Português: Uma cultura nova numa sociedade nova

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Uma cultura nova numa sociedade nova


            O triunfo do liberalismo foi acompanhado por mutações decisivas no panorama cultural português: novas ideias, novos gostos, novos nomes. A mudança foi intensa e rápida nas cidades; as serras continuaram analfabetas, mas agitadas agora pelo caciquismo, pela estrada e pelo comboio, pelo regresso de algum emigrante bem-sucedido que restaura a igreja e constrói um chalé.
            Os árcades pré-românticos – Cruz e Silva, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino, Tomás Gonzaga, Bocage – morreram todos antes de 1820. Morreram a tempo, porque os seus versos refinados, pretensiosos e difíceis não teriam sido apreciados depois da revolução como o foram antes dela. Era uma literatura de elites a que não falta valor: observação humorista dos ridículos de uma burguesia que despontava, confissão dos primeiros anelos românticos velados ainda pelo pudor da linguagem muito elaborada, carregada de termos e de alusões mitológicas que só os iniciados podiam perceber. Mesmo Bocage, o que de todos eles mais viveu a rua, usava expressões como “Zéfiros abafado, plácidas camenas, margens do Letes”, para dizer coisas simples como “vento, poesia, morte”. Era, portanto, uma geração que não exprimia o ideal nascente, embora pessoalmente os homens que a compunham fossem liberais e tivessem dedicado copiosos poemas aos anseios de liberdade.
            Os grandes vultos eram agora outros. Acima de todos, Garrett e Herculano, que são os nomes que hoje recordamos: mas ao lado deles havia uma falange muito numerosa de escritores que deixaram extensa produção. Tinham assentado praça no exército liberal, bateram-se, foram vencidos, emigraram, voltaram a bater-se, saíram vencedores. Durante a emigração tinham absorvido as formas e os conceitos básicos de processos culturais muito mais avançados do que o nosso. Quando Garrett e Herculano, que seriam em Portugal os corifeus da primeira geração romântica, estiveram em Inglaterra, já tinham morrido todos os grandes poetas da segunda geração romântica inglesa. Mas eles aprenderam-lhes a lição e trouxeram para Portugal, nas mochilas de soldados, os ingredientes do Romantismo.
            O Romantismo é a expressão literária e plástica da consciência burguesa. Acredita no progresso, porque o progresso foi a mola económica da burguesia; entoa o canto da liberdade, porque para o burguês parece evidente que a liberdade não é senão o exercício do poder por ele próprio; exalta o sentimento contra a barreira das convenções, porque o sentimento é ele e as convenções são as sobrevivências das barreiras sociais que ainda se opõem à sua caminhada triunfal; inventa a alma do povo, ou o espírito nacional, porque se considera o legítimo representante desses mitos; reinventa a história porque a história lhe permite reconstituir um pergaminho colectivo e apresentar-se como sendo ele o verdadeiro nobre, o representante das gerações que, durante séculos, desbravaram o caminho da liberdade.
            O piano e também o pechisbeque são pontos de passagem da sociedade velha para a sociedade nova; o primeiro foi, além disso, um importante instrumento de cultura por meio do qual se difundiu nas famílias burguesas o gosto aristocrático da música que, no século anterior se cultivava só nas capelas e nos palácios. Em 1848, um jovem pianista, que tinha aprendido música numa capela, associou-se a um capitalista e fundou em Lisboa a casa Sasseti, cujo negócio era a música. O piano era um instrumento caríssimo que não se fabricava em Portugal. Entre 1848 e 1899, ano em que morreu, Sasseti importou muitos milhares de pianos; a sua empresa foi uma das poucas que sobreviveram a tudo e chegaram até hoje. Ao princípio, o piano só entrou nas casas dos barões, mas não tardou muito a transformar-se numa espécie de sinal distintivo da classe média e a sua difusão é um bom indício da rapidez com que essa classe média se desenvolveu a partir do meado do século. O pechisbeque é outra dimensão, muito típica da cultura material dos burgueses. A palavra vem de um operário inglês, Pinchbeck, que descobriu a forma de, misturando cobre e zinco, obter uma liga que tinha uma cor parecida com a do ouro. A função do pechisbeque foi exactamente essa: parecer o que não era, permitir à mediania imitar a opulência. Teve uma carreira fulgurante: dos botões das librés e das lanternas das caleches passou ao interior da casa, enchendo-a de ferragens brilhantes, molduras, “appliques”, e acabou em pulseiras cravejadas de pedras falsas. Além do pechisbeque metal, houve muitos outros: as paredes de mármore fingido, a escultura de gesso, a seda de papel que forrava as salas, os tapetes persas fingidos. A casa do burguês recordava as antigas casas dos nobres. Para o fim do século, os grandes burgueses sentiram mesmo necessidade de se distinguir dos pequenos e começaram a desencantar pelos sótãos da província e nos pardieiros que tinham comprado quando da venda dos bens da Igreja velhos arcazes e armários que falavam de um passado ilustre e mesmo telas com retratos desconhecidos, que adoptavam como antepassados. E eram-no, se não deles, pelo menos da sociedade que eles iam reconstituindo.
            O fim das guerras civis e a inauguração de um período em que, não obstante os sobressaltos verificados, o regime liberal se estabiliza e uma nova sociedade encontra os seus mecanismos de equilíbrio, marca o aparecimento de padrões de vida do tipo romântico que se convertem no gosto dominante. Três grandes símbolos, funcionando embora em diferentes níveis, todos eles complementares, contribuíram poderosamente para esta nova realidade cultural: o Teatro D. Maria II, o Passeio Público e o Palácio da Pena.
            Ponto programático de um vasto plano de reformas visando criar um teatro nacional, que teve em Garrett o principal impulsionador, a construção da casa de espectáculos do Rossio foi iniciada em 1842, segundo o projecto do italiano F. Lodi, e inaugurada quatro anos depois.
            Mas a sociedade que agora passa a frequentar o teatro declamado encontrou perto dele um novo hábito elegante acorrendo ao Passeio Público, jardim que, embora remodelado com gradeamentos, lagos e repuxos, permanecera um local deserto até que D. Fernando de Saxe-Coburgo lhe conferisse uma actualidade romântica. Com o exemplo do rei consorte, artista amador e coleccionador esclarecido, muito se modificou no sentido das vivências quotidianas. E foi a este príncipe germânico, vindo de um pequeno ducado da Turíngia, que coube uma das mais fecundas intervenções na arte portuguesa, não apenas pelos artistas que apoiou, como sobretudo pelo palácio que ergueu no grandioso cenário de Sintra, já celebrado por Byron.
            A fundação de duas academias, uma em Lisboa e a outra no Porto, foi uma das aspirações finalmente concretizadas pelo liberalismo, em 1836, devidas a Passos Manuel e ao Setembrismo, depois de vários anos de arrastado processo. Dificuldades de toda a ordem faziam prever uma vida difícil a estas instituições, comprometendo as esperanças de uma renovação profunda da arte em Portugal. Dentre as imposições estatutárias, figurava a da realização de exposições trienais, o que fomentava um outro tipo de integração das obras no espaço cultural do país e estimulava o exercício regular da actividade crítica, difundida por uma imprensa em crescimento.

                                               Carlos Moura, “A Arte em Portugal”, in História de Portugal

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