Quando O
Senhor das Moscas foi publicado pela primeira vez, o mundo procurava ainda
recompor-se da devastação humana provocada pela Segunda Guerra Mundial. Entre
civis e militares, este conflito ceifara cerca de 60 milhões de vidas, deixando
atrás de si uma memória de ruína e perda dificilmente mensurável.
O fim do
conflito foi, quase de imediato, sucedido pelo início da Guerra Fria. O bloco
comunista encontrava-se sob a liderança da União Soviética, que instaurara um
regime totalitário na sequência da revolução de 1917 — revolução essa
alicerçada nas teorias do socialismo. Este defendia a propriedade comum dos
recursos em benefício da comunidade, em oposição à expansão territorial que, na
prática, os líderes comunistas procuravam assegurar. Por sua vez, o Ocidente
capitalista, liderado pelos Estados Unidos, receava a disseminação do
comunismo. Com ambas as superpotências na posse de armamento nuclear, a Guerra
Fria tornou-se um tempo de tensão constante e latente. Ambos estes conflitos
históricos servem de pano de fundo a O Senhor das Moscas.
A
Segunda Guerra Mundial exerceu uma influência profunda sobre William Gerald
Golding. Ao serviço da Royal Navy, participou em combates no Atlântico Norte,
tomou parte na batalha que conduziu ao afundamento do navio de combate alemão
Bismarck, em 1941, e comandou uma embarcação lançadora de foguetes durante o
desembarque na Normandia, em 1944.
Aquilo
que testemunhou durante o conflito marcou profundamente a sua visão do ser
humano e da sociedade. Golding ficou abalado perante a extraordinária
capacidade humana para infligir dor e destruição. Num ensaio publicado em 1965,
intitulado “Fábula”, escreveu: “Comecei a perceber do que as pessoas eram
capazes”. Não foram apenas os horrores perpetrados pelos nazis sobre os
prisioneiros nos campos de concentração, nem os maus-tratos infligidos pelos
japoneses que o perturbaram. Também as ações dos Aliados o inquietaram:
justificavam a destruição em nome de princípios morais, mas essa justificação
abria uma inquietante zona cinzenta, onde o desumano podia tornar-se aceitável.
Todas estas contradições levaram Golding a conceber a natureza humana como algo
simultaneamente selvagem e implacável.
Os ecos
destas ideias percorrem O Senhor das Moscas. Jack e os seus caçadores,
em particular, tornam-se agentes da violência: começam por caçar animais, mas
acabam por matar e torturar seres humanos. Até Ralph, símbolo da ordem e da
sociedade, participa numa caçada e no assassinato de Simon. Tal como o texto
sugere, todos os seres humanos encerram em si a capacidade de praticar o mal.
O
Senhor das Moscas foi escrito durante a Guerra Fria, período em que a
humanidade viveu, pela primeira vez, sob a ameaça concreta de aniquilação
nuclear. As bombas atómicas tinham sido utilizadas duas vezes pelos Estados
Unidos para forçar a rendição do Japão, em 1945. Perante isso, os líderes da
União Soviética sentiram-se compelidos a desenvolver o seu próprio arsenal
nuclear, tanto por razões defensivas como ofensivas. Quando a União Soviética
se tornou oficialmente uma potência nuclear, em 1949, a Guerra Fria já estava em
curso.
Tal
como sucede no romance, onde os rapazes se dividem em grupos que passam a
desconfiar uns dos outros e a procurar a destruição mútua, também as nações se
fragmentaram em blocos. A maioria dos países alinhou-se sob a influência da
União Soviética e dos seus aliados comunistas, ou sob a esfera dos Estados
Unidos e do Ocidente. A tensão entre estes dois polos era elevada, dando origem
a conflitos indiretos, como a Guerra da Coreia — invasão da Coreia do Sul pela
Coreia do Norte entre 1950 e 1953 —, na qual os Estados Unidos apoiaram o Sul,
enquanto a China e a União Soviética apoiaram o Norte.
A
Guerra Fria, com o seu potencial de destruição em massa, bem como a paranoia
que dominava ambos os lados, encontra-se refletida na obra. A narrativa
inicia-se com os rapazes isolados numa ilha, após o avião em que viajavam ter
sido abatido. Acreditam que uma bomba nuclear destruiu o mundo e vivem com o
receio de serem encontrados pelos “Vermelhos”, termo frequentemente utilizado
no bloco ocidental para designar os comunistas.



