segunda-feira, 7 de março de 2011

Epigrama - Gregório de Mattos

Juízo anatómico dos achaques de que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia

                    Que falta nesta cidade?... Verdade.
                    Que mais por sua desonra?... Honra.
                    Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

                    O demo a viver se exponha,
                    Por mais que a fama a exalta,
                    Numa cidade onde falta
                    Verdade, honra, vergonha.

                    Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
                    Quem causa tal perdição?... Ambição.
                    E no meio desta loucura?... Usura.

                    E que justiça a resguarda?... Bastarda.
                    É grátis distribuída?... Vendida.
                    Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

                    Valha-nos Deus, o que custa
                    O que El-Rei nos dá de graça.
                    Que anda a Justiça na praça
                    Bastarda, vendida, injusta.

          Substituamos o nome «Bahia» pelo de Portugal e o texto de Gregório de Mattos (Bahia, 1633-1696), também conhecido por Boca do Inferno, escrito no século XVII, aplica-se, sem a mais pequena alteração, à situação que se vive hoje no nosso rectângulo.

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