Português

terça-feira, 23 de junho de 2015

"Presidente" ou "presidenta"?

                Causou alguma comoção, quando foi eleita, o facto de Dilma Roussef se ter intitulado “presidenta”.
                Ora, o termo em questão não foi propriamente uma invenção da sucessora de Lula da Silva. De facto, já constava de dois documentos de meados do século XX, concretamente os dicionários de Augusto Moreno (1944) e Cândido de Figueiredo (1953). Convém ter presente, porém, que o vocábulo “presidenta” possuía então um cunho popular e era usado de forma irónica e pejorativa. Além deste, as obras mencionadas registavam outros casos semelhantes, como, por exemplo, “giganta” e “hóspeda”.
                Por outro lado, os dois principais dicionários brasileiros (o de Aurélio Buarque de Holande e o de Antônio Houaiss), bem como o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras, a entidade que estabelece a norma da língua portuguesa para o Brasil, registam a forma “presidenta” como feminino de “presidente”.
                “Presidente” pertence ao conjunto dos nomes (terminados em –ente) que têm origem nas formas do particípio presente latino, que não variava em género: “amans”, “amantis” (amante, que ama), “audiens”, “audientis” (ouvinte, que ouve), etc. São os chamados nomes comuns de dois, isto é, possuem a mesma forma para o masculino e para o feminino. É o que sucede, por exemplo, em “o doente” e “a doente”, “o tenente” e “a tenente”, “o docente” e “a docente”.
                Nesta questão, há que ter em conta ainda um conjunto de exceções que fogem à norma: “infante” / “infanta”, “governante” / “governanta”, “”elefante” / “elefanta”. Observe-se o que diz Regina Rocha sobre esta questão (Ciberdúvidas): «Como ponto prévio, direi que a dúvida apresentada diz respeito a três palavras de natureza diferente, e que estas palavras não terminam em -ente (como presidente), do particípio presente de verbos latinos, mas em -ante.
                Analisemos, então, cada uma das palavras e por que motivo elas têm o morfema -a no feminino.
                A palavra infante provém do latim infans, infantis, que significava «aquele que não fala», «aquele que tem pouca idade», «criança», passando, em português, também a designar «filho do rei, irmão do príncipe herdeiro», «irmão do rei». Na acepção de «criança», a palavra entra no português como substantivo comum de dois («o ou a infante») e assim é utilizada pelos clássicos. Entretanto, por influência do francês infante, feminino de infant, começa a utilizar-se o termo infanta, apenas na acepção de «filha de rei ou de rainha, não herdeira da coroa». O termo infanta não é, pois, formado do pretenso «masculino» infante, mas provém do francês.
                Quanto à palavra governante, trata-se de um termo oriundo do francês, ainda sentido em meados do século XIX como um «francesismo inadmissível e desnecessário» (Novo Diccionario da Lingua Portugueza, por Eduardo de Faria, 1857). Com o significado de «pessoa que governa», é um substantivo comum de dois («o ou a governante»). A palavra governanta entra posteriormente no português, também proveniente do francês, com o significado de «mulher a quem estava confiada a administração de uma casa» e também vai ser sentida como galicismo, por ocupar o mesmo espaço que aia, ama, criada grave. Não é, pois, uma palavra formada do português governante, não tendo, naturalmente, o significado de «mulher que preside ao governo de um país ou dele faz parte».
                Finalmente, o substantivo feminino elefanta já está registado há séculos em dicionários: provém do latim, de um substantivo que assume normalmente as duas formas (o elefante e a elefanta), não sendo formado de nenhum verbo. Há, no entanto, quem utilize apenas uma forma, considerando-o um substantivo epiceno, como é regra geral em grande parte dos nomes de animais.

                Em suma, estas palavras terminadas em -e que formam o feminino com a utilização do morfema -a são exceções em relação à regra relativa à formação do feminino dos substantivos ou adjectivos terminados em -ente da mesma família de verbos cujos particípios presentes são reveladores de quem pratica a ação daquele verbo.».

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Correção do Exame Nacional de Português 12.º ano - 2015 (1.ª fase)

Grupo I

1. Entre a Rua Nova dos Mercadores e o portão da quinta, o cravo é transportado por dois homens experientes que, com todo o seu saber e experiência  e o máximo de cuidados, fazem uso dos processos adequados para transportarem o objeto até São Sebastião da Pedreira.
     Entre o portão e a abegoaria, o cravo é transportado por Baltasar e Blimunda. Porém, como não possuem a experiência dos dois homens neste tipo de trabalho e com medo de danificarem um instrumento tão frágil, viram-se em sérias dificuldades para transportar o cravo até ao seu destino.

2. Com efeito, ao longo do excerto, a música de Scarlatti vai-se articulando com os diferentes trabalhos de Baltasar e Blimunda.
     Assim, no dia em que o cravo chegou à abegoaria, o músico procedeu à afinação do instrumento musical. Seguidamente, começou a tocar, encadeando os sons de forma progressivamente mais complexa. Enquanto isso, o par amoroso estava ocupado com trabalhos que causavam pouco ruído (como entrançar vimes e coser velas), não interferindo, portanto, com a música de Scarlatti.
     Nas visitas posteriores à quinta, o músico italiano nem sempre pedia que Baltasar e Blimunda parassem os trabalhos ruidosos que realizavam na abegoaria, o que fazia com que o som proveniente do cravo se fizesse ouvir harmonioso, não obstante o barulho causado pela forja, pelo malho a bater na bigorna ou da água a ferver na tinta,

3. O comentário do narrador justifica-se pela surpresa que as palavras de Blimunda e de Baltasar lhe provocam, dado que, sendo eles analfabetos / iletrados, conseguem verbalizar pensamentos tão complexos e elaborados, o que não seria expectável em alguém sem qualquer grau de escolarização. De facto, colocada perante a possibilidade de a passarola voar, Blimunda admite que a música se possa integrar no voo como expressão de harmonia e celebração. Por seu turno, Baltasar, acometido pelas recordações negativas da guerra, prevê a ocorrência de desastres, dor e sofrimento.

4. No poema, a humanização da música decorre de vários aspetos, como os seguintes:
          - a sua associação a vivências subjetivas do ser humano ("Povoa este
             deserto" - v. 2);
          - o facto de ser indissociável da identidade do ser humano ("A música
             do ser / Interior ao silêncio / Cria seu próprio tempo / Que me dá
             morada" - vv. 8-11);
          - o possuir uma voz que é companheira do sujeito poético ("Por
             companheira tenho a voz da guitarra" - vv. 15-16).

5. De facto, a música é fundamental na construção da identidade do "eu".
     Por um lado, a música tem o poder de unificar o sujeito poético: "O canto me reúne" (v. 18); "E agora de mim / Não me separa nada" (vv. 21-22).
     Por outro lado, a música torna possível o reencontro com um tempo primordial e puro: "De muito longe venho / Pelo canto chamada" (vv. 19-20).



Grupo II

               Versão 1                    Versão 2

1 -               B                                 D

2 -               C                                 D

3 -               A                                 C

4 -               C                                 B

5 -               B                                 C

6 -               D                                 B

7 -               B                                 A

8 - "a sabedoria dos odores"

9 - Complemento direto.

10. Oração subordinada adverbial concessiva.

Golden State Warriors



"Regresso"

 (…)

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
                Voltei!...

                                               Alda Lara (1948)

sábado, 13 de junho de 2015

Alunos terão apenas um mês de férias

     Jorge Ascensão, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), defendeu que as aulas deveriam "começar no início de setembro e terminar apenas no final de julho", ou seja, os alunos teriam apenas um mês de férias no verão.

     Fui tão feliz com 4 (QUATRO! QUE ESCÂNDALO!) meses de férias! Tão feliz!

     E é esta gente, esta gente como Jorge Ascensão, que tutela os interesses das crianças deste país. Meu caro Jorge, enquanto pai, EU esperava que o amigo fosse arrojado e defendesse condições de trabalho (para aqueles sortudos que ainda o têm) que permitissem aos pais passar mais tempo com os seus filhos. Porém, o seu arrojo, o seu pensamento avançado e «out of the box», afinal são mais do mesmo: a visão da escola como ARMAZÉM onde os pais depositam as suas crias para que outros - os professores e funcionários - os criem.

     Bardamerda, ó Jorge!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A televisão e a autossuficiência

     Contexto: teste escrito de avaliação.
     Tarefa: elaborar um texto de opinião sobre os limites (ou não) que devem ser impostos pelos pais às crianças e jovens.

     Exemplificação baseada no caso pessoal: «Eu sem televisão acho que não seria tão inteligente como sou.».

     De facto, confirma-se a influência que a televisão (em excesso) teve na inteligência desta jovem.

Autoria: Joana B.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A felicidade da infelicidade feliz

     "Inflismente curreu tudo bem grassas au resgate dos bombeiros."

     Felizmente o aluno escreve mal ou... sei lá, venham as férias?

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Senhores professores, tenham vergonha!

     Começou a dança dos exames. Muitos... Poucos... Causam «stress» nas crianças... São desnecessários... E por aí fora... A sua calendarização para o mês de maio é uma estupidez incompreensível, interrompe as aulas, apressa a lecionação para cumprimento de programas, etc., etc., etc.
     Sabe-se tudo isto, discutido ano após ano.
     O que «não se sabe» e é igualmente incompreensível é a quantidade de atestados médicos que chovem nas escolas nesta época do ano, «metidos» pelos professores para não terem a maçada de corrigir as provas de exames nacionais. São doenças sazonais e anuais de um rigor e precisão apreciáveis.

     É uma vergonha para os próprios, para as direções escolares, que assobiam para o lado, para os médicos que colaboram nesta patranha. É uma vergonha e falta de caráter, que nem o facto de a correção não ser paga, como já sucedeu, serve como argumentário de defesa.

     

A manipulação nos exames nacionais

«O presidente do Conselho Científico (CC) do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), João Paulo Leal, disse [...] que o atual Ministério da Educação e Ciência (MEC) tem feito “a encomenda dos exames nacionais”, [...] com a indicação de que se deve “manter a estabilidade nos resultados” dos alunos “em relação aos anos anteriores, porque socialmente é difícil de explicar que as notas tenham grandes variações”.»
«Na sua intervenção, Leal [...] explicitou que aquele organismo “tem feito os exames escolhendo os itens de maneira a que se repliquem as notas dos exames dos anos anteriores”.»
«Na conferência, [João Paulo Leal] deixou claro que se podem promover resultados, em média, mais altos ou mais baixos, alterando, simplesmente, as cotações dos vários itens ou, então, uma ou duas questões em todo o exame. Apontou como exemplo, duas perguntas de gramática muito semelhantes para não especialistas, mas que têm variações de acerto que caem de 12% para 71%, consoante se pede um verbo na negativa ou no condicional. Da mesma forma, a Matemática, indicou duas questões similares que podem ter resultados díspares, de 80% ou 40%, conforme a resposta implica um raciocínio ou dois raciocínios articulados, explicou.»
«“Hoje temos um historial de cinco mil itens a Português, por exemplo. Se quero que haja notas altas é muito fácil. Pego numa ou em duas perguntas, substituo-as por outras, aparentemente semelhantes, e a minha expectativa em relação aos resultados dá um salto de cinco valores”, sublinhou.»

«Disse, ainda, pensar que “não é segredo para ninguém que as equipas do Iave que realizam os exames fazem uma estimativa de que resultados, em média, cada exame vai ter”: “Com uma diferença de mais ou menos um valor em vinte, acertam em 95% dos casos”, disse, sublinhando que aquelas equipas “conseguem fazer um exame para a nota que querem”.»

Sem comentários...

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Nuno Crato igual a si próprio

     Alunos surdos tinham de fazer o exame de inglês que incluída ouvir CD.

     O momento de humor protagonizado pela estrutura suposta e alegadamente comandada por Nuno Crato está descrito aqui. »»»

terça-feira, 21 de abril de 2015

A mentira descarada ou ir além da Troika

     Os cortes efetuados por Passos Coelhos e seus esbirros nas áreas da Saúde e da Educação têm sido dos maiores no Orçamento de Estado, argumentando com o despesismo, etc.

     Ontem, no seu programa semanal da TVI 24, Medina Carreira apresentou uns dados interessas sobre a despesa dos ministérios acima referidos em percentagem do PIB no que às despesas sociais diz respeito.

     Os dados projetados foram estes:
          - Saúde: 5, 7
          - Educação: 5

     E atenção que os elementos se referem ao ano de 2010. De lá para cá, os cortes fizeram baixar ainda mais a orçamentação dos dois ministérios.

     Sr. PM e sr. MEC, continuem a cortar nestas áreas até chegarmos a 0. "Valete, fratres"!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Paulo Guinote e o fim do nosso 'Umbigo'


     Nos últimos nove anos, o espaço de que era autor marcou a Educação portuguesa.
     Fui um dos seus leitores assíduos desde 2007. Concordei, discordei. Polémico, escreveu sempre o que pensava. Marcou o setor (sector) e não deixou ninguém indiferente. Condicionou a ação de sindicatos, de governantes, de professores, de ministros... Era leitura assídua de jornalistas.
     Tudo tem um princípio e um fim. É uma lei da vida, mas nem isso faz com que o fim seja mais fácil de encaixar. Manter vivo aquele espaço, com opinião, com argumentação coerente e lógica, com estudo aprofundado e sustentado dos assuntos... tudo isso ocupa tempo e cansa imenso.
     Mas o que mais doi ao ler o testemunho do próprio ao Público é isto:  “A certa altura comecei a sentir que os professores descarregavam a sua frustração nos comentários que escreviam no Umbigo e noutros blogues e que nas escolas não intervinham”.
     Deixou um vazio.
     Paulo Guinote: A Educação do Meu Umbigo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Uma versão de "Autopsicografia"

O artista é um transgressor...
Que marca a diferença por se opor
Fugindo às regras da sociedade
Procura a sua própria liberdade

Cria para fugir da solidão
Ouvindo apenas o seu coração
Não se preocupa se é diferente
Mas não demonstra aquilo que sente

Fecha-se no seu próprio mundo
Vive sozinho mas é feliz
Não é nenhum vagabundo
Mas não é o que por aí se diz.

                                          Sílvia Silva

Qual é o plural de "golfinho"?

A palavra golfinho vem do latim delphīnus, que tem vários significados (golfinho, peixe do mar; constelação; delfim”) e do grego delphís,înos. Neste contexto, golfinho é a designação comum a vários mamíferos cetáceos, marinhos, especialmente os que pertencem à família dos delfinídeos que não alcançam grandes dimensões e que possuem o focinho alongado formando um bico.

Por outro lado, o termo pode designar ainda a modalidade de golfe jogado num campo de pequenas dimensões, cujo percurso é entremeado de túneis, pontes, curvas fechadas e outros obstáculos. Nesta situação, a palavra deriva de «golfe + -inho».

Seja como for, a palavra golfinho pode assumir diversas formas de plural:
     - golfinhozinho;
     - golfinhozito;
     - golfinhinho;
     - golfinhito.

Antonomásia: um exemplo futebolístico

. O Glorioso perdeu por dois a um com o Rio Ave.
  (O Glorioso = O Benfica)

A língua portuguesa no Mundo

     A propósito de um comentário produzido por um aluno procurando diminuir a língua portuguesa, tendo como ponto de partida a sua «dificuldade de aprendizagem» e de «uso quotidiano», comparativamente ao inglês:
          - 244 milhões de falantes;
          - sexta língua mais falada no mundo;
          - 8 séculos de existência («Testamento de D. Afonso II», datado de 1214).

quarta-feira, 25 de março de 2015

"O Amor em Visita", Herberto Helder

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


                               Herberto Helder, in O Amor em Visita

terça-feira, 24 de março de 2015

sábado, 21 de março de 2015

"Always the Sun", The Stranglers


     Após o eclipse de ontem de manhã, é sempre bom saber que há «always the sun».

quinta-feira, 19 de março de 2015

'Pai Herói'

85...

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino

feito grão de milho.

                      Carlos Drummond de Andrade, in Lição de Coisas
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