terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"Ode Triunfal" (Análise - 2.ª parte)

          Identificação com as máquinas

          O sujeito poético procura identificar-se com as máquinas, identificação essa que se traduz num «amor» desesperado (“Como eu vos amo… Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto / E com o tacto… / E com a inteligência…” – vv. 86-91). Ele quer penetrar tudo, ser penetrado por tudo (“Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”). Este facto traduz uma atitude sensacionista de “ser tudo de todas as maneiras” do sujeito poético, pois quer sentir tudo e identificar-se com tudo, procurando daí retirar o máximo de sensações possível.

 
          Novo ideal de arte
 
          Álvaro de Campos, na «Ode Triunfal», põe em prática o que havia teorizado nos seus Apontamentos para uma estética não aristotélica (revista "Athena", números 3 e 4). De acordo com a concepção de Aristóteles, a arte / a estética assentava nas ideias de beleza, de perfeição, de equilíbrio, do agradável comandado pela inteligência. Na esteira de Walt Whitman, o heterónimo de Pessoa apresenta uma nova concepção, sustentada nos seguintes princípios:
  • assenta nas ideias de força, dinamismo, energia explosiva, volúpia da imaginação;
  • o sentir predomina em relação ao pensar, por isso o importante não é a beleza dos maquinismos em si mesmos, mas as sensações que eles despertam e o modo como se codificam, ao nível da expressão, essas sensações;
  • não é a beleza da harmonia clássica saída da inteligência que cativa o sujeito poético, mas a força caótica e explosiva produto de uma emotividade individual desordenada e caótica, de um subconsciente em convulsão;
  • daí que Campos queira transformar-se na realidade excessiva que o cerca e cantar tudo "com um excesso / De expressão de todas as (...) sensações com um excesso contemporâneo" das máquinas (vv. 26 a 32).
          Por outro lado, ao longo da ode, Álvaro de Campos procura fazer corresponder o nível da expressão ao nível do conteúdo: as manifestações da dinâmica da vida moderna são apresentadas de forma desordenada, em catadupa, sugerindo assim o movimento das máquinas e a pressa de usufruir de tudo. Neste enquadramento, há a referir também o recurso ao verso livro, a construção de um estilo torrencial, espraiado em versos de duas ou três linhas, a catadupa de anáforas, exclamações, enumerações, interjeições, etc.
          Um pouco à semelhança de Cesário Verde, Campos inova ao conferir poeticidade a temáticas não usuais: máquinas, motores, fábricas, energia, matéria, força, através de uma linguagem carregada de substantivas concretos e abstractos, fonemas substantivados (r-r-r-r-r-r-r...), topónimos (Panamá, Kiel...), antropónimos (Platão, Virgílio...), estrangeirismos (souteneur, foule...), tipos de letra variados (vv. 5, 72, 238), maiúsculas desusadas (Prodígio, Sol...), adjectivação expressiva, figuras de estilo (polissíndetos, metáforas, anáforas, apóstrofes, enumerações, personificações, sinestesias, perífrases, trocadilhos, reiterações, gradações, comparações, aliterações...), neologismos (passante), formas verbais variadas, advérbios expressivos (estridentemente, exageradamente...), gerúndios (rangendo, sorrindo), interjeições (ah, hilla, eia...), rimas internas (vv. 24, 25, 70) e onomatopeias (ciciar, up-lá ôh...).


          A denúncia do lado negativo da civilização industrial:
  • a desumanidade;
  • a corrupção;
  • a mentira;
  • a imoralidade;
  • a pobreza e a miséria;
  • a falta de higiene;
  • a hipocrisia;
  • os falhanços da técnica (desastres, naufrágios, desabamentos...);
  • a prostituição de menores e a pedofilia;
  • a guerra;
  • Campos chega mesmo a prever o fim / a substituição da civilização industrial (vv. 204-206).

          A temática da infância: entre os versos 181 e 189, numa estrofe parentética, Álvaro de Campos retoma um tema comum ao ortónimo e aos heterónimos - a infância -, que surge mais uma vez como a idade perfeita, um espaço de liberdade, de não-pensamento, de felicidade, no que se opõe ao presente. Nos versos citados, a infância surge representada por diversos elementos: a nora, o quintal, a casa, os pinheiros, o burro - animal significativo que representa a ausência de pensamento / racionalidade.


          A linguagem erótica e reveladora de traços de sadomasoquismo: Álvaro de Campos relaciona-se com o mundo do progresso industrial e mecânico através de uma linguagem evocadora de um certo erotismo. Basta atentar nos seguintes exemplos: "Amo-vos carnivoramente, / Pervertidamente..." (vv. 105-106); "Completamente vos possuo como a uma mulher bela...".
          Por outro lado, essa linguagem possui um sentido profundamente masoquista: "Eu podia morrer triturado por um motor..." (v. 134), que se orienta mais para a criação de sensações novas e violentas (sensacionismo) do que para a exaltação das máquinas.


          Percepção do real pelo sujeito poético:
» O modo como o «eu» percepciona o real baseia no excesso de sensações: "(...) excesso / De expressão de todas as minhas sensações.";
» Visuais:
                    . forma: "Ó rodas, ó engrenagens (...)";
                    . luminosidade: "À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas (...)";
                    . movimento: "Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos (...)".
» Tácteis: "Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.";
» Auditivas: "(...) r-r-r-r-r-r eterno!"; "De vos ouvir demasiadamente de perto"; "Rugindo, rangendo (...)";
» Gustativas: "Tenho os lábios secos (...)";
» Olfactivas: "A todos os perfumes de óleos e calores e carvões.".

          No que diz respeito a influências, a "Ode" evidencia a presença do futurismo de Marinetti (Campos canta as máquinas, os motores, a velocidade, a civilização mecânica e industrial...) e do sensacionismo de Walt Whitman (Campos canta a civilização moderna industrial, mas, mais do que os objectos - as máquinas, os motores, etc. -, o que ele busca são as sensações que lhe despertam, num desejo de sentir tudo de todas as maneiras.
          Por outro lado, em diversos momentos sente-se a presença do Pessoa Ortónimo: a sua inteligência torturada (a denúncia do lado negativo da civilização moderna), a referência à infância...


          A ruptura com a lírica tradicional:
               . ruptura a nível formal:
                    » a irregularidade estrófica, métrica e rítmica;
                    » a catadupa de figuras de estilo;
                    » o recurso excessivo à coordenação;
               . ruptura a nível de conteúdo:
                    » o prosaísmo da linguagem;
                    » o novo ideal de arte;
                    » o canto excessivo da civilização industrial;
                    » a ousadia presente na referência aos aspectos negativos da modernidade...


          Linguagem e estilo

     . A tendência contínua para humanizar as máquinas: "Grandes trópicos humanos de ferro, fogo e forças"; "E há Platão e Virgílio dentro das máquinas", etc.

     . O uso da ironia, sobretudo para traduzir a face negativa da civilização industrial:
          - "escrocs exageradamente bem vestidos": além da ironia, note-se a presença da antítese entre a compostura exterior (o vestuário) dos escrocs e as suas intenções;
          - "Chefes de família vagamente felizes": neste caso, o advérbio «vagamente» projecta o cansaço (de viver?) sobre a felicidade dos chefes de família;
          - "Banalidade interessante (...) / Das burguesinhas (...) / Que andam na rua com um fim qualquer": notar novamente a presença da antítese, agora entre o aspecto exterior das «burguesinhas» (diminutivo irónico) e as suas obscuras intenções;
          - "A maravilhosa beleza das corrupções políticas, / Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos": a adjectivação antitética assume o valor de oximoro.

     . A antítese:
          - "tudo o que passa e nunca passa": traduz a concentração do passado no presente, ou a continuidade dos acontecimentos diários;
          - "O ruído cruel e delicioso da civilização de hoje": traduz os sentimentos contraditórios do sujeito poético em relação à civilização industrial.

     . Metáforas e imagens:
          - "Arde-me a cabeça de vos querer cantar";
          - "Grandes trópicos humanos de ferro, fogo e força" (aliteração em «f»);
          - "Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável";
          - "Nos cafés, oásis de inutilidade ruidosas";
          - "Quilhas de chapa de ferro sorrindo".
          Estes recursos estilísticos, nos exemplos apresentados, evidenciam a forma como o sujeito poético vibra com a modernidade, com a civilização industrial (com a fúria do movimento das máquinas, com a excessiva quantidade de carvão...).

2 comentários :

Pedro Manso - Guarda disse...
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João Amaral - Guarda disse...
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