Português: Análise da cena 3 do ato I de Hamlet

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Análise da cena 3 do ato I de Hamlet


    A cena é constituída por diálogos entre os dois irmãos e depois entre o pai e os seus filhos. Se a cena II serviu para anunciar o contraste entre Hamlet e Laertes, esta acentua-o e clarifica-o. De facto, na cena anterior, o leitor fica a conhecer a profunda divisão existente no seio da família de Hamlet, em confronto com a normalidade que se faz sentir na casa de Polónio. Ao longo da peça, por outro lado, ficará bem patente a diferença entre Laertes e Hamlet, pois, enquanto este hesita em levar a cabo a vingança do seu pai, Laertes não hesita e mostra-se determinado em vingar a morte do seu. De um lado, temos um jovem príncipe contemplativo e hesitante e, do outro, um ativo, determinado, obstinado e afetuoso Laertes.

    Por outro lado, a cena permite que o leitor fique a conhecer as personagens da família de Polónio. Assim, Laertes, quando questiona a irmã acerca do seu relacionamento com Hamlet e a aconselha, mostra ser o irmão mais velho atento, carinhoso e preocupado com a sua jovem irmã. Além disso, mostra-se confiante e prático, possuidor de um raciocínio direto e uma forma de ser e agir gentil. Sendo mais velho e na qualidade de homem que já esteve para lá dos portões de Elsinore e das fronteiras da Dinamarca, é alguém mais experiente do que a irmã e que tem consciência das questões que a atenção de Hamlet pode causar à reputação de Ofélia.

    Por seu turno, esta última deixa clara a sua juventude e inexperiência, mas também sincera e transparente no que diz respeito ao seu amor pelo príncipe. De facto, quando questionada pelo irmão e pelo pai, Ofélia poderia mentir, porém ela revela o que está a acontecer e é sincera no seu amor por ele, acreditando igualmente na sinceridade do afeto do príncipe. Em contrapartida, esta postura revela uma certa ingenuidade e desconhecimento do lado mais sombrio que pode residir nas intenções de um jovem relativamente a uma mulher igualmente jovem.

    Já Polónio apresenta-se, no diálogo com o filho, como um pai conselheiro, atento, preocupado e paternalista, tendo a forma como o aconselha acerca do modo de se comportar em França. Este discurso permite também estabelecer um contraste entre o amor paternal de que Laertes desfruta e o sentimento de perda e estranhamento de Hamlet, em virtude sobretudo do falecimento de seu pai. Além disso, se os filhos parecem ser sinceros e diretos, Polónio parece ser um homem algo egocêntrico e com uma visão eminentemente político das coisas e da vida, mesmo em situações que envolvem Laertes e Ofélia.

    Por último, a cena releva o contraste entre a realidade e as aparências, a propósito das verdadeiras intenções de Hamlet relativamente a Ofélia. O que quer ele dela? Será sincero ou estará a enganá-la? Neste contexto, a postura e o pensamento de Polónio são muito interessantes. De facto, está mais preocupado com as repercussões que as ações da filha podem ter na reputação dele do que com a sorte dela. Motivações semelhantes parecem estar subjacentes aos conselhos que dá a Laertes: a preocupação essencial centra-se nas aparências exteriores e não no interior de cada personagem.

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