sábado, 14 de janeiro de 2012

Didascália inicial (ato III)

. Parte baixa do palácio de Manuel de Sousa ® nível inferior => passagem para outro estádio da existência humana.

     » Porta esquerda ® acesso à capela da Senhora da Piedade:
               . abandono do mundo profano;
               . ingresso no mundo religioso;
               . morte de Maria.

     » Casarão vasto, "sem ornato nenhum":
               . ausência de elementos decorativos;
               . corte com o mundo profano.

     » "Arrumadas às paredes":
               . tocheiras
               . cruzes ® sofrimento, morte
               . círios
               . "alfaias e guisamentos de igreja" ® vida religiosa

     » "A um lado":
               . esquife ® morte, martírio, sacrifício

     » "Do outro":
               . cruz negra com o letreiro J.N.R.J. ® morte, martírio, sacrifício
                                                                        ® ressurreição
               . toalha ® limpar os pecados
               . Semana Santa ® morte ® ressurreição, nova vida

     » "A um lado":
               . "tocheira baixa com tocha acesa e já bastante gasta" ® símbolo de final de
                 vida no mundo profano

     » "sobre a mesa":
               . castiçal de chumbo
               . hábito de religioso dominicano
               . túnica
               . escapulário
               . rosário
               . cinto
                         ® tomada de hábito ® morte para o mundo profano e entrada no
                              mundo espiritual
                         ® envergar o hábito = vida iluminada

     » "No fundo, porta..." ® baixos do palácio.



NOTAS:

1.ª) A luminosidade do ambiente é escassa. Mergulhado na penumbra, o cenário, apenas iluminado por «tocheiras», «tocha acesa e já gasta», «vela acesa», propicia uma introspeção profunda onde tudo indicia a “entrada” para a vida religiosa, para a Ordem dos Dominicanos, ideia acentuada pela presença das «alfaias e guisamentos de igreja» e pelo hábito.

2.ª) A cruz negra com o letreiro, aliadas aos restantes elementos ligados à vida religiosa, simboliza que alguém passará por sofrimento, sacrifício, martírio e morte para a vida mundana.

3.ª) O jogo penumbra / luz e o ambiente secreto, intimista, de intenso recolhimento, possibilitam o encontro do «eu» com os mais recônditos lugares do seu espaço interior.

4.ª) A obra não obedece à unidade de espaço, pois decorre em lugares diferentes, embora todos os acontecimentos decorram em Almada.

5.ª) O espaço ganha uma dimensão trágica, pois fecha-se gradualmente, não possibilitando a saída das personagens para a dimensão física da vida.
A progressiva escassez de elementos decorativos e de luminosidade adensam a atmosfera trágica que culminará na catástrofe.

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