terça-feira, 10 de julho de 2012

"Tribunal", Miguel Torga

Não há outros comparsas no processo.
Eu acuso e defendo e sou juiz
Do réu que também sou, preso por mim.
O crime é um ato de rebelião
Contra os altos ditames da razão,
Que mandam que me aceite como vim.

Ora eu não me quero tal e qual!
Desejo-me intangível, imortal,
Não sei ao certo ainda em que universo...
E aguardo, cabisbaixo, o julgamento,
Enquanto vou sentindo o pensamento
Evadir-se da sala em cada verso.

4 comentários :

  1. existe proposta de exame para a 2ªfase de portugues ?

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  2. falta a data do poema e o Diário, no mínimo.
    Penso ser no Diário VIII, de 1974

    Tem sempre que se colocar estes dados e a editora

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  3. ESTE É O TRIBUNAL DE TORGA

    Somos nós os culpados do que somos.
    E é de mim que me queixo.
    Tão intensa foi sempre a minha voz,
    que ninguém a entendeu.
    Por isso, quanto mais água pedi,
    Mais distante me vi
    De cada fonte que me apeteceu.

    E agora é tarde, já nem sede tenho.
    Ou tenho-a como os cactos:
    Eriçada de espinhos.
    Olho de longe a bica tentadora,
    Adivinho-lhe o gosto e a frescura,
    E é de borco na areia abrasadora
    Que refresco a secura.

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