Português: Análise do Canto IV da Ilíada

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Análise do Canto IV da Ilíada

             Ao contrário das religiões contemporâneas, os deuses gregos incorporam em si as mesmas paixões e falhas dos seres humanos e interagem com estes frequentemente. A diferença entre uns e outros é que as entidades divinas são eternas, enquanto a humanidade é mortal. A imortalidade divina transforma os seus conflitos em algo trivial e até algo caricato, em contraste com o sofrimento, a dor e a morte que marcam a existência terrena. Como não existem consequências para si, os deuses encontram até prazer nos conflitos em que se envolvem, o que pode ajudar a explicar o facto de Hera e Atenas não aceitarem a trégua entre Troianos e Aqueus, que poderia significar o fim daquela guerra interminável e a instauração da paz, e tudo fazerem para a batalha prosseguir, para vingarem o seu orgulho ferido com a questão do pomo de ouro.

            Deste modo, a guerra é retomada, havendo referências à morte de personagens menores e a confrontos individuais entre figuras bem mais notáveis. As descrições dos ferimentos que os lutadores vão sofrendo são terríveis, baseadas numa fórmula característica. Esses ferimentos são provocados por espadas, lanças, flechas e pedras, que cortam, dilaceram, esmagam diferentes partes do corpo, com a exposição ocasional de um ou outro órgão interno. Tudo isto é apresentado pelo poeta com diferentes detalhes específicos, no sentido de criar uma panóplia diversificada de mortes no campo de batalha.

            Retirar a armadura ao inimigo derrotado ou apossar-se do seu cavalo constituem prémios valiosos cuja reivindicação aumenta a honra do vencedor e desonra o derrotado. Só que a ânsia de obter estas recompensas por vezes têm consequências fatais para quem as deseja alcançar, dado que o coloca numa situação de alguma vulnerabilidade. É exemplificativa disto a referência à primeira morte na obra: um soldado, após a morte do inimigo, procura imediatamente retirar a armadura do corpo do morto, «distrai-se» e acaba por ser assassinado.

            Por outro lado, nem o partido Aqueu nem o Troiano são apresentados no poema como melhores do que o outro. Tal é demonstrado pela imagem de dois soldados, um grego e outro troiano, jazendo mortos um ao lado do outro, enquanto companheiros seus prosseguem a luta e vão tombando à sua volta. Este facto não pode ser dissociado de outra questão, a da inexistência de vilões propriamente ditos no poema. De facto, se é verdade que o poeta narra os eventos na ótica grega, de modo algum vilaniza os Troianos, até porque, noutros momentos, os contendores foram aliados e combateram pelo mesmo objetivo. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a aliança que dois povos estabeleceram para combater as Amazonas. A violência, o sofrimento, a dor e a morte recaem sobre ambos os exércitos de forma semelhante; o alívio sentido no momento em que se acorda que o duelo entre Menelau e Páris porá fim ao conflito é o mesmo para uns e outros; os combatentes das duas fações desejam que o culpado pela eventual quebra da trégua seja massacrado e as suas mulheres estupradas; quando o cessar-fogo é efetivamente rompido, fica claro que nenhum dos partidos é o culpado, dado que o tiro de Pândaro sobre Menelau só é dado porque Atenas a tal conduz. Assim sendo, é perfeitamente lícita a conclusão de que os únicos que, verdadeiramente, retiram prazer da guerra e a quem prolongar são os deuses, que manipulam os seres humanos para atingir os seus propósitos.

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