Estamos
perante uma composição tradicional: um mote seguido de glosas. A obra de
António Aleixo ocupa um lugar singular na História da Literatura Portuguesa.
Embora tenha sido um homem com parca instrução formal, considerado um poeta
"popular" e "semianalfabeto", a sua poesia transcende a
aparente simplicidade, revelando uma complexidade e uma profundidade
filosófica notáveis. O poema "O Beijo Mata o Desejo" é um exemplo
brilhante de como o poeta capta os ritmos da oralidade para expressar uma
sabedoria autêntica e psicologicamente intrincada, comprovando que a expressão
poética de excelência não está confinada aos limites da academia ou dos
círculos eruditos.
Do
ponto de vista formal, o poema obedece a uma estrutura tradicional rigorosa: é
composto por um mote (uma quadra inicial que dita o tema) seguido de glosas
(estrofes que desenvolvem o tema e que terminam, obrigatoriamente, com os
versos do mote, pela sua ordem). Esta tipologia textual foi muito cultivada
pelos poetas palacianos reunidos no Cancioneiro Geral, de Garcia de
Resende, e renascentistas, como, por exemplo, Camões. Aleixo utiliza o verso
em redondilha maior ou heptassílabo (sete sílabas métricas). Este é
o verso mais tradicional da língua portuguesa, frequente desde as cantigas
medievais até à poesia oral e cantada, conferindo ao poema um ritmo muito
próximo da fala natural. A rima, predominantemente cruzada (de acordo com o esquema ABAB),
aliada à métrica regular, funciona como uma excelente estratégia mnemónica.
Estes recursos formais facilitam a memorização típica da literatura oral e
acentuam a musicalidade fluida, permitindo que a profundidade do pensamento do
poeta chegue de forma direta e inesquecível ao leitor. Longe de ser apenas um
produto mecânico de "espontaneidade", a poesia de Aleixo esconde um
trabalho de refinamento estético e elegância (um verdadeiro
"aticismo") na arte de bem dizer
O eixo
temático deste poema é o paradoxo do desejo amoroso. A poesia de Aleixo
constrói-se frequentemente sobre estruturas antitéticas (contrastes como
ser/parecer, ou, neste caso, o agir/conter-se). Aqui, o sujeito poético
depara-se com uma oportunidade (o "ensejo") de roubar um beijo à
mulher amada, mas escolhe ativamente não o fazer. O mote é a semente do poema.
Aleixo estabelece aqui a sua tese através de uma estrutura antitética, um
recurso muito frequente na sua obra para contrastar ideias (como
agir/conter-se). Os dois primeiros versos apresentam a situação prática: o
sujeito tem...

