O
primeiro filme baseado em Amor de Perdição foi uma película muda, da
autoria de George Pallu, um realizador francês que se tinha fixado no Porto,
realizado num estúdio da cidade invicta chamado Invicta Filmes, em 1921.
Em
1942, António Lopes Ribeiro fez uma adaptação da obra. Em 1978, Manoel de
Oliveira fez uma nova versão do romance. Em 2008, encontramos uma adaptação
mais livre, refletida logo no título: Um Amor de Perdição. O
determinante artigo indefinido «Um» mostra como esta adaptação é, de
facto, mais livre e uma transposição para a atualidade: a história de Simão,
Teresa e Mariana transporta para a atualidade. O realizador é Mário Barroso,
que trabalhou com Manoel de Oliveira como ator e chegou mesmo a interpretar o
papel de Camilo Castelo Branco pelo menos em dois filmes do falecido realizador
portuense baseados na figura do escritor: O Dia do Desespero (sobre os
últimos tempos de vida de Camilo), bem como noutra película anterior, baseada
na adaptação de uma obra de Agustina Bessa Luís. Entretanto, Mário Barroso
passou a dedicar-se mais à realização e é, portanto, o realizador da mais
recente adaptação até ao momento de Amor de Perdição.
Aquando
do início da abordagem de Amor de Perdição no 11.º ano, talvez seja
interessante acompanhar a leitura e análise dos capítulos propostos com o
visionamento de excertos fílmicos, nomeadamente da versão realizada por António
Lopes Ribeiro. Outra estratégia possível de ser adotado é análise de imagens
alusivas ao texto, seja de capas das várias edições, seja de outras referentes
aos filmes. Neste contexto, o cartaz referente ao filme de 1942 é muito
interessante. O seu autor, seguindo o que a película pretendia pôr em
evidência, estabelece a ligação entre o autor e o romance, daí que, em primeiro
plano, vejamos a figura de Camilo Castelo Branco a escrever, bem como uma série
de figuras e de cenas referentes ao Amor de Perdição – as grades, o
convento, a prisão, a figura de Simão a correr à paulada uma série de homens
(alusão ao episódio do desacato em Viseu, junto à fonte de São Francisco, no
qual interveio o filho de Domingos Botelho, que partiu cabeças e cântaros), a
personagem de Teresa ladeada por outras que a estão a confortar (religiosas ou
primas), trajes de fidalgos, pessoas a cavalo, etc. Ora, não é uma casualidade
a presença de Camilo no cartaz. De facto, é uma forma de o realizador dizer
que, no seu filme, está a seguir fielmente aquilo que o escritor escreveu e
quis mostrar a ligação autobiográfica, que está presente na própria novena,
logo na Introdução, entre Camilo e a própria história.
O
início do filme mostra exatamente isso. Ele baseia-se precisamente na
Introdução que faz parte do Amor de Perdição, mas não só, pois também há
elementos – frases, etc. – que não constam dessa Introdução. Então onde estão
esses elementos? Neste ponto, há que convocar outros textos para estabelecer
adequadamente a género da obra. Já sabemos que Camilo escreveu esta obra na
prisão, nas circunstâncias conhecidas, mas há outro livro que ele escreveu,
igualmente baseado nessa experiência de cárcere e na qual faz referências ao Amor
de Perdição, nomeadamente a passagem em que diz que escreveu a obra em
15 dias, os dias mais atormentados da sua existência. Esta menção está
presente numa obra intitulada Memórias do Cárcere.
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