domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
quinta-feira, 18 de junho de 2026
A literatura popular e a língua portuguesa
Na aula (LXVII): o amor virtual de Simão Botelho e Mariana
Na aula (LXVI): o naufrágio que vitimou Romeu e Julieta
A propósito da Conclusão de Amor de Perdição, fala-se em Romeu e Julieta, de Shakespeare, e o seu final. Para os menos versados nestas coisas da Literatura, talvez seja adequado relembrar que Romeu encontra a amada aparentemente sem vida no túmulo da família e que, desesperado, ingere veneno e morre ao seu lado. Na realidade, a jovem tinha tomado uma poção que a fazia parecer morta temporariamente. Quando desperta e vê o noivo morto, mata-se com um punhal.
Pois bem, mal o professor recorda este desfecho, solta-se a voz tonitruante da Maria Luís:
- Mas eles não tinham morrido num barco?
- Isso era o Titanic - esclareceu a Maria Eduarda Coimbra.
Ficámos esclarecidos.
Na aula (LXV): o dia em que o verbo mudou de classe
- Qual é o adjetivo presente na frase?
- O adjetivo é «soluçando».
A nova especialista em gramática da língua portuguesa chama-se Diana Gonçalves.
Na aula (LXIV): pensamentos ilegítimos
Lê-se o terceiro ato de Frei Luís de Sousa. Nesta fase, Telmo mostra-se arrependido. O professor questiona a razão do arrependimento.
A resposta surge pela voz da Diana Gonçalves:
- Telmo sente-se arrependido por dizer que Madalena é filha ilegítima.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 1
Pergunta: "Releia o primeiro parágrafo do excerto extraído de Memorial do Convento. Explicite o dilema com o qual Baltasar se debate, tendo em conta tanto a sua condição física como a sua condição económica."
Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado (Ler com a caneta)
- O Limite de Pesquisa (Onde?): "Releia o primeiro parágrafo do excerto extraído de Memorial do Convento" → Regra: O foco da resposta deve centrar-se exclusivamente no primeiro parágrafo do texto de José Saramago. O aluno não deve procurar informações no segundo parágrafo (onde Baltasar está no mercado do peixe), nem tão-pouco no excerto de O Ano da Morte de Ricardo Reis
- O Verbo de Comando (O que fazer?): "Explicite" → Regra: este verbo exige que o aluno explique a situação por palavras próprias. Não basta transcrever pedaços de texto; é preciso demonstrar compreensão.
- O Assunto (O quê?): "o dilema com o qual Baltasar se debate" → Regra: Um "dilema" é uma escolha difícil entre duas alternativas. O aluno tem de identificar de imediato quais são os dois caminhos possíveis que deixam a personagem indecisa.
- A Quantidade / A Condição Obrigatória (Como provar?): "tendo em conta tanto a sua condição física como a sua condição económica" → Regra: Embora o enunciado não diga numericamente "duas ideias", a expressão correlativa "tanto... como..." obriga o aluno a justificar esse dilema baseando-se exatamente em duas vertentes: a falta de capacidade física e a falta de dinheiro.
Passo 2: A Recolha de Dados
- A Base do Dilema: Baltasar encontra-se com pouco dinheiro e não sabe para onde ir.
- Recolha 1 (Opção A + Condição Física): A primeira alternativa seria ir para Mafra, a sua terra natal, para se dedicar à agricultura. Contudo, a sua condição física é um obstáculo: a perda da mão esquerda na guerra impede-o de «pegar numa enxada».
- Recolha 2 (Opção B + Condição Económica): A segunda alternativa seria ir ao paço real. Motivado pela sua fraca condição económica, pondera ir pedir uma esmola pela mão/sangue perdido na guerra. Porém, depara-se com as dificuldades desse caminho, já que sabe que exigiria muito tempo e o "empenho de padrinhos" para conseguir o dinheiro do rei.
- [Introdução Direta] O dilema vivido por Baltasar prende-se com a indecisão sobre o caminho a seguir, visto que tem pouco dinheiro e não sabe para onde ir.
- [Conetor 1 + 1.ª Opção e Condição Física] Por um lado, pondera regressar a Mafra para trabalhar na agricultura. No entanto, a sua condição física inviabiliza esta opção, uma vez que a perda da mão na guerra o impede de segurar numa enxada e trabalhar a terra.
- [Conetor 2 + 2.ª Opção e Condição Económica] Por outro lado, tendo em conta a sua condição económica precária, equaciona dirigir-se ao paço real para pedir esmola pelos sacrifícios feitos na guerra. Contudo, hesita perante as exigências burocráticas e a necessidade de arranjar padrinhos que o ajudem a obter o sustento do rei.
- O que o aluno pensa: "Ok, já encontrei a condição económica (ele está quase sem dinheiro) e percebi o núcleo do dilema: ele está indeciso, tem de tomar uma decisão e 'resolver que passos' dar a seguir no seu percurso.
- O que o aluno pensa: "A primeira opção do dilema é regressar à sua terra, Mafra, para ser agricultor. Mas está aqui a condição física pedida na pergunta: ele não tem uma das mãos e uma enxada precisa de duas. Logo, ele está incapacitado fisicamente para esta opção.
- O que o aluno pensa: "A segunda opção é ir pedir dinheiro/esmola ao paço do Rei, sustentado na sua falta de dinheiro e na mão que perdeu. Mas ele está indeciso porque ir pedir ao rei não é garantido: demora muito tempo e exige 'padrinhos' (conhecimentos/cunhas).
Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase
Grupo I
Pergunta 1.
Pergunta 2.
Pergunta 3.
Pergunta 4.
Pergunta 5.
Pergunta 6.
Pergunta 7.
Grupo II
Pergunta 1.
Pergunta 2.
Pergunta 3.
Pergunta 4.
Pergunta 5.
Pergunta 6.
Pergunta 7.
Grupo III
terça-feira, 16 de junho de 2026
Exame Nacional de Português - 12.º ano - 2026 - 1.ª fase
Desconstruindo o exame nacional de Português 2025 - 1.ª fase: Pergunta 2
Pergunta 2: "Releia as estâncias 52 e 53.
Explicite duas características de D. Fernando, fundamentando a sua resposta em
informações presentes nas estâncias mencionadas."
Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado (Ler com a
caneta)
O aluno deve dividir o enunciado em 5 peças fundamentais
para perceber as "regras do jogo" impostas pelo IAVE:
- O
Limite de Pesquisa (Onde?): "Releia as estâncias 52 e 53"
→ Regra: É estritamente proibido retirar informações da estância 51. O
raio de visão foca-se apenas nas duas últimas estrofes.
- O
Verbo de Comando (O que fazer?): "Explicite" → Regra:
O verbo de comando muda aqui. É "Explicite". Isto é um
alerta sonoro para o aluno: não basta identificar ou copiar versos; é
obrigatório explicar a ideia por palavras próprias. O assunto é retirar
traços do perfil (características) de D. Fernando.
- O
Assunto (O quê? O que me é pedido?): "características de D.
Fernando" → Regra: Procurar adjetivos ou qualidades
morais/psicológicas do infante.
- A
Quantidade (Quantas coisas me são pedidas?): "duas"
→ Regra: A resposta terá obrigatoriamente de ser dividida em duas metades
lógicas. Mas há um detalhe crucial a sublinhar: a palavra "fundamentando".
Isto significa que cada característica que o aluno explicar terá de ser
obrigatoriamente comprovada com citações do texto.
- A
Condição Obrigatória (Como provar?): "fundamentando a sua
resposta..." → Regra: Cada característica explicada por palavras
do aluno tem de ser acompanhada por uma citação exata do texto (entre
aspas e com a identificação dos versos).
Passo 2: A Recolha de Dados (A caça às características)
Sabendo exatamente o que procurar, o aluno vai às estâncias
52 e 53 recolher apenas duas provas (os Tópicos de Resposta do IAVE):
o Mas
há um detalhe crucial a sublinhar: a palavra "fundamentando". Isto
significa que cada característica que o aluno explicar terá de ser
obrigatoriamente comprovada com citações do texto.
Passo 3: A "Fórmula" da Resposta
Para garantir clareza máxima e todos os pontos na
estruturação do discurso, o aluno aplica os dados recolhidos numa estrutura
fixa de preenchimento (como se fosse uma receita):
- A
1.ª Característica: Na estância 52, o aluno lê que ele se entregou
como cativo "por salvar o povo miserando" (v. 11) e repara no
verso final da estrofe: "Mais o público bem que o seu respeita"
(v. 16). O que chamamos a alguém que abdica do seu bem-estar em prol dos
outros? Altruísta ou abnegado. Eis a primeira característica
oficial validada pelos critérios do IAVE.
- A
2.ª Característica: Ainda na estância 52, surge os versos "Só por
amor da pátria está passando / A vida..." (v. 13-14). Isto dá-nos de
caras a segunda característica valorizada pelo corretor: o patriotismo
ou amor à pátria.
- A
3.ª característica: Se o aluno olhasse para a estância 53, veria D.
Fernando a ser comparado a figuras históricas da Antiguidade (Codro,
Régulo, Cúrcio) que deram a vida pelas suas nações. Isto comprovaria o seu
espírito de sacrifício ou a sua condição de mártir, que
também constam na grelha de respostas aceites.
Passo 3: A Construção da Resposta (O
"Esqueleto") Tendo as duas características e os versos que as
provam, a redação torna-se mecânica e segura, utilizando conectores para guiar
o corretor:
- Introdução
Direta: O aluno contextualiza com uma frase simples. "Nas
estâncias 52 e 53, o narrador apresenta-nos a figura do infante D.
Fernando.".
- Apresentar
a 1.ª Característica + Fundamentação ([Conetor 1] + [Característica 1] +
[Explicação] + [Fundamentação]): Usar o conetor de início. "Por
um lado, D. Fernando revela um profundo altruísmo (ou abnegação),
uma vez que abdica da sua própria liberdade e segurança e é capturado para
beneficiar e salvar o povo português..." e prova logo a seguir
abrindo aspas: («Que, por salvar o povo miserando / Cercado, ao
Sarraceno se entregava» – vv. 11-12).
- Apresentar
a 2.ª Característica + Fundamentação ([Conetor 2] + [Característica 2] +
[Explicação] + [Fundamentação]): Usar o conetor de adição. "Para
além disso, demonstra um forte patriotismo (ou amor à pátria), pois
sujeita-se a uma vida de escravidão apenas para garantir que a pátria
portuguesa não perde a praça de Ceuta..." e volta a provar com o
texto: («Só por amor da pátria está passando / A vida, de senhora feita
escrava» – vv. 13-14).
Resposta:
Nas
estâncias 52 e 53, o narrador apresenta-nos traços marcantes do perfil do
infante D. Fernando.
Por um
lado, o Infante revela um profundo altruísmo (ou abnegação), uma vez que
abdica da sua própria liberdade e segurança em prol da salvação do seu povo,
como se comprova através dos versos «Que, por salvar o povo miserando /
Cercado, ao Sarraceno se entregava» (vv. 11-12).
Para
além disso, demonstra um forte patriotismo (ou amor à pátria), pois
sujeita-se a uma vida de escravidão apenas para garantir que a pátria
portuguesa não perde o território de Ceuta («Só por amor da pátria está
passando / A vida, de senhora feita escrava» - vv. 13-14).
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Desconstruindo o exame nacional de Português 2025 - 1.ª fase: Pergunta 1
Pergunta 1: "Refira a opinião do narrador sobre o
reinado de D. Duarte, tendo em conta duas ideias expressas na estância
51."
Vamos desconstruir isto passo a passo:
Passo 1: Ler o enunciado com «lupa» O que é que a
pergunta nos está a exigir exatamente?
- Indicar
a opinião do narrador sobre o reinado.
- Apresentar
duas ideias que sustentem essa opinião.
- Focar
a nossa análise exclusivamente na estância 51 (não precisamos, nem
devemos, ir buscar informação à estância 52 ou 53 para esta pergunta).
Passo 2: Descodificar a Estância 51 (A Leitura Atenta)
Vamos ler a estância como se fosse um texto normal, fluído, e procurar entender
o vocabulário, que é a primeira grande barreira.
- «Não
foi do Rei Duarte tão ditoso / O tempo que ficou na suma alteza». Se
não sabem o que significa "ditoso", pensem no contexto: o
narrador está a dizer que o tempo (o reinado) de D. Duarte não foi muito
"ditoso" (feliz, afortunado). Logo aqui temos a nossa tese: a
opinião do narrador é a de que o reinado não foi feliz.
- «Que
assi vai alternando o tempo iroso / O bem co mal, o gosto co a tristeza.».
O que justifica esse reinado infeliz? O narrador diz que um tempo
"iroso" (mau, zangado) vai alternando coisas boas e más. Aqui
temos a nossa primeira ideia: a alternância inevitável entre tempos de
felicidade e tempos de infelicidade.
- «Quem
viu sempre um estado deleitoso? / Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?».
Temos aqui perguntas retóricas para nos fazer pensar num facto.
"Firmeza" significa estabilidade. Ou seja, alguma vez viram a
sorte/Fortuna ser estável? Não. Aqui temos a nossa segunda ideia: a
instabilidade e inconstância da Fortuna.
Passo 3: Estruturar a Resposta (O "Esqueleto")
Agora que já fomos ao texto "pescar" as ideias que os critérios de
correção exigem, temos de organizar a nossa resposta. Uma resposta de exame não
pode ser uma lista de tópicos soltos. Lembrem-se de que os critérios avaliam a
vossa estruturação do discurso e coesão textual.
Eu aconselho sempre a seguinte estrutura lógica:
- Tese
(Afirmação inicial): Comecem com uma frase clara e direta a responder
à primeira parte da pergunta. Exemplo de estrutura: "De acordo
com o narrador, o reinado de D. Duarte..."
- Primeiro
Argumento (1.ª Ideia) + Citação: Usem um conetor para introduzir a
primeira ideia. Exemplo: "Por um lado, o narrador constata
que..." e depois explicam a ideia por palavras vossas, comprovando
imediatamente com a citação do texto (entre aspas e indicando os versos).
- Segundo
Argumento (2.ª Ideia) + Citação: Usem outro conetor lógico. Exemplo:
"Por outro lado, o texto salienta a ideia de que..." Explicam a
segunda ideia e colocam a respetiva citação.
Passo 4: Cuidados Finais e Revisão
- Atenção
às transcrições: Não se esqueçam de que o texto é um poema. Quando
transcrevem mais do que um verso seguido, devem usar uma barra oblíqua (/)
para separar os versos. Se não cumprirem as regras de citação, podem ser
penalizados na correção linguística (Erro de Tipo A).
- Não
inventem parágrafos desnecessários: Os critérios referem que não são
obrigados a fazer um parágrafo de introdução e um de conclusão num item de
resposta restrita, a não ser que mudem drasticamente de unidade de
sentido. Basta um texto fluído, bem oleado com conetores lógicos ou sinais
de pontuação corretos.
- Correção
Linguística: 3 dos 13 pontos desta pergunta são inteiramente dedicados
à correção linguística. Uma resposta genial com muitos erros ortográficos
ou de sintaxe vai perder pontos preciosos. Façam frases curtas e seguras!
Resposta:
De
acordo com o narrador, o reinado de D. Duarte não foi um período feliz ou
afortunado.
Por um
lado, o texto justifica esta visão destacando a alternância inevitável entre
momentos bons e maus que marcou este período, evidenciando que a felicidade e a
tristeza se foram sucedendo («Que assi vai alternando o tempo iroso / O bem co
mal, o gosto co a tristeza.» – vv. 3 e 4).
Por
outro lado, o narrador sublinha a inconstância e a falta de estabilidade da
Sorte («Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?» – v. 6), constatando que essa
mesma instabilidade da Fortuna se abateu de forma particularmente severa e
cruel no reinado deste monarca específico, o que é comprovado nos versos finais
da estância («Pois inda neste Reino e neste Rei / Não usou ela tanto desta
lei?» – vv. 7 e 8)."
Desconstruindo o exame nacional de Português 2025 - 1.ª fase
Grupo I
Pergunta 3.
Pergunta 4.
Pergunta 5.
Pergunta 6.
Pergunta 7.
Grupo II
Pergunta 1.
Pergunta 2.
Pergunta 3.
Pergunta 4.
Pergunta 5.
Pergunta 6.
Pergunta 7.
Grupo III
sábado, 13 de junho de 2026
Análise da cena I do ato I de Leandro, Rei da Helíria
Nesta
primeira cena, a ação não é marcada por grandes movimentações físicas ou
batalhas, mas sim por um intenso confronto psicológico e verbal entre
duas personagens centrais: o Rei Leandro e o seu Bobo. Para facilitar a tarefa
de análise da cena, vamos dividi-la em cinco momentos-chave.
O
primeiro põe-nos em contacto com o leit-motif da ação: o estranho
sonho do Rei. A cena inicia-se no jardim do palácio de Helíria, com um
passeio aparentemente tranquilo, mas a ação arranca imediatamente com a
inquietação do Rei Leandro, que teve um "estranho sonho". Reparemos
que o monarca está obcecado com ele, afirmando que "nada há no mundo mais
importante do que um sonho". Para o soberano, os sonhos não são meros
devaneios, mas sim "recados dos deuses", que estão longe e comunicam
desta forma enigmática. Este sonho é o verdadeiro motor de toda a ação desta
cena e dita o estado de espírito fragilizado do Rei.
O
segundo corresponde a um contraste social. Enquanto Leandro divaga sobre
deuses e sonhos, o Bobo atua como a sua âncora à dura realidade. A ação avança
através deste contraste (um jogo de opostos). Quando o Rei fala da eternidade
das noites e da importância dos sonhos, o Bobo contrapõe com as necessidades
mais básicas da condição humana: o cansaço do trabalho constante a lidar com as
filhas do rei (Hortênsia e Amarílis), a fome ("um bom prato de favas com
chouriço") e o frio que "enregela os ossos". O Bobo chega a
ironizar que os sonhos são "um luxo, um desperdício" reservado apenas
aos grandes fidalgos.
A
meio da cena, a ação suspende-se, a luz foca-se apenas no Bobo, e ele dirige-se
diretamente a nós, público (na plateia). Através deste recurso, o Bobo
questiona a desigualdade social, lembrando que sangra, chora e que nasceu
"igualzinho ao rei", sublinhando que, na morte, todos iremos para
debaixo da terra. "tão morto estarei eu como qualquer deles". Esta
pausa na ação serve para nos alertar para a humanidade e sabedoria escondidas
por detrás das vestes de um "pobre louco".
De
seguida, a ação retoma e atinge o seu pico quando o Rei, sentindo o peso da
coroa, desabafa que gostava de estar no lugar do Bobo, "sem preocupações,
sem responsabilidades". É a sugestão irónica do Bobo (de lhe entregar os
seus farrapos em troca do manto, coroa e cetro) que funciona como um gatilho
para a memória do soberano. Com grande agitação (como indica a didascália), o
Rei revela finalmente o conteúdo do sonho: viu-se no chão, a tentar correr sem
sair do sítio, perdendo a coroa, o manto e o cetro (os símbolos do seu poder),
enquanto ouvia gargalhadas e sentia muito frio. Levado ao limite da sua
vulnerabilidade, o Rei confessa ao ouvido do Bobo: "Tenho medo!".
1.º)
A perda do poder e da identidade: o Rei descreve o seu sonho: "A
coroa... o manto... o cetro... tudo no chão". Estes são os três símbolos
máximos da realeza. Ao vê-los caídos e "sempre mais longe, mais
longe", o sonho está a prefigurar a perda do seu reino, da sua autoridade
e da sua própria dignidade enquanto monarca e pai. Ele será despojado de tudo o
que lhe confere esse estatuto.
2.º)
A Impotência perante o destino: no sonho, Leandro vê-se "a correr, mas
sem poder sair do mesmo sítio". Esta imagem sufocante reflete a...
A análise completa da cena pode ser lida aqui: »»».
