Português

terça-feira, 17 de julho de 2012

Olimpíadas de Matemática


     A equipa de matemáticos lusos que representou Portugal nas LIII Olimpíadas Internacionais de Matemática, realizadas na Argentina, Mar da Prata, entre 8 e 15 do corrente mês, teve uma prestação excelente:
  • Miguel Santos: medalha de ouro;
  • Miguel Moreira: medalha de prata;
  • João Lourenço: medalha de bronze;
  • Luís Duarte: medalha de bronze;
  • Francisco Andrade: menção honrosa.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Exame nacional de Português 12.º 2012 - Critérios GAVE - 2.ª Fase

Correção do exame nacional de Português - 12.º ano - 2.ª fase

Grupo I

A

1. Elementos que caracterizam Baltasar:
  • está de regresso a casa, após longa ausência («Regressou o filho pródigo» - linha 1);
  • vem acompanhado de uma mulher, com quem está relacionado sentimentalmente («trouxe mulher» - l. 1);
  • vem pobre («se não vem de mãos vazias, é porque uma lhe ficou no ca,po de batalha e a outra segura a mão de Blimunda» - ll. 1-2);
  • deficiente / mutilado («uma [mão] lhe ficou no campo de batalha» - ll. 1-2);
  • é um ex-soldado («uma lhe ficou no campo de batalha» - ll. 1-2).

2. A reação de Marta Maria é uma reação emocional pautada por sentimentos como os seguintes:
  • comoção e aflição ao notar a deficiência: «e era um dó de alma, uma aflição ver sobre o ombro da mulher um ferro torcido..." (ll. 6-7);
  • dor: «dividida entre a dor que a mutilação naquele braço" (ll. 16-17);
  • sofrimento (manifestado / visível no choro): «ouviu as lágrimas» (l. 18);
  • a inquietação e a procura de compreender / saber o modo, as circunstâncias, a autoria da mutilação: «Meu querido filho, como foi, quem te fez isto» (l. 19);
  • em suma, é uma reação onde se evidencia o amor, a preocupação, o coração de mãe de Marta Maria.
   A reação de João Francisco:
  • é menos emotivo, mais sereno do que a mãe;
  • opta pelo silêncio: «deu logo pela mutilação, mas dela não falou» (l. 30);
  • aconselha resignação: «Paciência» (l. 31);
  • aceita a deficiência como algo natural e expectável em quem se envolve numa guerra e corre os riscos que lhe são inerentes: «quem foi à guerra» (l. 31);
  • no entanto, a interjeição «Ah (,homem)»  parece sugerir uma emotividade logo reprimida.
     Em suma, estamos perante reações que se enquadram nos papéis tradicionais característicos da época, associados à figura materna e paterna, aquela emotiva e tipicamente feminina, este contido.


3. Aproximação entre Marta Maria e Blimunda:
  1. momento: Marta Maria pressentiu a presença de Blimunda, mesmo antes de a ver, e sentiu-se inquieta com a sua existência (a presença de outra mulher) na vida do filho;
  2. momento: Blimunda afastou-se, possibilitando a privacidade e intimidade daquele momento de reencontro em mãe e filho, após anos de ausência;
  3. momento: Baltasar apresentou as duas mulheres;
  4. momento: as duas mulheres agem como se se conhecessem e fossem família há muito tempo («daí a pouco estavam a sogra e a nora a tratar da ceia» - ll. 32-33).

4. O comentário do narrador constitui uma crítica genérica ao comportamento dos filhos, particularizada na atitude de Baltasar, que não informou os pais do seu regresso, da sua deficiência e da sua presença em Lisboa há dois anos, mantendo-os, desta forma, na dúvida e incerteza acerca do seu estado (de saúde ou não, vivo ou não), indiferente à sua dor e sofrimento, sentimentos motivados pela ausência física e ausência de notícias.
     A crítica é, pois, dirigida à insensibilidade e crueza de tal comportamento, causador de angústia e sofrimento nos pais, ainda para mais quando envolvidos em situações de risco, como é o caso de Baltasar na guerra.
     Consciente dessa falha, Baltasar explica ao pai a batalha, a sua mutilação e os anos de ausência, mas omite-lhe os anos passados em Lisboa, após o regresso a Portugal, há dois anos, pois dessas circunstâncias não os informara e tem consciência da falha que tal atitude comporta e de como magoaria ainda mais os seus pais, deixando-os permanecer na ignorância. Apenas dera notícias há poucas semanas, via carta, quando decidira regressar a casa.



B

. Introdução
  • A poética de Campos liga-se à estética de vanguarda futurista;
  • A ligação de Campos à vanguarda futurista concretiza-se na sua segunda fase poética, nomeadamente em poemas como «Ode triunfal»;
  • Os movimentos que a evidenciam são o futurismo e o Sensacionismo.

. Desenvolvimento
  • Futurismo:
               - Corte com o passado e expressão artística do dinamismo e da vida
                  moderna;
               - Apologia da civilização moderna industrial e do seu ritmo, da técnica,
                  da máquina, da velocidade, do movimento...;
               - Atitude escandalosa e chocante (linguagem erótica, evocadora de
                  traços sadomasoquistas);
               -  Nova linguagem:
                         . ritmo torrencial;
                         . acumulação de recursos estilísticos;
                         . destruição da sintaxe;
               - Medida:
                         . versos livres e longos;
                         . versos próximos da prosa e da oralidade.
  • Sensacionismo:
               - Procura das sensações;
               - Vivência excessiva das sensações («Sentir tudo de todas as maneiras»);
               - Atitudes sadomasoquistas.

. Conclusão




Grupo II

           Versão 1                                               Versão 2

1.1.         B                                                              D

1.2.         D                                                              A

1.3.         B                                                              D

1.4.         C                                                              B

1.5.         A                                                              C

1.6.         C                                                              A

1.7.         D                                                              B

2.1. Complemento direto.

2.2. «(d) as palavras»

2.3. Oração subordinada adverbial concessiva.



Grupo III

. Introdução
  • Tradicionalmente, homens e mulheres desempenhavam papéis diferentes, eles mais ligados a atividades exteriores e elas a atividades domésticas e familiares;
  • Ao longos os tempos esses papéis sofreram alterações;
  • Atualmente, a mulher desempenha um papel mais ativo e próximo do masculino em diversas áreas, especialmente no Ocidente.
. Desenvolvimento
  • Argumento 1: A mulher lutou pela alteração da sua condição social e atingiu um plano de igualdade em diversos setores, superando o seu papel tradicional, limitado à vida caseira e familiar.
  • Exemplo 1: A mulher está no mercado de trabalho como o homem e já ocupa cargos de chefia e poder (embora em menor número) nas empresas, na política, etc., como exemplificam figuras como a sr.ª Merkel (PM da Alemanha) ou Assunção Esteves (presidente da Assembleia da República).
  • Argumento 2: O homem adotou uma postura de complementaridade, cooperação e entreajuda relativamente ao novo papel feminino.
  • Exemplo 2: A partilha das tarefas domésticas e no crescimento e educação dos filhos entre a mulher e o homem.
  • Argumento 3: A mulher possui um estatuto social de maior liberdade e independência ao nível dos comportamentos, da postura e do agir.
  • Exemplo 3: A mulher sai sozinha e convive socialmente, sem necessitar de acompanhamento ou tutela masculina.
 . Conclusão
  • Os papéis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres alteraram-se profundamente;
  • A condição masculina e feminina não é, porém, de igualdade absoluta no acesso ao trabalho, no desempenho de cargos de chefia, etc., onde o homem continua a predominar;
  • Esta situação ocorre, preferencialmente, no Ocidente, pois noutras zonas do mundo a mulher continua a viver sob o jugo masculino.

Reapreciação de Exames do Ensino Secundário - Procedimentos

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Resultados da Sondagem (texto do grupo I)


     O instinto dos alunos, por vezes, é de uma precisão assustadora. De facto, previram, por esmagadora maioria (44, 81%) que o texto do grupo I seria de Os Lusíadas. Bingo!
     E amanhã???

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Melhoria dos resultados escolares

     Perante os resultados «menos bons» dos exames nacionais, o MEC foi rápido a atuar e adotou as seguintes medidas:


terça-feira, 10 de julho de 2012

"Tribunal", Miguel Torga

Não há outros comparsas no processo.
Eu acuso e defendo e sou juiz
Do réu que também sou, preso por mim.
O crime é um ato de rebelião
Contra os altos ditames da razão,
Que mandam que me aceite como vim.

Ora eu não me quero tal e qual!
Desejo-me intangível, imortal,
Não sei ao certo ainda em que universo...
E aguardo, cabisbaixo, o julgamento,
Enquanto vou sentindo o pensamento
Evadir-se da sala em cada verso.

"Wonderful World, Sam Cooke (1960)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Naufrágio

     Apurados os resultados da votação do júri nacional, conclui-se que:
  1. se trata dos piores resultados de sempre: média de 8, 38;
  2. cumpriram-se as previsões.

Nota do Exame de Português (12.º ano)



terça-feira, 3 de julho de 2012

Calendário escolar 2012-2013

Das aparências

          Sei que pareço um ladrão...
          Mas há muitos que eu conheço
          Que, não parecendo o que são,
          São aquilo que eu pareço.

                                                António Aleixo

segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Aos Filhos"

          Já nada nos pertence,
          nem a nossa miséria.
          O que vos deixaremos
          a vós o roubaremos.

          Toda a vida estivemos
          sentados sobre a morte,
          sobre a nossa própria morte!
          Agora como morreremos?

          Estes são tempos de
          que não ficará memória,
          alguma memória teríamos
          fôssemos ao menos infames.

          Comprámos e não pagámos,
          faltámos a encontros:
          nem sequer quando errámos
          fizemos grande coisa!

                       
  Manuel António Pina, in Um Sítio onde pousar a Cabeça

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Metas curriculares de Português

IndiferentOs e ignorantOs

     «Recém-regressada ao solo pátrio e sem ter visto as solenes comemorações do Dia de Portugal, constato na passada quinta-feira à noite, na SIC-Notícias, ter sido definitivamente abolida a invariância de género na Língua Portuguesa.
     Com a perplexidade da incauta viajante acabada de aterrar nesta terra minha que tanto venho estranhando, interrogo-me: será este um 3.º protocolo modificativo ao dito "acordo" dito "ortográfico"? Tudo é possível, bastando uns dias de ausência e de distracção quanto às surpresas com que nos brindam os nossos altos dirigentOs...
     No noticiário das dez, lá estava o presidentO do Futebol Clube do Porto dizendo-se honrado por ter sido recebido pela presidentA da Assembleia da República. Correndo o risco de ser insolentA, confesso que levei tais declarações à conta de o senhor Pinto da Costa não ter sido provavelmente um aplicado estudantO, pese embora a notável carreira ascendentA de dirigentO desportivo...
     Porém, já de madrugada, no programa "Fora d'Horas" da mesma SIC-Notícias, tudo se confirmou. Depois de Martim Cabral se ter dito apátrida de coração, admitindo não encontrar localização para a sua alma internacional no mapa mundi, apregoa-se feiministO e apoia a correspondentA da SIC no Rio de Janeiro, Ivani Flora, na utilização da palavra "presidenta". Diz mesmo, com desdém sobranceiro, ser essa uma questão de mera extensão do "acordo ortográfico", e uma polémica estéril de idêntica irrelevância. Questões mais relevantAs parecem ser as da espuma dos dias com que os jornalistOs se entretêm e nos entretêm, de facto...
     Henrique Cymerman, correspondentO da SIC em Tel Aviv, secunda ambos mas apela à compreensão perante a oposição resistentA a tais alterações. Observa que a língua é lenta a evoluir - coitada! -, não consegue acompanhar o ritmo dos tempos... José Milhazes, correspondentO da SIC em Moscovo que até dá aulas de Português a russos, ri-se e acena a sua concordância.
     Apenas Fernando de Sousa, correspondentO em Bruxelas, parece abster-se. A convidada em estúdio (ex-assessora do ex-MNE Luís Amado) ainda esboça e reitera umas reticências, mas é incapaz de fundamentá-las, como se a existência de "presidentAs" não implicasse necessariamente a existência de "presidentOs"... (Estes, como a presidenta Dilma Rousseff ou o presidentO Cavaco Silva, portadores de reconhecida iliteracia funcional...) Mas a ignorância crassa dos jornalistOs, cujo ofício requer o uso da Língua Portuguesa como ferramenta de trabalho quotidiana, essa demonstra bem o País que temos, o do "acordês" televisivo e o da TLEBS na escolas, um País sem direito ao trabalho e à saúde, sem direito à informação e à escolarização de qualidade aceitável, sem direito à língua e à cultura, esta cada vez mais "apagada e vil tristeza", este imerecimento ignorantO do passado, e esta ausência de futuro tão placidamente aceitA.

Madalena Homem Cardoso, in Público

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Redacção - Declaração de Amor à Língua Portuguesa


     «Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
     Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

     Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: no ano passado, quando se dizia "ele está em casa", "em casa" era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. "O Quim está na retrete": "na retrete" é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos "ela é bonita". Bonita é uma característica dela, mas "na retrete" é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
     No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um "complemento oblíquo". Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo "complemento oblíquo", já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados. Almoçar, por exemplo, é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser "Algumas árvores secaram", "algumas" é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
     No ano passado, se disséssemos "O Zé não foi ao Porto", era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
     NO ano passado, se disséssemos "A rapariga entrou em casa. Abriu a janela.", o sujeito de "abriu a janela" era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
     A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiada parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivação deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deíctico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com seis letras e a acabar em "ampa", isso mesmo, claro).
     Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
     E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que, se escrevermos ação e redação, nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
     E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
     João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c...r...o, setôra, sem ofensa para si, que até +e simpática).

Teolinda Gersão

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Como se no primeiro ano de Matemática aprendessem a tabuada

Texto de Paula Barata Dias, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, na sequência de outro da autoria do professor João Veloso, roubado ao blogue dererummundi.blogspot.pt.

     «O texto de João Veloso é exato e terrível. Exato, porque faz o diagnóstico de um sistema educativo que, desde há muito, maltrata as humanidades, entre elas as línguas clássicas, as "absolutamente marcadas pelo labéu da inutilidade" (para que servem? para que serve a música? para que serve a poesia?...). Terrível, porque sicut uoces praecantes in deserto, são cada vez menos os que alertam para os efetivos prejuízos da construção de um currículo de ensino não superior no qual as humanidades figuram com um enquadramento disforme, seccionado, com o maior desrespeito pelas línguas enquanto saber exato, varrendo-se, das ofertas escolares, o latim, o grego, mas também o alemão, o francês...

     Sou professora de línguas clássicas no ensino superior, mas, por contingências da vida universitária, tenho lecionado outras disciplinas, tendo-me passado pelas mãos algumas centenas de alunos. E, assim, posso testemunhar algo que certamente outros professores já viram: o aluno universitário médio com défices severos não só de formação, mas também de estruturas mentais que lhe permitam aprender: exprime-se em períodos de 3 ou 4 palavras (mais do que isso é uma tese, ou então, interrompido por cadeias de monossílabos); o vocabulário é restrito, a ponto de inibir a compreensão oral de uma exposição do docente; raramente é capaz de ler bibliografia em língua estrangeira (qualquer que ela seja!); parece que a memória se encontra em completo repouso. Já encontrei alunos não treinados para a leitura silenciosa, ou que a acompanham com um mover abichanado dos lábios...

     Após anos, planos e euros gastos com Planos Nacionais de Leitura; reformas curriculares; reformas de programas escolares; aplicação da TLEBS; e.escolas, chegámos a um estado bizarro: somos o único país de língua românica que coloca o latim como opção, a competir com a disciplina de Literatura Portuguesa (que escolha é esta?: então o aluno de humanidades é obrigado a escolher entre o latim e a literatura do país de que é cidadão?).

     O quadro é penoso: somos o único país de língua ocidental (não estamos a cingir-nos apenas aos países românicos) em que o ensino de latim e grego em meio universitário, nas duas únicas licenciaturas de Estudos Clássicos a funcionar no país, admite níveis de iniciação para saberes nos quais, ao fim de três anos, saem licenciados. Seria como se, numa licenciatura de Matemática, os jovens entrassem no primeiro ano para aprender a tabuada.»

Prof. Paula Barata Dias
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...