Português

domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A literatura popular e a língua portuguesa

    A Península Ibérica é um território habitado desde sempre, facto atestado pelos vestígios das mais antigas indústrias, do paleolítico inferior à idade dos metais, nela encontrados, os quais não deixam dúvidas de que foi ocupada por toda a espécie de seres humanos, desde os pitecantropídeos ao "homo sapiens".
    Depois desses seres primitivos, aqui chegaram há mais de 3000 anos muitos outros povos: lígures, celtas, iberos, fenícios, gregos, cartagineses. Posteriormente, no final do século III a.C., os romanos invadiram a P.I., o mesmo sucedendo, no séc. V d.C., povos germânicos (vândalos, alanos, suevos e visigodos). Em 711, foi a vez dos árabes a ocuparem, refugiando-se nas Astúrias os godos, que não quiseram submeter-se ao domínio muçulmano. Aí, constituíram um reino cristão, a partir do qual se organizou a Reconquista cristã, uma guerra longa, porfiada e tormentosa que durou mais de sete séculos, vindo a terminar com a conquista de Granada, em 1492, pelos reis católicos Fernando e Isabel.
    Os reinos e estados peninsulares, entre os quais Portugal, resultam da mestiçagem de todos estes povos e estas culturas.
    Que língua ou línguas falavam esses povos? Cada um deles teria a sua, mas a dominante, após a conquista romana, foi o latim vulgar ("sermo vulgaris"). Desses antigos idiomas, restam poucos vestígios. Um caso especial é o da escrita ibérica, não totalmente decifrada, copiosamente representada em inscrições tumulares de cemitérios da Idade do Ferro, situadas predominantemente a sul da península.
    O latim vulgar, trazido pelos soldados e pelos colonos romanos foi-se transformando, pouco a pouco, na boca dos falantes peninsulares, em contacto com as línguas dos povos pré-existentes e dos invasores, até se converter num falar românico, o romance, que, consoante regiões e povos, se individualizou em vários dialetos.
    No território que viria a ser Portugal, distinguiam-se dois tipos de romance: o situado a Norte do rio Douro, incluindo a Galiza, e o do Sul. Aquando da dominação sarracena, que apenas episodicamente atingiu o noroeste da P.I., as diferenças entre as duas linguagens acentuaram-se. A do Norte ficou conhecida por galego-português, enquanto a do Sul por romance moçarábico ou lusitano-moçárabe, por ser a dos cristãos que viviam sob domínio árabe. Do contacto dos dois dialetos, estabelecido após a Reconquista ter descido abaixo do Mondego e do Tejo, nasceu o português.
    Até meados do século XII, falou-se uma língua e escreviam-se duas. Os clérigos possuidores de instrução escreviam em latim menos apurado que o clássico, daí a denominação de baixo ou medieval; os documentos oficiais, como, por exemplo, testamentos, contratos ou doações, eram redigidos num latim estropiado, a que se dá o nome de bárbaro ou tabeliónico. Ora, é da mistura com este latim que aparecem, desde o século IX, as primeiras palavras portuguesas. No entanto, textos inteiros em português chegaram até nós apenas do século XII em diante.
    A linguagem escrita implica uma disciplina e uma obediência a regras de que a popular está livre, daí a progressiva separação entre um português literário, influenciado pelos modelos latinos, e o português popular que mal conhecemos.
    O galego-português, a língua comum de portugueses e galegos que, durante séculos, foi uma só, foi-se dividindo em duas com a separação política, evolução consumada no século XVI, não obstante existir uma parte nuclear comum.

Na aula (LXVII): o amor virtual de Simão Botelho e Mariana

    Em Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco inovou e construiu dois triângulos amorosos: Simão - Teresa - Mariana e Simão - Teresa - Baltasar Coutinho.

    Em determinada aula, fala-se sobre o amor de Mariana por Simão, e o professor clarifica que não há contacto físico no sentido conjugal entre ambos:

    - Um amor sem contacto físico... Como é que se chama?

    - Virtual - responde, toda lampeira, a Maria Luís.

    São os novos tempos e os novos amores.

Na aula (LXVI): o naufrágio que vitimou Romeu e Julieta

    A propósito da Conclusão de Amor de Perdição, fala-se em Romeu e Julieta, de Shakespeare, e o seu final. Para os menos versados nestas coisas da Literatura, talvez seja adequado relembrar que Romeu encontra a amada aparentemente sem vida no túmulo da  família e que, desesperado, ingere veneno e morre ao seu lado. Na realidade, a jovem tinha tomado uma poção que a fazia parecer morta temporariamente. Quando desperta e vê o noivo morto, mata-se com um punhal.

    Pois bem, mal o professor recorda este desfecho, solta-se a voz tonitruante da Maria Luís:

    - Mas eles não tinham morrido num barco?

    - Isso era o Titanic - esclareceu a Maria Eduarda Coimbra.


    Ficámos esclarecidos.

Na aula (LXV): o dia em que o verbo mudou de classe

     - Qual é o adjetivo presente na frase?

    - O adjetivo é «soluçando».


    A nova especialista em gramática da língua portuguesa chama-se Diana Gonçalves.

Na aula (LXIV): pensamentos ilegítimos

    Lê-se o terceiro ato de Frei Luís de Sousa. Nesta fase, Telmo mostra-se arrependido. O professor questiona a razão do arrependimento.

    A resposta surge pela voz da Diana Gonçalves:

    - Telmo sente-se arrependido por dizer que Madalena é filha ilegítima.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 1

Pergunta: "Releia o primeiro parágrafo do excerto extraído de Memorial do Convento. Explicite o dilema com o qual Baltasar se debate, tendo em conta tanto a sua condição física como a sua condição económica."

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado (Ler com a caneta)

    1. O Limite de Pesquisa (Onde?): "Releia o primeiro parágrafo do excerto extraído de Memorial do Convento" Regra: O foco da resposta deve centrar-se exclusivamente no primeiro parágrafo do texto de José Saramago. O aluno não deve procurar informações no segundo parágrafo (onde Baltasar está no mercado do peixe), nem tão-pouco no excerto de O Ano da Morte de Ricardo Reis
    2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Explicite" Regra: este verbo exige que o aluno explique a situação por palavras próprias. Não basta transcrever pedaços de texto; é preciso demonstrar compreensão.
    3. O Assunto (O quê?): "o dilema com o qual Baltasar se debate" Regra: Um "dilema" é uma escolha difícil entre duas alternativas. O aluno tem de identificar de imediato quais são os dois caminhos possíveis que deixam a personagem indecisa.
    4. A Quantidade / A Condição Obrigatória (Como provar?): "tendo em conta tanto a sua condição física como a sua condição económica" Regra: Embora o enunciado não diga numericamente "duas ideias", a expressão correlativa "tanto... como..." obriga o aluno a justificar esse dilema baseando-se exatamente em duas vertentes: a falta de capacidade física e a falta de dinheiro.

Passo 2: A Recolha de Dados

    Sabendo o que procurar (as duas opções do dilema cruzadas com as duas condições de Baltasar), o aluno vai ao texto e extrai os tópicos validados pelos critérios:

  • A Base do Dilema: Baltasar encontra-se com pouco dinheiro e não sabe para onde ir.
  • Recolha 1 (Opção A + Condição Física): A primeira alternativa seria ir para Mafra, a sua terra natal, para se dedicar à agricultura. Contudo, a sua condição física é um obstáculo: a perda da mão esquerda na guerra impede-o de «pegar numa enxada».
  • Recolha 2 (Opção B + Condição Económica): A segunda alternativa seria ir ao paço real. Motivado pela sua fraca condição económica, pondera ir pedir uma esmola pela mão/sangue perdido na guerra. Porém, depara-se com as dificuldades desse caminho, já que sabe que exigiria muito tempo e o "empenho de padrinhos" para conseguir o dinheiro do rei.
Passo 3: A Construção da Resposta

    Aplicando uma redação estruturada com conectores lógicos, o aluno escreveria algo como:

  • [Introdução Direta] O dilema vivido por Baltasar prende-se com a indecisão sobre o caminho a seguir, visto que tem pouco dinheiro e não sabe para onde ir.
  • [Conetor 1 + 1.ª Opção e Condição Física] Por um lado, pondera regressar a Mafra para trabalhar na agricultura. No entanto, a sua condição física inviabiliza esta opção, uma vez que a perda da mão na guerra o impede de segurar numa enxada e trabalhar a terra.
  • [Conetor 2 + 2.ª Opção e Condição Económica] Por outro lado, tendo em conta a sua condição económica precária, equaciona dirigir-se ao paço real para pedir esmola pelos sacrifícios feitos na guerra. Contudo, hesita perante as exigências burocráticas e a necessidade de arranjar padrinhos que o ajudem a obter o sustento do rei.


    O processo mental de "caça à informação" faz-se seguindo as pistas deixadas pelo próprio José Saramago:
1. Encontrar a base do dilema e a condição económica Ao ler a primeira frase do texto, o aluno depara-se imediatamente com isto: «Com pouco dinheiro no bolsilho [...] tinha Baltasar de resolver que passos daria a seguir».
  • O que o aluno pensa: "Ok, já encontrei a condição económica (ele está quase sem dinheiro) e percebi o núcleo do dilema: ele está indeciso, tem de tomar uma decisão e 'resolver que passos' dar a seguir no seu percurso.
2. Descobrir a 1.ª opção e a condição física: logo a seguir a dizer que tem de "resolver que passos daria", o texto introduz as duas alternativas separadas pela palavra "se". A primeira é: «se a Mafra onde não poderia a sua única mão pegar numa enxada que requer duas».
  • O que o aluno pensa: "A primeira opção do dilema é regressar à sua terra, Mafra, para ser agricultor. Mas está aqui a condição física pedida na pergunta: ele não tem uma das mãos e uma enxada precisa de duas. Logo, ele está incapacitado fisicamente para esta opção.
3. Descobrir a 2.ª opção e os seus obstáculos: na mesma frase, o aluno lê a segunda alternativa do dilema de Baltasar: «se ao paço onde talvez lhe dessem uma esmola por conta do sangue perdido.». E continuando a leitura, depara-se com as dificuldades dessa opção: «dizendo que era necessário pedir muito e por muito tempo, com muito empenho de padrinhos».
  • O que o aluno pensa: "A segunda opção é ir pedir dinheiro/esmola ao paço do Rei, sustentado na sua falta de dinheiro e na mão que perdeu. Mas ele está indeciso porque ir pedir ao rei não é garantido: demora muito tempo e exige 'padrinhos' (conhecimentos/cunhas).


Resposta:

    O dilema com o qual Baltasar se debate prende-se com a hesitação sobre o caminho a tomar para garantir o seu sustento, uma vez que se encontra «Com pouco dinheiro no bolsilho».
    Por um lado, pondera regressar à sua terra natal, Mafra, para trabalhar na agricultura. No entanto, a sua condição física é um obstáculo que inviabiliza esta alternativa, visto que a perda de uma das mãos na guerra o impede de «pegar numa enxada que requer duas».
    Por outro lado, motivado pela sua precária condição económica, equaciona dirigir-se ao paço real para pedir esmola «por conta do sangue perdido» na guerra. Contudo, também hesita em seguir esta via, pois tem consciência de que é um processo demorado, incerto e que exigiria «muito empenho de padrinhos» para conseguir o apoio financeiro do rei."

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase

Grupo I

    Pergunta 1.

    Pergunta 2.

    Pergunta 3.

    Pergunta 4.

    Pergunta 5.

    Pergunta 6.

    Pergunta 7.


Grupo II

    Pergunta 1.

    Pergunta 2.

    Pergunta 3.

    Pergunta 4.

    Pergunta 5.

    Pergunta 6.

    Pergunta 7.


Grupo III

terça-feira, 16 de junho de 2026

Correção do Exame Nacional de Português 12.º ano 2026 - 1.ª fase

Exame Nacional de Português - 12.º ano - 2026 - 1.ª fase

Desconstruindo o exame nacional de Português 2025 - 1.ª fase: Pergunta 2

Pergunta 2: "Releia as estâncias 52 e 53. Explicite duas características de D. Fernando, fundamentando a sua resposta em informações presentes nas estâncias mencionadas."

 

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado (Ler com a caneta)

O aluno deve dividir o enunciado em 5 peças fundamentais para perceber as "regras do jogo" impostas pelo IAVE:

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): "Releia as estâncias 52 e 53" → Regra: É estritamente proibido retirar informações da estância 51. O raio de visão foca-se apenas nas duas últimas estrofes.
  2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Explicite" → Regra: O verbo de comando muda aqui. É "Explicite". Isto é um alerta sonoro para o aluno: não basta identificar ou copiar versos; é obrigatório explicar a ideia por palavras próprias. O assunto é retirar traços do perfil (características) de D. Fernando.
  3. O Assunto (O quê? O que me é pedido?): "características de D. Fernando" → Regra: Procurar adjetivos ou qualidades morais/psicológicas do infante.
  4. A Quantidade (Quantas coisas me são pedidas?): "duas" → Regra: A resposta terá obrigatoriamente de ser dividida em duas metades lógicas. Mas há um detalhe crucial a sublinhar: a palavra "fundamentando". Isto significa que cada característica que o aluno explicar terá de ser obrigatoriamente comprovada com citações do texto.
  5. A Condição Obrigatória (Como provar?): "fundamentando a sua resposta..." → Regra: Cada característica explicada por palavras do aluno tem de ser acompanhada por uma citação exata do texto (entre aspas e com a identificação dos versos).

 

Passo 2: A Recolha de Dados (A caça às características)

Sabendo exatamente o que procurar, o aluno vai às estâncias 52 e 53 recolher apenas duas provas (os Tópicos de Resposta do IAVE):

o    Mas há um detalhe crucial a sublinhar: a palavra "fundamentando". Isto significa que cada característica que o aluno explicar terá de ser obrigatoriamente comprovada com citações do texto.

 

Passo 3: A "Fórmula" da Resposta

Para garantir clareza máxima e todos os pontos na estruturação do discurso, o aluno aplica os dados recolhidos numa estrutura fixa de preenchimento (como se fosse uma receita):

 

  • A 1.ª Característica: Na estância 52, o aluno lê que ele se entregou como cativo "por salvar o povo miserando" (v. 11) e repara no verso final da estrofe: "Mais o público bem que o seu respeita" (v. 16). O que chamamos a alguém que abdica do seu bem-estar em prol dos outros? Altruísta ou abnegado. Eis a primeira característica oficial validada pelos critérios do IAVE.
  • A 2.ª Característica: Ainda na estância 52, surge os versos "Só por amor da pátria está passando / A vida..." (v. 13-14). Isto dá-nos de caras a segunda característica valorizada pelo corretor: o patriotismo ou amor à pátria.
  • A 3.ª característica: Se o aluno olhasse para a estância 53, veria D. Fernando a ser comparado a figuras históricas da Antiguidade (Codro, Régulo, Cúrcio) que deram a vida pelas suas nações. Isto comprovaria o seu espírito de sacrifício ou a sua condição de mártir, que também constam na grelha de respostas aceites.

Passo 3: A Construção da Resposta (O "Esqueleto") Tendo as duas características e os versos que as provam, a redação torna-se mecânica e segura, utilizando conectores para guiar o corretor:

  1. Introdução Direta: O aluno contextualiza com uma frase simples. "Nas estâncias 52 e 53, o narrador apresenta-nos a figura do infante D. Fernando.".
  2. Apresentar a 1.ª Característica + Fundamentação ([Conetor 1] + [Característica 1] + [Explicação] + [Fundamentação]): Usar o conetor de início. "Por um lado, D. Fernando revela um profundo altruísmo (ou abnegação), uma vez que abdica da sua própria liberdade e segurança e é capturado para beneficiar e salvar o povo português..." e prova logo a seguir abrindo aspas: («Que, por salvar o povo miserando / Cercado, ao Sarraceno se entregava» – vv. 11-12).
  3. Apresentar a 2.ª Característica + Fundamentação ([Conetor 2] + [Característica 2] + [Explicação] + [Fundamentação]): Usar o conetor de adição. "Para além disso, demonstra um forte patriotismo (ou amor à pátria), pois sujeita-se a uma vida de escravidão apenas para garantir que a pátria portuguesa não perde a praça de Ceuta..." e volta a provar com o texto: («Só por amor da pátria está passando / A vida, de senhora feita escrava» – vv. 13-14).

 

Resposta:

 

                Nas estâncias 52 e 53, o narrador apresenta-nos traços marcantes do perfil do infante D. Fernando.

                Por um lado, o Infante revela um profundo altruísmo (ou abnegação), uma vez que abdica da sua própria liberdade e segurança em prol da salvação do seu povo, como se comprova através dos versos «Que, por salvar o povo miserando / Cercado, ao Sarraceno se entregava» (vv. 11-12).

                Para além disso, demonstra um forte patriotismo (ou amor à pátria), pois sujeita-se a uma vida de escravidão apenas para garantir que a pátria portuguesa não perde o território de Ceuta («Só por amor da pátria está passando / A vida, de senhora feita escrava» - vv. 13-14).


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2025 - 1.ª fase: Pergunta 1

Pergunta 1: "Refira a opinião do narrador sobre o reinado de D. Duarte, tendo em conta duas ideias expressas na estância 51."

 

Vamos desconstruir isto passo a passo:

 

Passo 1: Ler o enunciado com «lupa» O que é que a pergunta nos está a exigir exatamente?

  1. Indicar a opinião do narrador sobre o reinado.
  2. Apresentar duas ideias que sustentem essa opinião.
  3. Focar a nossa análise exclusivamente na estância 51 (não precisamos, nem devemos, ir buscar informação à estância 52 ou 53 para esta pergunta).

 

Passo 2: Descodificar a Estância 51 (A Leitura Atenta) Vamos ler a estância como se fosse um texto normal, fluído, e procurar entender o vocabulário, que é a primeira grande barreira.

  • «Não foi do Rei Duarte tão ditoso / O tempo que ficou na suma alteza». Se não sabem o que significa "ditoso", pensem no contexto: o narrador está a dizer que o tempo (o reinado) de D. Duarte não foi muito "ditoso" (feliz, afortunado). Logo aqui temos a nossa tese: a opinião do narrador é a de que o reinado não foi feliz.
  • «Que assi vai alternando o tempo iroso / O bem co mal, o gosto co a tristeza.». O que justifica esse reinado infeliz? O narrador diz que um tempo "iroso" (mau, zangado) vai alternando coisas boas e más. Aqui temos a nossa primeira ideia: a alternância inevitável entre tempos de felicidade e tempos de infelicidade.
  • «Quem viu sempre um estado deleitoso? / Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?». Temos aqui perguntas retóricas para nos fazer pensar num facto. "Firmeza" significa estabilidade. Ou seja, alguma vez viram a sorte/Fortuna ser estável? Não. Aqui temos a nossa segunda ideia: a instabilidade e inconstância da Fortuna.

 

Passo 3: Estruturar a Resposta (O "Esqueleto") Agora que já fomos ao texto "pescar" as ideias que os critérios de correção exigem, temos de organizar a nossa resposta. Uma resposta de exame não pode ser uma lista de tópicos soltos. Lembrem-se de que os critérios avaliam a vossa estruturação do discurso e coesão textual.

Eu aconselho sempre a seguinte estrutura lógica:

  1. Tese (Afirmação inicial): Comecem com uma frase clara e direta a responder à primeira parte da pergunta. Exemplo de estrutura: "De acordo com o narrador, o reinado de D. Duarte..."
  2. Primeiro Argumento (1.ª Ideia) + Citação: Usem um conetor para introduzir a primeira ideia. Exemplo: "Por um lado, o narrador constata que..." e depois explicam a ideia por palavras vossas, comprovando imediatamente com a citação do texto (entre aspas e indicando os versos).
  3. Segundo Argumento (2.ª Ideia) + Citação: Usem outro conetor lógico. Exemplo: "Por outro lado, o texto salienta a ideia de que..." Explicam a segunda ideia e colocam a respetiva citação.

 

Passo 4: Cuidados Finais e Revisão

  • Atenção às transcrições: Não se esqueçam de que o texto é um poema. Quando transcrevem mais do que um verso seguido, devem usar uma barra oblíqua (/) para separar os versos. Se não cumprirem as regras de citação, podem ser penalizados na correção linguística (Erro de Tipo A).
  • Não inventem parágrafos desnecessários: Os critérios referem que não são obrigados a fazer um parágrafo de introdução e um de conclusão num item de resposta restrita, a não ser que mudem drasticamente de unidade de sentido. Basta um texto fluído, bem oleado com conetores lógicos ou sinais de pontuação corretos.
  • Correção Linguística: 3 dos 13 pontos desta pergunta são inteiramente dedicados à correção linguística. Uma resposta genial com muitos erros ortográficos ou de sintaxe vai perder pontos preciosos. Façam frases curtas e seguras!

 

Resposta:

 

                De acordo com o narrador, o reinado de D. Duarte não foi um período feliz ou afortunado.

                Por um lado, o texto justifica esta visão destacando a alternância inevitável entre momentos bons e maus que marcou este período, evidenciando que a felicidade e a tristeza se foram sucedendo («Que assi vai alternando o tempo iroso / O bem co mal, o gosto co a tristeza.» – vv. 3 e 4).

                Por outro lado, o narrador sublinha a inconstância e a falta de estabilidade da Sorte («Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?» – v. 6), constatando que essa mesma instabilidade da Fortuna se abateu de forma particularmente severa e cruel no reinado deste monarca específico, o que é comprovado nos versos finais da estância («Pois inda neste Reino e neste Rei / Não usou ela tanto desta lei?» – vv. 7 e 8)."



Desconstruindo o exame nacional de Português 2025 - 1.ª fase

Grupo I

    Pergunta 1.

    Pergunta 2.

    Pergunta 3.

    Pergunta 4.

    Pergunta 5.

    Pergunta 6.

    Pergunta 7.


Grupo II

    Pergunta 1.

    Pergunta 2.

    Pergunta 3.

    Pergunta 4.

    Pergunta 5.

    Pergunta 6.

    Pergunta 7.


Grupo III

sábado, 13 de junho de 2026

Análise da cena I do ato I de Leandro, Rei da Helíria

1. Ação
 

                Nesta primeira cena, a ação não é marcada por grandes movimentações físicas ou batalhas, mas sim por um intenso confronto psicológico e verbal entre duas personagens centrais: o Rei Leandro e o seu Bobo. Para facilitar a tarefa de análise da cena, vamos dividi-la em cinco momentos-chave.

                O primeiro põe-nos em contacto com o leit-motif da ação: o estranho sonho do Rei. A cena inicia-se no jardim do palácio de Helíria, com um passeio aparentemente tranquilo, mas a ação arranca imediatamente com a inquietação do Rei Leandro, que teve um "estranho sonho". Reparemos que o monarca está obcecado com ele, afirmando que "nada há no mundo mais importante do que um sonho". Para o soberano, os sonhos não são meros devaneios, mas sim "recados dos deuses", que estão longe e comunicam desta forma enigmática. Este sonho é o verdadeiro motor de toda a ação desta cena e dita o estado de espírito fragilizado do Rei.

                O segundo corresponde a um contraste social. Enquanto Leandro divaga sobre deuses e sonhos, o Bobo atua como a sua âncora à dura realidade. A ação avança através deste contraste (um jogo de opostos). Quando o Rei fala da eternidade das noites e da importância dos sonhos, o Bobo contrapõe com as necessidades mais básicas da condição humana: o cansaço do trabalho constante a lidar com as filhas do rei (Hortênsia e Amarílis), a fome ("um bom prato de favas com chouriço") e o frio que "enregela os ossos". O Bobo chega a ironizar que os sonhos são "um luxo, um desperdício" reservado apenas aos grandes fidalgos.

                A meio da cena, a ação suspende-se, a luz foca-se apenas no Bobo, e ele dirige-se diretamente a nós, público (na plateia). Através deste recurso, o Bobo questiona a desigualdade social, lembrando que sangra, chora e que nasceu "igualzinho ao rei", sublinhando que, na morte, todos iremos para debaixo da terra. "tão morto estarei eu como qualquer deles". Esta pausa na ação serve para nos alertar para a humanidade e sabedoria escondidas por detrás das vestes de um "pobre louco".

                De seguida, a ação retoma e atinge o seu pico quando o Rei, sentindo o peso da coroa, desabafa que gostava de estar no lugar do Bobo, "sem preocupações, sem responsabilidades". É a sugestão irónica do Bobo (de lhe entregar os seus farrapos em troca do manto, coroa e cetro) que funciona como um gatilho para a memória do soberano. Com grande agitação (como indica a didascália), o Rei revela finalmente o conteúdo do sonho: viu-se no chão, a tentar correr sem sair do sítio, perdendo a coroa, o manto e o cetro (os símbolos do seu poder), enquanto ouvia gargalhadas e sentia muito frio. Levado ao limite da sua vulnerabilidade, o Rei confessa ao ouvido do Bobo: "Tenho medo!".

                Por último, o Bobo adverte rapidamente o Rei de que um monarca não pode revelar medo, pois os reis não podem ficar "a-pa-vo-ra-dos". Imediatamente, a ação reflete uma mudança de atitude: Leandro afasta o Bobo, "retoma a sua dignidade real" e começa a gabar-se do seu exército, conselheiro e espiões para mascarar a sua fraqueza. A cena aproxima-se do fim quando o Bobo convence o soberano de que tudo não passou dos "efeitos desse maldito sonho", sugerindo que ele o esqueça. O Rei aceita esta fuga à realidade e a ação transita suavemente do medo para a alegria, justificada pela entrada em cena de Hortênsia e Amarílis, com as suas aias, a quem Leandro chama sorridente a "luz dos meus olhos".
 
 
                Como o sonho do Rei Leandro prefigura o destino da personagem?
 
                O sonho do Rei Leandro é um indício negativo, uma profecia que antecipa a sua desgraça. Vamos dissecar os elementos deste sonho, que o próprio monarca define como "recados dos deuses", e perceber como cada detalhe prefigura o seu destino. Reparemos nos quatro aspetos seguintes revelados na confissão do Rei.

                1.º) A perda do poder e da identidade: o Rei descreve o seu sonho: "A coroa... o manto... o cetro... tudo no chão". Estes são os três símbolos máximos da realeza. Ao vê-los caídos e "sempre mais longe, mais longe", o sonho está a prefigurar a perda do seu reino, da sua autoridade e da sua própria dignidade enquanto monarca e pai. Ele será despojado de tudo o que lhe confere esse estatuto.

                2.º) A Impotência perante o destino: no sonho, Leandro vê-se "a correr, mas sem poder sair do mesmo sítio". Esta imagem sufocante reflete a...


A análise completa da cena pode ser lida aqui: »»».

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Olise no PSG? Quando o sujeito é composto… mas o verbo foi sozinho


 

    Pois é, a malta do "Record" continua desconhecer as regras mais básicas da língua portuguesa: Gonçalo Ramos e Barcola são DOIS, pelo que a forma verbal ("está") JAMAIS poderia estar conjugada no singular, mas sim no plural: "ESTÃO".

    É o que temos... e é péssimo!
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