Nesta
primeira cena, a ação não é marcada por grandes movimentações físicas ou
batalhas, mas sim por um intenso confronto psicológico e verbal entre
duas personagens centrais: o Rei Leandro e o seu Bobo. Para facilitar a tarefa
de análise da cena, vamos dividi-la em cinco momentos-chave.
O
primeiro põe-nos em contacto com o leit-motif da ação: o estranho
sonho do Rei. A cena inicia-se no jardim do palácio de Helíria, com um
passeio aparentemente tranquilo, mas a ação arranca imediatamente com a
inquietação do Rei Leandro, que teve um "estranho sonho". Reparemos
que o monarca está obcecado com ele, afirmando que "nada há no mundo mais
importante do que um sonho". Para o soberano, os sonhos não são meros
devaneios, mas sim "recados dos deuses", que estão longe e comunicam
desta forma enigmática. Este sonho é o verdadeiro motor de toda a ação desta
cena e dita o estado de espírito fragilizado do Rei.
O
segundo corresponde a um contraste social. Enquanto Leandro divaga sobre
deuses e sonhos, o Bobo atua como a sua âncora à dura realidade. A ação avança
através deste contraste (um jogo de opostos). Quando o Rei fala da eternidade
das noites e da importância dos sonhos, o Bobo contrapõe com as necessidades
mais básicas da condição humana: o cansaço do trabalho constante a lidar com as
filhas do rei (Hortênsia e Amarílis), a fome ("um bom prato de favas com
chouriço") e o frio que "enregela os ossos". O Bobo chega a
ironizar que os sonhos são "um luxo, um desperdício" reservado apenas
aos grandes fidalgos.
A
meio da cena, a ação suspende-se, a luz foca-se apenas no Bobo, e ele dirige-se
diretamente a nós, público (na plateia). Através deste recurso, o Bobo
questiona a desigualdade social, lembrando que sangra, chora e que nasceu
"igualzinho ao rei", sublinhando que, na morte, todos iremos para
debaixo da terra. "tão morto estarei eu como qualquer deles". Esta
pausa na ação serve para nos alertar para a humanidade e sabedoria escondidas
por detrás das vestes de um "pobre louco".
De
seguida, a ação retoma e atinge o seu pico quando o Rei, sentindo o peso da
coroa, desabafa que gostava de estar no lugar do Bobo, "sem preocupações,
sem responsabilidades". É a sugestão irónica do Bobo (de lhe entregar os
seus farrapos em troca do manto, coroa e cetro) que funciona como um gatilho
para a memória do soberano. Com grande agitação (como indica a didascália), o
Rei revela finalmente o conteúdo do sonho: viu-se no chão, a tentar correr sem
sair do sítio, perdendo a coroa, o manto e o cetro (os símbolos do seu poder),
enquanto ouvia gargalhadas e sentia muito frio. Levado ao limite da sua
vulnerabilidade, o Rei confessa ao ouvido do Bobo: "Tenho medo!".
1.º)
A perda do poder e da identidade: o Rei descreve o seu sonho: "A
coroa... o manto... o cetro... tudo no chão". Estes são os três símbolos
máximos da realeza. Ao vê-los caídos e "sempre mais longe, mais
longe", o sonho está a prefigurar a perda do seu reino, da sua autoridade
e da sua própria dignidade enquanto monarca e pai. Ele será despojado de tudo o
que lhe confere esse estatuto.
2.º)
A Impotência perante o destino: no sonho, Leandro vê-se "a correr, mas
sem poder sair do mesmo sítio". Esta imagem sufocante reflete a...
A análise completa da cena pode ser lida aqui: »»».