De acordo com Viegas Guerreiro, no conceito de literatura popular, cabe toda a matéria literária que as classes populares entendem e de que gostam, seja de sua autoria ou não. Convém notar que muito daquilo a que hoje chamamos literatura popular começou por ter um autor, letrado ou não, e depois seguiu de boca em boca, até atingir o anonimato. Nesse trajeto, cada um dos que a repetem vai-a fazendo sua, acomodando a seu modo de ser o que já pertencia ao sentir comum. É neste sentido que a podemos tomar como coletiva, isto é, uma sucessão de variantes em que muitos colaboram, cada um a seu tempo e por sua vez, sem lhe pôr assinatura. E assim se perpetuam, atualizando-se, os temas universais. Foi o que sucedeu com os chamados contos tradicionais populares, cuja transmissão oral ao longo dos tempos (até que alguém decidiu proceder à sua recolha e fixação escrita) deu origem ao ditado popular «Quem conta um conto acrescenta um ponto».
Assim sendo, a literatura popular é constituída por toda a peça literária que por ele passe, a anónima e a que tem nome, transmitida oralmente ou por escrito. Por outro lado, estamos a falar de textos que vão desde a cantiga paralelística medieval, posta na voz de jograis, aos versos contemporâneos que os cegos cantam em ruas e feiras (por exemplo, a novela «Roque Santeiro», na sua versão de 1985, apresentava uma personagem, o cego Jeremias, que ganhava a vida tocando viola e cantando temas ligadas ao quotidiano da cidade de Asa Branca); desde o conto ou a fábula de tempos remotos às atuais novelas românticas divulgadas em folhetos, revistas, jornais, rádio ou internet, às anedotas que todos contam, visando questões inofensivas, políticas, sociais, pornográficas, maliciosas, etc.; desde a conhecida farsa vicentina às peças teatrais de cordel que eram divulgadas em folhetos. São ainda literatura popular escritos de outros géneros que, num dado momento, foram imensamente apreciados pelo povo, como, por exemplo, Amor de Perdição