Português: 25/06/26

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Literatura popular: Do Renascimento a Almeida Garrett

    Se os trovadores medievais olhavam para a poesia popular e a consideravam irregular e tosca, os escritores do Renascimento foram-lhe muito mais avessos. As escolas eram escassas e só acessíveis a religiosos, nobres e burgueses ricos. Assim sendo, o vulgo continuou alheio às letras, embora estas ecoassem os sofrimentos que o afligiam, sujeito às prepotências de uma hierarquia desumana. O texto seguinte, "Carta a D. João III", da autoria de Sá de Miranda, reflete exatamente a denúncia dessas injustiças:
                Então tristes das mulheres,
                tristes dos órfãos, coitados,
                e a pobreza dos mesteres,
                que nem falar são ousados
                diante os mores poderes.
    A "Écloga Montano a João Rodrigues de Sá e Meneses" aborda o mesmo tema:
                Tudo é contra os pequenos!
                Destas leis tais arrenego!
                A justiça não na vemos
                senão no manco ou no cego,
                em nós, que pouco valemos!
    Nesta época, as constituições dos bispados proibiram festas populares, cantos, danças, autos profanos, que tradicionalmente se realizavam dentro e no adro das igrejas, ainda que, sem malícia, a elas se aliasse o mau clero. O tom destas proibições se acentuou com o advento da Inquisição. Para agravar a situação, as leis civis reforçaram as religiosas: D. Manuel proibiu serenatas e D. João III, para defender a Fé e a honra da universidade, os estudantes de Coimbra de fazerem música e autos durante a noite. Gil Vicente, no preâmbulo da tragicomédia Triunfo do Inverno, alude à crise de alegria que caracterizava Portugal nos últimos anos do reinado de D. Manuel e no de D. João III:
                Em Portugal vi eu já
                em cada casa pandeiro
                e gaita em cada palheiro;
                e de vinte anos a cá
                não há hi gaita nem gaiteiro.
                A cada porta um terreiro,
                cada aldeia dez folias,
                cada casa atabaqueiro;
                e agora penúrias
                he nosso tamborileiro.
    No entanto, diversos documentos dão-nos conta de folguedos do povo. João Baptista Venturino, que acompanhava o legado do Papa, cardeal Alexandrino, na sua visita ao rei de Portugal, em 1571, conta que o povo de Évora os recebeu com danças e cantos, aludindo a uma folia composta de "homens vestidos à portuguesa, com gaitas e pandeiros acordes e com guizos nos artelhos, pulavam à volta de um tambor, cantando na sua língua «cantigas de folgar»", de que obteve cópia. Por sua vez, um autor chamado Soropita, nos finais do século XVI, refere-se, com desdém, a cantores "janeireiros" e "reiseiros", de quem diz que "são vilões ruins que essas noites vos perseguem, porque, quando vós não percebais, achai-los à porta com seu pandeirinho furado já do serão e com mais sarna na garganta do que os cães dos frades Loyos...".
    Em suma, na época, ninguém se preocupou em reunir e publicar a literatura oral produzida entre o século XVI e o primeiro quartel do XIX. Até aos nossos dias, chegaram apenas coleções de provérbios, que continuam uma prática antiga. A mais velha compilação que se conhece é a parte portuguesa que Hernán Núñez juntou aos seus Refranes (1555). Nos séculos seguintes, encontramos os Adágios Portugueses, de António Delicado (1651), O Florilégio dos Modos de Falar e Adágios da Língua, de Bento Pereira (1655), a porção deles que Bluteau inclui no Vocabulário (1712-1728) e os publicados por Francisco Rolland em 1780.

    a) A poesia

    Os poetas do Renascimento, apesar do fascínio pela medida nova e formas poéticas que lhe estavam associadas, continuaram a poetar na redondilha tradicional. Além disso, usam versos populares em motes desenvolvidos em vilancetes e cantigas. Todavia, a grande fonte da poesia popular quinhentista foi Gil Vicente. Trata-se de cantigas ordenadas em chacota ou folia, vilancetes, romances onde pulsam o amor, o encanto da natureza e da vida serrana, a devoção religiosa. Ou seja, estamos na presença de um povo que se diverte, que canta e baila, vivo, alegre, ruidoso.
    O romance veio de Espanha, como o comprovam os espanholismos que encontramos nos escritos em Portugal. Este fenómeno é perfeitamente compreensível entre dois países que partilham uma longa fronteira, com monarquias que regularmente trocavam entre si príncipes e princesas, rainhas e fidalgos e respetivos séquitos. Por exemplo, um sétimo das composições do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende são escritas em castelhano; dos renascentistas portugueses, apenas António Ferreira não escreveu também em castelhano; o povo canta romances e endechas espanholas, como documentam textos vicentinos, entre outros. Durante o domínio filipino (1580-1640), esta tendência acentuou-se. Na época, estiveram em voga, por exemplo, o Conde Claros, D. Gaifeiros, a Bela Mal Maridada e Durandarte. O género, em Portugal, já era cultivado na segunda metade do século XV. Garcia de Resende, no prólogo do Cancioneiro Geral, do começo do século XVI, alude a romances. A maioria era cantada em castelhano, mas rapidamente começaram a circular versões portuguesas.
    No século XVII, o gosto pelos romances ou baladas cantados à viola ou à guitarra, acentuou-se, enquanto o XVIII vê morrer, entre a classe aristocrática, o gosto pelo romance popular, preferindo antes as modinhas brasileiras, os ballets, as comédias espanholas e as óperas italianas. Em contraste, o povo continuou a ouvir e a cantar os seus romances. Nesses dois séculos, continuaram a ser cultivadas cantigas tradicionais, que podem ser encontradas no teatro de cordel e autores como Nuno Marques Pereira, no romance Peregrino da América (1728) e Xavier de Matos (1789). Teófilo Braga regista a opinião de dois viajantes estrangeiros a respeito da poesia popular setecentista. O autor da Viagem a Portugal do Duque de Chatelet diz que "as canções portuguesas são muito licenciosas; acompanham-se com uma guitarra que fazem ressoar com muita graça".
    Uma outra espécie de poesia popular surgiu durante o domínio filipino. Trata-se de uma poesia de resistência, panfletária, oral, manuscrita, impressa, nomeadamente de coplas e romances contra os Filipes, contra a nobreza e o clero que com eles se aliaram.
    De igual modo, foi cultivado o messianismo sebastianista, cujo maior representante seria Gonçalo Eanes, o célebre sapateiro de Trancoso mais conhecido pela alcunha de Bandarra. As suas profecias, publicadas pela primeira vez em 1644, foram uma âncora a que se agarraram todos aqueles que visionavam a milagrosa aparição de um salvador da Pátria. Um dos seus apaixonados seguidores, D. João de Castro, neto do herói da Índia, diz que ele era "mui ilustre por virtudes e nobreza de alma, estimado por cima das suas qualidades dos príncipes, senhores, prelados e personagens de muitas letras e religião". Não sabia ler nem escrever:
                Eu componho e não ponho
                As letrinhas no papel.
                O devoto Gabriel
                Vai riscando quanto eu sonho,
o que não invalidava o seu real talento e inspiração poética.

    b) A prosa

    As "estórias" continuam naturalmente a contar-se e delas nos dão notícia Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Gil Vicente, Fernão Lobo Soropita (século XVI), D. Francisco Manuel de Melo, D. Fernando Correia de Lacerda (século XVII) e Bluteau (século XVIII). Com este nome concorrem os de patranhas - o que mais se lê - e contos. Na Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, a ama conta a Aónia um romance triste, em que se incluem os seguintes versos:
                A dita e a formosura
                Dizem patranhas antigas
                Que pelejaram um dia,
                Sendo dantes muito amigas.
    Gil Vicente, na Comédia de Rubena, põe a criada Benita a contar um conto a Rubena:
                Quiéroos decir un cuento.
                Diz que era un escudero,
                tenia la mujer tiñosa,
                y subiendo en un otero...
que Rubena interrompe, dizendo:
                Oh! quien no fuera nacida!
                Viendome salir da vida,
                paraste á contar patrañas?
    Sá de Miranda refere até uma dessas patranhas na Carta a António Pereira:
                Por toda esta grande Espanha,
                Froais que soião chamar
                Fez em Pereiras mudar
                Não do rei mouro a patranha
                Mas vosso antigo solar.
    Por sua vez, Soropita menciona o conto "As três cidras do amor" e D. Francisco Manuel de Melo, nas Cartas Familiares, alude à conhecida história de Maria Sabida, de que Adolfo Coelho apresenta uma variante nos seus Contos Populares. A história do pajem que um milagre salvou, de morrer queimado num forno por intrigas de quem, afinal, acabou por sofrer esse castigo, já contada por Afonso X, o Sábio, numa das suas Cantigas, é incluída pelo bispo do Porto, Correia de Lacerda, na lenda que escreveu a respeito da Rainha Santa Isabel. Já Bluteau apresenta uma versão da facécia O burro do azeiteiro, que anda na boca do povo, e Adolfo Coelho publica nos seus Contos. No entanto, se falarmos da reunião das narrativas de cariz popular, dos séculos XVI a XVIII, em volume, só existe os que Gonçalo Fernandes Trancoso publicou com o título de Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, cuja primeira edição viu a luz do dia em 1575. Note-se que o título reflete o propósito do autor: apresentar uma obra de feição didática, moral e religiosa.

    c) Provérbios e adivinhas

    Existem diversos provérbios em autores como Gil Vicente, no romance Peregrino da América, da autoria de Nuno Marques Pereira (1728), bem como nas comédias de Sá de Miranda, António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos.
    Por outro lado, também houve escritores que publicaram adivinhas com cariz literário. São os casos de Francisco Lopes (Passatempo Honesto de Enigmas e Adivinhações - 1603), Bluteau (Prosas - 1728) e Maria do Céu (Enganos do Bosque). Em todas elas, há reminiscências da tradição oral.

    d) Teatro de cordel

    Quando falamos em literatura de cordel, estamos a referir-nos a folhas soltas, volantes ou folhetos, que se vendiam pendurados de um cordel ou barbante: peças de teatro, autos, glosados, romances e novelas. No século XVI, já eram abundantes, tendo-se multiplicado no seguinte. Estes textos acompanhavam as peças de teatro que populares e burgueses compravam para entender melhor as representações que viam ou conhecer as que não viam.
    Os locais de venda mais habituais na cidade de Lisboa eram a zona do Arsenal, o Rocio e a Rua dos Ourives da Prata. Os folhetos eram expostos às portas das livrarias ou então eram vendidos por vendedores ambulantes (cegos), de cujos braços pendiam e que às vezes possuíam o exclusivo da venda, como foi o caso de um indivíduo chamado Romão José, que ficava postado à esquina das casas dos Padres de S. Domingos ou vendia em sua casa a comédia A Amizade em Lance.
    No século XVIII, foram publicadas centenas de obras originais portuguesas, traduções e adaptações de Metastasio, Goldoni, Maffei, Molière, assinadas ou anónimas. Este teatro de cordel terá sido iniciado com a publicação de alguns autos de Gil Vicente, nomeadamente o Auto da Barca do Inferno, a Farsa de Inês Pereira, D. Duardos, Pranto de Maria Parda, Auto da Festa, Auto de Deus Padre, Justiça e Misericórdia, Obra da Geração Humana, tendo sido continuada por Chiado, Baltasar Dias e Afonso Álvares.
    O livro era muito caro no século XVI, pelo que edições baratas como os livros de cordel certamente constituíam um negócio chorudo para os editores da época, além de leitura corrente do leitor vulgar.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...