sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Explicações para o fenómeno da poética do amor cortês

            Para a explicação do aparecimento duma poesia que glorifica o amor como sentimento capaz de transfigurar a pessoa humana, têm sido apresentadas várias teses.
            Afirmam uns que os poetas occitânicos (provençais) terão conhecido a poesia clássica, sobretudo a Arte de Amar de Ovídio, e que terão transposto alguns dos seus tópicos como o elogio das virtudes da mulher que corresponderia ao elogio dos soberanos, o da nobreza de alma que conquista. No caso do amor cortês, pela exaltação amorosa, o vilão poder-se-ia tornar cortês. Todavia os antigos consideravam o amor como um elemento perturbador, enquanto os trovadores cantavam o seu poder ideal.
            Procuram outros encontrar correspondência na poesia árabe, na qual perpassa um certo platonismo, exaltando o amor ideal. Mas os árabes atribuem quer à mulher quer ao homem o grau de sublimidade através da força do amor.
            Ainda outros procuram no folclore o fundamento para a explicação da poesia cortês. Não há dúvida de que as festas pagãs da Primavera e das flores de Maio exprimem uma alegria erótica muito forte que se casaria bem com o conceito de amor livre e anticonjugal da poesia provençal. Mas o carácter aristocrático da canção provençal não pode ser explicado apenas por essa influência popular. Há que encontrar outras hipóteses.
            A liturgia católica estaria na base desta poesia. A Igreja sempre celebrou o culto de Nossa Senhora como a mulher perfeita e ideal, diante da qual o cristão se deveria prostrar e à qual deveria venerar. Mas o amor cortês cantado pelos provençais trazia consigo o estigma do amor adulterino, o que obriga a encontrar ainda outras influências.
            Ao mesmo tempo e no mesmo espaço – na Provença – apareceu uma heresia poderosa que foi combatida, em tipo de cruzada, pela Igreja, mas defendendo um conceito de amor muito próximo do dos trovadores: os cátaros. Provinda do maniqueísmo, defendia a dualidade radical dos seres: o bem e o mal, Deus e o Diabo. Rejeitando quase tudo o que a Igreja Católica defendia, tinha uma concepção estranha acerca do casamento: os puros ou perfeitos obrigavam-se a abster-se de todo o contacto com suas mulheres se fossem casados, ou não casavam, os imperfeitos tinham o direito de se casar mas viviam condenados pelos puros. O casamento era um pacto com o Diabo. Não podendo excluir a união sexual, necessária para a continuação da espécie humana, cantavam o amor livre, fora de todos os laços matrimoniais. Há, efectivamente, uma relação entre o amor dos trovadores e o amor dos cátaros. Em ambos os casos, procurava-se um esquecimento do corpo e a fuga ao amor interessado do casamento. A aparição da amada perfeita – na teoria cátara, a alma era bissexual antes de encarnar no corpo miserável – salvava o trovador, abafando todos os desejos corporais. Mas há diferenças assinaláveis, porque os cátaros afirmaram sempre a superioridade do homem sobre a mulher. Há que procurar ainda outras fontes.
            O afrouxamento da autoridade e dos poderes traz uma possibilidade nova de admitir a mulher, mas a coberto duma idealização e até de uma divinização do princípio feminino. O que só pode avivar a contradição entre os ideais e a realidade vivida. A psique e a sensualidade naturais debatem-se nesses ataques convergentes, nessas condenações antitéticas, nesses constrangimentos teóricos e práticos, nessas liberdades muito obscuramente pressentidas na sua fascinante novidade.
            É no âmago dessa situação inextricável, é como uma resultante de tantas confusões que aí se deviam ligar, que aparece a cortesia, "religião" literária do Amor casto, da mulher idealizada, com a sua "piedade" particular, a joy d' amors, seus "ritos" precisos, a retórica dos trovadores, a sua moral da homenagem e do serviço, a sua "teologia" e as suas disputas teológicas, os seus "iniciados", os trovadores, e os seus "crentes", o grande público, culto ou não, que escuta aqueles e faz a sua glória mundana em toda a Europa. Ora, nós vemos esta religião do amor que enobrece ser celebrada pelos mesmos homens que persistem em considerar a sexualidade como "vil"; e vemos frequentemente no mesmo poeta um adorador entusiasta da Dama, que ele exalta, e alguém que despreza a mulher, que ele rebaixa.


            De amor sei que dá facilmente grande alegria àquele que observa suas leis, diz Guilherme, sexto conde de Poitiers e nono duque da Aquitânia, o primeiro trovador conhecido, que morreu em 1127. Desde o princípio do séc. XII, essas "leis de Amor" estão já portanto fixadas, como um ritual. São: Mesura, Serviço, Proeza, Longa Espera, Castidade, Segredo e Mercê, e essas virtudes conduzem à Alegria que é sinal e garantia de Vray Amor.

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