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quinta-feira, 23 de março de 2023

Análise do Capítulo IV de Amor de Perdição


  Contextualização
 
            Antes de analisarmos o capítulo IV, convém ter presente o que sucedeu antes, nomeadamente no segundo e no terceiro.
            Assim, no capítulo II, encontramos Simão a estudar em Coimbra, adepto dos ideais da Revolução Francesa, conservando o seu caráter conflituoso. Entretanto, regressa a Viseu, onde conhece Teresa e se apaixona por ela, o que faz com que mude o seu comportamento: abandona a vida de estroinice e as “companhias da ralé”. No entanto, esse amor correspondido é contrariado por Tadeu de Albuquerque por ódios familiares. Simão regressa a Coimbra e corresponde-se com Teresa. Numa das cartas, fica a saber que o pai da amada a quer casar com o primo Baltasar Coutinho. Estamos já no terceiro capítulo e os amores dos dois jovens são violentamente contrariados. Contudo, Teresa opõe-se à vontade do pai e recusa o casamento com Baltasar. A consequência desse ato de rebeldia é o seu envio para um convento, mas a jovem promete “julgar-se morta para todos os homens, menos para seu pai”.

 
Estrutura interna do capítulo
 
            Podemos dividir este capítulo em quatro momentos.
 
1.º momento (dois parágrafos iniciais): reflexão do narrador sobre a mulher e caracterização de Teresa.
 
2.º momento (“Ao romper da alva dum domingo de junho”): diálogo entre Teresa e o pai.
 
3.º momento (“O académico, chegado ao período das ameaças…”): efeitos, em Simão, da carta em que Teresa conta as tentativas do pai para a casar com Baltasar.
 
4.º momento (“No dia seguinte…”): Simão instala-se em casa de João da Cruz e prepara-se para se encontrar com Teresa.
 
 
Reflexão do narrador sobre a mulher
 
            O capítulo abre com uma reflexão do narrador sobre a mulher, tal como ela se apresenta no romance. A partir dessa reflexão, parte-se para a caracterização de Teresa.
            A primeira frase estabelece uma ponte entre os capítulos III e IV: “O coração de Teresa estava mentindo.” De facto, no final do terceiro capítulo a jovem tinha assegurado ao pai que não continuaria a amar Simão e que se julgaria morta para todos os homens, menos para seu pai. No entanto, esta frase demonstra que Teresa estava a mentir, pelo que não cumprirá a sua promessa, que fizera apenas por necessidade e astúcia, pois ninguém pode comandar o coração: “Vão lá pedir sinceridade ao coração!” Recuando novamente ao capítulo anterior, depois de declarar a Baltasar que não o amava e que, por isso, não casaria com ele, Teresa é ameaçada pelo pai de ir para um convento. Perante a ameaça, a fidalga faz a promessa, para evitar que aquela se cumpra, mostrando-se perspicaz e não hesitando em mentir.
 
 
Caracterização de Teresa
 
            O retrato de Teresa é feito de forma muito elogiosa, configurando o perfil da heroína romântica.
            O narrador inicia o capítulo, aludindo a uma mentira de Teresa (“[…] coração de Teresa estava mentindo.”), que se refere ao facto de a jovem ter prometido ao pai que não amaria nenhum outro homem a partir desse momento. Não se trata, porém, de uma mancha de caráter de Teresa, antes de um recurso necessário para conseguir prosseguir o seu amor com Simão.
            A jovem é apresentada como uma “mulher varonil”, com força de caráter, orgulhosa (“orgulho fortalecido pelo amor”) e com “despego das vulgares apreensões”. Além disso, é uma figura distintíssima, excecional, isto é, diferente do habitual: “[…] a mulher do romance quase nunca é trivial”; “era distintíssima”.
            Por outro lado, Teresa demonstra possuir uma grande capacidade de argumentação, determinação, inteligência, força e até frieza na forma como assume a sua posição e recusa ceder à vontade do pai.
            De estatuto nobre, jovem, pura e frágil, o seu caráter pouco convencional, pautado pela capacidade de autodomínio, astúcia e perspicácia na defesa do amor, configuram-na como uma heroína romântica. No entanto, nessa qualidade de heroína romântica, está condenada e cairá em desgraça: “A mim me basta, para crer em sua distinção, a celebridade que ela veio a ganhar à conta da desgraça.”
            Deste modo, Teresa continua a corresponder-se com Simão, omitindo-lhe as ameaças de Baltasar para não despertar nele a sua fúria. Apaziguado o pai, a vida parece tranquila a Teresa, já que Tadeu não voltara a falar no convento nem no casamento com Baltasar, que regressara a casa: “Parecia bonançoso o céu de Teresa. Seu pai não falava em claustro nem em casamento. Baltasar Coutinho voltara ao seu solar de Castro Daire”.
 
 
Diálogo entre Teresa e o pai

            A presença do diálogo transforma a narrativa numa cena dramática, como se se tratasse de uma representação teatral, em tempo real e não concentrado. Por outro lado, o diálogo faz com que a tensão do relato aumente. Além disso, o narrador fornece ao leitor breves indicações, semelhantes às didascálias do texto dramático, como sejam a entoação de voz das personagens, os gestos, o aspeto físico, etc. Assim sendo, podemos considerar que o diálogo preenche, no Amor de Perdição, duas funções: 1.ª) confirmar as características das personagens; 2.ª) apresentar a transgressão como um dos fios condutores da ação – contra os costumes da época, Teresa, a filha, recusa a vontade do pai, Tadeu de Albuquerque.
            Este diálogo interrompe o ritmo rápido da narração e evidencia a oposição entre pai e filha, a partir do que conversam sobre o casamento.
 
 
Caracterização de Tadeu de Albuquerque
 
            Tadeu inicia o dia relembrando à filha as suas “condescendência e brandura” e procura convencê-la de forma carinhosa (“cariciosamente”) a casar com Baltasar (“ – Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Baltasar, minha filha.”).
            Esta fala inicial de Tadeu de Albuquerque mostra que a sociedade da época se regia pela violência e pela submissão total da mulher ao pai e/ou ao marido: “É preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pai. Logo que deres este passo difícil, conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência. Mas repara, minha querida filha, que a violência de um pai é sempre amor.” Tadeu rege-se, de facto, pelas normas da época, mesmo que isso implique a infelicidade da sua filha. Atente-se na forma como ele procura justificar a sua intenção de casar a filha com Baltasar sem o consentimento dela: “[…] conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência.”. A antítese “felicidade” / “violência” sugere que Tadeu queria, de forma prepotente e autoritária, assegurar a felicidade de Teresa, que não seria ainda lúcida para escolher o caminho certo para a sua vida. Assim sendo, a imposição do pai constituiria um gesto de amor. Condescendente, afirma que outro, no seu lugar, teria castigado a desobediência da filha com maus tratos, com a clausura num convento e até com a retirada do seu património, enquanto ele lhe deu tempo para que aclarasse o juízo.
            Tudo isto significa que o pai da fidalga representa os valores e os princípios de uma sociedade patriarcal, em que os pais exerciam a sua autoridade sobre as filhas com frieza e insensibilidade.
            Teresa recusa, porém, a intenção do pai, pois considera o que ele lhe pede um sacrifício e odeia o primo. Perante esta resposta, Tadeu, irado, amaldiçoa a filha e ameaça-a com o convento: “– Hás de casar! Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás para sempre, Teresa! Morrerás num convento!” Ele mostra-se, assim, autoritário, intolerante, prepotente, procurando impor a sua vontade de forma agressiva: “– Hás de casar! Quero que cases! Quero!...”. Por fim, determinado, afirma que já não a vê como sua filha: “Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha…”.
            Por outro lado, Tadeu norteia-se na vida pelo orgulho e pelos valores da honra familiar (“– Nenhum infame há de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós.”; “[…] não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas!”). Este passo da novela tem ainda outra intencionalidade crítica: a denúncia das imposições sociais que inviabilizam a liberdade de amar e, consequentemente, a realização da pessoa humana.
            Em suma, Tadeu de Albuquerque simboliza a sociedade repressiva e a tirania.
 
 
Caracterização de Teresa
 
            Este diálogo confirma as características que Teresa já revelara em momentos e capítulos anteriores.
            Teresa é uma figura excecional, que não corresponde ao padrão do seu tempo enquanto mulher e filha. Pelo contrário, ela transgride os códigos familiares e sociais da época:
a) é determinada e resoluta, firme e convicta das suas resoluções: pretende traçar o seu destino e decidir com quem casar (por isso, opõe-se ao pai e recusa desposar Baltasar; quando o pai lhe ordena friamente que entre no quarto, ela “ergueu-se sem lágrimas, e entrou serenamente no seu quarto.”) – “É escusada a violência, porque eu não caso!...”;
b) é astuta e segura de si;
c) tem caráter e não quer ser dominada por uma figura masculina (por isso, opõe-se ao pai e à sua resolução, mesmo comprometendo o seu futuro);
d) é transgressora dos códigos familiares e sociais da época: recusa um casamento imposto pela vontade do pai, como era habitual na época, pondo em causa a autoridade paterna e comprometendo o seu futuro (o seu destino seria a clausura no convento);
e) é perspicaz (“Teresa adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se atingem por atalhos onde não cabem a franqueza e a sinceridade”; “Teresa maravilhou-se da quietação inesperada de seu pai e desconfiou da incoerência.”);
f) opõe-se ao pai (“ – Meu pai… – continuou ela, chorando, com as mãos erguidas – mate-me; mas não me force a casar com meu primo!”);
g) é orgulhosa, sendo o seu orgulho fortalecido pelo amor, o que lhe permite resistir à violência do pai, desafiando a sua autoridade e não cedendo à imposição do casamento com Baltasar;
h) luta pelo seu amor e exprime os seus sentimentos com intensidade.
 
 
Relação entre Tadeu e Teresa
 
            Tadeu de Albuquerque ama Teresa, o que pode ser deduzido a partir do facto de não a ter castigado de forma mais severa quando ela se recusou a casar com Baltasar: “Outro teria subjugado a tua desobediência com maus tratos, com os rigores do convento, e talvez com o desfalque do teu grande património. Eu não.”
            No entanto, o seu autoritarismo é superior ao amor que nutre pela filha, o que o leva, num primeiro momento, a procurar obriga-la a casar, à força, com Baltasar. De facto, a sua mentalidade conservadora leva-o a considerar que Teresa não tem discernimento suficiente para saber o que é melhor para si, pelo que deve, enquanto pai, conduzi-la à verdadeira felicidade: “ – Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Baltasar, minha filha. […] Logo que deres este passo difícil, conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência.
            Quando Teresa recusa a imposição do pai, Tadeu de Albuquerque reage de forma tirânica e violenta: “Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que dali te arranquem para outro, onde não verás num raio de sol.”
            No que diz respeito a Teresa, esta recusa-se definitivamente a obedecer e a submeter-se à vontade do pai relativamente ao casamento com Baltasar: “Meu pai […] mate-me; mas não me force a casar com meu primo! É escusada a violência, porque eu não caso!”. Não obstante esta postura, Teresa ama e respeita o pai, como se pode comprovar pelo facto de continuar a obedecer-lhe, em tudo o mais: “Teresa ergueu-se sem lágrimas, e entrou serenamente no seu quarto.”
 
 
Função do diálogo
 
O diálogo entre Teresa e Tadeu reforça a caracterização das personagens, já esboçada anteriormente, enfatizando a prepotência e o autoritarismo do pai e a determinação e firmeza da filha.
 
O diálogo determina a evolução dos acontecimentos, com a recusa de Teresa em obedecer ao pai e sujeitar-se aos códigos da época, o que acarretará o afastamento entre a fidalga e Simão e a sua perdição.
 
            Em suma, à semelhança do que sucede com Simão, Teresa afirma-se como uma figura de exceção pelo seu caráter e pelo percurso que trilha.

 
Caracterização de Baltasar
 
            Baltasar é um homem sem princípios e com “absoluta carência de brios”, características que são ilustradas pela forma como aceita e persiste no casamento com Teresa (que ele acredita que poderá seduzir), preparado sem o seu conhecimento e consentimento. Esses traços são também evidenciados pelo facto de aconselhar Tadeu a usar a filha para atrair Simão a Viseu para o surpreender.
            Esta figura constitui o anti-herói da novela. É arrogante, cínico e vaidoso, com “absoluta carência de brios”, causando repugnância e terror em Teresa, ao contrário de Simão, que representa o amor-paixão puro e generoso e a segurança.
 
 
Caracterização de Simão
 
            Após o diálogo com o pai, Teresa escreve a Simão para lhe dar conta do sucedido, por isso, no final do capítulo, assistimos à reação do filho de Domingos Botelho ao relato da sua amada.
            Simão tinha sofrido uma mudança enorme por amor a Teresa, refreando a sua rebeldia, porém, agora, assume novamente o seu “génio sanguinário”. Assim, começa por reagir de forma impulsiva, com fúria/cólera e perturbação à leitura da carta, inclusivamente em termos físicos: “[t]remia sezões, e as artérias frontais arfavam-lhe entumecidas”. Bastante perturbado, movido pelo orgulho, pela “índole arrogante do ódio”, que se sobrepõem ao amor, pensa em ir a Castro Daire assassinar Baltasar para defender a sua honra. Obstinado e ferido pela afronta ao seu amor por Teresa e receando que o primo da sua amada o tivesse difamado e que ela o visse de forma diferente, num primeiro momento, deixa-se, pois, dominar pela irracionalidade e pela intensidade dos sentimentos. É a faceta do herói romântico de Simão que vem à tona. Note-se, por outro lado, que esta ideia de assassinar Baltasar é um prenúncio do que sucederá mais tarde.
            Num segundo momento, depois da tripla leitura da carta, e enquanto espera por transporte, as lembranças de Teresa e da felicidade amorosa com ela, bem como da sua resolução de levar uma vida honrada, levam-no a tomar consciência das consequências trágicas desse seu ato de vingança. Se o concretizasse, tornar-se-ia um assassino, o que o afastaria da amada e acarretaria o ódio do pai: “Fugirei como um assassino, e meu pai será o meu primeiro inimigo, e ela mesma há de horrorizar-se da minha vingança…”. Simão vive, neste passo, um conflito entre a defesa da sua honra e o amor por Teresa, como o exemplifica o seguinte excerto textual: “ – Quem pode ser feliz com a desonra de uma ameaça impune?!... Mas eu perco-a! Nunca mais hei de vê-la…”.
            Deste modo, após três vezes a missiva, reflete melhor, conclui que o seu orgulho e a sua honra não foram manchados, o bom senso e a serenidade sobrepõem-se à sua impulsividade e decide ir a Viseu encontrar-se com Teresa no dia seguinte. Para concretizar o seu propósito, conta com a ajuda do arrieiro, que lhe indica a casa de um primo ferrador para se acolher durante a estadia em Viseu.
            No final do capítulo, sobressai a sua faceta de jovem apaixonado, puro, tímido, ansioso. Depois de ter marcado um encontro com Teresa (através de cartas trocadas através de uma mendiga) em casa da fidalga na noite do aniversário desta, o filho de Domingos Botelho deseja apenas um breve encontro com a amada, apesar do nervosismo e dos receios que sentia: “Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o hálito, abraçá-la talvez, cometer a ousadia de um beijo…”.
            No que diz respeito à linguagem, neste passo do capítulo, encontramos diversas frases exclamativas, interrogativas, bem como outras suspensas por reticências. Estes recursos traduzem o estado de perturbação, de inquietação, de confusão mental e emocional de Simão, que, após a leitura repetida da carta, se sente, por momentos, perdido e imagina que perdeu Teresa, o seu amor, recordando o passado de felicidade e antecipando o desenlace trágico.
 
 
Funções das cartas

            As cartas trocadas entre Teresa e Simão, transportadas por uma mendiga, constituem o meio de comunicação entre ambos. Além disso, permitem a ambos expressarem o que sentem, alimentando assim o seu amor, e concertarem os passos a dar para proteger esse mesmo amor.
 
 
Actantes da novela
 
            A relação amorosa de Simão e Teresa conta com adjuvantes e oponentes. Neste capítulo, os adjuvantes são o arrieiro, o seu primo ferrador (João da Cruz) e a mendiga, que permitem a proximidade e a comunicação entre os dois apaixonados. Por outro lado, os oponentes são Tadeu de Albuquerque e Baltasar Coutinho, que procuram afastar Simão e Teresa e liquidar o seu amor.
 
 
Crítica – a novela como crónica da mudança social
 
1. Assuntos abordados:

• Tadeu quer obrigar Teresa a casar com Baltasar.

• Teresa recusa esse casamento por conveniência.

• Face à recusa da filha, Tadeu decide enclausurá-la num convento.

• Teresa não cede e reage contra a repressão de que é vítima.

 
2. Valores vigentes criticados (mas em mudança)

Crítica à sociedade repressiva – forte pressão das instituições familiar e religiosa:

intransigência na defesa do nome familiar, visível no ódio existente entre as famílias de Teresa e Simão (resultante de uma sentença de Domingos Botelho desfavorável a Tadeu);

autoritarismo de Tadeu;

casamentos por conveniência (o desejado por Tadeu entre a filha e Baltasar);

a sobreposição / imposição do poder paterno à vontade da filha: Tadeu quer obrigar Teresa a contrair matrimónio com Baltasar;

a falta de expressão feminina (Teresa e os seus sentimentos não são tidos nem achados na questão do casamento com Baltasar e é proibida de se relacionar com Simão);

o convento como forma de aprisionamento.

 
3. Mudanças sociais:

• a recusa do casamento por conveniência (Teresa);

• a rebeldia da mulher no seio familiar (Teresa);

• o amor como motor de transformação social (Simão e Teresa).

 
 
O amor-paixão
 
            O amor-paixão é um dos temas centrais de Amo de Perdição. À semelhança do que sucede noutros passos da obra, ele manifesta-se de diversas formas:

a) Simão é o herói romântico: novamente, mostra-se impulsivo e incauto, nomeadamente quando decide deslocar-se a Viseu, tendo consciência deque a sua vida pode correr perigo.

b) Teresa é a heroína romântica: à semelhança do que sucede com o seu amado, a jovem fidalga deixa-se levar pelos sentimentos, aceitando a aventura de Simão, reagindo de forma irrefletida à sua ida a Viseu – a intensidade do amor-paixão e o desejo de ver Simão são tais que a jovem tudo esquece.

c) A precipitação dos amantes: a marcação do encontro entre ambos é irrefletida e não ponderada, ou seja, Simão não pondera as consequências desse encontro e Teresa quer encontrar-se com o seu amado, sabendo os perigos que corria.

d) Os devaneios amorosos: os devaneios amorosos do par, nomeadamente de Simão, refletem a ingenuidade e a imaturidade com que os adolescentes percecionam o seu futuro e a sua relação amorosa.
 

terça-feira, 21 de março de 2023

Órgão consultivo do Ministério da Educação dá razão aos sindicatos na luta contra... o Ministério da Educação


Conselho de Escolas chumba pontos quentes do diploma do Governo
    O diploma que vem regulamentar a contratação de professores não mereceu a concordância dos sindicatos mas foi aprovado em Conselho de Ministros na última quinta-feira. Prevê a criação de Conselhos de Quadros de Zona Pedagógica e o completamento de horários dos professores em mais do que um agrupamento de escolas e escolas não agrupadas. São duas das “linhas vermelhas” que levaram os sindicatos a dizer não ao acordo. Agora, o órgão que representa os diretores junto da tutela, o Conselho de Escolas (CE), opõe-se às mudanças propostas pelo Ministério.

    O CE dá parecer negativo à criação dos Conselhos de QZP (novo nome dado pelo Ministério aos contestados conselhos locais de diretores, mas mantendo as mesmas funções de gestão das colocações dos docentes), “apesar de admitir que esta medida pode contribuir para mitigar a falta de professores”. O CE “reitera o teor da Recomendação n.º 1/2023, de ‘eliminação da proposta de criação de quaisquer conselhos locais para a gestão de professores, cuja implementação se afigura demasiado complexa, não permitindo vislumbrar benefícios significativos’, em virtude de condicionar a autonomia e singularidade” de cada agrupamento de escolas ou escola não agrupada.


    A notícia pode ser encontrada aqui: CNN.

"Andante, Andante", Abba


1980

segunda-feira, 20 de março de 2023

A França vai adiar um ano a aprendizagem da leitura

     «... em França chegaram à conclusão que a escola pública reproduz as desigualdades sociais e condena os filhos dos pobres a serem pobres. Que a leitura em idade precoce é um assunto para famílias abastadas que estão envolvidas em competições escolares. Que o acesso à leitura é mais difícil para crianças com menos vocabulário. Conclusão: a França vai investir nas crianças mais pobres para que a escola pública lhes dê acesso a essa ferramenta tão importante? Não. Vão é adiar a aprendizagem da leitura por um ano (em vez de ser aos seis, aos sete) para que as crianças pequenas das classes trabalhadoras não fiquem numa posição inferior.»

    Criminoso!

    O original pode ser encontrado aqui: IP Azul.

Boxing Day

Maria Scrivan
 

domingo, 19 de março de 2023

Análise da Introdução de Amor de Perdição


Função da Introdução
 
Camilo Castelo Branco prepara o leitor e sobretudo a leitora para a história que vai contar. A voz que encontramos na Introdução não é a do narrador que narra a ação dos capítulos da novela, mas a do autor que nos fornece informações acerca das origens da história e das suas personagens.
 
Assim sendo, a Introdução funciona como uma apresentação da obra, como uma espécie de prólogo (note-se que, na primeira edição, de 1862, este texto introdutório surgia como um prefácio), visto que nela é sintetizada em linhas gerais a história que vai ser narrada (“Amou, perdeu-se, e morreu amando”) e o narrador-autor se esforça por lhe conferir credibilidade, levando o leitor a aderir emocionalmente ao seu relato.
 
 
Motivo subjacente à escrita da obra
 
            A similitude das situações vividas por Camilo Castelo Branco e Simão Botelho, seu tio, permite ao escritor denunciar a injustiça de que foi vítima ao ser preso pela relação adúltera com Ana Plácido e, em simultâneo, reivindicar o seu direito ao amor. Assim sendo, implicitamente, Camilo defende-se a si próprio.


Estrutura da Introdução
 
1.ª parte (do início até “Foi para a Índia em 17 de março de 1897): Relato da descoberta e consulta de um documento oficial e transcrição do seu conteúdo.
 
2.ª parte (de “Não seria fiar demasiadamente…” até ao final): Comentários do narrador e antecipação do conteúdo da novela.
 
 
Transcrição do assentamento da Cadeia da Relação
 
A Introdução inicia-se com a transcrição do registo (o assentamento) da entrada de Simão Botelho na Cadeia da Relação do Porto, que encontrou nos “livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da Relação do Porto”.
 

Que dados encontramos no registo de entrada?

Nome completo da personagem: Simão António Botelho.

Estado civil: solteiro.

Profissão/Ocupação: estudante na Universidade de Coimbra.

Naturalidade: Lisboa.

Idade: 18 anos.

Filiação:

. Pai: Domingos José Correia Botelho.

. Mãe: Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco.

 
Objetivo da transcrição do documento
 
 A transcrição de um documento autêntico, oficial, que alude a uma pessoa real, permite ancorar a narração que se vai seguir numa base histórica, ou seja, confere-lhe veracidade/credibilidade, torna-a verídica ou, pelo menos, verosímil, aos olhos do leitor. Dito de outra forma, quer fazer-nos crer que os acontecimentos relatados na obra correspondem à vida de Simão Botelho, tio de Camilo Castelo Branco. Quando Camilo denuncia a sua situação de preso na cadeia, onde descobre informação sobre o seu tio, procura criar no leitor a ideia de que o que vai narrar se baseia em factos reais, daí as referências à descoberta do assentamento que documenta a entrada ali de Simão Botelho e a sua partida para o degredo em 17 de março de 1807.
 
– A transcrição de documentos e/ou a inclusão de notas de rodapé informativas enquanto forma de dar credibilidade, de conferir veracidade ao que é narrado, ocorre noutras passagens da novela (bem como noutras obras do escritor). Por exemplo, encontramos notas de rodapé no Capítulo I (com informações sobre os irmãos de Domingos Botelho) e na Conclusão (nomeadamente a data da morte da irmã predileta de Simão).
 
– A transcrição serve ainda para apresentar, desde já, Simão.
 
Por outro lado, as datas inscritas no registo permitem situar, temporalmente, a ação da novela no início do século XIX. A este propósito, há que saber que, na realidade, Simão Botelho não partiu para o degredo com 18 anos nem morreu, em alto mar, a caminho do exílio, como apresentado da obra. De facto, chegou a viver na Índia (há notícias da sua presença em Goa em 1808, por exemplo), o que indicia que alguns dos factos da novela não correspondem à realidade, antes foram adulterados por questões ficcionais (cf. Amor de Perdição, edição didática de Luís Amaro de Oliveira). De igual forma, o motivo que o levou à prisão não foi o homicídio de Baltasar.
 
 
Objetivo do narrador-autor ao folhear os livros
 
            O narrador, ao folhear os livros no cartório da prisão, desejava conhecer melhor a história do seu tio Simão Botelho, de quem tinha ouvido contar muitas histórias, desde criança, e que tinha estado preso na mesma cadeia que ele mesmo.

 
Narrador-autor
 
Ponto de vista
 
            O narrador adotará uma posição subjetiva face aos acontecimentos narrados, visto que, desde o início, não esconde a sua empatia relativamente a Simão, pelo facto de, por amor, aos 18 anos, ter sido obrigado a abandonar a sua família e o seu país, e por ser seu tio paterno, seu parente.

Sentimentos – Discurso emotivo
 
Num discurso emotivo, o narrador reflete sobre a vida de Simão, distinguindo nela duas fases: a primeira corresponde à descoberta do amor (“O arrebol dourado e escarlate na manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor naquela idade!”); a segunda cinge-se à dor e à desilusão que o amor causou (“E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!”).
 
Ao ler o assentamento da Cadeia da Relação, o narrador-autor comove-se profundamente, manifestando, entre outros, os seguintes sentimentos: amargura pela situação vivida por Simão; respeito pela personagem, nomeadamente pelos seus ideais; ódio (= indignação, revolta) relativamente à hipocrisia e conservadorismo de uma sociedade que tudo sacrifica em nome da sua honra.
 
Causas do estado de alma
 
            Camilo escreveu a novela enquanto estava preso na Cadeia da Relação do Porto, por ter cometido adultério com Ana Plácido. Assim sendo, ter-se-á identificado com a situação vivida pelo tio, Simão Botelho, que também foi preso em decorrência de um caso de amor, pelo que a mágoa que sente perante uma situação injusta, o respeito por aqueles que lutam pelo amor e o desprezo por uma sociedade hipócrita e retrógrada são aplicáveis também à sua pessoa.
 
Vozes
 
            Por um lado, na Introdução está presente a voz do narrador-autor, que refere pessoas e acontecimentos reais com mentalidade e objetividade. Por outro, identifica-se o narrador heterodiegético, que será o responsável pela dimensão ficcional da novela e que, além de narrar, faz sentir a sua presença também através de comentários, reflexões e juízos avaliativos, assumindo uma posição subjetiva.
 
Identificação com Simão
 
            O narrador identifica-se com Simão Botelho, quando, por exemplo, afirma que sentiu um “doloroso sobressalto”, “amargura e respeito” e “ódio” ao ler o registo de assentamento. Além disso, prevê que possa vir a ter dissabores, causados pelos “frios julgadores do coração”, no momento em que desmascarar a “falsa virtude” dos inimigos do amor. Refere-se, assim, aos seus próprios inimigos, que o “julgaram” e prenderam pela relação com Ana Plácido.
            Por outro lado, como já sabemos, Camilo estava preso na Cadeia da Relação pelo já referido caso de adultério com Ana Plácido, uma senhora casada, vivendo uma situação semelhante à do seu tio, que aí estivera igualmente encarcerado por homicídio. Assim sendo, de semelhança entre os dois existe a questão do encarceramento e do motivo do mesmo: o amor.
 
Linguagem e estilo
 
            Após a transcrição do documento, o narrador-autor dirige-se ao leitor e faz uma série de comentários, nos quais predomina uma linguagem emocional:

Frases curtas: “Dezoito anos!”; “É triste!”.

Frases exclamativas: sexto e sétimo parágrafos.

Repetições: “Dezoito anos!” (três vezes).

Metáforas: “arrebol dourado e escarlate da manhã da vida”.

Enumerações: “nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo”.

Vocabulário associado à ideia de infelicidade: “dó”, “triste”, “choraria”, “doloroso”, “amargura”.

Interrogação retórica: “[…] por amor da primeira mulher que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!”.

Reticências: traduzem hesitações do narrador.

Pronome indefinido “tudo” (“[…] irmãs, mãe, vida, tudo…”): retoma todos os elementos enumerados (catáfora) e amplifica a ideia da perda, que, por ser absoluta/total, se torna ainda mais dramática.

            Esta linguagem reflete o envolvimento emotivo do narrador na narrativa.

 
Interpelação ao narratário:
 
O narrador-autor dirige-se diretamente ao “leitor” e à “leitora”, que constituem o narratário da obra, procurando despertar o seu interesse para a história que vai narrar.
 
O assentamento transcrito serve, além do já referido, para despertar a curiosidade e, principalmente, a piedade do leitor e apelar à sua simpatia para com Simão, acreditando que não ficaria indiferente à tragédia de Simão e de Teresa: “Não seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há de fazer dó”.
 
Deste modo, entre toda a informação apresentada na Introdução, o narrador-autor enfatiza os seguintes dados relativos para sensibilizar o leitor perante o destino de Simão: a sua juventude, a inocência do primeiro amor, a pena a que foi condenado (o degredo), a separação definitiva da família, a falta de liberdade. E fá-lo socorrendo-se de um discurso pautado pela subjetividade e pela emoção (atente-se na pontuação emotiva), o que pode indiciar o seu envolvimento na história, ao mesmo tempo que procura envolver também o leitor.
 
Por isso, dirige-se primeiro ao leitor, no sentido geral (“Não seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor…”), ao leitor do sexo masculino (“O leitor decerto se compungia…”) e, por último, à leitora (“e a leitora…”).
 
Apesar dessa referência ao leitor, o narratário que visa é a leitora. O narrador tem a noção de que o homem reagiria à história que irá contar de forma diferente da mulher, por isso prevê reações diferentes: “O leitor decerto se compungia”; “e a leitora […] choraria!”.
 
A leitora é caracterizada como uma figura bondosa e piedosa (“a criatura mais bem formada das branduras da piedade”) e solidária com os desafortunados (“amiga de todos os infelizes”) e que choraria, se comoveria, pois a história de amor entre Teresa e Simão contém todos os ingredientes necessários à comoção de quem a ler. Dado que, na sua ótica, as leitoras eram mais sensíveis, dirige-se sobretudo a elas, dando a entender que a história as comoverá muito.
 
Esta estratégia, por um lado, prepara os leitores para a narrativa que irão ler e, por outro, é uma forma de o narrador procurar captar a sua empatia com o protagonista. Afinal, trata-se de uma história triste: a história de um jovem – Simão Botelho – que perdeu tudo por amor: “honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida”.
 
E qual é a causa desta desgraça? O amor: “… tudo, por amor da primeira mulher…”. É a absolutização do amor: o sentimento amoroso é tudo e está acima de tudo.
 
 
“Amou, perdeu-se, e morreu amando”
 
            Esta frase resume a estrutura tripartida da história de amor de Simão:
 
Introdução: Simão “amou, isto é, apaixonou-se por Teresa, e foi correspondido.
 
Desenvolvimento: Simão cometeu um homicídio e “perdeu-se por amor”.
 
Conclusão: “e morreu amando” – deixou-se morrer pelo seu amor impossível por Teresa.
 
 
Linhas estruturantes da novela
 
            A Introdução antecipa algumas das linhas estruturantes da obra, como, por exemplo, as seguintes:

o amor-paixão: este é o tema da novela que vai ser narrada e que está sintetizado na frase “Amou, perdeu-se, e morreu amando”;

o herói romântico: Simão é o protagonista que perdeu tudo por amor, um herói romântico;

a sugestão biográfica: há semelhanças entre Simão e o narrador, cuja figura, por sua vez, se confunde com a do próprio autor (preso, tal como Simão, por amor e na cadeia da Relação do Porto);

o caráter memorialístico da obra: o narrador assume-se como alguém que relata as memórias de uma história cujo protagonista é verídico e seu parente;

a crónica da mudança social: Simão representa a mudança da sociedade, que assenta na noção de liberdade e no valor do indivíduo e que se opõe a uma sociedade antiga, assente na falsa virtude, como Camilo assinala no final da Introdução.

 
 
Crítica
 
            No final da Introdução, o narrador-autor afirma que a leitura do registo de entrada de Simão na prisão lhe despertou o ódio (“Ódio, sim…”), a indignação (“o doloroso sobressalto”) e a amargura (“e lidas com amargura”) perante a injustiça de que o protagonista da obra e Teresa tinham sido vítimas.

            Aqueles que se opuseram ao amor (entre ambos) são apelidados de “frios jugadores do coração”), dado que se mostraram insensíveis perante os projetos de felicidade de Simão e Teresa.

            No entanto, esta crítica não se restringe ao contexto da novela; de facto, estende-se e dirige-se sobretudo a todos aqueles que, possuidores de uma falsa virtude, se tornam bárbaros pela defesa da sua honra: “A tempo verão se é perdoável o ódio, ou se antes me não fora melhor abrir mão desde já de uma história que me pode acarear enojos dos frios julgadores do coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude dos homens, feitos bárbaros, em nome da sua honra.” Deste modo, o narrador assume-se como um narrador judicativo.

            É possível que esta crítica suscitada pelo amor de Simão e Teresa tenha sido espoletada pelo caso pessoal de Camilo Castelo Branco. Que semelhanças existem entre as duas situações? Simão foi julgado por causa do amor por Teresa (em virtude do qual assassinou Baltasar Coutinho) e preso na Cadeia da Relação do Porto; Camilo foi igualmente levado a julgamento por amor, isto é, por causa da relação amorosa que mantinha com Ana Plácido, uma mulher casada, e esteve preso no mesmo local. Por outro lado, o narrador chama a atenção para a injustiça que constitui a condenação do seu tio Simão, sugerindo, assim, a injustiça da sua própria condenação e da de Ana Plácido. Por último, apela à comiseração do leitor para a história que vai narrar e, indiretamente, para a sua própria história (“Escrevi o romance em quinze dias, os mais atormentados de minha vida.”).

Frei Luís de Sousa - Ato III, Cenas I, IV e XI


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Da legalidade da greve do S.TO.P.


Link: S.TO.P.

A desigualdade galopante

    Em 2022, a cada 33 horas, 1 milhão de pessoas caiu na extrema pobreza. Durante a pandemia, os bilionários aumentaram a riqueza mais do que nos 23 anos anteriores. No setor da alimentação e da energia, as suas fortunas aumentaram mil milhões a cada 2 dias. Esses ganhos davam para vacinar o mundo inteiro, financiar a (des)igualdade da educação, a saúde e a proteção social.
    Por su turno, os trabalhadores perderam, em média, desde 1980, 2000$ por ano.


domingo, 5 de fevereiro de 2023

Análise da cena 10 de Frei Luís de Sousa


 
A cena abre com D. Madalena a dar instruções a Mirada no sentido de o criador ir esperar o bergantim, para a avisar da sua chegada e, consequentemente, do marido.
 
 
De seguida, à semelhança do que sucedera na cena II do primeiro ato faz novas referências temporais que funcionam como indício de desgraça: “Não há vento e o dia está lindo. (…) Mas a volta… quem sabe? O tempo muda tão depressa…”. Com estas palavras, D. Madalena alude à instabilidade do tempo, que está calmo, mas rapidamente pode mudar, e da própria vida (até ao momento aparentemente calma), constituindo um indício das mudanças grandes que se aproximam. Ou seja, a desgraça pode chegar de um momento para o outro, sem avisar, tal como o mau tempo num dia de sol. Será isto que acontecerá com as personagens: após um período de acalmia aparente, a sua vida desmoronar-se-á.
 
 
Localização temporal da ação
 
▪ A ação localiza-se no dia 4 de agosto de 1599:

dia e mês da batalha de Alcácer Quibir (1578)

D. João foi procurado durante 7 anos;

D. Madalena e Manuel de Sousa estão casados há 14 anos;

logo, passaram 21 anos.
 
 
O dia fatal
 
            Todas as personagens desnecessárias para o imediato desenrolar dos acontecimentos são afastadas para Lisboa com razões plausíveis e óbvias: Manuel de Sousa, por “negócio de importância no Sacramento” (II, 4); Maria, para “ver a tia Joana de Castro (ibidem); Telmo, para acompanhar Maria e por ordem expressa de D. Madalena: “Telmo que vá com ela; não o quero cá” (II, 6). D. Madalena fica, portanto, só, naquela casa assombrada, com os fantasmas de sempre:

“Sexta-feira! (aterrada). Ai que é sexta-feira!” (II, 5);

“Logo hoje!... Este dia de hoje é o pior… se fosse amanhã, se fosse passado hoje!...” (II, 5);

(abraçada com a filha) Oh, Maria, Maria… também tu me queres deixar! Também tu me desamparas… e hoje!” (II, 5);

“E tua mãe, deixa-la aqui só, a morrer de tristeza (à parte) e de medo?”.

            É, todavia, mais adiante, já depois da partida dos familiares para Lisboa, que se explicita, com mais clareza, a natureza e as razões dos terrores de D. Madalena (II, 10): “Hoje… hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que não acabe sem muito grande desgraça… É um dia fatal para mim…”.
            As suas razões baseiam-se nas inquietantes coincidências acumuladas naquela sexta-feira, um dia já de si aziago, na superstição popular. Assim, D. Madalena aponta os motivos que a levam a considerar aquela “sexta-feira” um “dia fatal”:

▪ é sexta-feira;

▪ casou pela primeira vez (com D. João de Portugal);

▪ ocorreu a batalha de Alcácer Quibir (4 de agosto de 1578, por hipótese também uma sexta-feira), da qual se celebra o 21.º aniversário;

▪ desapareceram D. Sebastião e D. João de Portugal (igualmente há 21 anos);

▪ viu pela primeira vez Manuel de Sousa Coutinho, por quem se apaixonou (o amor paixão, amor à primeira vista, ainda em vida de D. João, é considerado crime e pecado por ela própria;

▪ é o 14.º aniversário do seu casamento com Manuel de Sousa.

            Assim se compreende o estado de espírito de D. Madalena e a obsessão com aquele dia em concreto, que a leva a repetir oito vezes o advérbio de tempo “hoje”. De facto, e pelo exposto, ela sente-se culpada por se ter apaixonado por Manuel de Sousa assim que o viu, ainda casada com D. João, tendo, portanto, pecado em pensamento. Além disso, vive atormentada e aterrorizada pela dúvida que a persegue desde o início da peça, ou seja, que o primeiro marido ainda está vivo e que, por tudo isso, Deus a castigue. Deste modo, D. Madalena atribui um caráter fatídico àquele dua e pressente uma desgraça iminente.
 
 
Deste modo, a cena dá-nos a visão completa da hybris de D. Madalena, que é anterior à ação.
            Na cena II do segundo ato, D. Madalena abriu o coração perante Frei Jorge, numa espécie de confissão, na qual evoca o que se passou no íntimo da sua alma, desde que viu pela primeira vez Manuel de Sousa, ainda em vida de D. João de Portugal:
amor à primeira vista, ao modo romântico;
paixão súbita, fatal, considerada um «crime».
            E acrescenta:
esse “pecado” estava-lhe no coração;
dentro da alma já não tinha “outra imagem senão a do amante”;
guarda a D. João, bom, generoso marido, apenas “a grosseira fidelidade” física.
            Porque é que essa paixão, nascida no coração de D. Madalena, é por ela própria considerada “crime”? A paixão surge espontaneamente e é independente da vontade da personagem. A própria D. Madalena reconhece noutro passo (I, 2) que o amor “não está em nossa mão dá-lo, nem quitá-lo”. Não tem ela consciência de que essa paixão, instintiva e avassaladora, não obedece à razão, nem se submete ao poder da vontade? Por que razão diz, logo a seguir, que o “pecado” lhe estava no coração, que dentro da alma já não tinha “outra imagem senão a doa amante?” E que já não guardava a seu marido “senão a grosseira fidelidade “ física?
            Por outras palavras, se nesse momento o adultério ainda não estava consumado, por que motivo é que D. Madalena fala de “crime” e de “pecado”?
            Dentro dos limites da tragédia grega, espelho de uma sociedade pagã, a hybris manifestava-se pela escolha voluntária da alternativa delituosa. O momento decisivo da escolha de atos contra a ordenação das leis dos deuses, das leis naturais, das leis da cidade, constituída a crise. E só depois, pela consumação de tais atos, se verificaria o crime (crise e crime são, aliás, palavras da mesma família etimológica).
            Numa tragédia, como Frei Luís de Sousa, em que há uma mundividência e uma vivência cristãs, em que as personagens estão submetidas a um código moral assente no Evangelho, e em que a ação é predominantemente psicológica, há que ir mais longe e mais atrás, penetrar mais fundo na alma humana.
            Pecado, na ordem da Graça, é a infração da Lei de Deus, expressa no Decálogo, Lei que aponta para o Amor de Deus e para o Amor do próximo, que condena os atos físicos (6.º Mandamento), mas igualmente os atos interiores da vontade (9.º Mandamento). São Marcos explicita-o claramente: “É do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos, prostituições, roubos, assassínios, adultérios…”.
            Nesta fase, que vai do momento em que pela primeira vez viu Manuel de Sousa, até à data da batalha de Alcácer Quibir (4 de agosto de 1578), D. Madalena vive em pecado de adultério: “O pecado estava-me no coração” (II, 10). É um adultério consentido, vivido escondidamente, no segredo da sua consciência, na profundidade do seu foro íntimo, a que só ela e Deus têm acesso.
            Presa por laços indissociáveis do matrimónio cristão, que só a morte poderia quebrar, enleada na paixão e cega pela imagem do homem que completamente a empolga, consome-se intensamente entre a razão e o dever, por um lado, e o sonho impossível, por outro, talvez sem um remorso, sem um rebate de consciência, sem um anseio de libertação. Guarda, é certo, a “grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quási mais deve a sai do que ao esposo”, quer dizer, conserva as aparências, mas está mais atenta às reservas pessoais do pudor e às conveniências sociais, do que aos ditames da razão, às exigências do código moral da religião cristã, à piedade familiar no cumprimento dos seus deveres de estado.
            É nesta situação moral e passional que a vem surpreender a noticiada batalha de Alcácer Quibir funesta para D. Sebastião, para a flor da gente portuguesa e para D. João de Portugal.
            Até este momento, D. Madalena vivia duas vidas, confrontadas conflituosamente na penumbra misteriosa da consciência: por um lado, as vivências do amor-paixão, dominadas pela imagem de Manuel de Sousa, o «amante», como ela lhe chama na presente cena; por outro, o desejo de exteriormente salvaguardar as aparências de “respeito, devoção e lealdade” para com D. João, na frase de Telmo (I, 2). Por isso, até que ponto a presumível, mas não provada morte de D. João teria mesmo sido uma tentação, para pôr aprova o caráter de D. Madalena?
            Um intervalo inicia-se com essa data crucial do desastre de Alcácer Quibir: com 17 anos apenas (I, 2), D. Madalena fica viúva. Jovem, bela, nobre, alvo das simpatias de todos, aureolada pelo clarão crepuscular do sacrifício de quem lhe era caro, ela chora a perda do marido, respeita a “sua memória”, durante sete anos o “faz procurar” por toda a parte, gasta “grossas quantias”, assegura valimentos de “embaixadores de Portugal e de Castela”, influências e serviços de padres da Redenção, empenhados em reunir cativos, informações de religiosos e de mercadores (I, 2): D. João de Portugal não aparecia, nem vivo, nem morto. Gastos de dinheiro, diligências concertadas ou avulsas, oficiais ou particulares, não levaram a outra conclusão, senão a de que o primeiro marido desaparecera, e para sempre.
            Passados esses sete anos, acontece o inevitável, consumando-se a vontade de D. Madalena, até então ainda não manifestada: “Eu resolvi-me a casar com Manuel de Sousa; foi do aprazimento geral das nossas famílias, da própria família do meu primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima, vivemos seguros, em paz e felizes… há catorze anos” (I, 2).
            De facto, aparentemente, tudo está em ordem: D. João desaparecido para sempre, morto para a esposa, para a família, para os amigos (exceto Telmo), apodrece nos areais no Norte de África; a viúva, depois das lágrimas protocolares e do respeito cerimonioso dos primeiros tempos, refeita e remoçada a olhos vistos, aparece agora, como flor desabrochada, no viço dos seus vinte e quatro anos, na esperança, ou até na certeza, de em breve satisfazer a paixão que a domina. De resto, quem poderia legitimamente opor-se a que uma viúva jovem, bela, nobre, rica, voltasse a casar, e desta vez com o homem a quem sempre mais quis sobre todos, nas palavras de Telmo (I, 2)? Resolve-se, por fim, D. Madalena a casar com Manuel de Sousa, um casamento de amor, fruto da paixão tão reclamada pelos românticos. Mas será um casamento “santificado e bendito no céu”, na expressão de D. Madalena? Por outras palavras, será um casamento lícito e válido, sem mancha de pecado? Com este matrimónio, celebrado junto dos altares, perante Deus e perante os homens, afinal tornados cúmplices ou, pelo menos, comparsas, D. Madalena viola a Lei divina e as leis humanas, consuma, portanto, a hybris, pela acumulação de atos culposos:
mentira consciente (perjúrio);
profanação de um sacramento (sacrilégio);
bigamia;
impiedade.
            Por isso, restam imensas dúvidas sobre esta segurança de consciência, sobre esta paz de espírito e sobre esta felicidade de vida, nesses catorze anos de matrimónio. D. Madalena ter-se-ia esquecido do que em voz alta pensara e dissera, quando estava só, a contar consigo própria e com Deus? Recordemos a cena inicial da obra: “Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que vivo… este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. Oh! que amor, que felicidade… que desgraça a minha!”. Daqui nascem todos os seus conflitos de D. Madalena: consigo própria com Telmo Pais, com Manuel de Sousa, com a filha, com o romeiro – D. João de Portugal.


O longo desabafo-confissão de D. Madalena a Frei Jorge (confidente privilegiado na dupla perspetiva de irmão de Manuel e sacerdote) que constitui esta cena é desencadeado pelas palavras aparentemente despretensiosas do frade, em resposta aos receios de D. Madalena: “Não, hoje não tem perigo”.
        Ora, estas palavras são ambíguas: na boca de Frei Jorge, referem-se ao presumível bom tempo que fará para o regresso de Manuel de Lisboa; mas D. Madalena interpreta-as em sentido oculto, claro do seu ponto de vista: Hoje era o dia de maior perigo para ela.
        Repare-se, ainda, que a palavra hoje se repete 9 vezes só nesta cena, com uma insistência mórbida e inquietante, durante toda a confissão de D. Madalena. E é no preciso momento em que, por fim, esta evoca a sombra e o nome de D. João que Miranda interrompe a confissão para lhe trazer um “estranho recado” de um estranho romeiro.
 

O discurso de D. Madalena, à semelhança do que sucede desde o monólogo inicial da peça, reflete o seu estado de espírito. Assim, sempre que fala no seu passado, ela revela os seus medos e terrores ao recordar o tempo relacionado com D. João de Portugal e com o momento em que, estando ainda casada com ele, se apaixonou por Manuel de Sousa, com quem viria a casar vários anos depois. Na esteira do Romantismo, o estado de alma de D. Madalena reflete-se no seu discurso em frequentes interrupções e hesitações, daí a presença das reticências e de frases inacabadas. Outros recursos presentes no discurso da personagem são as repetições (“Hoje… hoje!”), as exclamações e as interrogações.
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Detect GPT, a ferramenta que deteta textos escritos pelo ChatGPT

Tecnologia com tecnologia se paga! Já é possível detetar textos criados pelo ChatGPT

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Caracterização do Padre Novo


             O Padre Novo representa também o poder instituído, tal como o Regedor, daí que “Em toda a Gafeira só o Regedor e o Padre Novo sabem ao certo o que aconteceu na última noite dos Palma Bravo. Ambos (…) leram as certidões de óbito (…). Mas um evita explicações porque é chefe, cabeça de freguesia, o outro porque é alma, segredo de confissão.”

            Por outro lado, o Padre Novo representa o novo tipo de padre dos anos 60 do século XX que deixa de viver só das esmolas dos seus paroquianos e passa a ter uma vida bem ativa, trabalhando nas escolas como professor. Eram também os prenúncios de outros tempos que assim se iam mostrando.

Caracterização do Cauteleiro e do Batedor


             O Cauteleiro, também designado por Velho-Dum-Só-Dente, informa o narrador de que tinha havido, no anterior mês de maio, acontecimentos trágicos na vida de Tomás Manuel: a morte de Maria das Mercês, esposa dele; a morte de Domingos, o criado, e o desaparecimento do Engenheiro.

            Para o Cauteleiro, logo secundado pelo Batedor, estamos na presença de um crime, chegando a dar a entender que havia uma relação homossexual entre o criado e o patrão: “Assim mesmo. A dona Mercês matou o criado e o infante matou-a a ela. Nem mais.” E prossegue: “Segundo o Cauteleiro a moeda foi o ciúme. A patroa mata o criado, e o marido, roído de mágoa, mata-a por sua vez.”

Caracterização do Regedor de O Delfim


             O Regedor esteve envolvido no caso das mortes de Maria das Mercês e de Domingos na qualidade de autoridade. A sua versão, como seria de esperar, é a oficial, pelo que, de acordo com o relatório, não houve qualquer crime. O único interesse passa por averiguar e publicitar a versão oficial: Domingos morreu de morte natural (“mors post coitum”, isto é, morte após o coito) e Maria das Mercês, a esposa infiel, adúltera, afogou-se acidentalmente no pântano da Urdiceira.

            O narrador descreve-o da seguinte forma: “O Regedor, ao balcão ou fora dele, tudo quanto contou (…) assenta no rigor, na fé dos autos. Tudo aparecerá resumido naquela toada de enfado de pessoa que não faz mais do que refletir uma verdade conhecida que a ignorância de uns e a velhacaria de outros andam a desfeitear sem qualquer proveito. Paciência. O que aconteceu, aconteceu – e não oferece dúvidas, está no processo respetivo da Guarda Nacional Republicana.”

Benfica vence a Taça da Liga em futsal masculino

 

Benfica vence a Taça da Liga em futsal feminino


 

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