Português

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 5

Pergunta: "Explicite dois sentimentos revelados pelo sujeito poético, tendo em conta o modo como este descreve as varinas. Fundamente cada um desses sentimentos através da referência a um recurso expressivo relevante, ilustrado com um elemento textual."

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): "tendo em conta o modo como este descreve as varinas" Regra: O foco da resposta tem de centrar-se exclusivamente nas estrofes finais do excerto em que o sujeito poético observa a chegada e a ação das varinas (versos 11 a 20).
  2. Os Verbos de Comando (O que fazer?): "Explicite" e "Fundamente" Regra: O aluno tem de identificar os sentimentos por palavras próprias ("explicitar") e, imediatamente a seguir, justificar essa interpretação recorrendo à teoria literária ("fundamentar").
  3. O Assunto (O quê?): "sentimentos revelados pelo sujeito poético" Regra: Não basta descrever o aspeto físico ou o trabalho das varinas. O aluno tem obrigatoriamente de indicar a emoção interior do "eu lírico" ao olhar para elas (ex.: admiração, tristeza, pena).
  4. A Quantidade / A Condição Obrigatória (Como provar?): "dois sentimentos [...] através da referência a um recurso expressivo relevante, ilustrado com um elemento textual" Regra: Exige-se uma "cadeia tripla" obrigatória para as duas metades da resposta. Para cada sentimento, o aluno tem de: 1) Nomear a emoção; 2) Indicar o nome de uma figura de estilo; 3) Provar com a respetiva citação/verso.
Passo 2: A Recolha de Dados

Sabendo exatamente o que procurar (dois sentimentos cruzados com um recurso expressivo e uma citação), o aluno vai ao texto e extrai os tópicos validados pelos critérios oficiais:

  • A Base dos Sentimentos: A observação da chegada das varinas gera emoções contraditórias ao sujeito poético face à força e à miséria que apresentam.
  • Recolha 1 (Sentimento A + Recurso Expressivo + Elemento Textual): Ao deparar-se com a robustez e a atitude destemida das varinas, o sujeito poético sente admiração. Para fundamentar este sentimento, recolhe-se a comparação patente no verso: «recordam-me pilastras» (v. 14).
  • Recolha 2 (Sentimento B + Recurso Expressivo + Elemento Textual): Ao olhar para o sofrimento e as duras condições de trabalho, o sujeito poético sente compaixão (ou indignação). Para provar esta emoção, recolhe-se a marcação emotiva da exclamação logo no início da estrofe final: «Descalças!» (v. 17).
Passo 3: A Construção da Resposta

Aplicando a técnica de redação estruturada com conectores lógicos, a "fórmula" de preenchimento ficaria assim traçada:

  • [Introdução Direta] O sujeito poético revela dois sentimentos distintos perante a observação e descrição das varinas.
  • [Conetor 1 + 1.º Sentimento + Recurso Expressivo + Elemento Textual] Por um lado, demonstra uma profunda admiração pela robustez física destas trabalhadoras. Este sentimento é fundamentado através da comparação, visível no verso «Seus troncos varonis recordam-me pilastras» (v. 14).
  • [Conetor 2 + 2.º Sentimento + Recurso Expressivo + Elemento Textual] Por outro lado, revela também compaixão perante a extrema dureza, a miséria e a insalubridade da sua vida quotidiana. Esta emoção é evidenciada através da exclamação, presente na transcrição «Descalças!» (v. 17).

Respos
ta:

    O sujeito poético revela dois sentimentos distintos perante a observação e descrição das varinas.

    Por um lado, demonstra uma profunda admiração pela robustez física destas trabalhadoras. Este sentimento é fundamentado através da comparação, visível no verso «Seus troncos varonis recordam-me pilastras» (v. 14), que exalta a sua força monumental.

    Por outro lado, revela também compaixão perante a extrema dureza, a miséria e a insalubridade da sua vida quotidiana. Esta emoção é evidenciada através da exclamação, presente na transcrição «Descalças!» (v. 17), que sublinha a crueldade das condições em que descarregam carvão."

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 4

Pergunta: "Refira duas situações observadas pelo sujeito poético ‒ uma relativa à cidade de Lisboa e outra relativa aos seus tipos sociais ‒ nas quais sejam evidentes os contrastes no modo como são representados estes elementos da paisagem física e humana."

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado
  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): As cinco estrofes de O Sentimento dum Ocidental apresentadas na Parte B da prova.
  2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Refira" Regra: Identificar, mostrar e apresentar claramente aquilo que foi pedido.
  3. O Assunto e a Quantidade (O quê e Quantas?): "duas situações (...) nas quais sejam evidentes os contrastes" Regra: A palavra de ouro aqui é contrastes. O aluno não pode apenas descrever coisas; tem obrigatoriamente de mostrar uma oposição (o lado A contra o lado B).
  4. A Condição Obrigatória (Como dividir?): "uma relativa à cidade de Lisboa e outra relativa aos seus tipos sociais" Regra: A resposta tem de ser cortada ao meio. Metade tem de falar exclusivamente da paisagem física (a cidade/os espaços) e a outra metade tem de focar-se na paisagem humana (as pessoas/classes sociais).
Passo 2: A Recolha de Dados
Sabendo que precisa de procurar oposições no texto, o aluno faz duas recolhas distintas:
  • Recolha 1 (Contraste na Cidade de Lisboa): O aluno lê a primeira e a última estrofe e nota uma oposição no espaço.
    • O lado positivo: O luxo e a riqueza da Lisboa burguesa e cosmopolita (onde os «hotéis da moda» «Flamejam» ao jantar).
    • O lado negativo: A degradação, a miséria e a insalubridade dos bairros pobres (onde «o peixe podre gera os focos de infeção»).
  • Recolha 2 (Contraste nos Tipos Sociais): O aluno olha para as pessoas descritas e percebe um choque de realidades.
    • O lado confortável: A vida fácil, burguesa e aborrecida de algumas figuras, como os «dois dentistas» que andam confortavelmente «Num trem de praça» ou os lojistas que se enfadam à porta.
    • O lado sofredor: A vida de sofrimento e de sacrifício extremo do povo trabalhador, representado pelas varinas que andam «Descalças!» a carregar carvão «Desde manhã à noite».
Passo 3: A Construção da Resposta
Agora, aplicamos a estrutura de preenchimento, separando meticulosamente a "cidade" dos "tipos sociais" e garantindo que o verbo "contraste" fica visível:
  • [Introdução Direta] No poema apresentado, o sujeito poético constrói a sua visão da realidade assente em evidentes contrastes, tanto ao nível do espaço urbano como da paisagem humana.
  • [Conetor 1 + Cidade + Contraste + Fundamentação] Por um lado, no que diz respeito à cidade de Lisboa, observa-se o contraste entre os espaços de luxo e de riqueza, ilustrados pelos «hotéis da moda» que «Flamejam» (v. 4), e a miséria e falta de condições sanitárias dos bairros mais pobres, onde «o peixe podre gera os focos de infeção» (vv. 19-20).
  • [Conetor 2 + Tipos Sociais + Contraste + Fundamentação] Por outro lado, relativamente aos tipos sociais, é notória a oposição entre a vida confortável e passiva da burguesia e das profissões liberais — como os «dois dentistas» que se deslocam «Num trem de praça» (v. 5) e os lojistas (v. 8) — e a extrema dureza do quotidiano das classes trabalhadoras, representadas pelas varinas que andam «Descalças» e trabalham de forma árdua «Nas descargas de carvão, / Desde manhã à noite» (vv. 17-18).

Resposta:

    No poema apresentado, o sujeito poético constrói a sua visão da realidade assente em evidentes contrastes, tanto ao nível do espaço urbano como da paisagem humana.

    Por um lado, no que diz respeito à cidade de Lisboa, observa-se o contraste entre os espaços de luxo e de riqueza, ilustrados pelos «hotéis da moda» que «Flamejam» (v. 4), e a miséria e falta de condições sanitárias dos bairros mais pobres, onde «o peixe podre gera os focos de infeção» (vv. 19-20).

    Por outro lado, relativamente aos tipos sociais, é notória a oposição entre a vida confortável e passiva da burguesia e das profissões liberais — como os «dois dentistas» que se deslocam «Num trem de praça» (v. 5) e os lojistas (v. 8) — e a extrema dureza do quotidiano das classes trabalhadoras, representadas pelas varinas que andam «Descalças!» e trabalham de forma árdua «Nas descargas de carvão, / Desde manhã à noite» (vv. 17-18).

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 3

Análise da alínea (a)
O texto questiona qual é a ideia destacada quando se privilegia o ponto de vista de Ricardo Reis (linhas 27 a 34).
  • A resposta certa é a (2) - Monotonia: O texto descreve as "frontarias de cinza parda", as "fileiras de janelas à mesma altura", as "monótonas cantarias" e um prédio "igual de cor, de janelas e de grades". Estas expressões comprovam inequivocamente a monotonia, a uniformidade e a repetição visual da arquitetura da Baixa lisboeta.
  • Porque é que a (1) está errada (Monumentalidade)? Embora o excerto refira "altas frontarias" e que se "levanta um prédio", o foco de Ricardo Reis não é a grandeza ou o esplendor (monumentalidade) dos edifícios, mas sim o seu aspeto sombrio, repetitivo e igual ("cinza parda", "mesmo risco").
  • Porque é que a (3) está errada (Abertura)? É exatamente o oposto do que é descrito. O texto refere que a rua dá a sensação de fecho e aprisionamento, com as faixas verticais "cada vez mais estreitas" e um prédio ao fundo "aparentemente cortando o caminho.

Análise da alínea (b)
O texto questiona sobre o que reflete a visão subjetiva do narrador nas linhas finais do excerto (linhas 35 a 38).
  • A resposta certa é a (1) - A vivência psicológica do tempo e o efeito do ambiente citadino no estado físico e anímico de quem o habita: Nas linhas finais, o narrador reflete sobre as "faces pálidas" dos caixeiros (estado físico influenciado pela sombra e humidade dos prédios) e sobre o seu "ar enfadado de ser hoje segunda-feira e não ter o domingo valido a pena" (vivência psicológica do tempo e estado anímico).
  • Porque é que a (2) está errada (Efeito no estado de espírito da personagem Ricardo Reis)? Este é um erro comum de interpretação. Nesta passagem final, a reflexão do narrador não incide sobre o estado de espírito de Ricardo Reis, mas sim sobre os habitantes da cidade (os "caixeiros" que vêm à porta das lojas).
  • Porque é que a (3) está errada (A oposição entre o espaço social e o físico)? O narrador não está a fazer uma oposição entre o espaço físico e social. Pelo contrário, está a estabelecer uma relação de causa e efeito (um alinhamento): é exatamente porque o espaço físico é escuro, húmido e tem "baforadas de gás" que o espaço social (os trabalhadores) apresenta faces pálidas e enfadadas.

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 2

 Pergunta 2: "Na descrição dos ambientes representados nos dois excertos, ganham relevo os estímulos sensoriais. Compare o ambiente do mercado do peixe em Memorial do Convento (linhas 11 a 16) com o ambiente do mercado da Praça da Figueira em O Ano da Morte de Ricardo Reis (linhas 23 a 27), com base em duas sensações distintas captadas pelos sentidos, relativamente a cada um desses ambientes."

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): A instrução delimita exatamente as fronteiras da pesquisa: o aluno deve procurar apenas nas linhas 11 a 16 do primeiro excerto e nas linhas 23 a 27 do segundo. Tudo o que estiver fora destas linhas deve ser ignorado.
  2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Compare" Regra: O aluno não pode apenas descrever o mercado A e depois o mercado B em parágrafos separados. Tem obrigatoriamente de estabelecer pontes e mostrar as semelhanças ou diferenças entre os dois.
  3. O Assunto (O quê?): O foco da comparação é o "ambiente [...] com base em estímulos sensoriais" Regra: O aluno tem de colocar a sua atenção exclusiva naquilo que as personagens veem, ouvem ou cheiram naqueles locais.
  4. A Quantidade (Quantas?): "duas sensações distintas" Regra: O aluno tem de escolher duas categorias precisas (por exemplo: sensações auditivas e sensações olfativas) e aplicá-las a ambos os mercados para que a comparação seja válida
Passo 2: A Recolha de Dados

  • Recolha 1 (Sensações Auditivas): O aluno nota que ambos os mercados são bastante ruidosos.
    • No mercado do peixe, o barulho vem da agitação humana, pois as vendedeiras «gritavam desbocadamente aos compradores».
    • Na Praça da Figueira, o barulho vem das limpezas, ouvindo-se os sons de lavar «com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas», além de um «arrastar metálico» e um «estrondo».
  • Recolha 2 (Sensações Olfativas): O aluno apercebe-se de que ambos os locais apresentam cheiros muito intensos.
    • No mercado do peixe, sente-se, naturalmente, o «cheiro do peixe».
    • Na Praça da Figueira, sente-se uma mistura desagradável de «couve esmagada e murcha», «excrementos de coelho», «penas de galinha escaldadas» e «sangue».
(O aluno também poderia ter optado pelas sensações visuais, comparando o ambiente agitado e a dicotomia sujidade/asseio, mas focaremos nas auditivas e olfativas para a redação).

Passo 3: A Construção da Resposta

Agora, aplicamos a nossa estrutura de preenchimento, usando conectores de comparação para não fugir ao comando do enunciado:

  • [Introdução Direta] A descrição dos ambientes do mercado do peixe e da Praça da Figueira apresenta claras semelhanças, que são evidenciadas através da exploração de diferentes sensações captadas pelos sentidos.
  • [Conetor 1 + 1.ª Sensação + Comparação e Fundamentação] Por um lado, no que diz respeito às sensações auditivas, percebe-se que ambos os locais são ruidosos. Em Memorial do Convento, esse ruído é provocado pela agitação das vendedeiras que «gritavam desbocadamente» (ll. 11-12). De forma semelhante, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, o barulho é também intenso, originado pela limpeza do espaço, ouvindo-se a lavagem «com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas» (ll. 25-26), além de um «arrastar metálico» e um «estrondo» (ll. 26-27).
  • [Conetor 2 + 2.ª Sensação + Comparação e Fundamentação] Por outro lado, recorrendo a sensações olfativas, constata-se que ambos os ambientes são dominados por cheiros muito intensos e desagradáveis. No mercado do peixe, sobressai o óbvio e forte «cheiro do peixe» (l. 16); na mesma linha, na Praça da Figueira, respira-se uma atmosfera marcada pelos odores a «couve esmagada e murcha», «excrementos de coelho», e «sangue» (ll. 24-25).


Resposta: 
    A descrição dos ambientes do mercado do peixe e da Praça da Figueira apresenta claras semelhanças, que são evidenciadas através da exploração de diferentes sensações captadas pelos sentidos.
    Por um lado, no que diz respeito às sensações auditivas, percebe-se que ambos os locais são ruidosos. Em Memorial do Convento, esse ruído é provocado pela agitação das vendedeiras que «gritavam desbocadamente aos compradores» (ll. 11-12). De forma semelhante, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, o barulho é também intenso, originado pelas limpezas do espaço, ouvindo-se a lavagem «com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas» (ll. 25-26), além de um «arrastar metálico» e um «estrondo» (ll. 26-27).
    Por outro lado, recorrendo a sensações olfativas, constata-se que ambos os ambientes são dominados por cheiros muito intensos e desagradáveis. No mercado do peixe, sobressai o óbvio e forte «cheiro do peixe» (l. 16). Na mesma linha, na Praça da Figueira, respira-se uma atmosfera marcada pelos odores a «couve esmagada e murcha», a «excrementos de coelho», e a «sangue» (ll. 24-25).
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