Português: Contexto de O Senhor das Moscas

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Contexto de O Senhor das Moscas

                Quando O Senhor das Moscas foi publicado pela primeira vez, o mundo procurava ainda recompor-se da devastação humana provocada pela Segunda Guerra Mundial. Entre civis e militares, este conflito ceifara cerca de 60 milhões de vidas, deixando atrás de si uma memória de ruína e perda dificilmente mensurável.

                O fim do conflito foi, quase de imediato, sucedido pelo início da Guerra Fria. O bloco comunista encontrava-se sob a liderança da União Soviética, que instaurara um regime totalitário na sequência da revolução de 1917 — revolução essa alicerçada nas teorias do socialismo. Este defendia a propriedade comum dos recursos em benefício da comunidade, em oposição à expansão territorial que, na prática, os líderes comunistas procuravam assegurar. Por sua vez, o Ocidente capitalista, liderado pelos Estados Unidos, receava a disseminação do comunismo. Com ambas as superpotências na posse de armamento nuclear, a Guerra Fria tornou-se um tempo de tensão constante e latente. Ambos estes conflitos históricos servem de pano de fundo a O Senhor das Moscas.

                A Segunda Guerra Mundial exerceu uma influência profunda sobre William Gerald Golding. Ao serviço da Royal Navy, participou em combates no Atlântico Norte, tomou parte na batalha que conduziu ao afundamento do navio de combate alemão Bismarck, em 1941, e comandou uma embarcação lançadora de foguetes durante o desembarque na Normandia, em 1944.

                Aquilo que testemunhou durante o conflito marcou profundamente a sua visão do ser humano e da sociedade. Golding ficou abalado perante a extraordinária capacidade humana para infligir dor e destruição. Num ensaio publicado em 1965, intitulado “Fábula”, escreveu: “Comecei a perceber do que as pessoas eram capazes”. Não foram apenas os horrores perpetrados pelos nazis sobre os prisioneiros nos campos de concentração, nem os maus-tratos infligidos pelos japoneses que o perturbaram. Também as ações dos Aliados o inquietaram: justificavam a destruição em nome de princípios morais, mas essa justificação abria uma inquietante zona cinzenta, onde o desumano podia tornar-se aceitável. Todas estas contradições levaram Golding a conceber a natureza humana como algo simultaneamente selvagem e implacável.

                Os ecos destas ideias percorrem O Senhor das Moscas. Jack e os seus caçadores, em particular, tornam-se agentes da violência: começam por caçar animais, mas acabam por matar e torturar seres humanos. Até Ralph, símbolo da ordem e da sociedade, participa numa caçada e no assassinato de Simon. Tal como o texto sugere, todos os seres humanos encerram em si a capacidade de praticar o mal.

                O Senhor das Moscas foi escrito durante a Guerra Fria, período em que a humanidade viveu, pela primeira vez, sob a ameaça concreta de aniquilação nuclear. As bombas atómicas tinham sido utilizadas duas vezes pelos Estados Unidos para forçar a rendição do Japão, em 1945. Perante isso, os líderes da União Soviética sentiram-se compelidos a desenvolver o seu próprio arsenal nuclear, tanto por razões defensivas como ofensivas. Quando a União Soviética se tornou oficialmente uma potência nuclear, em 1949, a Guerra Fria já estava em curso.

                Tal como sucede no romance, onde os rapazes se dividem em grupos que passam a desconfiar uns dos outros e a procurar a destruição mútua, também as nações se fragmentaram em blocos. A maioria dos países alinhou-se sob a influência da União Soviética e dos seus aliados comunistas, ou sob a esfera dos Estados Unidos e do Ocidente. A tensão entre estes dois polos era elevada, dando origem a conflitos indiretos, como a Guerra da Coreia — invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte entre 1950 e 1953 —, na qual os Estados Unidos apoiaram o Sul, enquanto a China e a União Soviética apoiaram o Norte.

                A Guerra Fria, com o seu potencial de destruição em massa, bem como a paranoia que dominava ambos os lados, encontra-se refletida na obra. A narrativa inicia-se com os rapazes isolados numa ilha, após o avião em que viajavam ter sido abatido. Acreditam que uma bomba nuclear destruiu o mundo e vivem com o receio de serem encontrados pelos “Vermelhos”, termo frequentemente utilizado no bloco ocidental para designar os comunistas.

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