quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Discurso e gramática no 'Livro do Desassossego'

1. O Livro do Desassossego é uma sucessão de fragmentos desconectados, em que a sequência da paginação não é indicativa da ordem de leitura. No entanto, Pessoa atribui-lhe a designação de «livro».
Mas um «livro», no sentido comum, é um macrotexto. Como tal, seria de esperar encontrar aí uma malha complexa de tópicos entrosados, em progressão rumo a uma conclusão.
Ora, o Livro do Desassossego tem reconhecidamente um carácter diarístico – mais marcado numa fase de redação tardia (a partir de 1930) e, portanto, o que temos é representação fragmentária, desordenada, heterogénea de um mundo interior.
Este é um «livro» como um diário é um livro, um livro de anotações. Mas o que é importante notar é a conformidade desta fragmentação do discurso com a própria representação do eu (ou dos vários eus).

Há algumas passagens de carácter metatextual em que isso mesmo é explicitado:
. «(…) eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também» (p. 105).
. «Imperfeito» significa «não acabado»/«não terminado»/«incompleto»: discurso e sujeito representado são uma e a mesma coisa.
. «Este livro é um gemido» (p. 333).
. «E pergunto (...) de que me serviu encher tantas páginas de frases em que acreditei como minhas, de emoções que senti como pensadas, de bandeiras e pendões de exércitos que são, afinal, papéis colados com cuspo pela filha do mendigo debaixo dos beirais» (p. 353).

Paralelamente, não é difícil fazer o levantamento de trechos que apresentam uma forte coesão interna: a uma frase genérica (em jeito de mote), que encabeça um fragmento, segue-se uma elaboração (paráfrase), onde tomam assento diferentes atos de composição textual:

. explicação/exemplificação:

– ativação de conector: «O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela» (p. 174).

– retoma por repetição lexical ou recuso a expressões correferenciais: «O entusiasmo é uma grosseria./A expressão do entusiasmo é, mais do que tudo, uma violação dos direitos da nossa insinceridade. (...) Exteriorizar emoções é mais persuadirmo-nos de que as temos do que termo-las» (p. 200).

– retoma através de quantificadores universais: «Agir é exilar-se. Toda a ação é incompleta e imperfeita» (p. 274).

. exemplificação/particularização: «Conviver é morrer. Para mim, só a minha autoconsciência é real; os outros são fenómenos incertos nessa consciência» (p. 198).

. reorientação: «A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. (...) Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio» (p. 239).

. questionação: «A renúncia é a libertação. Não querer é poder./Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado?» (p. 132).

É exatamente por aqui que se pode entrever alguma unidade macroestrutural: não tanto pela recorrência da estrutura interna de cada trecho, como referi, mas pelas intercorrespondências de crenças e estados (contradições) de alma, como sejam a abdicação da vida e a vivência pelo sonho, a gratuitidade e o poder gerador da escrita, a consciência de si até à autoanulação: «Sou uma prateleira de frascos vazios» (p. 179).


2. Vale a pena, então, debruçarmo-nos sobre o papel destas máximas, que será o de marcação ou separação de cada uma desses fragmentos.

O enunciado genérico redime sob um conceito único características e factos comuns observados em múltiplos objetos singulares e, ao ser proferido, estende esse conceito a uma classe de objetos possíveis.
Atendendo à realização linguística do enunciado genérico, há a assinalar as seguintes características:

• do ponto de vista do léxico:
- seleção de nomes comuns abstratos;
- nomes massivos;
- nomes de carácter hiperonímico;
- expressões de referência a espécie;

• do ponto de vista da sintaxe e da semântica:
- processos de aspetualização (P é sempre verdadeiro);
- dominância do presente simples que faculta a transição de um evento para um estado iterativo, habitual ou estativo (a importância dos enunciados estativos está no facto de estes, ao serem construídos na base de um certo número de ocorrências de um evento, permitem atribuir qualidades);
- advérbios frequenciais;
- ausência de artigo definido; este, quando ativado, implica necessariamente referência a espécie;
- processos de modalização (P é necessariamente verdadeiro);
- modalidade deôntica: produção de um enunciado que se apresenta como incontestável.
- processos de quantificação (X vale por X);
- quantificadores universais;
- pronomes indefinidos;
- frases não finitas;
- 1.ª pessoa plural.

• do ponto de vista da pragmática:
- o carácter normativo: a frase genérica não apela a uma justificação da ordem da estatística; o enunciado genérico tem força de norma.

Alguns exemplos:

. "Tudo o que dorme é criança de novo." (p. 92);
. "Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre." (p. 408);
. "Todos os problemas são insolúveis." (p. 123);
. "Nunca amamos alguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém." (p. 125);
. "A alma humana é um abismo obscuro e viscoso (...)" (p. 226);
. "A força sem a destreza é uma simples massa." (p. 229);
. "A arte é um esquivar-se a agir (…) " (p. 210);
 " A fé é o instinto da acção." (p. 260);

. "Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar de fazer também amanhã." (p. 403);

. "Conviver é morrer." (p 198);
. "Explicar é descrer." (p.199);
. "Escrever é esquecer." (p.128).

. "(…) a gramática é um instrumento, e não uma lei." (p. 104);
. "Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos." (p. 210).


3. Algumas destas passagens acusam uma reflexão profunda sobre a língua - a que Pessoa/Soares chama de "psicologia verbal" (p. 94). Esta reflexão percorre vários domínios.

. Fonética:
- " Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo - é impossível ocultar-lhes o som - é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente." (p. 158);
- "As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (p. 229);
"A palavra é completa vista e ouvida." (p. 231).

. Sintaxe:
. "Há uma relação entre a competência sintática, pela qual se distingue a valia do senão, do mas, e do porém, e a capacidade de compreender quando o azul do céu é realmente verde, e que parte de amarelo existe no verde azul do céu." (p. 210);
. " (…) o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos... São as palavras que dão sentido às frases... Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos... Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou - cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo - tinha tencionado dedicar toda a sua vida a destruir o verbos..." (p. 304).
É importante notar que o verbo é a categoria gramatical que apreende linguisticamente um dado estado de coisas como um processo: este dinamismo é essencial à constituição de um enunciado. Para além disso, o verbo, sendo a palavra que mais varia, é fulcral no estabelecimento de nexos coesivos com outros elementos da frase e com outras frases.

. Norma e criação linguística:
- "Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. É certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros. (...).
      A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. (...)
      Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, "Sou Rei de Roma, e acima da gramática." E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo "super-grammaticam". Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se." (pp. 103-105).

. Semântica/referencialidade:
- "Ser uma coisa é ser objecto de uma atribuição." (p. 83);
- "Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver." (p. 94).

. Textualidade:
- "A vida prejudica a expressão da vida. Se eu vivesse um grande amor nunca o poderia contar." (p. 126);
- "Narrar é criar, pois viver é apenas ter vivido." (p. 163).

Uma narrativa é um texto de orientação presente - passado, regido por nexos temporais-causais. A narrativa não vive só representação da ação, mas sobretudo da criação de referência. Qualquer contador de histórias tenta fazer vingar a ordem sobre a sucessão aleatória de fenómenos. Isso deve-se à alquimia fundamental de transformação do casual em história, ou seja, num esquema de significação inteligível totalizante. A ocorrência singular transforma-se em episódio; constitui-se uma urdidura complexa onde agentes, objetivos, meios, circunstâncias e resultados se harmonizam num todo de significação.


3.1. Há também a relevar outras passagens, que cruzam língua, ideologia, cultura, cognição e arte.

• A produção discursiva enquanto ato interpretativo e criativo que desvela a identidade do indivíduo:
- " Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira." (p. 134);
- "Estremeço se dizem bem. (...) Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. (...) "Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse." (p. 230-231);
- "não sei escrever porque não sei ser." (p. 310).

• Expressão linguística e ideologia:
- "Nada me pesa tanto no desgosto como as palavras sociais de moral. Já a palavra "dever" é para mim desagradável como um intruso. Mas os termos "dever cívico", "solidariedade", "humanitarismo", e outros da mesma estirpe, repugnam-me como porcarias que despejassem sobre mim de janelas." (p. 161).

• A língua como fonte de cultura:
- "As civilizações parece não existirem senão para produzir arte e literatura: é, palavras, o que delas fala e fica." (p. 186).

• O homem caracterizado pela faculdade de linguagem:
- "O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer." (p. 185);
- "o que não se pode suportar é sonhar uma coisa bela que não seja possível conseguir em ato ou palavras." (p. 251).


3.2. Esta reflexão sobre a língua é exercitada na própria execução textual do Livro do Desassossego. Há vários momentos que são puros exercícios de estilo ou demonstrações da arte de dizer:

• no plano do léxico:
- "gemedoramente" (p. 265);
- "interiorice" (p. 286);
- "escriturantemente" (p. 310);
- "incompreendedores" (p. 326);
- " delírio intersticiado";
- "Outragem" (p. 413);
- "dramatistas" (p. 450).

• no plano da morfossintaxe:
- "Não durmo. Entre-sou." (p. 245);
- "ubiquito-me" (p. 261);
- "imperfeiçoa-se" (p. 279);
- "retrovei-me" (p. 282);
- "escacharão revoltas, turbilhonarão festas" (p. 289);
- "absurdemos a vida" (305);
- "ergo-me de pensar" (p. 320);
- " Nem sei hoje que porto era, porque ainda nunca lá estive." (p. 444).

• no plano do texto/discurso:
(ensaio de elaboração de um texto informativo /explicativo – uma definição)
- "A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembramos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma." (p.128).


Afinal, as máximas só têm para nos dar aquilo que nós lá pusermos. A máxima "A minha pátria é a língua portuguesa" só diz alguma coisa a quem souber o que está à volta dela e souber (re)conhecer aí o Livro do Desassossego.


* Texto-base sobre o tema de emissão do programa Páginas de Português

Autora: Ana Martins


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