sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Prólogo da 'Crónica de D. João I'

🔺 Estrutura interna

1.ª parte – Erros dos anteriores historiadores e causas que os provocaram.

            a) Factores impeditivos da verdade:
                                       
- razões de ordem sócio-económica ("moormente dos senhores em cuja mercee e terra viviam").

            b) Causas:
- de ordem cultural, por influência do meio - "terra" (2.º período, 1.º parágrafo);
- de ordem biológica - "refeiçom" (2.º parágrafo);
- de ordem genética ou hereditária - "geeraçom" (3.º parágrafo).

            c) Resultado: os erros
                    

            Na alínea c), Fernão Lopes especifica o conteúdo das alíneas anteriores, com a referência concreta à parcialidade de Pêro Lopez de Ayala na Crónica de D. João de Castela, que ignorou os feitos que mereciam ser louvados, acrescentando outros que não se deram.


2.ª parte – Teoria / metodologia da História

            a) Missão do historiador: a verdade.

b) Qualidades e meios exigidos ao historiador para atingir a "certidão da verdade":
                        - imparcialidade;
- procura da certeza, com admissão do erro possível (mentir # errar);
                        - ordenação das fontes;
                        - preocupação com o conteúdo, fazendo-o prevalecer sobre a forma.
                                  
conteúdo versus forma: nunca sacrificará a verdade à beleza da forma.

            F. Lopes afirma que procede de forma oposta aos outros historiadores, pondo de parte toda a "afeiçom" e todo o louvor fingido. Admite o erro, mas diferencia-o da mentira. Ele pode errar, mas sem querer, pois pode pensar que é verdade o que é falso, "per ignorância de velhas escrituras e desvairados autores".
            A sua grande preocupação é conseguir a verdade dos factos, nomeadamente através de documentação.

            c) Matéria que vai tratar: os feitos dignos de memória de D. João I.



🔺 A teoria da História e o texto literário

                    
Texto Histórico

Texto Literário

- A verdade:
. crua – “sem outra mistura”;
. nua – “nuamente mostrar”;
. simples – “simprez verdade”.

- Discurso nu (o historiador) – “leixados os compostos e afeitado razoamentos”.




- Discurso histórico – “claros feitos, dignos de grande renembrança (…) poemos em praça na seguinte ordem".


- Subjetivo e adornado.




- Discurso enfeitado (o literato) com aspetos intertextuais; afetado pelos níveis estéticos que conduzem aos vários sentidos (desde a ironia à ambiguidade e outros).

- Discurso literário:
- narrativo;
- com oralidade;
- …
fusão ® não há fundo separado da forma.

            Em síntese, Fernão Lopes opõe "muitos estoriadores" sujeitos à "mundanal afeiçom" a si próprio ("nós"), que "posta adeparte toda afeiçom" por desejar "escrever verdade", declara o seu amor à verdade e ao trabalho de investigação a que meteu ombros para nos dar "nuamente" a "simpreza verdade" e mostra o seu aparente desprezo da forma, que resulta, contudo, "afremosentada" por uma intuição natural. Ou seja, F. Lopes, quando afirma pretender renunciar à "formosura e novidade de palavras", serve-se de elementos estético-literários (estrutura rítmica da frase, simetria de elementos antitéticos, antítese formal e metafórica, duplicação sindética, paralelismo), negando, portanto, a oposição entre o discurso histórico e literário.



🔺 Concepção de História para Fernão Lopes

* Procura da verdade ® crítica aos seus predecessores.
* Imparcialidade ® (falsos, parciais, mentirosos).
* Investigação.

* Preocupação com o conteúdo, fazendo-o prevalecer sobre a forma.

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