As Memórias
do Cárcere iniciam-se com uma longa introdução, intitulada «Discurso
Preliminar». Este capítulo introdutório é todo ele autobiográfico.
Depois, ao longo da obra, percebemos que Memórias do Cárcere são mais as
memórias dos outros que memórias propriamente de Camilo Castelo Branco, isto é,
que memórias autobiográficas.
Memórias
do Cárcere constituem um conjunto de histórias, de casos de vida que Camilo
conheceu quando esteve preso na cadeia da Relação. Durante o tempo em que
esteve encarcerado, conviveu com os outros detidos, conheceu casos de vida, e
narrou-os (os crimes, as desgraças que levaram essas pessoas ao cárcere como
ele...). É, por isso, um livro com um profundo sentido humanístico, pois nele
encontramos histórias de vida extraordinárias no contexto do século XIX
português, mas, como é apanágio dos grandes escritores, Camilo captou muito bem
a essência humana. Um desses casos de vida mais conhecidos é o de José do
Telhado, o mais célebre salteador da História portuguesa. O escritor conheceu-o
na prisão e dedicou-lhe um dos capítulos das Memórias do Cárcere para
contar a sua história de vida, tendo estreitado com ele uma grande amizade, tão
próxima que o salteador lhe terá dito: «Senhor Camilo Castelo Branco, se
algum dia alguém lhe quiser fazer mal aqui dentro, é só chamar por mim, que eu
estou aqui para o defender”. Camilo retribuiu o gesto, pois, quando o seu
julgamento terminou e foi libertado, conseguiu que o seu advogado, o Dr.
Marcelino de Matos, se encarregasse da defesa de José do Telhado.
O primeiro
capítulo das Memórias do Cárcere, intitulado «Discurso
Preliminar», é totalmente autobiográfico. É nele que Camilo evoca os
meses que andou foragido, antes de se entregar às autoridades e foi também nele
que António Lopes Ribeiro bebeu o material para compor a introdução do filme
que realizou que surge numa voz-off,
assim como também foi buscar elementos à Introdução do Amor de Perdição.
Camilo refere a proteção que lhe foi dada pelo advogado (Marcelino de Matos) e
pelos amigos Custódio Vieira e Júlio Xavier, durante 15 dias em setembro de
1860. Curiosamente, foi o próprio escritor quem pediu o mandado de captura para
entrar na cadeia.
Nesta
mesma introdução, Camilo faz uso de uma técnica de que se socorre com alguma
frequência nas suas obras: contrastar um acontecimento dramático com um
ambiente / cenário / tempo meteorológico favorável, o que faz aumentar a
angústia, o sentido dramático dos acontecimentos. Exemplo dessa técnica é a
descrição que faz do dia em que se foi entregar à cadeia: cá fora, está um belo
tempo, com o céu azul e o sol a brilhar; quando entra, depara com um “ar
glacial e pestilento”, as “paredes pegajosas de humidade”. De seguida, alude à
sua primeira passagem por aquela cadeia, em 1846, quando aí esteve preso
por causa do envolvimento com Patrícia Emília de Barros, de Vila Real, entre 9
e 16 de outubro. Com ele, são encarceradas pessoas envolvidas nas guerras
liberais, nomeadamente a revolta da Maria da Fonte. Na sequência, refere-se à
filha que gerou com Patrícia Emília, que, depois de Camilo se fixar no Porto,
arranjou maneira de a trazer para junto de si, para ser educada no convento das
freiras de São Bento – Convento de São Bento da Avé Maria –, onde depois foi
construída a estação ferroviária chamada justamente Estação de São Bento. Essa
filha saiu desse convento para se casar com um brasileiro torna-viagem
riquíssimo.
Posteriormente,
salta para a segunda vez em que aí esteve preso: fala dos companheiros
de prisão, faz mais referências autobiográficas e aos livros que escreveu
enquanto esteve preso (Doze Casamentos Felizes – seis ou sete dessas
narrativas foram, pois, escritas na cadeia; Romance de um Homem Rico, o
seu preferido, escrito com apontamentos que lhe tinham sido dados pelo falecido
António José Coutinho, um dos colegas de cárcere, que lhe forneceu, portanto,
apontamentos (aqui encontramos um traço característico de Camilo: a encenação –
e muitas corresponderiam à realidade – de que as histórias que escrevia não
eram inventadas, antes verídicas, baseadas em casos reais. Trata-se de
uma forma de captar a atenção do leitor. Ora, a transcrição do registo
prisional de Simão Botelho, presente no Amor de Perdição, serve
precisamente para colar ao romance o selo da veracidade, da verdade. É como
quem diz: Este livro não é fruto da minha imaginação. Eu estou a basear-me
num caso de vida real.” Mesmo as personagens ficcionais são moldadas de
acordo com pessoas reais. Por exemplo, no Romance de um Homem Rico,
quando se refere a Leonor, uma personagem desta obra, dá a entender que foi
desenhada tendo por modelo “o coração que estava ao lado dele”, ou seja, Ana
Plácido, também ali presa, noutra cela, perto dele. Além disso, confessa que o
protagonista, o padre Álvaro, foi copiado de um padre real, chamado António,
que era o padre António de Azevedo, irmão do cunhado de Camilo, com o qual
conviveu nos tempos em que viveu na casa da irmã e que desempenhou um papel
muito importante na sua formação.
O
romance a seguir escrito foi Amor de Perdição: “Desde menino que eu
ouvia contar a triste história de meu tio paterno, Simão António Botelho.”
Neste passo, não deixa dúvidas quanto à relação de parentesco entre o herói de Amor
de Perdição, Simão, e ele mesmo, Camilo, autor. De seguida, sempre na
perspetiva de que se limitou a registar, a passar a escrito, uma história
verídica, enumera uma série de elementos que lhe serviram de fontes para
a escrita: a tradição oral da família (“eu ouvia contar a triste
história”) – quando esteve em casa da tia de Vila Real, irmã de Simão, ela
contou-lhe a história do tio; o registo prisional que Camilo encontrou;
uns maços de papéis antigos que estavam em casa da irmã e ainda testemunhos
orais de contemporâneos da história de Simão (“pedi aos contemporâneos que
o conheceram notícias e miudezas a fim de entrar de consciência naquele
trabalho”). Todas estas referências servem o mesmo propósito: fazer crer ao
leitor que o Amor de Perdição narrava uma história, um caso acontecido,
verídico, não inventado.
“Escrevi
o romance em quinze dias, os mais atormentados da minha vida. Tão horrorizado tenho
deles a memória que nunca mais abrirei o Amor de Perdição.”: ao
dizer isto, Camilo está a vincar o paralelismo, a analogia entre a sua situação
-está preso na cadeia da Relação por um crime passional, um crime de adultério,
e o seu tio Simão Botelho, que também esteve ali preso por um crime passional,
segundo Camilo refere na obra. Note-se como duas histórias se entrecruzam, pelo
que temos aqui um dos tópicos constantes do programa atual de Português do 11.º
ano: a sugestão biográfica. Porquê sugestão? Porque há aqui uma
encenação: Camilo sugere que há uma ligação biográfica e uma semelhança, um
paralelismo, uma analogia, entre o seu caso, Camilo, e o de seu tio, Simão.
Deste modo, o escritor retrata-se a si próprio como um herói romântico, como
alguém que está a padecer as penas por ter amado.