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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Análise do Canto I da Ilíada

             O primeiro verso da Ilíada apresenta-nos desde logo o tema do poema: a cólera/a fúria de Aquiles, evidenciada pela primeira palavra da obra – menin. E qual é a sua causa? Nada mais nada menos do que o orgulho e a honra, este último um conceito central na Antiguidade. Por outro lado, a palavra menin também significa «preço» ou «valor», o que significa que a perda de um prémio muito valioso por parte de Agamémnon constitui igualmente uma perda significativa de honra. No entanto, parece que abdicar de algo muito valioso para resguardar o seu exército constituiria também um gesto de honra e valor. Todavia, o orgulho de Agamémnon impossibilita isso, mesmo tendo como contrapartida a promessa de valiosas recompensas futuras.

            Agamémnon só aceitará devolver a sua escrava se receber, em troca, Criseida, um «prémio igual», portanto, o que origina o conflito com Aquiles: cada um insulta a honra e o orgulho do outro – o filho de Tétis e Peleu apelida o rei de ganancioso e cobarde, enquanto este menospreza as qualidades guerreiras daquele. Quando Agamémnon retira Briseida a Aquiles, desonra-o, bem como a sua mãe, por extensão, o que significa que agravou o seu maior guerreiro e os deuses do Olimpo. Note-se que Agamémnon já tinha cometido o crime da sua filha Ifigénia, cuja vida sacrificou para beneficiar do favor dos ventos nas velas dos seus navios que tinham encalhado a caminho de Troia antes do início da guerra, gesto que causará a sua própria morte, às mãos da sua esposa, após o seu regresso da batalha, em parte como vingança pelo sacrifício da jovem. Nada disto faz parte da ação da Ilíada, mas ajuda a compreender a postura de Agamémnon, que tudo sacrificou (incluindo a sua filha, o que configura a sua hybris, o desafio pelo qual irá pagar o máximo preço: a vida) para atender ao seu orgulho e alcançar os seus objetivos.

            Assim sendo, a Ilíada, no Canto I, centra-se na fúria de Aquiles, nomeadamente na sua origem/causa, no modo como incapacita o exército aqueu e como, posteriormente, é redirecionada para os Troianos. Assim sendo, é possível supor que a guerra propriamente dita serve mais como pano de funo da obra do que como seu assunto principal. É uma hipótese de análise que se pode colocar em cima da mesa. Parecendo confirmar esta ideia, temos o facto de, aquando do enfrentamento entre Agamémnon e Aquiles, o conflito entre Troianos e Aqueus durar há quase dez anos; além disso, a ausência do filho de Tétis do campo de batalha dura apenas alguns dias e o poema termina pouco depois do seu regresso. Por outro lado, a obra de Homero não enuncia as origens nem o desenlace da guerra, antes se debruça sobre as origens e o fim da fúria de Aquiles.

            Um outro foco de análise da Ilíada prende-se com a figura dos deuses, as suas ações e motivações. São eles que conduzem os humanos. Note-se, por exemplo, que, no fundo, o responsável do conflito entre Agamémnon e Aquiles é Apolo e a praga enviada sobre o acampamento aqueu, não obstante a importância da natureza humana. Para os gregos antigos, quer as motivações internas quer os acontecimentos que estão fora do controle humano são obra dos deuses. Por exemplo, Aquiles só não mata Agamémnon porque Atenas o impede. De modo muito genérico, podemos dizer que os deuses intervêm nos assuntos mortais de duas formas. Por um lado, agem como forças externas no curso dos acontecimentos. Exemplo disto é o facto de ser Apolo a enviar a praga sobre os Aqueus. Por outro lado, eles constituem forças internas que agem sobre os indivíduos, como se pode comprovar pelo facto de ser Atenas, a deusa grega da sabedoria, a impedir Aquiles de matar Agamémnon, um ato distante de qualquer racionalidade, vencendo-o antes através das palavras. Além disso, as ações dos deuses funcionam ainda como forma de alívio cómico. Por exemplo, a querela entre Zeus e Hera configura um conflito bem mais leve do que a disputa entre Aquiles e Agamémnon.

            Isto não impede que o poeta apresente as divindades próximas da mundividência humana. Zeus compromete-se a auxiliar os Troianos não por uma questão moral, mas apenas para pagar um favor que deve a Tétis. De modo semelhante, a hesitação em cumpri a promessa não tem a ver com a intenção de não interferir no curso dos acontecimentos, mas com o seu receio de irritar Hera. Quando esta fica realmente irritada, o esposo só a consegue silenciar quando ameaça estrangulá-la. Estes exemplos de partidarismo, orgulho ferido e conflitos domésticos, bastante comuns entre os deuses olímpicos, sugerem uma imagem das divindades como figuras mais «humanas» do que se poderia esperar.

            Em suma, o Canto I da Ilíada deixa, desde logo, bem visível a importância do orgulho e da honra pessoal no contexto do sistema grego de valores da Antiguidade. Exemplo disso são as atuações de Aquiles e Agamémnon, que colocam o seu «eu», o seu orgulho, a sua glória individual acima do bem-estar do seu exército. O comandante aqueu acredita que, enquanto chefe do exército, tem direito ao maior prémio disponível – Briseida –, por isso não hesita em hostilizar o seu guerreiro mais destacado, para garantir que possuirá o que acredita ser-lhe devido. Por seu turno, Aquiles opta por defender o seu direito a Briseida, o despojo que lhe coube após a vitória e o saque da cidade aliada de Troia, em vez de acalmar a situação. Orgulhosos, cada uma das personagens considera que submeter-se à vontade do outro constituiria uma humilhação, em vez de um gesto de honra ou dever. Isto significa que ambos colocam o seu interesse à frente do do seu povo e dos seus comandados, colocando, em última análise, em risco todo o esforço de guerra.

            Note-se, por último, que é possível observar características da tradição oral logo no Canto I, como, por exemplo, o recurso a epítetos. Cada personagem ou objeto podem ser referidos ou descritos de diferentes maneiras. É o caso de Aquiles, frequentemente descrito como «de pés velozes», «divino», etc. Por vezes, a escolha do vocabulário é condicionada pelo respeito pela métrica. Por outro lado, a repetição de epítetos ou determinadas expressões ajudava os ouvintes a identificar de imediato personagens e objetos.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Promoção do dia: bolos de ontem


 

Resumo do Canto I da Ilíada

             O Canto I compreende a Invocação: o poeta invoca uma musa, solicitando-lhe ajuda para contar a história da fúria de Aquiles (μῆνιν), o maior herói dentre os Gregos a participar na Guerra de Troia.

            A narrativa propriamente dita começa nove amos (quase dez) após o início do conflito bélico, no momento em que os Aqueus saqueiam uma cidade aliada de Troia e capturam duas jovens e belas donzelas: Criseida e Briseida. Agamémnon, o comandante do exército aqueu, reclama Criseida para sua escrava e concubina, enquanto Aquiles fica com Briseida. Crises, o pai da primeira e sacerdote de Apolo, implora a Agamémnon que lhe devolva a filha, oferecendo em troca um rico resgate. No entanto, o monarca grego recusa-se a satisfazer o pedido do pai ferido, por isso reza a Apolo, que envia uma praga sobre o acampamento grego que causa a morte de muitos soldados.

            Passados dez dias do surgimento da praga, Aquiles reúne o exército aqueu no sentido de averiguar a sua causa. Calcas, um adivinho, revela então que ela constitui uma vingança enviada por Apolo a pedido de Crises por causa de Agamémnon se ter recusado a devolver a filha ao sacerdote, o que provoca a fúria do líder do exército grego, que declara que só devolverá Criseida se Aquiles lhe der Briseida como compensação. Esta exigência humilha e enfurece o maior guerreiro aqueu, que ameaça retirar-se da guerra e levar consigo os Mirmidões, os seus guerreiros. A discussão entre os dois sobe de tom e somente a intervenção de Atenas impede Aquiles de matar Agamémnon. Os conselhos da deusa e o discurso sábio de Nestor conseguem, por fim, impedir o duelo.

            Nessa noite, Agamémnon envia Criseida de volta para o seu pai e manda enviados +ara Briseida seja retirada da tenda de Aquiles e conduzida à sua. Aquiles pede, então, a Tétis, deusa do mar e sua mãe, que solicite a Zeus que castigue os Aqueus, depois de lhe ter contado a sua discussão com Agamémnon. Tétis promete falar com o chefe dos deuses, que lhe deve um favor, assim que ele regressar de um período de treze dias de festa com os etíopes. Enquanto isso, Ulisses devolve Criseida ao pai e faz sacrifícios em honra de Apolo. O regresso da filha deixa Crises muito feliz e reza ao deus para que termine a praga enviada sobre o acampamento grego. Apolo aceita a oração e Ulisses regressa para junto dos seus companheiros.

            Sucede que Aquiles, depois do confronto com Agamémnon, não voltou a participar na guerra. Entrementes, passados doze dias, Tétis fala com Zeus, como havia prometido ao filho, mas o pai dos deuses hesita em ajudar os Troianos, pois Hera, sua esposa, está do lado dos Gregos, mas acaba por concordar, o que deixa a deusa furiosa, porém o seu filho Hefesto convence-a a não iniciar um conflito entre os deuses por causa de meros mortais.

Introdução à Ilíada

             A Ilíada é a primeira obra da literatura europeia e, até hoje, nenhuma outra conseguiu superá-la.
            A origem da cadeia de transmissão situa-se algures na Idade Média, mas é impossível estabelecer uma data concreta por falta de dados. Não obstante, segundo Frederico Lourenço, é possível afirmar que no século VII a.C., no fim de uma longa tradição épica oral, surgiu este poema, atribuído a Homero.
            No século VI a.C., uma família aristocrática de Atenas providenciou, a expensas próprias, a primeira edição oficial escrita do livro. Mais de duzentos anos depois, Aristóteles concretizou uma nova edição da Ilíada, que foi lida de forma apaixonada e inspiradora pelo seu mais famoso aluno, Alexandre. Nos séculos seguintes, diversos estudiosos produziram, na biblioteca de Alexandria, a famosa cidade fundada pelo mesmo Alexandre, várias edições críticas em papiro. Um milénio depois, eclesiásticos bizantinos efetuaram as cópias dos primeiros manuscritos completos que ainda hoje podemos consultar na biblioteca de Florença, Veneza e Londres. Um desses manuscritos, que se encontra presentemente na Biblioteca Ambrosiana de Milão, foi adquirida por Petrarca, que, frustrado por não conseguir ler o poema em grego, encomendou uma tradução latina a Leôncio Pilato, que constituiu, afinal, a primeira tradução renascentista da obra. Em 1488, surgiu, em Itália, a primeira edição impressa do poema homérico. Crê-se que, cerca de trinta anos depois, D. Jerónimo Osório, bispo de Silves, traduziu para português os primeiros oito cantos, trabalho que foi retomado posteriormente, também de forma parcelar, pela Marquesa de Alorna. Outras traduções foram surgindo ao longo dos séculos em língua portuguesa, no entanto, desde o Renascimento, a primeira a exprimir nela o que está, de facto, no texto grego, se encontra nos excertos da Ilíada que a professora Maria Helena da Rocha Pereira apresentou na sua antologia Hélade.
            Apesar da problemática, não solucionada, em torno da sua autoria, são vários os estudiosos que creem que se trata da obra de um só poeta, que nela trabalhou durante muitos anos, tendo numa primeira fase criado uma estrutura relativamente simples, que posteriormente se complexificou com a introdução de novos episódios. Esta ideia não exclui, porém, a hipótese de terem sido introduzidas intercalações posteriores. Por exemplo, crê-se que o Canto X não teria feito parte dos planos de Homero, como o parece comprovar o facto de os 579 versos que o constituem surgirem, em certas edições críticas, entre parênteses.
            Outra questão prende-se com o registo em que teria sido composta por Homero: escrito ou oral? Também neste capítulo as opiniões divergem: há quem defenda que o poema, embora proveniente de uma tradição oral, foi composto pelo poeta por escrito; porém, também existem autores que continuam a sustentar que os Poemas Homéricos foram ditados por um aedo analfabeto a alguém que sabia escrever.
 
            No que diz respeito ao tempo dos eventos narrados, Homero dá-nos conta de acontecimentos que ocorreram num período de pouco mais de 50 dias, já na fase final da guerra, do qual nos descreve, em termos de ação efetivamente narrada, 14 dias. Assim sendo, o poeta concentrou o conflito bélico de 10 anos em duas semanas.
            Relativamente aos motivos que deram origem à guerra, Homero pouco conta; o julgamento de Páris (a quem o poeta prefere chamar Alexandre) só é referido de passagem no Canto XXIV; e o epicentro do poema, quanto aos sentimentos adúlteros que levaram ao conflito, é a recriação, no Canto III, da primeira noite de amor de Páris e Helena, ocorrida nove anos antes. O resultado da guerra parece não interessar particularmente ao poeta, pois só o verso final do livro sugere a destruição de Troia. Por outro lado, os 55 dias da ação global do poema, bem como os 14 de ação efetivamente narrada, estão condicionados por reações em cadeia provenientes do passado, que terão repercussões trágicas no presente.

Significado do título Ilíada

             O termo Ilíada (em grego antigo: Ἰλιάς) é uma palavra grega que significa «poema sobre Ílion» (ou «Ílio»), que é um nome alternativo para designar a cidade de Troia, o cenário da guerra que está no centro da obra.

Estrutura da Ilíada

             A Ilíada está dividida em 24 cantos ou livros, os quais se dividem em 5 partes:

▪ Canto I;

▪ Cantos II a X;

▪ Cantos XI a XIV;

▪ Cantos XV a XIX;

▪ Cantos XX a XXIV.

 
            Outra possível distribuição dos 24 cantos da Ilíada é a seguinte:
 
Introdução: Apolo inflige uma praga ao exército aqueu.
 
Peripécias:

a) Agamémnon toma Briseida de Aquiles;

b) Zeus promete a Tétis punir os Aqueus por causa da afronta de Agamémnon a Aquiles;

c) Mortais e deuses combatem e são feridos em batalha;

d) Zeus proíbe os outros deuses de interferir na guerra;

e) Com a ajuda de Zeus, Heitor ataca os navios aqueus;

f) Heitor mata Pátroclo;

g) Aquiles e os deuses voltam à batalha.
 
Clímax: Aquiles mata Heitor.
 
Resolução:

h) Príamo implora a Aquiles o corpo de Heitor;

i) Aquiles devolve o corpo de Heitor a Príamo.
 
Situação final: Heitor é sepultado em Troia.
 
            A Ilíada não narra a guerra de Troia desde o começo – ab ovo, nas palavras de Horácio. Pelo contrário, a narração não chega a descrever a morte de Aquiles – tantas vezes anunciada – nem a queda de Ílion. É somente através da Odisseia que tomamos conhecimento da forma como ela correu, através do célebre estratagema do cavalo de pau.

                Depois de uma breve Proposição e Invocação, a Narração inicia-se «in medias res» (isto é, no meio dos acontecimentos): Crises avança até às naus dos Aqueus, para implorar que lhe seja restituída a sua filha Criseida, pela qual oferece um riquíssimo resgate.

                Por outro lado, a ação possui um só fio condutor, retardado por diversos episódios, que conferem variedade à narrativa, conseguida através de alguns processos literários, como, por exemplo, a mudança de cena terrestre para o Olimpo, os símiles, a breve biografia de uma vítima menor, variantes estilísticas (como a apóstrofe ou a interrogação retórica), a narração feita na ordem inversa dos acontecimentos, etc.

            O poema narra os acontecimentos decorridos no período de pouco mais de 5o dias no décimo ano da Guerra de Troia, em 15693 versos em hexâmetro datílico, compostos num misto de dialetos, resultando numa língua literária artificial que nunca foi, de facto, falada na Grécia, distribuídos por 24 livros ou cantos de tamanho desigual, identificados pela tradição literária com as letras do alfabeto grego.

 
            Resumo dos cantos:
 
Canto I: já na fase final da Guerra de Troia, Aquiles, furioso por Agamémnon lhe ter roubado a escrava Briseida, retira-se para o seu acampamento e decide não voltar a tomar parte no cerco da cidade.
 
Canto II: os Gregos, desanimados, decidem regressar a casa, mas Ulisses demove-os.
 
Canto III: Helena, do cimo das muralhas de Troia, identifica para Príamo os principais líderes gregos. Páris e Menelau duelam para decidir o destino da guerra e o primeiro é salvo da morte por Afrodite.
 
Canto IV: um archeiro troiano, durante as tréguas, fere Menelau com uma seta. Agamémnon exorta os Gregos a combater.
 
Canto V: Diomedes distingue-se no campo de batalha, chegando a ferir os deuses Ares e Afrodite.
 
Canto VI: Heitor, de regresso a Troia para apaziguar Atenas, encontra-se com a esposa e o filho, e condena a cobardia de Páris. No final, regressa à batalha com o irmão.
 
Canto VII: Heitor e Ájax lutam até à morte, mas sem resultados, pois a luta é interrompida pela chegada da noite. No dia seguinte, Gregos e Troianos fazem uma trégua para enterrarem os mortos.
 
Canto VIII: ocorre nova batalha, em que os Gregos são repelidos pelos Troianos. Os deuses retiram-se do conflito.
 
Canto IX: Agamémnon tenta reconciliar-se com Aquiles e envia-lhe uma embaixada. Ájax, Ulisses e Fénix tentam chamá-lo à razão, em vão, porém.
 
Canto X: Ulisses e Diomedes fazem, durante a noite, o reconhecimento do campo dos Troianos e matam, para além de Risos e dos seus trácios, o espião Dólon. Por isso, este canto é conhecido por Dolonia.
 
Canto XI: tem lugar a terceira grande batalha, que resulta na derrota dos Gregos. Páris fere Diomedes e Pátroclo fica a conhecer a situação precária dos Aqueus.
 
Canto XII: os Troianos aproveitam o êxito e penetram no acampamento dos Aqueus, que retiram até aos seus navios.
 
Canto XIII: os Gregos contra-atacam e anulam o ataque dos Troianos.
 
Canto XIV: Hera desvia a atenção de Zeus e a vitória inclina-se para o lado grego.
 
Canto XV: Zeus, já desperto, envia Apolo em socorro dos Troianos e o deus do Sol leva Heitor a avançar sobre os barcos gregos.
 
Canto XVI: Aquiles empresta as suas armas a Pátroclo e dá-lhe permissão para entrar na luta. Quando o veem chegar ao campo de batalha, os Troianos julgam que é Ulisses e fogem. Heitor, convencido também de que batalha com Aquiles, duela com Pátroclo e mata-o.
 
Canto XVII: gera-se uma disputa pelo corpo e pela armadura de Pátroclo. O corpo acaba por ser resgatado pelos Gregos, enquanto Heitor fica com as armas de Aquiles.
 
Canto XVIII: Aquiles, ao tomar conhecimento da morte de Pátroclo, exprime o seu desgosto e promete vingá-lo. Tétis, sua mãe, faz com que Hefesto lhe fabrique novas armas prodigiosas (as suas, que havia emprestado a Pátroclo, tinham ficado em posse de Heitor). É neste canto que se encontra a célebre descrição do escudo de Aquiles.
 
Canto XIX: a escrava Briseida é restituída a Aquiles e o diferendo entre este e Agamémnon fica sanado. O herói grego regressa à luta.
 
Canto XX: vai travar-se a quarta batalha da Ilíada, a decisiva, cujo desenlace será favorável aos Gregos. Inicialmente, os deuses também participam no conflito, mas acabam por se retirar. Aquiles semeia a morte entre os Troianos.
 
Canto XXI: os rios Xanto (ou Escamandro) e Simoente intervêm a favor dos Troianos e perseguem os Gregos com as suas águas, mas Hefesto fá-los recuar com o fogo e os Troianos têm de se refugiar dentro das suas muralhas.
 
Canto XXII: Heitor fica só diante da muralha e, ao encontrar Aquiles, inicialmente foge de medo, mas depois resiste e é morto pelo adversário. Aquiles arrasta o corpo de Heitor perante o olhar desesperado dos Troianos.
 
Canto XXIII: Aquiles e os Gregos celebram os funerais de Pátroclo com jogos, corridas e combates.
 
Canto XIV: Zeus inspira Príamo a ir até à tenda de Aquiles pedir o corpo do seu filho Heitor. Aquiles, comovido pela recordação do seu próprio pai, Peleu, restitui-lhe o cadáver. O poema finaliza com as exéquias de Heitor no meio das lamentações de Andrómaca, Hécuba e Helena.
 
            Esta divisão em 24 cantos é atribuída tradicionalmente aos estudiosos da biblioteca de Alexandria que produziram edições críticas da obra, mas nada contraria a hipótese de ser anterior.
 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Resumo da Ilíada

             A Ilíada inicia-se com uma expressão de raiva e frustração. A causa é simples: a Guerra de Troia já dura há nove anos e os Aqueus são incapazes de derrubar as muralhas da cidade. O exército grego saqueia Crise, uma cidade aliada dos Troianos (também designados como «Dárdanos», «Dardânidas» ou «Dardânios») e captura duas jovens donzelas, Criseida e Briseida, distribuídas respetivamente a Agamémnon (rei dos Aqueus) e Aquiles, o maior guerreiro aqueu como escravas e concubinas.

            O velho Crises, pai de Criseida e sacerdote de Apolo, dirige-se ao acampamento dos Aqueus para resgatar a filha, trazendo consigo riquezas incontáveis. Agamémnon, porém, rejeita o resgate, escorraçando Crises com palavras cruéis e enfatizando o papel da filha enquanto concubina. Neste passo inicial do poema, é clara a intenção de retratar o rei aqueu como um monarca arrogante e cruel, tendo em conta, além da forma como se dirige ao velho sacerdote, o modo diferente como Aquiles trata Briseida, que é muito mais do que mero objeto sexual.

            Este início da obra contrasta com o seu final, nomeadamente o canto final, que nos apresenta uma situação oposta: um pai idoso, Príamo, vai à tenda de Aquiles para resgatar o cadáver do seu filho Heitor, sendo acolhido num espírito de humanidade e compaixão. Fecha-se aí o círculo, com o apaziguamento da cólera (que, em grego, é a primeira palavra da Ilíada), sentimento cujas consequências trágicas conheceremos ao longo dos 24 cantos do poema.

            Perante a recusa de Agamémnon, Crises reza, desesperado, a Apolo, pedindo-lhe que castigue os Aqueus. O deus acolhe o pedido e assola o exército grego com uma epidemia de peste, o que leva à convocação de uma assembleia, onde Agamémnon consulta Calcas para determinar a causa da peste. Para grande fúria do monarca, o adivinho declara que só restituindo Criseida ao pai se acalmará a fúria de Apolo. Aquiles sustenta a posição de Calcas, o que enfurece Agamémnon, que, despeitado, hostiliza o guerreiro, apropriando-se de Briseida. Furioso, Aquiles insulta o rei aqueu, regressa à sua tenda e desiste de participar na guerra, para repor a verdade dos factos, o que equivale a coagir Agamémnon a aceitar que a real hierarquia o coloca abaixo do próprio Aquiles, herói supremo. Para mostrar ao monarca quem é mais importante no contexto bélico, o guerreiro pede aos deuses que permitam que os Troianos derrotam o seu próprio exército – os Aqueus – até que ele regresse ao combate. Queixa-se a sua mãe, a deusa Tétis, que lhe promete ir pedir a Zeus que o desafronte, mandando reveses aos Aqueus. Criseida é restituída ao pai, e a peste cessa. Por seu turno, Tétis obtém de Zeus o assentimento que pretende, para desagravar o filho. Mal ela se retira, desenrola-se a este propósito uma discussão no Olimpo, entre Zeus. Hera, acalmada com grandes dificuldades por Hefesto, o filho de ambos. O canto inicial termina com um festim dos bem-aventurados, a que não falta o canto e a música de Apolo e das Musas.

            No Canto II, Agamémnon tem um sonho enganador, enviado por Zeus para o induzir a atacar. Os exércitos marcham para o campo da batalha, mas Páris, o príncipe troiano que espoletou a guerra ao raptar Helena, esposa de Menelau, irmão de Agamémnon, propõe um duelo entre si e Menelau, destinado a pôr cobro ao conflito através da luta entre os dois principais interessados. O aqueu concorda e o duelo começa, todavia, quando Menelau está prestes a vencer o adversário, a deusa Afrodite leva Páris de volta a Troia e a batalha recomeça.

            O Canto V põe-nos em contacto com os feitos de guerreiros de Diomedes, que, com a ajuda de Atena, fere Afrodite e Ares, dois dos deuses apoiantes dos Troianos. Entretanto, Heitor, um príncipe e o maior guerreiro troiano, regressa brevemente a Troia para pedir a Hécuba que faça oferendas a Atena, trazer Páris de volta ao campo de batalha e se despedir de Andrómaca, sua esposa. Segue-se novo duelo, desta vez entre Heitor e Ájax, o guerreiro aqueu mais forte a seguir a Aquiles, que adquire vantagem, mas não pode matar o adversário.

            Segue-se uma trégua destinada a cada lado enterrar os seus mortos, que é aproveitada pelos Aqueus para construir uma muralha em redor dos seus navios. Quando a luta recomeça no dia seguinte, Zeus proíbe os deuses de intervirem na guerra, cumprindo assim a promessa feita a Tétis, mandando reveses aos Aqueus de tal ordem que forçam Agamémnon a enviar uma embaixada a Aquiles, destinada a solicitar a reconciliação e o seu regresso à contenda, com ofertas riquíssimas, incluindo o retorno de Briseida. A iniciativa, porém, mão frutifica, pois ele não se desculpa perante Aquiles e a sua cólera mantém-se.

            Incapazes de dormir, Ulisses e Diomedes fazem uma incursão noturna com o intuito de espiar o exército troiano, cruzando-se com Dólon, o espião enviado por Heitor, e matando-o. De manhã, Agamémnon faz recuar os Troianos para a sua cidade, mas, graças a uma intervenção de Zeus, os Troianos atacam com êxito a muralha e trincheira defensiva dos Aqueus. A derrota parece iminente. Segue-se o dolo do pau dos deuses: Hera consegue seduzir e adormecer Zeus de modo a desviar as suas atenções do campo de batalha, para que Poseidon possa socorrer os Aqueus. Estes, auxiliados pelo deus do mar, expulsam os Troianos para fora da muralha, contudo Zeus desperta e continua a favorecer os Troianos, de acordo com a promessa feita a Tétis, e o seu avanço é tal que se preparam para incendiar as naus dos Aqueus, o que equivale a cortar-lhes a retirada. Perante a iminência da derrota, Aquiles consente que o seu amigo Pátroclo (que lhe solicitara que regressasse à batalha e salvasse os seus, o que o maior guerreiro aqueu não aceita por permanecer irado), revestido das suas próprias armas e conduzindo o seu carro, para iludir os Troianos a pensar que Aquiles tinha voltado, vá para o combate, à frente dos Mirmidões. Pátroclo é um excelente guerreiro e a sua presença no campo de batalha ajuda os Aqueus a empurrar os Troianos para longe dos navios e de volta para as muralhas da cidade. No entanto, Pátroclo acaba por morrer às mãos de Heitor, que, num acesso de orgulho, tira a armadura de Aquiles ao adversário morto e veste-a, enquanto os Aqueus recuperam o corpo frio do seu herói, graças à ação sobretudo de Menelau.

            Profundamente ferido pela triste notícia, Aquiles resolve regressar à batalha para vingar a morte do amigo. Tétis dirige-se ao Olimpo e convence Hefesto a forjar uma nova armadura e armas de ouro. Após a reconciliação com Agamémnon, Aquiles retorna à luta à frente do exército aqueu. Enquanto isso, Heitor não espera que Aquiles regresse à refrega e ordena aos seus homens que acampem fora das muralhas de Troia, mas, quando eles avistam o filho de Tétis, refugiam-se, aterrorizados, dentro delas. O guerreiro aqueu elimina todos os cavalos de Troia que vê e luta com o deus do rio Xanthus, que está furioso porque o adversário fez com que tantos cadáveres caíssem nos seus afluentes.

            A luta titânica entre o maior dos heróis aqueus e o maior dos troianos ocupa três livros. Depois de diversos recontros em que Eneias, príncipe troiano, se evidencia, dá-se finalmente o combate junto do rio (em que o Escamandro, transbordante de guerreiros derrubados pelo aqueu, inunda a planície, ameaça submergi-la e só é dominado pelo sogro ígneo de Hefesto), e a morte de Heitor, depois de uma longa perseguição em volta das muralhas de Troia. De facto, envergonhado por ter liderado o seu exército à derrota, o maior dentre os Troianos recusa-se a refugiar-se dentro da cidade com eles e espera pro Aquiles fora dos portões da cidade, no entanto perde a coragem e foge quando o inimigo se aproxima, sendo perseguido três vezes, até que Atena o engana e ele para. A armadura divina de Aquiles protege-o, mas este acaba por o atingir mortalmente através de um ponto fraco que nele existe e que o aqueu bem conhece. Aquiles amarra o corpo de Heitor à parte de trás do seu carro e arrasta-o pelo acampamento de batalha até ao acampamento aqueu.

            Após o regresso de Aquiles, os Aqueus cremam Pátroclo e realizam uma série de jogos em sua honra. Nos nove dias seguintes, Aquiles arrasta o corpo de Heitor em círculos, em redor do esquife funerário do amigo.

            No canto final, Príamo, o velho rei de Troia, ousa ir à tenda de Aquiles, pedir-lhe, com ricos presentes, a restituição do corpo do seu filho; o herói comove-se com as palavras de Príamo, aceita e concede umas tréguas de doze dias para se realizarem os funerais de Heitor, ato com que termina o poema.

domingo, 18 de julho de 2021

Calendário escolar 2021/2022

Exames de equivalência à frequência - Ensino secundário - 2021/2022


Calendário dos exames nacionais do ensino secundário - 2.ª fase - 2021/2022


Calendário dos exames nacionais do ensino secundário - 1.ª fase - 2021/2022


Calendário - provas de equivalência à frequência do ensino básico - 2021/2022


 

Roteiros “Escola + 21/23”

Novos documentos do Plano Escola + 21/23:






Análise de Mona Lisa

             «Mona Lisa» é uma das pinturas mais célebres da história da humanidade, um óleo sobre madeira da autoria de Leonardo da Vinci, algures entre 1503 e 1506, de 77 por 53 cm. A obra compreende o retrato de uma mulher misteriosa e encontra-se exposta no Museu do Louvre, em Paris.

            O título do quadro é “Mona Lisa”, sendo que «Mona» é a contração do termo italiano «Madona», que significa «Senhora» ou «Madame». Assim sendo, o título será «Senhora / Madame Lisa». A obra é também conhecida pela designação de «Gioconda», que pode significar «mulher alegre» ou «a esposa de Giocondo».

            Relativamente às técnicas utilizadas na imagem, destaca-se a do sfumato, a qual foi criada pelos primeiros pintores flamengos, mas aperfeiçoada por Da Vinci. A técnica consiste na criação de gradações de luz e sombra que diluem as linhas dos contornos do horizonte. No caso concreto da «Mona Lisa», o recurso ao sfumato cria a ilusão de que a paisagem se vai afastando do retrato feminino, pintado com nitidez, por oposição à paisagem esfumada – sfumato –, conferindo profundidade à obra.

            A pintura apresenta uma mulher sentada, revelando apenas a parte superior do seu corpo. Atrás dela, vemos uma paisagem que mistura a natureza (as águas e as montanhas) e a ação humana (os caminhos). Note-se que o corpo feminino é construído pelas mãos e o vértice superior o seu rosto.

            O aspeto que mais interesse desperta no quadro é o sorriso da mulher, enigmático e ambíguo. Vários são os estudos e as interpretações sobre e do sorriso; aparentemente, as rugas em torno dos olhos e na curva dos lábios parecem indiciar felicidade.

            Já o olhar apresenta uma expressão carregada de intensidade; por outro lado, a pintura foi construída de forma a sugerir que os olhos inquisitivos e penetrantes nos seguem de todos os ângulos.

            No que diz respeito à postura, a mulher está sentada, com o braço esquerdo apoiado na cadeira, enquanto a mão direita se encontra poisada sobre a esquerda. A postura, em termos gerais, sugere alguma formalidade e solenidade, tornando claro que está a posar para o quadro.

            Em fundo, encontra-se uma paisagem imaginária, constituída por montanhas com gelo, águas e caminhos traçados pelo ser humano. Essa paisagem é desigual, pois é mais baixa do lado esquerdo e mais alta do direito.

            No que concerne à identidade da mulher retratada, ela continua a ser um mistério, destacando-se três dentre as várias teorias que a procuram decifrar. A primeira hipótese defende que a figura feminina é Lisa del Giocondo, esposa de Francesco del Giocondo, uma figura proeminente da sociedade de Florença. De acordo com alguns estudos, há documentos que atestam que Da Vinci estava a pintar um quadro dessa mulher. Por outro lado, acredita-se que ela teria sido mãe pouco tempo antes e o quadro seria uma encomenda do marido para comemorar o acontecimento. De acordo com outras investigações, as várias camadas de tinta parecem sugerir que, nas primeiras versões da obra, a mulher teria um véu no cabelo que era usado tradicionalmente pelas mulheres grávidas ou que tinham dado à luz recentemente.

            A segunda hipótese aponta para Isabel de Aragão, a duquesa de Milão, para quem Leonardo trabalhou. Segundo alguns estudos, o tom verde escuro e o padrão das vestes da figura feminina indiciam que pertence à casa de Visconti-Sforza. Por outro lado, uma comparação da Mona Lisa com retratos de Isabel de Aragão evidencia algumas semelhanças entre ambas.

            A terceira hipótese sugere que a figura retratada é a do próprio Leonardo Da Vinci, envergando roupas femininas. Esta teoria explicaria o facto de a paisagem ser mais elevada do lado direito (associado ao género feminino) do que o esquerdo (associado ao género masculino). Esta possibilidade radica nas semelhanças existentes entre a figura feminina retratada e os autorretratos do pintor.

            Ainda relativamente à figura da mulher, é de salientar também o facto de ela não possuir sobrancelhas, visto que, na época, era comum as mulheres rasparem as sobrancelhas, dado que os pelos das mulheres eram sinónimo de luxúria. Este traço é visível noutros quadros de Da Vinci, como “Retrato de Ginevra de Benci”.

 

sábado, 17 de julho de 2021

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«Fazer corresponder classificações iguais a desempenhos diferentes viola o mais elementar princípio que deve estar na base de uma avaliação justa...»

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Análise do filme "Parasita"

 I. Introdução
 
                Parasita é um filme sul-coreano de 2019, realizado por Bong Joon-ho. Trata-se de uma película que mistura vários géneros, que vão desde o thriller à comédia.

 
 
II. Ficha técnica
 
Título: Parasita.

Ano de produção: 2019.

Data de lançamento: maio de 2019.

País de origem: Coreia do Sul.

Realizador: Bom Joon-ho.

Género: thriller, drama e comédia.

Duração: 132 minutos.

Classificação: maiores de 16 anos.

Prémios:

- Oscar de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Estrangeiro.

- Palma de Ouro de Cannes.

 
 
III. Sinopse
 

                O filme retrata a vida da família Kim, pobre, que manipula os Park, ricos, na tentativa de encontrar um trabalho e uma remuneração. Graças a um conjunto de mentiras e planos mirabolantes, os Kim infiltram-se na mansão da família abastada, de forma semelhante à adotada pelos parasitas, que vivem num corpo sem que o hospedeiro se aperceba.

                De facto, a película centra-se na família Kim, que leva uma vida abaixo do nível de pobreza. Ela é constituída pelos progenitores – Ki-taek e Chung-sook – e pelos seus dois filhos – Ki-woo, o filho, e Ki-jeong, a filha –, os quais vivem num pequeno apartamento subterrâneo, localizado numa zona perigosa da cidade. Os quatro membros sobrevivem dobrando caixotes que vendem para uma pizaria local.

                Min-hyuk é um universitário que se prepara para ir estudar no estrangeiro e sugere a Ki-woo, seu amigo, fique com o seu trabalho como tutor de uma adolescente rica. O jobem forja um diploma e candidata-se ao emprego, que acaba por obter, graças ao interesse que a rapariga – Da-hye – demonstra por ele.

                Do outro lado da barricada temos a família Park, que vive numa mansão rica, rodeada de luxo e conforto. Dong-ik é o CEO de uma empresa informática e a sua esposa, Yeon-gyo, divide a vida entre os filhos, Da-hye e Da-song. A Sr.ª Park refere casualmente ao novo tutor da filha, que está à procura de uma professora de arte para o filho. O tutor diz-lhe que conhece uma rapariga que acabou de regressar dos Estados Unidos, onde estudou Belas Artes, que podem desempenhar a função. Deste modo, Ki-jeong passa a trabalhar para os Park.

                Posteriormente, os dois jovens desenvolvem um plano tendente ao despedimento do motorista e da criada da família Park, permitindo que os seus pais sejam contratados para os seus lugares, passando todos a conviver sob o mesmo teto, fingindo que não se conhecem.

                Certa noite, quando os donos da casa se encontram fora, a antiga empregada, Gook Moon-gwang, surge de surpresa e insiste em ir buscar algo à cave. É deste modo que os Kim descobrem que a mansão possui um bunker onde está escondido o marido da ex-criada há cerca de quatro anos, porque está cheio de dívidas e receia ser morto por causa disso.

                O casal e a família acabam por se envolver numa luta em que disputam um lugar na mansão. Entrementes, os Park regressam, o que obriga os Kim a amarrar Gook Moon-gwang e Geun-sae na cave. A antiga criada, durante o processo, sofre uma pancada na cabeça e morre.

                Por outro lado, nessa mesma noite desaba uma tempestade enorme e, quando os Kim regressam a sua casa, encontram-no inundado até ao teto, completamente destruído, o que os obriga a pernoitar num local público, com os demais desalojados.

                No dia seguinte, no intuito de proteger a família, Ki-woo desloca-se ao bunker para se livrar dos reféns, mas é atacada por Geun-sae. Depois de cerca de quatro anos preso, o homem pega numa faca e irrompe na festa de aniversário de Da-song, o filho de Park. Começa por esfaquear Ki-jeong e, depois, ataca Dong-ik, que reage com nojo ao seu cheiro. Depois de ver a filha morrer, Ki-taek pega na faca, mas, em vez de atacar o assassino, mata o patrão.

                De seguida, foge e esconde-se no bunker. Posteriormente, a família Kim é julgada e condenada, os Park vendem a mansão e o patriarca dos Kim permanece escondido na cave. Para combater a solidão, tenta comunicar em código morse com o seu filho, piscando as luzes todas as noites.

 
 
IV. Temas
 
4.1. Contrastes sociais e relações familiares
 

                Parasita constitui um retrato bastante crítico da sociedade sul-coreana contemporânea, focado nas diferenças sociais e nas desigualdades económicas entre as diversas classes.

                Assim, as famílias Park e Kim simbolizam os dois extremos: aquela é milionária e esta vive abaixo do limiar de pobreza. Para sobreviver, os segundos trabalham em conjunto, engendrando diferentes esquemas. De facto, todos contribuem para o sustento da família, seja de que forma for.

                Em contrapartida, os Park parecem não comungar da união dos Kim: opai passa imenso tempo longe de casa e a mãe preocupa-se com tudo, enquanto os filhos são super-protegidos e se preocupam apenas com os seus estudos. Se pensarmos noutras obras, de outros géneros, percebemos como a superproteção não traz bons resultados futuros. É o caso das personagens Pedro da Maia e Eusebiozinho Silveira, de Os Maias. O primeiro é um fraco e suicida-se, incapaz de suportar a traição e fuga da esposa, e o segundo vive num permanente estado de inferioridade física e psicológica.

 
4.2. O parasitismo
 
                Como já foi referido, o filme retrata a forma como aquela família desfavorecida, como última e desesperada estratégia de sobrevivência, se infiltra na casa e vida de uma família abastada.

                Quando a personagem Ki-woo começa a trabalhar para os Park, os Kim descobrem o caminho para um espaço luxuoso, requintado e confortável, exatamente o oposto da sua realidade. No momento em que os patrões abandonam a mansão para acampar, subitamente os desvalidos veem-se sozinhos, rodeados de tudo aquilo que nunca possuíram nem sonharam obter.

                Os “novos senhores” descobrem que existe um bunker onde se encontra, trancado, o marido da antiga empregada dos Park, Geun-sae, há vários anos, porque estava cheio de dívidas que colocavam em risco a sua vida. Assim sendo, é fácil concluir que este casal compartilhava do desespero dos Kim, embora por motivos diferentes. Por outro lado, também para ele a habitação constituía um refúgio. Quando o par descobre a tramoia dos Kim, envolve-se numa luta com estes, luta essa que perdem, acabando por ficar presos no bunker. No fundo, esta luta simboliza uma disputa pelo lugar de parasita da mansão e da família.

 
4.3. A sobrevivência
 
                A questão financeira (a posse ou a ausência de dinheiro) está no centro da película e é ela que constitui um dos seus fios condutores.

                Neste contexto, a família Kim parece configurar a vilã da história, por causa dos esquemas e atos criminosos que praticam, manipulando, mentindo, invadindo a habitação e a vida de outra família e ameaçando a sua existência. Deste modo, quando, no final, são castigados, o espectador pode ser levado a concluir que se fez justiça.

                No entanto, por outro lado, se considerarmos que os parasitas – quer os Kim quer o casal do bunker – apenas agem da forma como agem por necessidade extrema, pelo instinto de sobrevivência, o olhar do espectador pode ser caracterizado por alguma empatia por estas personagens. Confrontados com a miséria extrema e o desespero que esta acarreta, sem saídas, elas agarram-se ao que podem, independentemente do que seja – lícito ou criminoso. A única coisa que interessa é sobreviver, seja de que forma for. É isso que demonstra a atitude do marido da antiga empregada que, ao ser descoberto pelos Kim, implora que o deixem continuar lá, onde se sente seguro e confortável, ao contrário da vida no exterior.

 
4.4. Conflitos de classes sociais
 
                Ao longo da obra, vamos assistindo a um conflito entre patrões e empregados, sobretudo o motorista.

                Fazendo parte de uma sociedade capitalista que se caracteriza (também) pelos extremos sociais – muito ricos versus muito pobres –, os empregados observam o dia a dia dos Park, o seu conforto e luxo, e constatam como as suas vidas são muito mais difíceis e infelizes. É isso que os Kim constatam ao observar a forma despreocupada e feliz como os Park vivem, pois não têm preocupações e a sua existência é extremamente facilitada pela riqueza. É com base nisto que a família procura justificar os seus atos criminosos: estão a tentar viver mais um dia.

                Quando os Park regressam a casa, o motorista e os filhos dos Kim têm de se esconder debaixo da mesa e é a partir daí que escutam a conversa entre Dong-ik e Yeon-gyo sobre os empregados, marcada por um tom de superioridade e desprezo, até nojo. Exemplo disto é o modo como o marido se refere ao seu motorista e à sua roupa, que cheira mal. Isto provoca a fúria e a revolta de Ki-taek, que aumenta quando, no dia seguinte, ao transportar o patrão, observa o gesto deste, que tapa o nariz com a mão por causa do cheiro do motorista.

                Durante a festa de aniversário do filho mais novo dos Park, Ki-woo liberta inadvertidamente o prisioneiro do bunker. Durante os anos que passou preso naquele espaço, Geun-sae idolatrava o pai Park, chegando a orar para uma foto sua todas as noites; contudo, ao ver-se livre, esfaqueia Ki-jeong, que segurava o bolo de aniversário, e, de seguida, ataca o patriarca. O motorista, que parece anestesiado perante a cena, ouve as ordens que o patrão lhe grita, e, ao observar a sua expressão de nojo perante o cheiro e a imagem de Geun-sae, agarra na faca e, em vez de atacar o assassino da filha, mata o patrão, foge e esconde-se na casa.

                Deste modo, Dong-ik deixa de ser um simples homem e representa o privilégio de classe e a injustiça, de uma organização social prenhe de contrastes profundos.

 
4.5. A mentira e os esquemas criminosos
 
                A vida da família Kim muda a partir do momento em que Min-hyuk, um amigo, lhes oferece um presente: um talismã – uma pedra – que atrai a riqueza. Em simultâneo, traz uma oferta de trabalho, propondo a Ki-woo que se faça passar por professor e o substitua nessa função.

                O facto de ser militar faz com que o jovem saiba falar inglês, o que facilita o plano. A sua irmã falsifica, então, um diploma de uma universidade conceituada. Deste modo, ele é contratado, descobre que existe uma vaga para uma professora de arte e fornece os dados à irmã, que finge também ser outra pessoa, de nome Jennifer.

                Ki-jeong é uma jovem muito inteligente, habituada a trabalhar como atriz em velórios e a enganar os outros. Após uma rápida pesquisa no Google, ela descobre vários argumentos para convencer a mãe Park de que o filho necessita de fazer sessões de arteterapia.

                É assim que os Kim se introduzem na mansão e na vida dos Park. Ki-woo aproveita o trabalho como tutor e inicia uma relação secreta com a filha adolescente, enquanto Ki-jeong engendra um plano para que os Park despeçam o seu motorista: durante uma boleia, ela deixa a sua «lingerie» no banco traseiro do automóvel para o patrão encontrar e deduzir que o motorista mantém relações sexuais no veículo. De facto, Dong-ik encontra a peça de vestuário, conta à esposa e ambos despedem o funcionário. Para o seu posto, contratam Ki-taek, que usa para o efeito o nome Mr. Kevin.

                Falta, então, encontrar emprego para a mãe, o que implica livrarem-se da empregada dos Park. Sabendo que a mulher é alérgica a pêssegos, eles vão colocando a penugem da fruta nos seus pertences, o que faz com que aquela tenha várias crises alérgicas, cada vez mais graves. Ao mesmo tempo, os Kim convencem a patroa de que Goak Moon-gwang sofre de tuberculose. Deste modo, a mulher é despedida. O patrão comenta depois com o novo motorista que precisa de contratar uma nova empregada, pois a anterior «comia por duas».

                É assim que Chung-sook entra na mansão dos Park. Deste modo, os quatro membros da família Kim passam a trabalhar para os mesmos patrões e a conviver na mesma casa, agindo como desconhecidos.

 
 
V. O humor
 
                Não obstante os momentos trágicos com várias mortes sangrentas, o filme possui uma vertente cómica bem marcada, um humor negro e macabro que faz rir o espectador mesmo nos momentos mais trágicos e que configura um processo de crítica social e política. Nada disto é estranho ou incomum no mundo dos Artes. Por exemplo, já Gil Vicente, no século XV, utilizava o cómico com um duplo sentido: cómico e crítico.

                Entre os vários momentos cómicos, merecem destaque as «alfinetadas» à vizinha Coreia do Norte e ao seu regime, nomeadamente à questão nuclear, sendo de destacar uma cena em que Gook Moon-gwang imita o seu líder, Kim Jong-un, ridicularizando-o.

 
 
VI. Significado do desenlace do filme
 
                Depois de Ki-taek ter assassinado o patrão e se ter escondido no bunker, a sua esposa e o seu filho, que fica com sequelas psicológicas decorrentes do ataque de que foi vítima por Geun-sae, são julgados.

                Durante a noite, ele vai ver a mansão e nota que as luzes estão a piscar, acabando por perceber que é o seu pai a tentar comunicar consigo através de código morse. As últimas cenas da película mostram-nos o seu monólogo, no qual promete que irá estudar, enriquecer e comprar uma casa. Contudo, o final do filme apresenta-nos o jejum no pequeno apartamento da família, o que significa que os seus sonhos jamais se concretizarão e nunca sairá daquela existência precária. Não obstante todos os esquemas maquinados e os crimes cometidos, a família Kim volta ao ponto de partida, com a particularidade de ter perdido dois dos seus membros.

 
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