segunda-feira, 15 de abril de 2013

Povo

   O povo / os populares configura(m) uma personagem coletiva relevante na peça, como não poderia deixar de acontecer.
     O povo não possui qualquer poder nem um líder - embora deposite enormes esperanças no general -, o que faz com que surja na peça oprimido e completamente indefeso.
     O seu espaço privilegiado é a rua, retrato da sua miséria:
  • ausência de alojamento / habitação (os populares dormem na rua; nas palavras de Vicente, «Nenhum de vocês tem onde cair morto» - pág. 21);
  • não tem condições de higiene e de saúde: uma velha cata piolhos a uma rapariga nova;
  • tem fome e vive o drama do desemprego: «Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. (...) E tu, que não comes desde ontem...».
     Além disso, é caracterizado pela ignorância e pelo analfabetismo («Talvez, se o ensinassem a ler...» - p. 36) e vítima do terror e da opressão (sentem medo ao ouvirem os tambores e fogem quando os polícias chegam, levando consigo os parcos e rudimentares objetos pessoais), da desilusão e da ausência de perspetivas.
           Nas palavras de Vicente, a sua miséria é tal que dirige a sua preocupação para o quotidiano e para a sobrevivência diária ("Interessa-lhe mais o preço do pão... Talvez, se o ensinassem a ler, tomasse conhecimento do «Eclesiastes»..." - p. 36), escasseando-lhe tempo para questões da filosofia política ou religiosa ("... e pouco se preocupa com a origem do poder."- p. 36).
          Não obstante todas as circunstâncias que marcam o seu quotidiano, o povo tem um grande sentido de justiça e de dignidade e uma elavada consciência. À semelhança do que sucede com Manuel, vê no general Gomes Freire o libertador da opressão, do medo e da miséria em que vive, depositando na sua ação toda a esperança, daí não ser de estranhar o desespero, a falta de ânimo e a desilusão que o assalta quando toma conhecimento sua prisão e posterior condenação à morte.

     Por outro lado, esta personagem desempenha diferentes funções ao longo da peça:
  1. Coro, dado que as suas falas têm o valor de informação ou comentário dos acontecimentos;
  2. Inicia os dois atos, estabelecendo, no I, a ligação entre a ação e o espetador e relatando, no II, a prisão de Gomes Freire e o desespero de Matilde;
  3. Situa o espetador no tempo histórico, através das suas interrogações ("Onde aprendeu vocessemecê isso? Em Campo d'Ourique - já lá vão dez anos..." - pág. 18);
  4. No ato II, as falas populares revestem o caráter de informação / comentário sobre os episódios ao nível da ação dramática: "Passaram toda a noite a prender gente por essa cidade..."; "É por pouco tempo, amigo, espera pelo clarão das fogueiras..." (pág. 80).
          Em suma, o povo é uma personagem coletiva que representa o «grupo dos deserdados pela sorte e pelo berço», dos que servem e são explorados, que recebem esmola e são tratados indignamente pela classe dominante, que trabalham e são explorados.

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