Português: Literatura Popular
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sábado, 30 de maio de 2026

Oralidade e escrita

    A transmissão oral é o traço dominante dos inícios da literatura popular. A palavra falada (e poética) é o espírito, a razão do universo, o lógos dos Gregos, o verbum dos Romanos. No princípio, havia a palavra (In principio erat Verbum).

    Assim, podemos afirmar que a literatura popular é quase toda ela criada para ser ouvida, ou seja, é uma literatura oral. Parte dela, a dramática, começou a ser divulgada, a partir do século XVI, em folhetos de cordel.

    Dava-se o caso de as classes populares até longos romances ouvirem e repetirem.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O conceito de literatura popular

    De acordo com Viegas Guerreiro, no conceito de literatura popular, cabe toda a matéria literária que as classes populares entendem e de que gostam, seja de sua autoria ou não. Convém notar que muito daquilo a que hoje chamamos literatura popular começou por ter um autor, letrado ou não, e depois seguiu de boca em boca, até atingir o anonimato. Nesse trajeto, cada um dos que a repetem vai-a fazendo sua, acomodando a seu modo de ser o que já pertencia ao sentir comum. É neste sentido que a podemos tomar como coletiva, isto é, uma sucessão de variantes em que muitos colaboram, cada um a seu tempo e por sua vez, sem lhe pôr assinatura. E assim se perpetuam, atualizando-se, os temas universais. Foi o que sucedeu com os chamados contos tradicionais populares, cuja transmissão oral ao longo dos tempos (até que alguém decidiu proceder à sua recolha e fixação escrita) deu origem ao ditado popular «Quem conta um conto acrescenta um ponto».
    Assim sendo, a literatura popular é constituída por toda a peça literária que por ele passe, a anónima e a que tem nome, transmitida oralmente ou por escrito. Por outro lado, estamos a falar de textos que vão desde a cantiga paralelística medieval, posta na voz de jograis, aos versos contemporâneos que os cegos cantam em ruas e feiras (por exemplo, a novela «Roque Santeiro», na sua versão de 1985, apresentava uma personagem, o cego Jeremias, que ganhava a vida tocando viola e cantando temas ligadas ao quotidiano da cidade de Asa Branca); desde o conto ou a fábula de tempos remotos às atuais novelas românticas divulgadas em folhetos, revistas, jornais, rádio ou internet, às anedotas que todos contam, visando questões inofensivas, políticas, sociais, pornográficas, maliciosas, etc.; desde a conhecida farsa vicentina às peças teatrais de cordel que eram divulgadas em folhetos. São ainda literatura popular escritos de outros géneros que, num dado momento, foram imensamente apreciados pelo povo, como, por exemplo, Amor de Perdição ou a Morgadinha dos Canaviais.
    Muito antes de haver escrita, os gregos ouviam cantos líricos e épicos na voz melodiosa de aedos e rapsodos. Orfeu amansava as feras e vencia figuras infernais com os acordes da sua voz e da sua lira. No palácio de Ulisses, não se cansavam de ouvir Fémio, um aedo que, tanto na Ilíada quanto na Odisseia, alegrava, com as suas recitações e canto, os banquetes aí oferecidos. Por sua vez, Demódoco, na Odisseia, cantava e encantava com as suas atuações no palácio e Alcínoo, rei dos feácios.
    Muitos dos artífices da literatura popular provenientes do povo são analfabetos; outros, de poucas letras, outros ainda semiletrados. No que diz respeito aos autores eruditos, as suas obras tornam-se populares quando exprimem ideias e sentimentos universais numa linguagem que é acessível a todos, analfabetos ou letrados. No seu seio, podemos encontrar aqueles que, por educação ou por índole, sendo ou não de origem plebeia, compõem para o povo sem dar por isso; os que se lhe dirigem intencionalmente, por motivos ideológicos ou outros; e ainda os que escrevem por encomenda, para ganhar a vida, havendo os que o fazem de forma honesta e os que , de modo despudorado, exploram os mais baixos sentimentos humanos, vendendo, em folhetins baratos, a paixão doentia, o crime passional, a obscenidade ou a perversão sexual.
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