sexta-feira, 30 de outubro de 2015

"Ondas do mar de Vigo"

· Assunto: a donzela interpela as ondas sobre o paradeiro do amigo e o seu regresso, revelando o seu sofrimento e a sua angústia pela separação.


· Tema: o apelo da donzela ao mar, pretendendo saber novas do amigo.


· Estrutura interna

. 1.ª parte (2 primeiras estrofes / coblas) – O sujeito poético - a donzela - interpela / questiona as ondas do mar de Vigo sobre o paradeiro do amigo, que se encontra ausente (tema marítimo), visível na forma verbal “vistes” e no refrão “se verrá cedo”.

. 2.ª parte (3.ª e 4.ª estrofes / coblas) - Revelação dos sentimentos da donzela pelo amigo embarcado (tema amoroso).

            Semanticamente, cada par de coblas é muito semelhante. De facto, o segundo dístico de cada par repete, com ligeira variação, o conteúdo / a ideia do primeiro.
            A nível linguístico, observa-se a troca ou alteração de palavras ou expressões no final dos versos de cada par, sem que tal signifique uma mudança de sentido relativamente à estrofe ímpar.
            Se observarmos atentamente, concluiremos que, dentre os 12 versos que compõem a cantiga, apenas 4 diferente em termos semânticos: o 1, o 2, o 3 e o refrão.


· Estado de espírito do “eu lírico” – a donzela

            O estado de espírito da donzela é marcado pelos seguintes traços:
- saudade: “o por que eu sospiro” (v. 8);
- ansiedade: “se vistes meu amigo” (v. 2);
- agitação / inquietação;
- preocupação: “por que ei gran cuidado” (v. 11);
- amor.

            A estes podem acrescentar-se a dor da separação, a tristeza e o sofrimento pela ausência, a dúvida e a incerteza acerca do seu paradeiro, do seu regresso, do seu estado físico. Todos estes sentimentos revelam a sua coita de amor.


· Causas do estado de espírito:
a) a separação do seu amigo;
b) a demora dele;
c) a incerteza acerca da sua chegada e estado.


· Ambiente: natural, marítimo (o mar).


· Relação entre o estado de espírito do «eu» e o ambiente

            A donzela encontra-se sozinha junto ao mar (note-se que, na Poesia Trovadoresca, o trovador designava por «mar» aquilo que atualmente chamamos «rio» ou «baía»), observando-o, mar esse que lhe parece cada vez mais agitado, espelhando essa visão / imagem o seu estado de espírito (cada vez mais agitado também) e as suas emoções, como se pode constatar pelo verso 11.


· Papel das ondas do mar:
            -» confidente;
            -» cenário;
            -» mensageiras.

            As ondas são um elemento essencial na construção do ambiente / cenário.
            Além disso, constituem o confidente a quem a menina se dirige, expressando os seus sentimentos e emoções, as suas dúvidas sobre o paradeiro do amigo, e que questiona sobre a sua chegada.


· Simbologia:

a) Ondas:
- traduzem o tumulto interior da donzela;
- são o seu confidente, em substituição da mãe ou amiga.

b) Mar:
- confidente (as ondas);
- a causa da separação física, o obstáculo que se interpõe entre a donzela e o amigo;
- apresenta-se com ondas, revolto e bravo, constituindo assim um obstáculo acrescido;
- terá sido por ele que o amado da jovem terá partido, daí que ela lá se encontre, esperando o seu regresso.


· Esquema actancial


· Esquema estrutural da cantiga


· Recursos poético-estilísticos

1.º) Nível fónico
. Estrofes
- (isométricas): dois versos hexassílabos (seis sílabas) + refrão ® terceto;
- quatro coblas em dísticos e um refrão monóstico.
. Rima      - esquema rimático: AAR / BBR;
- emparelhada;
- consoante ("Vigo" / "amigo") e toante ("amigo" / "sospiro");
- grave;
- rica ("levado" / "amado") e pobre ("Vigo" / "amigo").
. Refrão: o refrão atesta a existência de um coro. A disposição das estrofes aos pares e a alternância das rimas ao longo da composição (ver paralelismo) deixam antever que se alternavam dois cantores ou dois grupos de cantores.
       No caso presente, pelo seu caráter repetitivo (a repetição de um verso exclamativo, expressivo da saudade e da inquietação da donzela), realça o estado de espírito da donzela, acentuando o seu sofrimento, a sua ansiedade e angústia, e sugere a espera do amigo. Neste contexto, há que destacar o valor semântico da locução interjetiva “ai Deus”, que constitui uma espécie de desabafo e de interpelação direta de Deus no sentido de que o amigo regresse rapidamente e bem.
       Por outro lado, o refrão possui um valor documental inequívoco, pois reflete o clima de grande religiosidade da época e sugere a transmissão oral das cantigas, daí a sua natureza repetitiva.
. Metro: versos hexassílabos (6 sílabas).
. Aliteração: som v, sugerindo o movimento das ondas do mar e o tumultuar dos sentimentos da donzela, a sua instabilidade;
a sibilante s indica a continuidade da espera.
. Sons dominantes: os fonemas fechados transmitem sofrimento e tristeza.
. Assonância: alternância i / a.


2.º) Nível morfossintáctico
. Fórmula de juramento "ai Deus" e a interjeição "ai" revelam o sofrimento da donzela e reflectem a espiritualidade do ser medieval.
. Substantivos:
- "amigo" e "amado" remetem para o namorado ausente;
- "ondas", "mar", "Vigo", servem para localizar espacialmente os acontecimentos e para revelar o que separa a donzela do amigo  -  o mar  - , por onde ele partiu. Semanticamente, dada a proximidade / comunhão entre a donzela e as ondas do mar, os substantivos "ondas" e "mar" simbolizam o seguinte:
- espelho do mundo interior da donzela, agitado pela preocupação da demora do amigo e pela grande ânsia e saudade;
- local de refúgio (complexo da "grande-mãe"), espécie de seio ou colo maternal acolhedor.
. Adjectivo "levado" caracteriza o estado alteroso do mar.
. Verbos:
- presente: a separação da donzela do amigo e a sua inquietação e ansiedade;
- futuro: o desejo de que volte e o torne a ver.
. Advérbio "cedo" indica a ansiedade da donzela relativamente ao regresso do amigo.
. Frases exclamativas revelam a emoção da donzela: saudade, inquietação, etc. (ver caracterização).
. Frases interrogativas indirectas e exclamativas + interjeição "ai" + vocativo exprimem de forma veemente os sentimentos da jovem; enfatizam o seu estado de espírito de dúvida e inquietação.
. Frases condicionais ("Se vistes meu amigo / Se vistes meu amado").
. Anáfora.
. Sinonímia: Vigo / levado;
amigo / amado.
. Leixa-prem.
. Paralelismo[1]
- semântico: revela a simplicidade da jovem e apresenta variedades da mesma realidade: amigo / amado; mar de Vigo / mar levado;
- anafórico / estrutural: revela simplicidade e espontaneidade e a obsessão da menina ("se vistes meu...");
- perfeito.
            De facto, o número de coblas da cantiga é par; o primeiro dístico emparelha como segundo, mudando a palavra rimante. No terceiro dístico, o 1.º verso retoma o sentido do 2.º do primeiro dístico («leixa-prem»), acrescentando um novo. O mesmo se passa no quarto dístico: o 2.º verso do 2.º dístico é retomado e repete-se com variação no 2.º verso do 3.º dístico.
. Funções da linguagem:
-» emotiva / expressiva -> apresenta os sentimentos da donzelinha:
. adjetivos;
. exclamações;
. interrogações;
. vocativos;
. interjeições;
-» poética:
. recursos estilísticos.


3.º) Nível semântico
. Personificação das ondas atribui qualidades humanas às ondas do mar, conferindo-lhes o estatuto de confidentes e mensageiras, funcionando o mar também como cenário.
. Apóstrofe: interpelação das ondas, reveladora da inquietação e da saudade, exprime a espontaneidade sentimental e amorosa da donzela.
. Gradação: apresentação gradual e progressiva dos sentimentos da donzela, exprimindo a dor e o desespero pela demora, para culminar na expressão do sentimento fundamental -> a saudade.
. Exclamação.




· Classificação: cantiga de amigo, visto que o sujeito lírico é feminino / uma mulher (a donzela) que exprime os seus sentimentos.

a) Quanto ao tema: barcarola ou marinha (cantiga que contém referências ao mar);

b) Quanto à forma:
- paralelística perfeita;
- de refrão.


· Valor documental

            Esta cantiga pertence ao subgénero da marinha ou barcarola.
            As barcarolas ou marinhas são originárias da parte ocidental da Península Ibérica (Portugal e Galiza) e documentam as tendências naturais e o modo de vida de um povo criado à beira-mar. Reflectem também as necessidades de defesa costeira na luta contra os mouros.
            A sua simplicidade reflecte a verdadeira origem popular e a sinceridade e espontaneidade emotivas das donzelas, em relação ao amado ou amigo.




[1] Paralelismo perfeito: artifício da lírica trovadoresca que consiste na construção da cantiga através da repetição do segundo verso da primeira cobla, com o primeiro verso da terceira cobla e assim sucessivamente.
Paralelismo anafórico ou estrutural: construção simétrica de dois versos. Exemplo: Se vistes meu amigo / Se vistes meu amado.
Paralelismo semântico: construção de versos com o mesmo sentido ou aproximado. Exemplo: Se vistes meu amigo / Se vistes meu amado.

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