Português: 18/06/26

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A literatura popular e a língua portuguesa

    A Península Ibérica é um território habitado desde sempre, facto atestado pelos vestígios das mais antigas indústrias, do paleolítico inferior à idade dos metais, nela encontrados, os quais não deixam dúvidas de que foi ocupada por toda a espécie de seres humanos, desde os pitecantropídeos ao "homo sapiens".
    Depois desses seres primitivos, aqui chegaram há mais de 3000 anos muitos outros povos: lígures, celtas, iberos, fenícios, gregos, cartagineses. Posteriormente, no final do século III a.C., os romanos invadiram a P.I., o mesmo sucedendo, no séc. V d.C., povos germânicos (vândalos, alanos, suevos e visigodos). Em 711, foi a vez dos árabes a ocuparem, refugiando-se nas Astúrias os godos, que não quiseram submeter-se ao domínio muçulmano. Aí, constituíram um reino cristão, a partir do qual se organizou a Reconquista cristã, uma guerra longa, porfiada e tormentosa que durou mais de sete séculos, vindo a terminar com a conquista de Granada, em 1492, pelos reis católicos Fernando e Isabel.
    Os reinos e estados peninsulares, entre os quais Portugal, resultam da mestiçagem de todos estes povos e estas culturas.
    Que língua ou línguas falavam esses povos? Cada um deles teria a sua, mas a dominante, após a conquista romana, foi o latim vulgar ("sermo vulgaris"). Desses antigos idiomas, restam poucos vestígios. Um caso especial é o da escrita ibérica, não totalmente decifrada, copiosamente representada em inscrições tumulares de cemitérios da Idade do Ferro, situadas predominantemente a sul da península.
    O latim vulgar, trazido pelos soldados e pelos colonos romanos foi-se transformando, pouco a pouco, na boca dos falantes peninsulares, em contacto com as línguas dos povos pré-existentes e dos invasores, até se converter num falar românico, o romance, que, consoante regiões e povos, se individualizou em vários dialetos.
    No território que viria a ser Portugal, distinguiam-se dois tipos de romance: o situado a Norte do rio Douro, incluindo a Galiza, e o do Sul. Aquando da dominação sarracena, que apenas episodicamente atingiu o noroeste da P.I., as diferenças entre as duas linguagens acentuaram-se. A do Norte ficou conhecida por galego-português, enquanto a do Sul por romance moçarábico ou lusitano-moçárabe, por ser a dos cristãos que viviam sob domínio árabe. Do contacto dos dois dialetos, estabelecido após a Reconquista ter descido abaixo do Mondego e do Tejo, nasceu o português.
    Até meados do século XII, falou-se uma língua e escreviam-se duas. Os clérigos possuidores de instrução escreviam em latim menos apurado que o clássico, daí a denominação de baixo ou medieval; os documentos oficiais, como, por exemplo, testamentos, contratos ou doações, eram redigidos num latim estropiado, a que se dá o nome de bárbaro ou tabeliónico. Ora, é da mistura com este latim que aparecem, desde o século IX, as primeiras palavras portuguesas. No entanto, textos inteiros em português chegaram até nós apenas do século XII em diante.
    A linguagem escrita implica uma disciplina e uma obediência a regras de que a popular está livre, daí a progressiva separação entre um português literário, influenciado pelos modelos latinos, e o português popular que mal conhecemos.
    O galego-português, a língua comum de portugueses e galegos que, durante séculos, foi uma só, foi-se dividindo em duas com a separação política, evolução consumada no século XVI, não obstante existir uma parte nuclear comum.
    José Leite de Vasconcelos fala em dois períodos na evolução do português: o arcaico e o moderno. O primeiro situa-se entre o século IX e meados do século XVI e nele se inclui o português proto-histórico, que está presente em documentos escritos no chamado latim bárbaro, do século IX ao XII, e o segundo daquela data em diante.

Fonte: José Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1959, p. 16.

Na aula (LXVII): o amor virtual de Simão Botelho e Mariana

    Em Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco inovou e construiu dois triângulos amorosos: Simão - Teresa - Mariana e Simão - Teresa - Baltasar Coutinho.

    Em determinada aula, fala-se sobre o amor de Mariana por Simão, e o professor clarifica que não há contacto físico no sentido conjugal entre ambos:

    - Um amor sem contacto físico... Como é que se chama?

    - Virtual - responde, toda lampeira, a Maria Luís.

    São os novos tempos e os novos amores.

Na aula (LXVI): o naufrágio que vitimou Romeu e Julieta

    A propósito da Conclusão de Amor de Perdição, fala-se em Romeu e Julieta, de Shakespeare, e o seu final. Para os menos versados nestas coisas da Literatura, talvez seja adequado relembrar que Romeu encontra a amada aparentemente sem vida no túmulo da  família e que, desesperado, ingere veneno e morre ao seu lado. Na realidade, a jovem tinha tomado uma poção que a fazia parecer morta temporariamente. Quando desperta e vê o noivo morto, mata-se com um punhal.

    Pois bem, mal o professor recorda este desfecho, solta-se a voz tonitruante da Maria Luís:

    - Mas eles não tinham morrido num barco?

    - Isso era o Titanic - esclareceu a Maria Eduarda Coimbra.


    Ficámos esclarecidos.

Na aula (LXV): o dia em que o verbo mudou de classe

     - Qual é o adjetivo presente na frase?

    - O adjetivo é «soluçando».


    A nova especialista em gramática da língua portuguesa chama-se Diana Gonçalves.

Na aula (LXIV): pensamentos ilegítimos

    Lê-se o terceiro ato de Frei Luís de Sousa. Nesta fase, Telmo mostra-se arrependido. O professor questiona a razão do arrependimento.

    A resposta surge pela voz da Diana Gonçalves:

    - Telmo sente-se arrependido por dizer que Madalena é filha ilegítima.

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