domingo, 12 de setembro de 2010

Época Medieval

          A Época Medieval abrange dois períodos: o período trovadoresco e o dos poetas palacianos e cronistas.


1.º) Período dos Trovadores

          O trovadorismo / a poesia trovadoresca galego-portuguesa constitui a primeira manifestação literária em língua portuguesa, coincidente, em termos temporais, com a independência do reino português.
          Tradicionalmente, as literaturas iniciam-se por obras em verso, o que encontra justificação no facto de os primeiros textos serem de natureza oral, isto é, se destinarem a ser transmitidos / divulgados oralmente e serem, assim, mais facilmente memorizáveis. No caso da poesia trovadoresca, a sua difusão ficou entregue aos trovadores (os compositores dos textos - as chamadas cantigas), os jograis (os intérpretes) e as soldadeiras (as mulheres que acompanhavam os jograis dançando). A própria designação destes textos primitivos da nossa literatura  - cantigas - remete para um texto poético concebido para ser acompanhado de música e de dança.
          Foi sobretudo graças à figura do jogral que estas composições se divulgaram. De facto, ele percorria cidades, castelos, aldeias e feiras interpretando um determinado repertório literário e musical que tinha como alvo um público iletrado e como base as línguas locais.

          A poesia trovadoresca foi buscar a sua designação à principal figura que a cultivou: o trovador. Por outro lado,  a sua origem reside na Provença, uma região do sudoeste da França, graças a um conjunto de factores que facilitaram a sua existência:
. O feudalismo, assente numa estrutura social dominada pelo senhor, que possuía o seu senhorio, no qual trabalhava um conjunto de servos - os vassalos -, obrigados ao pagamento de uma determinada renda, proporcional à produção agrícola de cada ano, além de outros tributos. Esta relação será transposta, em parte, para a cantiga de amor.
. O papel da mulher, que possuía um estatuto diferente do que era comum nos demais reinos europeus. De facto, usufruía da faculdade de dispor dos seus bens sem necessidade do consentimento dele. Porém, este estatuto era aplicado somente à mulher casada, já que a solteira permanecia na dependência paterna.

          Vários factores explicam a influência da poesia provençal em Portugal:

               1.º) As trocas comerciais entre o reino português e a França;

               2.º) A presença da ordem religiosa de Cluny na Península Ibérica a partir do século XI;

               3.º) As peregrinações / romarias religiosas (por exemplo, a Santa Maria de Rocamadour, o caminho de Santiago...), nas quais participavam muitos galegos e portugueses;

               4.º) A presença de cavaleiros franceses para participarem nas campanhas da Reconquista cristã;

               5.º) A vinda do futuro D. Afonso III para Portugal, para ocupar o trono, fazendo-se acompanhar de figuras que conheciam a tradição lírica provençal.


          Não obstante pertencer à tradição oral, a lírica medieval galego-portuguesa chegou até nós na forma escrita, reunida em três colectâneas: os cancioneiros da Ajuda, da Biblioteca Nacional e da Vaticana, que reunem cerca de 1680 cantigas, da autoria de aproximadamente 150 autores.


          No que diz respeito aos géneros, a lírica trovadoresca galego-portuguesa é composta pelas cantigas de amigo e de amor (constituem a vertente lírica) e pelas cantigas de escárnio e maldizer (a vertente satírica).

          A cantiga de amigo é posta na boca de uma mulher jovem e solteira - a donzela - que exprime os seus sentimentos (a paixão, a saudade - pela sua ausência no «fossado», na guerra -, a alegria de amar e ser amada, a mentira amorosa à mãe, o desejo de vingança motivado pela infidelidade do seu amado, designado por «amigo»), num ambiente rural, perante as suas confidentes: as amigas, a mãe, as irmãs (frequentemente a mais velha, porque mais experiente e conhecedora dos sentimentos da irmã).

          Já a cantiga de amor, não obstante comungar da temática da cantiga de amigo - o amor -, é posta na boca do trovador, que se dirige à dama (a «senhor») expressando o seu amor ou lamentando a sua indiferença ou altivez, em suma, a sua não correspondência amorosa. Esta mulher é descrita em termos eufóricos, mesmo que não corresponda amorosamente ao sujeito poético, o que, neste caso concreto, provoca a sua «coita», isto é, o seu sofrimento, traduzido no pranto, na insónia, na loucura e, em último grau, no desejo de morte. Por outro lado, a mulher encontra-se sempre num plano superior ao do homem,  dado ser a obra perfeita de Deus, numa espécie de inversão do código feudal: ela é a "senhor(a)" e o homem é o vassalo.

          As cantigas de escárnio e maldizer criticam e escarnecem de todas as classes sociais, fazendo uso por vezes de uma linguagem obscena.


          A primeira cantiga conhecida intitula-se "No mundo non me sei parelha" (mais conhecida por "Cantiga de Garvaia") e é da autoria de Pai Soares de Taveirós.



          Além dos três já referidos, existem outros géneros:

               . Tenção: cantigas em forma de diálogo entre dois trovadores ou um trovador e um jogral, cujo tema é o próprio espectáculo trovadoresco, apresentado em tom de competição;

               . Pranto: texto em que se chora (daí a designação) a morte de um ente querido;

               . Cantiga de seguir: texto que traduz a rivalidade entre os trovadores, dado que retomam ou reelaboram outros textos com a intenção de os aprimorar;

               . Descordo.


          Tradicionalmente, considera-se o final da lírica galego-portuguesa o ano de 1534, data da morte de D. Pedro, Conde de Barcelos, considerado o última mecenas e trovador.


          Além da poesia profana, temos a poesia religiosa, consubstanciada nas chamadas cantigas de Santa Maria (cerca de 400 textos), organizadas pelo rei Afonso X.

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