segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

«Ode Triunfal» (Análise - 1.ª parte)

          A "Ode Triunfal" é o poema que marca o surgimento do heterónimo Álvaro de Campos. Supostamente, foi elaborado em Londres, no ano de 1914, «num jacto e à máquina de escrever, sem interrupções nem emenda», de acordo com o próprio Fernando Pessoa, na carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos heterónimos. Seja como for, a ode chegou junto do público através do primeiro número do órgão do Primeiro Modernismo, a revista «Orpheu», em 1915.
          A composição, constituída por 240 versos, inclui-se na segunda fase poética de Álvaro de Campos, a fase do futurismo e do sensacionismo, em que deparamos com um Campos entusiasta do (seu) tempo de modernidade, de técnica, de progresso, de velocidade, de movimento, na esteira de Marinetti e de Walt Whitman, de quem era discípulo confesso.

          O título é bastante sugestivo do conteúdo e significado da ode. Assim, o nome/substantivo «ode», de origem grega, remete para o cântico laudatório de uma pessoa, instituição, ou acontecimento. No caso deste poema, significará um canto de exaltação da civilização moderna industrial. Por sua vez, o adjectivo «triunfal» vem hiperbolizar o significado do nome («ode»), conferindo ao texto uma sugestão de força e exagero. No conjunto, o título traduz uma sensação de triunfo e de monumentalidade, visto que sugere algo de grandioso, quer a nível do conteúdo, quer da forma, o que está em conformidade com o tema da composição poética: o canto de exaltação da modernidade, do progresso, da técnica e dos seus excessos.


          Relativamente à estrutura interna, uma possibilidade consiste em dividir o poema em três partes / momentos:

     » Introdução (1.ª estrofe):
  • Localização do sujeito poético: engenheiro situado no interior de uma fábrica;
  • Actividade a que se dedica: escrita,  a partir da contemplação do que o rodeia ("Tenho febre e escrevo" - v. 2;
  • Estado de espírito do sujeito poético: dor, violência e febre, causadas por sensações contraditórias: a beleza do que o rodeia é dolorosa, isto é, causa-lhe dor, deixa-o doente ;
  • Novo conceito de estética: novo conceito de beleza, "totalmente desconhecida dos antigos" (v. 4).
     » Desenvolvimento (2.ª - penúltima estrofe):
  • Associação da voz lírica do sujeito às máquinas que canta (est. 2 a 4);
  • Explanação entusiástica de múltiplas imagens de vida urbana e moderna (est. 5 a 12);
  • Erotização da relação física do «eu» com a trepidante vida das cidades (est. 13 a 15);
  • Apoteose final (penúltima estrofe).
     » Conclusão (último verso):
  • A busca desenfreada de sensações e de identificação com «tudo e todos»;
  • A confissão de um aparente fracasso ("Ah não ser eu..." - cf. advérbio de negação);
  • Tom de ambiguidade e nostalgia ("Ah").

          Relativamente ao estado de espírito do sujeito poético, está condicionado, ou surge marcado, pela vivência do que vê. Assim, apresenta-se como o cantor apaixonado e exaltado da civilização moderna industrial, espantado de novidade, louco de emoção, num estado febril ("tenho febre"), "em fúria fora e dentro de mim", com "os lábios secos" e a "cabeça a arder". Ora, todos estes sentimentos e emoções se devem à forma maravilhada e entusiástica como «observa» o esplendor do progresso e da modernidade, que ama desesperada e pervertidamente.
          Por outro lado, a ode traduz fielmente o seu espírito face ao mundo, marcado pelo desejo de sentir tudo de todas as maneiras, numa histeria de sensações, que passa pela identificação com tudo: "Ah!, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina!"; "Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto...".


          As realidades cantadas são diversas, desde as referentes aos avanços da técnica (grandes lâmpadas eléctricas das fábricas, rodas, engrenagens, maquinismos, ruídos modernos, máquinas, motores, correias de transmissão, êmbolos, volantes, comboios, navios, guindastes, fábricas, etc. etc., etc.), ao que é presente, falado e famoso, passando por aquilo que provoca espanto ( influências europeias, cidades, cafés, cais, gares, barcos, transportes internacionais, bares, hotéis, lugares europeus, ruas, praças, multidão, montras, etc.) e até às que prefiguram o lado negativo da civilização moderna (corrupções políticas, escândalos financeiros e diplomáticos, agressões políticas, regicídios, notícias desmentidas, desastres de comboios, naufrágios, revoluções, alterações de constituições, guerras, invasões, injustiças, violência, etc.).

 
          Ainda nas estrofes iniciais do texto, Álvaro de Campos apresenta a sua visão do elemento tempo. Assim, ao contrário de Marinetti, que defendia o apagamento do passado e do presente em relação ao futuro, que seria «tudo», Campos reduz o passado e o futuro a um só tempo: o instante presente (vv. 1-18; 19; 21-22). No entanto, o presente só é possível porque está alicerçado no passado, na base do qual se apoia a construção do futuro; ou seja, passado e futuro ganham significação no presente, no Momento («todo o passado dentro do presente»; «todo o futuro já dentro de nós» - vv. 222-223).

8 comentários :

Anónimo disse...

Bom resumo

Joao disse...

Sim mas não te esqueças que o alvaro era um bocado logo a realidade nao pode ter. No entanto gostei aspesar de estar pouco claro em relaçao ao e ao dia. Por ultimo o alvaro estava em quando escreveu este poema e nao em londres.

Anónimo disse...

que portugues joao

paulo costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Maria cheila disse...

apostrofes
aliteraçoes
onomatopeia
onde estao?

Anónimo disse...

marcas sensacionistas

Anónimo disse...

Estava onde?

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