Português: Estrutura interna de Os Lusíadas

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Estrutura interna de Os Lusíadas

1.ª) Introdução (I, 1-18):

۩ Proposição (I, 1-3): apresentação do assunto.
            Camões propõe-se cantar as navegações e conquistas no Oriente nos reinados de D. Manuel a D. João III, as vitórias em África de D. João I a D. Manuel e a organização do reino durante a primeira dinastia.


۩ Invocação: súplica de inspiração a entidades mitológicas – as musas.
            Camões escolhe as Tágides, ninfas do Tejo, para nelas buscar uma inspiração elevada.
            Ao longo da obra, surgem outras invocações, sempre que Camões necessita de um novo alento para o assunto a narrar.
            As ninfas invocadas recordam o recurso à mitologia, ao maravilhoso pagão, com o objectivo de tornar a narração mais agradável, imitando as grandes epopeias greco-latinas, e de mostrar que para cantar tão grandiosos feitos era necessária uma inspiração sobrenatural.

Localização
Destinatário
Objectivo

I, 4-5


Tágides (ninfas do Tejo)


. Pedir ajuda para a consecução de um “som alto e sublimado”, “um estilo grandíloco e corrente...”.


III, 1-2


Calíope (musa da eloquência da poesia épica)


. Conseguir inspiração para a composição do discurso do Gama ao rei de Melinde.


VII, 78-87


Ninfas do Tejo e do Mondego


. Solicitar o seu favor na tarefa de cantar um povo ingrato, aproveitando para tecer considerações pessoais.


X, 8-9


Calíope


. Sentindo aproximar-se o Outono da vida, Camões solicita ajuda para a missão a que se propôs: glorificar a sua pátria.


X, 145


Calíope


. Camões confessa não poder cantar mais, pois o não merece “a gente surda e endurecida”.



۩ Dedicatória (I, 6-18): oferecimento da obra a D. Sebastião, rei que Camões via como garantia da liberdade nacional, como representante escolhido por Deus, como monarca poderoso. Termina com a exortação ao rei para que também ele se torne digno de ser cantado.



2.ª) Narração (I, 19 – X, 144):

            A narração inicia-se in media res, ou seja, quando a viagem já vai a meio, encontrando-se os marinheiros portugueses no Oceano Índico, e termina quando entram “pela foz do Tejo ameno” (X, 144).
            A narração está estruturada em quatro planos:
Ø  a Viagem: descoberta do caminho marítimo para a Índia;
Ø  a História de Portugal;
Ø  a Mitologia;
Ø  as Considerações Pessoais do Poeta.


      
a)   Viagem: narração dos acontecimentos ocorridos durante a viagem entre Lisboa e a Índia:
F narração do percurso até Melinde por Camões (I e II);
F narração da História de Portugal até à viagem, em forma de discurso dirigido ao rei de Melinde e a pedido deste (III, IV e V, 85);
F inclusão da narração da primeira parte da viagem (de Belém à passagem do Cabo da Boa Esperança – “Adamastor”) e do surgimento da “doença crua e feia” (escorbuto) na retrospectiva histórica atrás referida;
F apresentação do último troço da viagem entre Melinde e Calecute (VI).
      Cronologicamente, a viagem decorreu da seguinte forma:
§  partida em 8 de Julho de 1497 (IV, 84-ss.);
§  peripécias da viagem;
§  paragem em Melinde por dez dias;
§  chegada a Calecute em 18 de Maio de 1498;
§  regresso a 29 de Agosto de 1498;
§  chegada de Vasco da Gama a Lisboa em 19 de Agosto de 1499 (a nau de Nicolau Coelho chegara cerca de dois meses antes).

            Porém, simultaneamente, os deuses reúnem em consílio para decidir “sobre as cousas futuras do Oriente” e, de vez em quando, o poeta tece considerações pessoais.
            A viagem não constitui realmente uma ação, nem tem intriga, nem personagens propriamente ditas. Falta-lhe autonomia. Para que a viagem constituísse uma ação, seria necessário que os seus protagonistas se debatessem com as dificuldades e as resolvessem graças às suas forcas e engenho. Mas tais protagonistas não existem, uma vez que não passam de bonifrates que desempenham um papel destinado pela Providência, sem mãos e cérebro para enfrentar os problemas. não vemos Vasco da Gama arriscar-se e agir, molhar-se na água, nem desenredar-se de intrigas, nem manchar-se de sangue (excepto na escaramuça com indígenas no episódio de Veloso, por ele próprio descrita ao rei de Melinde), nem ter uma vontade, um capricho ou uma paixão. Serve apenas para fazer discursos, para recitar os belos discursos de Camões. O único ensejo que tem de resolver um problema pelos seus próprios meios, isto é, sem a intervenção dos deuses, ocorre quando o Catual o detém em Calecute. Não vemos também Vasco da Gama falar aos seus marinheiros, que, de resto, parecem não existir, são uma abstração que povoa as naus. Não os vemos apagar os incêndios, discutir nos conselhos de capitães em que se tomavam as decisões. Mal entrevemos, numa tempestade, a voz anónima do Gama mandando amainar a grande vela ou dar à bomba. Uma única personagem se nos depara, numa visão fugidia: Fernão Veloso, numa atitude nada heroica (em fuga) e num sito típico de fanfarronice peninsular.
            Por outro lado, pode dizer-se que a viagem não tem história nem enredo. Os marinheiros limitam-se a deixar-se transportar nas mãos dos deuses. Se estes não existissem, nunca saberíamos como é que os nautas alcançaram a Índia, que perigos venceram e de que forma. A unidade orgânica do relato da viagem não reside nem na personalidade dos heróis, nem em qualquer intriga intrínseca à própria viagem. Uma viagem marítima no tempo da navegação à vela, com abordagens, revoltas e motins da tripulação, recontros com as populações costeiras, teria matéria riquíssima para efabulação. Há, todavia, no que respeita à luta com o mar, quadros cheios de relevo e precisão, como a Tromba Marítima, o Fogo de Santelmo e o Escorbuto, e todo o canto V, um dos melhores da obra, que se poderia chamar “Trabalhos do Mar”. Mas esses episódios, onde falta sempre a presença humana, são dados de forma descritiva, exemplificativa, numa sequência oratória, e não narrativa, no discurso ao rei de Melinde. E a história da viagem do Gama, que constitui a parte propriamente narrativa da obra, fica reduzida a uma crónica rimada, mas sem as virtudes das boas crónicas.


b)   História de Portugal

            A História de Portugal, exposta em discursos (de Vasco da Gama ao rei de Melinde e de Paulo da Gama ao Catual, para a história passada em relação à viagem – 1498) e em profecias (de Júpiter, de Adamastor, da ninfa Sirena e de Tétis, em relação à história futura no que diz respeito à viagem), não tem uma unidade intrínseca.
            Uma parte dessa história é dada em sequência cronológica e consta do discurso de Vasco da Gama ao rei de Melinde. Outra parte é dada em quadros soltos, como são as pinturas (“bandeiras”) que Paulo da Gama explica ao Catual, ou as profecias.
            Também o discurso de Vasco da Gama é constituído por uma sequência de quadros contíguos, os feitos dos diversos reis: a sucessão meramente cronológica nunca pode constituir um verdadeiro conjunto artístico. Esta sensação de descontinuidade é agravada pelo facto de os feitos serem, na maior parte, proezas individuais de guerreiros, faltando um ser colectivo de que os indivíduos sejam formas transitórias (cf. Fernão Lopes, Crónica de D. João I). O “peito ilustre lusitano” é uma abstração incapaz de encarnar as proezas sucessivas dos guerreiros. Há alguns belos momentos (a batalha do Salado, a fala da Formosíssima Maria, a batalha de Aljubarrota, o episódio de Inês de Castro, as sínteses de Tétis), mas são conjuntos soltos, contíguos a outros momentos. Não se vê formar-se uma nação, e a ideia de pátria resulta uma noção abstracta: está nos sentimentos do poeta e não nos factos que narra. Não existe uma ação de conjunto nem heróis, que se encontram reduzidos a puras abstrações. Afonso Henriques, Nuno Alvares Pereira, D. João I, Duarte Pacheco, D. Fuas Roupinho ou Geraldo Sem Pavor não têm caracterização própria, não são personalidades diferenciadas como são, por exemplo, Aquiles e Ulisses. Camões encarece-os com uma adjetivação nobilitante e convencional, mas não as caracteriza. Não são realmente personagens, e muito menos heróis, no sentido épico da palavra. São medalhões convencionais de guerreiros.
            Por outro lado, a sequência das batalhas e dos guerreiros, passados ou futuros, é dada em discursos e obedece às regras da oratória: ora é uma sequência cronológica (Vasco da Gama), ora uma seleção de profecias (Júpiter, no canto II, para consolar Vénus, prevê alguns triunfos; no canto V, Adamastor antecipa alguns casos trágicos como castigo pelo atrevimentos dos portugueses; no canto IX, Tétis profetiza as guerras no Oriente).
            Ora, em certo sentido, a oratória é o contrário da epopeia. Na oratória, só tem vida própria o orador, personagem única, em face do público; na epopeia, pelo contrário, como no romance, o autor despersonaliza-se em benefício das personagens, sendo nestas que reside a vida.
            Desta forma, a narração da História de Portugal e dos feitos dos portugueses é caracterizada pela ausência de uma ação de conjunto; são quadros que se sucedem cronologicamente, mas que não revelam uma ideia de conjunto.

            O plano da História de Portugal que a obra apresenta é o seguinte:
*       Em Melinde, Vasco da Gama narra ao rei os acontecimentos de toda a nossa história, desde Viriato ao reinado de D. Manuel I;
*       Em Calecute, Paulo da Gama apresenta ao Catual episódios e personagens representados nas bandeiras;
*       A história posterior à viagem é narrada através de profecias:
§  Júpiter profetiza “feitos ilustres” no Oriente e vitórias tão retumbantes que causarão inveja a Marte (II, 44-45);
§  o sonho profético de D. Manuel: dois velhos (rios Indo e Ganges) vaticinam a chegada à Índia por mar no seu reinado (IV, 66-75);
§  Adamastor profetiza “ventos e tormentas desmedidas”, “naufrágios e perdições” para a gente que profanou o seu mar. Refere-se a D. Francisco de Almeida, por exemplo (V, 42-48);
§  a ninfa Sirena descreve as glórias futuras dos portugueses no Oriente (X, 10-74);
§  Tétis aponta os lugares onde os portugueses hão de realizar grandes feitos e atingir a imortalidade.


c)   Mitologia / Maravilhoso

            Formalmente, a unidade de Os Lusíadas é estabelecida pela intriga dos deuses, visto que estes estão em cena desde o princípio até ao fim da obra (excepto na introdução e na conclusão): abre com o Consílio dos Deuses e termina com a Ilha dos Amores. As personagens mitológicas têm uma vida que falta às personagens históricas: são aquelas os verdadeiros seres humanos, que sentem, se apaixonam, intrigam. Vasco da Gama é muito mais hirto e frio que o Adamastor, não obstante este ser um cabo. E ninguém tem a presença, a força, a personalidade provocante de Vénus.
            A ação consiste no seguinte: Vénus, auxiliada por Marte, seu amante, pretende ajudar os portugueses a chegarem à Índia; Baco, que entende que o Oriente é domínio seu, opõe-se-lhe, provocando a animosidade dos povos costeiros, convencendo ainda os deuses marítimos a desencadearem uma tempestade e, finalmente, induzindo os mouros a atacarem Vasco da Gama. Mas Vénus, vigilante, intervém junto de Júpiter, mobiliza as ninfas do mar, que impelem as naus para fora do perigo, e, seduzindo os deuses do mar, consegue aplacar a tempestade. Finalmente, para premiar os portugueses, prepara-lhes, com a ajuda de seu filho Cupido, uma ilha de delícias, onde eles, conubiando-se com as ninfas, se tornam divinos e são admitidos à visão do cosmos com Vasco da Gama à frente, ele próprio tornando-se esposo da deusa do mar.
            Assim, é na intriga dos deuses que radica a verdadeira ação com princípio, meio e fim.
            Através da mitologia, Camões exprime algumas tendências do Renascimento:
*       a vitória dos homens sobre os deuses, que personificam os limites impostos pela tradição à iniciativa humana;
*       a confiança na capacidade humana para dominar a natureza;
*       a concepção da natureza como ser vivo;
*       a afirmação (virtual) de Deus como imanência;
*       a crença na bondade da natureza;
*       a identificação da lei da razão com a lei da liberdade;
*       a destruição da noção de pecado.

            N’ Os Lusíadas, existem vários tipos de mitologia:
§  pagã: os deuses pagãos greco-romanos;
§  cristã: Deus;
§  mista: coexistência das duas anteriores;
§  céltica/mágica: fadas, bruxas, feiticeiras.


d)   Considerações pessoais

            Este plano é aquele em que Camões tece comentários, muitas vezes satíricos, sobre matérias diversas, normalmente no início e fim dos cantos:
*       a fragilidade da vida humana face aos perigos do mar e da terra (I, 105-106);
*       o desprezo a que os portugueses votaram as Artes e as Letras (V, 91-100);
*       o valor da glória e das honras por mérito próprio (VI, 95-99);
*       crítica aos povos que não seguem o exemplo português (VII, 2-14);
*       a ingratidão de que se sente vítima por parte da sociedade (VII, 78-87);
*       lamento face à importância dada ao dinheiro, fonte de corrupção e traição (VII, 96-99);
*       os modos de atingir a imortalidade, condenando a cobiça, a ambição e a tirania (IX, 92-95);
*       a decadência da pátria (X, 145);
*       a invectiva a D. Sebastião a tomar medidas no sentido de corrigir e repor o país na senda do êxito (X, 146-156).



3.ª) Conclusão (X, 145-146), que se divide em duas partes:

F desencanto perante a musa pelo presente da pátria, pela inutilidade do seu canto, face à indiferença de um povo “surdo e endurecido”;

F exortação e apelo a D. Sebastião para que regenere a pátria, concluindo com o oferecimento para contar os feitos que o rei venha a praticar em África.

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