com Leonie e depois para com Pombinha mostra a ingenuidade estúpida e cínica de quem adora algo nefasto.

    2. É um romance de tese: como influem as circunstâncias, o ambiente e os acontecimentos na modificação do caráter. Existe entre estes aspetos e as personagens uma relação de causa-efeito. Tanto o comportamento humano como as relações sociais se sujeitam à mesma inevitabilidade científica de causa-efeito.

    3. Evolução cíclica, ideia que fica não só em relação ao espaço (cortiço), mas também em relação às personagens.

    4. O romance visa a análise do elemento negro na sociedade do Brasil. O olhar romântico do negro ficara para trás; agora há um novo olhar: o negro já não se revolta; aceita e submete-se (ex.: Rita, Bertoleza). Esta submissão do negro advém do facto de o branco ser considerado uma raça superior, da qual há de resultar o melhoramento da raça negra.

    5. Bertoleza mantém-se sempre fiel, até a essência dessa fidelidade ser destruída (com a traição). Há uma certa mitificação do elemento negro, porque ele submete-se, mas também é capaz da coragem no mais alto grau.
    Mas em relação ao negro, há ainda um duplo preconceito:
        . Rita e Bertoleza aproximam-se do branco como forma de ascensão social: preconceito da parte do negro;
        . O branco vê o elemento negro como fonte de prazer e sensualidade ou como fonte de outras potencialidades em relação ao trabalho: preconceito da parte do branco.

    6. A mulher: podemos estabelecer alguns grupos:
            = Leonie e Pombinha (e Senhorinha)
            = D. Isabel e Piedade
            = Rita e Bertoleza
    Estes são grupos diferentes, com motivações e destinos diferentes, mas nenhum deles consegue resistir à influência do ambiente. O elemento mais íntegro acaba por ser Bertoleza. Também Rita acaba por perder a sua força inicial quando se adapta a um novo tipo de vida.

    7. Ironia: evidencia-se no final, mas existe ao longo de todo o romance de modo refinado e subtil e, por isso, é mais significativa.
    A visão fatalista do amor que víramos em Machado de Assis mantém-se em A. de Azevedo: a sociedade está destinada a uma constante degradação, a uma degradação inevitável, em que os principais meios de influência são o meio e a raça.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Caracterização de João Romão, de O Cortiço

1. Caracterização social

  • Origem humilde: João Romão é um português imigrante no Brasil que chega sem grandes posses ou prestígio social.
  • Ascensão pela ambição: Representa o imigrante trabalhador e ambicioso que, por através do esforço e da exploração do seu semelhante, procura ascender social e economicamente.

2. Características Psicológicas

  • Ambição desmedida: João Romão é movido por uma obsessão em enriquecer a qualquer custo, colocando o lucro acima de valores éticos. Ele é descrito como alguém que trabalha incansavelmente, quase de forma irracional e desumana. Não descansa, economiza cada centavo e dedica toda a sua energia ao objetivo de enriquecer. A sua comparação a um animal de carga ou a um escravo enfatiza a sua entrega física ao trabalho, desprezando o tempo para o lazer ou para o amor.
  • Avarento e materialista: Ele é descrito como extremamente avarento, economizando até nos mínimos detalhes para acumular riqueza. Romão é comparado a um animal faminto por causa da sua avareza. A sua obsessão pela riqueza, pelo dinheiro e pela acumulação de bens reflete uma obsessão instintiva, quase visceral. Há um momento em que o narrador o descreve como alguém que «comia restos de comida» e guardava tudo o que podia, recusando-se a gastar dinheiro com qualquer coisa que fosse além do indispensável. Esta postura de «acumulador» faz lembrar o instinto de certos animais que acumulam recursos, precavendo-se para tempos de necessidade (basta recordar a fábula da formiga e da cigarra).
  • Frieza e pragmatismo: A sua capacidade de tomar decisões é quase sempre guiada por interesses financeiros, sem considerar o impacto emocional ou moral. Esta personagem é ocasionalmente descrita como «selvagem», sugerindo a sua falta de civilidade, de humanidade e de domínio da razão. A justificação para isto encontra-se no facto de nortear a sua existência por instintos primários de sobrevivência e prosperidade material, como se se tratasse de um animal no topo da cadeia alimentar, indiferente aos que lhe se situam abaixo de si.

3. Características Físicas

  • Descrição modesta: A aparência física de João Romão não é especialmente destacada na obra, refletindo a sua origem humilde e o facto de o foco do narrador se centrar nas suas ações e atitudes. Não obstante, é destacado como alguém simples e descuidado com a sua aparência. Tal explica-se pelo facto de a sua prioridade exclusiva ser o trabalho e a acumulação de riqueza, o que leva a que negligencie por completo questões como a higiene, o vestuário, entre outras. Este descuido e falta de cuidado consigo mesmo e vaidade traduz o seu apego extremo ao dinheiro e a sua avareza, visto que evita qualquer tipo de dispêndio financeiro, inclusive consigo mesmo. A adjetivação como «magro» e «encardido» é exemplificativa destes traços.
  • Figura vulgar: A sua simplicidade física contrasta com a ambição grandiosa.
  • Magreza e vigor: João Romão é frequentemente descrito como magro, o que é consequência direta de sua vida austera e extenuante. Ele trabalha incessantemente, muitas vezes privando-se de uma alimentação adequada, não por falta de recursos, mas por sua obsessão em economizar. Apesar de magro, possui força e vigor físico, típicos de alguém que está habituado ao trabalho manual. Essa força é uma marca da sua origem humilde e do esforço físico que emprega para acumular riqueza.
  • Resistência física: João Romão é uma figura quase incansável: trabalha dia e noite, cuidando d sua venda e da construção do cortiço, o que evidencia uma capacidade física impressionante, mas também o coloca como alguém "animalizado", regido pela sobrevivência.
  • Vestuário: As roupas de João Romão são práticas, simples, baratas e muitas vezes remendadas, dado o seu desgaste, refletindo a sua avareza e o desinteresse em exibir status social. Mesmo quando começa a acumular riqueza, mantém o hábito de se vestir como um homem pobre, o que simboliza o seu apego à austeridade. Por outro lado, estes dados mostram igualmente que, apesar de enriquecer, João Romão ainda carrega traços das suas origens humildes e não procura ostentar o que possui, pelo menos até ascender socialmente.
  • Simbolismo: o retrato físico de João Romão reflete a sua personalidade mesquinha, bem como a sua obsessão pelo trabalho e falta de sofisticação. Essa descrição, enquadrada no contexto do Naturalismo, reforça a crítica social de Aluísio Azevedo, mostrando como o meio e os valores materialistas moldam o ser humano.

4. Trajetória e Conflitos

  • Início como comerciante: João Romão começa a sua trajetória como dono de uma pequena venda (mercearia), onde já demonstra a sua ganância e o caráter manipulador. João Romão começa como dono de uma pequena venda (mercearia), situada num terreno próximo, no qual posteriormente erguerá o cortiço. Esse espaço humilde é o ponto de partida da sua jornada para a acumulação de riqueza. A sua dedicação exclusiva ao trabalho é evidente: ele próprio faz todo o trabalho: atende os fregueses, administra as finanças e limpa o espaço, numa dedicação obsessiva que reflete a sua determinação de economizar e enriquecer a qualquer custo, evitando contratar ajuda para poupar despesas. João Romão vive em condições precárias, economizando de forma quase desumana para acumular capital, pelo que não é surpreendente que seja descrito como alguém que:

§  Come restos de comida que encontra na venda.

§  Dorme no chão, ao lado do balcão, sem gastar com móveis ou conforto.

§  Usa roupas simples e remendadas, recusando-se a investir em itens desnecessários.

Esta avareza é uma marca da sua personalidade e um reflexo da sua visão utilitarista, na qual cada centavo é poupado e investido para expandir os negócios. João Romão trabalha desde o amanhecer até altas horas da noite, movido pela ambição de enriquecer, sendo descrito como alguém que não se permite descanso ou lazer, dedicando toda a energia ao progresso financeiro. A rotina incansável é um dos primeiros sinais de sua transformação quase animalesca, guiada por um instinto de sobrevivência e pelo desejo de ascensão social.

Um marco importante do seu início como comerciante é a relação com Bertoleza, uma escrava fugida que se torna sua parceira de trabalho e vida. João Romão engana-a desde o início, pois promete ajudá-la a comprar a alforria, mas, na realidade, utiliza a sua força de trabalho para economizar custos e expandir os negócios. Deste modo, Bertoleza trabalha incansavelmente na venda, cozinhando, limpando e auxiliando João Romão, tornando-se essencial para a acumulação de seus primeiros lucros. A exploração desta figura feminina é um exemplo claro do caráter explorador e antiético de João Romão desde o início da sua trajetória.

O início da personagem como comerciante reflete a sua essência: ele é o símbolo do homem que se faz sozinho, mas à custa de trabalho incessante, economia obsessiva e exploração dos outros. A pequena venda é o núcleo da sua trajetória, marcando o ponto de partida para a sua ascensão.

O início de João Romão como comerciante em O Cortiço ilustra como ele utiliza as ferramentas disponíveis – trabalho duro, avareza e exploração – para superar a sua condição de pobreza. Esse momento é essencial para compreender a sua personalidade: é um homem pragmático, inescrupuloso e completamente focado na acumulação de riqueza, mesmo que isso signifique sacrificar a dignidade própria e alheia.

  • Construção do cortiço: Com o tempo, ele expande os seus negócios, investindo na construção de um cortiço, símbolo da sua ascensão económica e da degradação social ao seu redor. O empreendimento reflete não apenas o seu caráter, mas também o seu papel simbólico na narrativa. O cortiço é uma extensão da personalidade do protagonista e materializa os seus valores, ambições e métodos.

Desde logo, convém notar que a construção do convento mostra que a personagem principal de O Cortiço possui uma visão de longo prazo. De facto, João Romão percebe o potencial económico do terreno baldio que existe ao lado da sua venda, inicialmente utilizado como depósito de lixo. Imagina o local como uma oportunidade de gerar lucro por meio da construção e posterior aluguer de habitações populares, dando origem ao cortiço. Deste modo, dedica-se obsessivamente à construção do empreendimento (ele próprio conduzia pedras, areia e tijolos, como se fosse um operário), atuando diretamente nas obras. Trabalha dia e noite, economizando ao máximo e utilizando materiais baratos para erguer as moradias.

Por outro lado, a construção do cortiço reflete a sua avareza extrema. Ele economiza em tudo, incluindo no ser humano: emprega Bertoleza como força de trabalho gratuita, aproveitando-se da sua condição de escrava fugida; usa materiais baratos e mão de obra simples para economizar ao máximo, indiferente às condições precárias que isso criará para os futuros moradores.

Face ao exposto, podemos concluir que o cortiço é uma metáfora da própria ambição e do caráter de João Romão, caracterizando-se pela desorganização e instinto de sobrevivência (tal como o protagonista é movido por instintos básicos de acumulação, o cortiço também se torna um espaço caótico, onde a luta pela sobrevivência prevalece), pela animalização (o cortiço é descrito como um "formigueiro humano" ou uma "colmeia", metáforas que evidenciam a degradação dos seus habitantes; João Romão, como criador desse ambiente, é implicitamente comparado a um animal predador, que manipula e explora os mais fracos para prosperar) e pelo foco no lucro (a forma como administra o cortiço reflete a sua frieza e o seu pragmatismo: não se importa com o bem-estar dos moradores, apenas com as rendas que recebe).

  • Exploração da mão de obra: Romão explora trabalhadores, como Bertoleza, e aproveita-se da vulnerabilidade alheia para enriquecer, desde logo porque perceciona o cortiço como não um espaço de convivência humana, mas como uma máquina fazedora de dinheiro, não se eximindo a explorar os moradores, cobrando rendas elevadas e a pessoas que vivem em situação de miséria.
  • Relação com Bertoleza: Ele engana Bertoleza, uma escrava fugida que trabalha para si em regime quase de escravidão, prometendo ajudá-la a comprar a alforria, promessa que nunca cumprirá.
  • Conflito social: João Romão representa o confronto entre o capital e as classes trabalhadoras, sendo um retrato crítico do capitalismo nascente no Brasil na época.

5. Relação com a temática do Naturalismo

  • Instinto e Determinismo Social: A personagem é retratada como guiada por instintos de sobrevivência e ambição, características marcantes do determinismo social e biológico.
  • Animalização e degradação: A sua busca incessante pelo lucro é muitas vezes associada a comportamentos animalescos, refletindo a visão naturalista de que o ambiente molda o comportamento humano.
  • Crítica social: João Romão personifica a exploração capitalista e a desigualdade, sendo um reflexo das transformações sociais e econômicas do Brasil no século XIX.

6. Relação com outras personagens

  • Bertoleza: A sua relação com ela é marcada pela exploração e hipocrisia, já que a utiliza como mão de obra gratuita e, no final, trai-a ao denunciá-la como escrava fugida. Romão explora-a de forma brutal, reduzindo-a a uma espécie de máquina de trabalho, tratando-a como um mero objeto, o que reflete o seu comportamento e a sua ação desumanizados. Estes traços acentuam-se quando percebe que Bertoleza se tornou um obstáculo ao seu desejo de ascensão social, acabando por a trair e entregando-a às autoridades como escrava fugitiva, sem qualquer remorso, consideração humana ou princípio ético. A frieza com que age evidencia o seu instinto quase predatório, característico de quem não olha a meios para atingir os seus fins, afastando do seu trajeto todos os obstáculos para sobreviver ou prosperar.
  • Miranda: João Romão inveja Miranda, um comerciante que representa o "burguês" estabelecido. A relação entre os dois simboliza a rivalidade entre diferentes estratos sociais. As duas figuras representam diferentes facetas da sociedade brasileira do século XIX: o primeiro é o tipo do imigrante português ambicioso que procura ascender socialmente através do trabalho  da exploração dos mais fracos, enquanto o segundo é o símbolo do burguês e do privilégio. De facto, o protagonista é o típico self-made man, o indivíduo que sai da pobreza e enriquece através do seu trabalho, da sua ambição e do seu pragmatismo, bem como à custa da avareza e da exploração. Por outro lado, Romão representa o tipo social do novo rico que se torna rico, todavia não possui a sofisticação da elite tradicional. Por seu turno, Miranda é o burguês conservador, o sujeito que, ao nascer, já detém uma posição de privilégio económico e social. Ele simboliza a elite local, que adota comportamentos refinados, mas, em contraste, caracterizados pela hipocrisia e pela superficialidade. João Romão, em simultâneo, admira e inveja Miranda, vendo nele o modelo de prestígio e respeitabilidade que almeja.

Os dois são vizinhos e as suas propriedades refletem as suas posições sociais. Assim, o cortiço é um espaço de miséria que contrasta com a casa bem organizada e a loja respeitável de Miranda, que despreza o cortiço e o vê como uma ameaça ao «bom tom» da vizinhança, enquanto o protagonista vislumbra no seu empreendimento a possibilidade de ascensão económica. Neste contexto, Romão sente-se inferior em comparação com a posição social do oponente e ambiciona igualar-se a ele, quer económica quer socialmente. O seu projeto de se equiparar e até superar Miranda passa por comprar propriedades e se casar com Zulmira, a sua filha, mesmo sem a amar, pois vê no casamento uma oportunidade única de ascender socialmente e se distanciar do estigma de «dono do cortiço». Este comportamento evidencia a sua visão pragmática das relações humanas, sociais, sempre orientada para o lucro, o dinheiro, a riqueza.

Curiosamente, no início da obra, o protagonista comporta-se de forma quase subserviente em relação a Miranda, tratando-o com deferência e respeito, o que mostra que o reconhece como superior socialmente, daí que não seja de admirar que o procure imitar. Porém, à medida que vai enriquecendo, torna-se mais competitivo, passando a olhar para Miranda como um obstáculo e/ou um rival. Por seu turno, este olha para o protagonista apenas como um vizinho incómodo e vulgar que, conjuntamente com o cortiço, representa uma ameaça à sua posição e reputação. Ao longo da obra, conserva sempre uma postura de superioridade relativamente ao vizinho, nunca o vendo como seu igual, mesmo quando tenta imiscuir-se na elite.

O casamento com Zulmira é um momento fundamental da relação entre João Romão e Miranda. Para este último, o matrimónio é uma forma de resolver problemas financeiros, em virtude de a sua situação económica estar em declínio, e manter aparências. Por sua vez, o protagonista olha para o casamento como a oportunidade ideal para ascender socialmente, permitindo-lhe alcançar o lugar que tanto ambiciona no seio da sociedade burguesa. Além disso, essa união matrimonial espelha a hipocrisia das relações sociais e a fragilidade das diferenças entre as classes sociais.

Já o cortiço, o grande empreendimento de João Romão, é o principal foco de conflito entre as duas personagens: para o protagonista, ele simboliza a sua conquista e riqueza, enquanto para Miranda constitui um símbolo de degradação, um espaço que mancha a reputação da vizinhança. O seu desprezo pelo cortiço e pelos seus moradores evidencia a visão elitista, enquanto a defesa que Romão faz do empreendimento reflete o seu orgulho como criador e explorador. No fundo, o que está aqui em causa é um conflito social: de um lado, temos Romão a representar a ascensão do capitalismo selvagem e das classes emergentes que, embora economicamente poderosa, lutam por reconhecimento social; do outro, encontramos Miranda, símbolo da elite tradicional, a qual procura preservar os seus privilégios e evitar misturar-se com os «novos ricos».

  • Habitantes do cortiço: Embora João Romão seja o criador e explorador do cortiço, distancia-se das pessoas que nele vivem, mostrando a sua aspiração por um status social superior. Ele tem do cortiço uma visão utilitarista, olhando para os moradores como meras fontes de rendimento: cobra rendas elevadas, tendo em conta as condições decrépitas das habitações, e não investe no restauro ou manutenção do espaço. De facto, os habitantes são pessoas de baixos rendimentos, vivendo vários deles em situação de miséria, e o protagonista aproveita-se desse facto para manter as rendas, tendo plena consciência de que muitos não têm outra opção para morar. Por outro lado, estes dados mostram que Romão é indiferente às condições precárias de vida dos moradores do cortiço, que têm de conviver com a sobrelotação do espaço, a falta de higiene e salubridade e a degradação, confrontados com a total indiferença do protagonista relativamente ao impacto que essas condições têm na saúde e dignidade das pessoas. A sua única preocupação é evitar despesas que afetem o seu rendimento, mesmo que isso signifique abandonar os habitantes à sua sorte e miséria.

João Romão controla o cortiço e os moradores por completo, exercendo o seu poder através da cobrança de rendas e da manipulação das suas condições de vida. Curiosamente, o protagonista possui origens humildes, como os habitantes do cortiço que erigiu. Não obstante, ele distancia-se deles, vendo-se superior a eles. Ele procura ascender socialmente e rejeita qualquer associação às pessoas que vivem no espaço que administra. Nesse contexto, Bertoleza simboliza a exploração de João Romão: ela trabalha incansavelmente, acredita que está a juntar dinheiro para comprar a sua alforria, contudo o protagonista nunca teve a intenção de cumprir  sua promessa. Deste modo, quando Bertoleza se torna um problema para os seus planos de ascensão social, não hesita em a entregar às autoridades como escrava fugida, o que desagua no suicídio dela.

O cortiço é descrito como um organismo vivo, um «formigueiro humano» ou uma «colmeia», repleto de pessoas que lutam pela sua sobrevivência no meio da miséria que os afoga. Romão é o criador do empreendimento, sendo o responsável direto pelas condições que promovem a degradação social e moral. A relação entre ambos reflete a dinâmica do capitalismo selvagem, em que o lucro de um depende da exploração de muitos. Por outro lado, os moradores do espaço são frequentemente comparados a animais, tendo em conta as condições desumanas em que vivem. Essa animalização dos moradores é um reflexo da própria animalidade de João Romão, que, qual animal, age por instinto.

Além disso, o protagonista evita a todo o custo qualquer envolvimento direto com os problemas e conflitos que estalam no cortiço. A violência, as lutas e os escândalos são o pão nosso de cada dia, porém Romão nunca se envolve nem interfere, desde que esses acontecimentos não afetem o pagamento das rendas, mantendo, pois, uma constante postura de distanciamento e superioridade, como se não tivesse qualquer responsabilidade pelas condições que fomentam esses conflitos. Como já foi referido anteriormente, Romão, apesar das suas origens humildes, não demonstra qualquer solidariedade com os habitantes do cortiço; pelo contrário, ele afasta-se cada vez mais das suas origens sociais, procurando associar-se à elite burguesa e desprezando os habitantes do espaço que ele próprio criou. Este distanciamento reflete a sua alienação social e moral, evidenciando o vazio que a sua ambição acarreta: enriqueceu à custa de outros, contudo permanece isolado e desumanizado.

Simbolicamente, a relação entre João Romão e os habitantes do cortiço configura uma crítica à exploração das camadas mais desfavorecidas pela ambição desmedida e pelo capitalismo selvagem emergente. Deste modo, o narrador denuncia as desigualdades sociais e as condições de vida degradantes resultantes da indiferença, da ambição desmedida e da procura desenfreada da riqueza. João Romão representa o capitalista que vê as pessoas como meio para alcançar os seus objetivos.


7. Símbolos Associados a João Romão

  • O Cortiço: João Romão é o criador e principal beneficiário do cortiço, que funciona como uma extensão de sua personalidade: degradado, explorador e movido pela ambição. O empreendimento simboliza o capitalismo emergente na sociedade brasileira do século XIX, sendo que o protagonista personifica esse sistema.
  • Figura do explorador capitalista: Simboliza a ascensão do capitalismo no Brasil, com todas as suas contradições e desigualdades. Romão acumula riqueza à custa da exploração dos mais desfavorecidos que habitam no cortiço, aumentando, assim, as desigualdades sociais. Para ele, os moradores não passam de meras ferramentas usadas para aumentar o seu património e, de forma desumana e indiferente, não hesita em explorar a sua pobreza.

8. Transformação ao Longo da Narrativa

  • Mudança superficial: Embora João Romão alcance seu objetivo de ascender socialmente, comprando propriedades e estabelecendo-se como "respeitável", ele nunca abandona a sua essência exploradora e gananciosa. Ao longo da obra, vai-se transformando, evoluindo de um comerciante simples e humilde para um trabalhador obcecado e infatigável, um capitalista ganancioso, desumano e explorador que procura desesperadamente a ascensão social.

No início, o protagonista é apresentado como alguém de origens humildes, um imigrante português simples e pobre que inicia a sua jornada rumo à riqueza e a outro estatuto social como dono de uma pequena venda. Nesta fase, apresenta-se como alguém trabalhador, avaro e obcecado pelo dinheiro e pela acumulação de riqueza, mostrando-se disposto a sacrificar o conforto, a ética e a humanidade para poupar o vil metal, daí não ser de estranhar que o vejamos a comer restos ou a dormir no chão, tudo para economizar até ao último cêntimo, usando como referência o atual euro. Nesta fase da sua vida, usa Bertoleza como mão de obra gratuita, prometendo-lhe uma alforria que jamais tem a intenção de cumprir.

Posteriormente, Romão começa a investir no terreno localizado ao lado da sua venda, até o transformar num espaço de moradias populares: o cortiço. Esse empreendimento reflete os traços de caráter que já se adivinhavam na fase inicial: usa materiais e mão de obra barata durante a construção, ignorando os reflexos que tal terá nos moradores. Em última análise, o cortiço torna-se uma fonte constante de lucro, consolidando o seu estatuto de homem de negócios, mas sempre à custa da exploração do seu semelhante. Neste contexto, apesar dessa riqueza que o cortiço lhe proporciona, distancia-se, emocional e socialmente, dos seus habitantes, vendo-os somente como meras fontes de rendimento.

À medida que o empreendimento cresce e se consolida, com o aumento dos alugueres, João Romão acumula riqueza. Nessa acumulação constante, compra outras terras e propriedades, diversificando os seus negócios e investimentos e consolidando a sua fortuna. Em simultâneo, cresce igualmente a indiferença e a insensibilidade perante o sofrimento e as necessidades humanas, não revelando qualquer empatia pelos moradores do cortiço, nem por Bertoleza, que tanto o ajudou na sua ascensão social. Neste passo da narrativa, Romão está totalmente consumido pela ganância, agindo de forma desumana, cruel e calculista, traindo Bertoleza ao entrega-la às autoridades como escrava fugitiva, a partir do momento em que se torna um obstáculo aos seus planos.

  • Busca por status: No final, tenta inserir-se na elite, casando com Zulmira, filha de Miranda, mas essa tentativa de ascensão revela a sua alienação e o desejo de reconhecimento social. Como sucede frequentemente com estas personagens, a riqueza não garante só por si a ascensão social e a aceitação pelas camadas mais altas da sociedade. João Romão percebe também isso, tendo de lidar com o desprezo que a burguesia lhe dedica. Para superar este facto, deseja casar-se com Zulmira, filha do vizinho burguês, Miranda, não por amor, mas como estratégia para se integrar na elite. Quando o consegue, esforça-se ao máximo para se adaptar aos padrões burgueses, abandonando algumas atitudes de avareza e procurando mostrar-se uma pessoa respeitável, no entanto, na realidade, essa mudança é apenas superficial, pois, na essência, continua a ser uma figura mesquinha e ganancioso.

Quando o final do romance nos bate à porta, constatamos que o protagonista atingiu os seus objetivos, tanto o do enriquecimento como a ascensão social, mas fê-lo graças a uma postura de alienação e desumanização que atinge o clímax no mento em que trai Bertoleza e a denuncia às autoridades para se casar com Zulmira. O suicídio desta personagem constitui uma espécie de preço moral que Romão tem de pagar pelo seu trajeto alienante. Deste modo, no desfecho de O Cortiço, João Romão não passa de um homem muito rico, mas totalmente desumanizado e sem qualquer vínculo afetivo com os outros, símbolo do capitalista que tudo sacrifica pelo lucro, mas permanece moralmente pobre.


9. Representatividade no contexto do Naturalismo

  • Representante do capitalismo selvagem:

·         João Romão simboliza o modelo capitalista emergente no Brasil, no século XIX, em que o lucro e a acumulação de riqueza se sobrepõem a qualquer valor ético ou humano.

·         Exploração como base do sucesso: Ele usa o trabalho de Bertoleza como mão de obra gratuita e explora os moradores do cortiço, cobrando rendas elevadas em condições precárias.

·         Acumulação e desigualdade: João Romão representa a figura do empreendedor que enriquece à custa da exploração de classes sociais mais vulneráveis, ilustrando as desigualdades inerentes ao capitalismo.

  • Símbolo do imigrante no Brasil:

·         Como português imigrante, João Romão reflete o papel histórico de muitos imigrantes no Brasil, que chegaram à procura de melhores condições de vida e acabaram a desempenhar papéis de comerciantes, pequenos proprietários e empreendedores.

·         Ascensão económica: Ele personifica o estereótipo do "imigrante trabalhador" que, através de muito esforço e poupança, consegue enriquecer.

·         Contraste cultural: A sua ambição e frieza contrastam, frequentemente, com valores mais "tradicionais" e "moralistas" da sociedade brasileira da época, como os representados por Miranda.

  • Símbolo do novo-rico:

·         João Romão é representativo da figura do "novo-rico", que acumula riqueza material, mas luta por reconhecimento social.

·         Ele aspira a integrar a elite tradicional (representada por Miranda) e utiliza o casamento com Zulmira como estratégia para obter prestígio, mas a sua origem humilde e os métodos desumanos de enriquecimento que emprega continuam a constituir barreiras à sua plena aceitação.

  • Metáfora da desumanização e da animalização;

·         A evolução de João Romão reflete o processo de desumanização provocado pela ambição desmedida. Ele é frequentemente descrito de forma animalesca, guiado por instintos básicos, como sobrevivência, acumulação de riqueza e poder.

·         Animalização naturalista: Esta característica reforça a visão naturalista segundo a qual os seres humanos são moldados pelos seus instintos e pelo ambiente social. João Romão é uma criatura do seu meio, explorando e sendo explorado pelas dinâmicas sociais e económicas.

  • Espelho da ascensão social e das suas contradições:

·         João Romão é um exemplo de como a ascensão social pode ser conquistada por meio de trabalho duro, mas também por exploração e desumanização.

·         Ambiguidade moral: Ele é, ao mesmo tempo, admirado pela sua perseverança e criticado pelos seus métodos antiéticos.

·         Falta de integração: Mesmo ao alcançar a riqueza e o status ambicionados, João Romão nunca se encaixa completamente na elite, o que evidencia a dificuldade de transição entre as classes sociais no contexto da sociedade brasileira da época.

  • Crítica ao materialismo:

·   João Romão é um símbolo da obsessão pelo materialismo. A sua procura incessante por riqueza leva à perda da humanidade e à destruição de relações interpessoais, como a traição de Bertoleza exemplifica.

·       Vazio moral: Apesar de alcançar sucesso financeiro, João Romão, no final do romance, está só e isolado, desprovido de vínculos afetivos e sem qualquer satisfação emocional ou ética.

  • Símbolo da luta pela sobrevivência: João Romão é um exemplo clássico da influência do meio sobre o indivíduo, tema central do Naturalismo.
  • Figura antiética: Embora sua trajetória pareça de sucesso, a crítica do autor expõe os custos humanos e sociais dessa ascensão.

João Romão é uma figura central em O Cortiço, representando a ganância e a exploração na sociedade brasileira do século XIX, e serve como uma crítica contundente à desigualdade social e à moralidade da época.

Enredo / Ação de O Cortiço

A. A Ascensão de João Romão

João Romão é um português pobre e ambicioso que, por meio de trabalho árduo e métodos desonestos, constrói um cortiço em um subúrbio do Rio de Janeiro. Ele rouba materiais de construção, explora trabalhadores e guarda dinheiro de forma obsessiva. Sua companheira, Bertoleza, é uma escravizada que foge acreditando estar livre, mas vive em regime de quase escravidão sob João Romão.

João Romão começa o cortiço como uma pequena habitação coletiva. Com o tempo, o local cresce e se torna uma representação da pobreza e da degradação social, abrigando dezenas de famílias que vivem em condições precárias.

 

B. A Vida no Cortiço

O cortiço é um microcosmo da sociedade brasileira. Ele abriga personagens de diferentes origens, que compartilham as dificuldades da vida cotidiana. Os moradores vivem em um ambiente insalubre, marcado por brigas, festas, promiscuidade e luta pela sobrevivência. Entre os moradores destacam-se:

  • Rita Baiana, uma mulher sensual e cheia de vida que simboliza a força dos instintos.
  • Pombinha, uma jovem inicialmente inocente, que acaba se entregando à prostituição.
  • Jerônimo, um operário português que se apaixona por Rita Baiana, abandonando sua esposa.

O cortiço é descrito como uma entidade viva, quase um personagem, que influencia o comportamento de seus habitantes. O local é frequentemente associado a imagens de calor, fermentação e animalização.

 

C. O Conflito entre João Romão e Miranda

Miranda, um comerciante rico e vizinho de João Romão, representa a elite brasileira. Embora seja economicamente superior, Miranda é um homem hipócrita, que despreza o cortiço, mas também age de forma corrupta para manter seu status. João Romão inveja o prestígio social de Miranda e tenta se aproximar dele, buscando ascender à classe burguesa.

João Romão, com seu desejo incessante de riqueza e respeito social, decide ampliar seus negócios e transformar sua imagem. Ele planeja casar-se com Zulmira, filha de Miranda, para se integrar à elite, mesmo que isso signifique trair Bertoleza.

 

D. A Queda de Bertoleza

No final da obra, João Romão denuncia Bertoleza às autoridades, revelando que ela ainda é legalmente escrava. A traição é motivada pelo desejo de se livrar dela e se casar com Zulmira. Ao perceber que será recapturada, Bertoleza, em um ato desesperado, comete suicídio, esfaqueando-se diante dos policiais.

O destino de Bertoleza simboliza a opressão dos mais pobres e a desumanidade de João Romão, que sacrifica tudo – inclusive suas relações pessoais – em nome da ascensão social.

Conclusões sobre O Cortiço: Forma

    1. Descrição dos elementos imprescindíveis de todo o romance. Através da descrição, as personagens surgem inseridas na vida do dia a dia. A descrição é feita, por vezes, através de metáforas, sobretudo do âmbito da zoologia.

    2. Apresentação de determinado tipo de episódios, quase sempre sórdidos e de temática sexual. A principal característica destes episódios é a total ausência de valores, a animalidade e a violência.

    3. Construção e estruturação de modo mais denso e rico. A preocupação pela forma é muito intensa em A. de Azevedo, pois há sempre indícios que se realizam. Esta preocupação orienta a narrativa para um determinado sentido, o que implica uma maior organização dos elementos.

    4. Uso de analepses: são várias e a sua função é a explicação de factos e a caracterização de personagens.

    5. As personagens raramente existem como elementos individuais: elas inserem-se num coletivo. Há algumas vivências de individualidade, mas apenas com as personagens principais.

    6. Em termos de intriga, há três elementos que despoletam a ação:
            - chegada dos portugueses: Jerónimo e Piedade
            - chegada de Rita
            - ascensão de Miranda ao baronato
    Estes factos são também importantes, porque vão influenciar a mudança das personagens. Por exemplo, é a chegada de Rita que vai conduzir à degradação de Piedade e é a ascensão de Miranda que provoca a ascensão de João Romão.
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