Português: 30/06/26

terça-feira, 30 de junho de 2026

Literatura popular: atualidade

     Nos últimos largos anos, a literatura popular tem vindo a empobrecer gradualmente, essencialmente por causa da generalização de modelos graças aos meios de comunicação e à Internet. Já em 1933 Leite de Vasconcelos proclamava: "Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem, vivendo hoje, houvesse nascido nos meados do século XIX lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona — e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer da tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares... estudemos tudo, busquemos ou continuemos a buscar paralelos ao que estiver, abalancemo-nos à compreensão genérica dos factos, e assim daremos provas, nós, Portugueses, de que desejamos acompanhar as nações cultas neste campo de atividade científica."

Literatura popular: continuadores de Almeida Garrett

    Neste capítulo, destacam-se os nomes de três grandes figuras da literatura portuguesa: Teófilo Braga, Adolfo Coelho e José Leite de Vasconcelos. Estes vultos foram os primeiros a dar rigoroso tratamento científico.

    Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada, a 4 de fevereiro de 1843, na ilha de S. Miguel, nos Açores, e aí fez os primeiros estudos. Tirou o curso de Direito em Coimbra em 1868 e foi professor do Curso Superior de Letras, de Lisboa, de 1872 a 1924, data do seu passamento. Foi poeta e historiador, etnólogo e filósofo e simultaneamente político ativista, militante do Partido Republicano, tendo alcançado por duas vezes a suprema chefia do Estado (1910 e 1915).

    Na esteira de Almeida Garrett, dedicou-se ao estudo do povo e da sua literatura, tendo produzido uma vastíssima obra, que conta mais de trezentos títulos, dentre os quais avultam os volumes que dedicou à literatura popular. Em 1865, quando contava apenas vinte e quatro anos, fez publicar o Cancioneiro e o Romanceiro Geral Português, que viu uma nova e aumentada edição - de dois para três volumes - em 1906-1909, e ainda uma primeira edição da História da Poesia Popular Portuguesa, ampliada para dois volumes numa edição de 1902-1905. Além disso, publicou Contos Populares do Arquipélago Açoriano (1869), Parnaso Português Moderno (1877), Contos Tradicionais do Povo Português (1883), além de outras obras menores dispersas por jornais e revistas.

    A maioria dos textos que publicou chegou-lhe às mãos por meio de amigos ou de livros. Raramente se dedicou à recolha direta. Para evitar cometer os mesmos erros praticados por Almeida Garrett, reproduziu com fidelidade o que ouviu ou leu, tendo-nos deixado materiais abundantes e de boa qualidade. Deve-se-lhe o primeiro cancioneiro moderno e o romanceiro mais rico da História portuguesa.
    Por outro lado, Teófilo Braga continua a olhar para o povo como uma entidade mítica: um rebanho que vive pela tradição, emocionalmente, irrefletidamente, fazendo o que os outros fizeram, repetindo automaticamente comportamentos aprendidos, sob o império do sentimento, em estado de inconsciência. Além disso, apresenta-o como rude, inculto, ingénuo, uma classe baixa, inferior e ínfima.
    Sustentando-se em dados antropológicos inseguros, Teófilo Braga procura as origens da nossa poesia popular na raça proto-árica dos Lígures, anterior aos Celtas e mais civilizada do que estes. Além disso, não obstante a admiração que sustenta pela arte do povo, mantem a tradicional distinção entre poesia popular e poesia artística, quando, na realidade, sem a primeira não se chega à segunda. Face ao exposto, é fácil concluir que Teófilo Braga não se afasta das ideias aristocraticamente românticas de Garrett. No entanto, diferem na função que atribuem à poesia popular: Garrett queria renovar a literatura, ao passo que Teófilo sustenta que, cultivando-a, repetindo-a ao povo, se faria renascer o caráter nacional, e este, tomando consciência das suas virtualidades, ganharia novas forças e coragem para fazer a revolução.
    Francisco Adolfo Coelho nasceu em Coimbra a 1 de janeiro de 1847. Frequentou a Universidade e, ao fim de dois anos, abandonou-a desiludido, em busca por si da educação intelectual que não achara. Foi professor de Filologia e Pedagogia no Curso Superior de Letras, diretor da Escola Preparatória de Rodrigues Sampaio e da Escola Normal Superior de Lisboa e um dos promotores das Conferências do Casino, em 1871. Faleceu a 8 de fevereiro de 1919. Foi um cidadão de caráter íntegro, que sempre respeitou quem tinha um pensamento diverso do seu. Além disso, defendeu sistematicamente o que considera justo e verdadeiro, não olhando a pessoas nem a conveniências, granjeando, por isso, o respeito dos seus antagonistas.
    Aprendeu, ainda bastante jovem, a falar inglês e alemão, bem como francês, o que lhe proporcionou um contacto permanente com os progressos que as Ciências Humanas iam fazendo na Europa. Os seus mestres prediletos foram psicólogos e etnólogos alemães. Ao longo dos anos, adquiriu uma grande erudição e cultivou com mestria a Linguística, a Etnologia e a Pedagogia, as três áreas que sustentavam o seu ideal cívico: a educação do povo português. No que diz respeito à Etnologia e concretamente à literatura popular, a obra que realizou foi absolutamente notável. Colheu-a diretamente do povo, de livros e do contributo de amigos. Foi, no entanto, essencialmente um trabalhador de gabinete. Ao longo da sua vida, publicou contos, lendas, adágios, jogos, romances, ensalmos, rimas infantis, que acompanhou de estudos sobre a estrutura, a origem e a classificação.
    Os seus trabalhos e as suas pesquisas visavam sobretudo a ascensão das classes populares à educação e a democratização do ensino. De facto, esse ideal cívico constituiu uma constante do seu pensamento em todas as matérias a que se aplicou. À semelhança de Almeida Garrett, propôs que a literatura popular fosse fonte de inspiração e alfobre de formas e temas para os artistas contemporâneos, considerando que essa seria a única via por que produziriam uma verdadeira literatura, autenticamente nacional. Acima disso, a literatura popular constituiria o elemento fundamental na educação geral da nação.
    Para Adolfo Coelho, o povo é inculto e atrasado; vivendo dominado pelo sentimento e pelo instinto, o seu comportamento é predominantemente irrefletido; repetindo maquinalmente o que lhe vem da tradição e das suas "experiências brutas", não é capaz de organizar sistematicamente os seus conhecimentos. Se é verdade que não lhe faltava imaginação e capacidade de alcançar ideias gerais, não o é menos que a sua falta de cultura, sob o jugo de uma atividade permanentemente prática, o impede de subir às mais altas conceções teóricas. Assim, vive imerso em ideias comuns, num pensamento coletivo; a arte que cultiva não possui o cunho da individualidade, da originalidade e da complexidade. Esse era o privilégio das classes cultas. Pelo contrário, o vulgo, por causa da sua irreflexão, não escolhia as premissas certas para chegar a conclusões certas, ao passo que os estratos cultos cultivavam o logismo, a aptidão de eliminar o que não convém como base de conclusão segura.
    José Leite de Vasconcelos nasceu na Ucanha, concelho de Tarouca, a 7 de julho de 1858. Formou-se, no Porto, em Ciências Naturais e Medicina entre 1879 e 1886. Exerceu o ofício de médico durante um ano; depois exerceu a função de conservador da Biblioteca Nacional e, em 1911, tornou-se professor da Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinou principalmente a disciplina de Filologia Românica. Aposentou-se em 1929, mas não abandonou o seu trabalho científico, o que só sucedeu quando a morte o surpreendeu a 17 de maio de 1941. Embora tivesse cursado Ciências, a sua paixão eram as Letras, que cultivou desde cedo. O seu grande sonho era escrever uma história do povo português, um tratado de Etnografia. Para conseguir atingir esse objetivo, tornou-se arqueólogo e filólogo, fundou o Arqueólogo Português, a Revista Lusitana, o Boletim de Etnografia, o Museu Etnológico. No total, escreveu mais de trezentas obras.
    Nascido numa aldeia da Beira Alta, de família liberal, conviveu quotidianamente com o povo, foi discípulo de românticos e entusiasmou-se com o movimento científico do século, daí que não seja surpreendente o facto de se ter dedicado a estudos de literatura popular. Começou a coligi-la entre os dezassete e os dezoito anos e aos vinte publicou os seus primeiros artigos na Aurora do Cávado, uma revista editada em Barcelos. Recolheu e publicou romances, cantigas, rimas infantis, orações, contos, lendas, anedotas, provérbios, adivinhas, que acompanhou de notas e comentários nos quais refletia grande sabedoria e reflexão. Entre muitos estudos, destacam-se aqueles que versam a poesia popular, canções de berço, normalmente representar "o modo de ser de um só".
    Por outro lado, Leite de Vasconcelos é dos primeiros a explicar a identidade de tradições em diferentes países, nomeadamente de adágios e fábulas, pela transmissão de povo a povo, enquanto o resto da Europa se mantinha fiel à teoria evolucionista da invenção independente.
    Leite de Vasconcelos foi o primeiro etnólogo a sustentar a grande importância do trabalho de campo, da recolha direta, e a executá-lo. Para tal, percorreu o país de lés a lés, de caderno na mão, tomando notas de tudo, recolhendo da boca do povo quanto ele sabia.

Literatura popular: Almeida Garrett e o Romanceiro

  1. Vida
    João Baptista da Silva Leitão nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799, filho de um proprietário açoriano, funcionário de alfândega, e de mãe de família burguesa, enriquecida no Brasil, de origem minhota. Os apelidos Almeida e Garrett adotou-os o próprio escritor, respetivamente, do nome da mãe e de um antepassado paterno. Apesar de se manifestar contra a nobreza liberal recente, acabou por possuir o título de visconde. Em 1811, exilou-se na ilha Terceira com a família por causa das invasões francesas. Aí, conviveu intimamente com o seu tio, D. Alexandre da Sagrada Família, bispo de Angra do Heroísmo. Foi aí também que completou a sua educação tradicional, católica no que diz respeito à religião e clássica no que se refere à literatura. Muitos julgaram que seguiria a carreira eclesiástica, como o tio arcebispo ou outros dois tios padres, no entanto optou por estudar matemática, em Coimbra, mas rapidamente trocou pelo curso de Direito.
    O jovem estudante manifestou desde cedo os seus ideais liberais e a oposição ao regime absolutista. Deste modo, escreve, conspira e fala em comícios a favor do liberalismo e contra o absolutismo. Após o triunfo do Vintismo, viu-se confrontado com a abolição da Constituição de 1822 e a necessidade de novo exílio, desta vez em Inglaterra, país para o qual parte em 9 de julho de 1823. A 22 de agosto, regressou a Portugal, graças a uma amnistia, porém foi preso de imediato e apenas solto com a condição de abandonar o país. Assim, passou a viver em Inglaterra, depois em França, tendo regressado a Portugal após a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV (1826). Voltou a ser novamente preso por três meses por causa da sua intensa atividade política. A 3 de maio de 1827, a Carta foi revogada e Garrett mais uma vez sujeito ao exílio. Em janeiro de 1832, após quatro anos de absolutismo em Portugal, D. Pedro organizou, em França e Inglaterra, uma expedição militar que, passado algum tempo, restaurará a Constituição e o liberalismo no país. Almeida Garrett alistou-se como soldado, desembarcou na ilha Terceira, em março de 1832, e foi depois um dos bravos do Mindelo, em julho de 1832. A sua intensíssima atividade política e literária consumiu-lhe a vida, que acabou a 9 de dezembro de 1854.

2. O reformador
    O exílio permitiu-lhe contactar com o movimento romântico, que campeava em Inglaterra, na Alemanha e França. De facto, estimulado pela leitura e exemplos de Walter Scott, Burns, Burger, Percy, Shakespeare, Macpherson, M. Stael, etc., Garrett restaurou o romance nacional e renovou a poesia portuguesa. Assim, deseja que "Vamos a ver por nós, a tirar de nós, a copiar da nossa natureza e deixemos em paz Gregos, Romanos e toda a outra gente", e defende o regresso ao que ele tem por "nossas primitivas e genuínas fontes poéticas", que são os textos medievais e a literatura popular. A legítima poesia nacional, mesmo que com alguma corrupção, era aquela que ecoava na voz do povo. Ao longo dos séculos, tinha sido transmitida de geração em geração, e urgia agora recolher, restaurar, popularizar e estudar. Deste modo, Garrett deu andamento ao projeto de publicar um cancioneiro e um romanceiro, todavia apenas o segundo viu a luz do dia.

3. A coleção
    Na amargura do exílio, Garrett evocou, com saudade, as "xácaras e romances populares de maravilhas e encantamentos, de lindas princesas, de galantes e esforçados cavaleiros" que em pequeno, lhe cantavam a velha criada Brígida e a boa ama Rosa de Lima e em nada as achava inferiores às novelas poéticas de Walter Scott e às baladas de Burger e Burns. Entre 1823 e 1826, escreveu a uma "menina" de sua "amizade" que lhe mandasse xácaras, daquelas que se ouviam nos arredores de Lisboa, e dela recebeu os primeiros quinze espécimenes. Pouco depois contava vinte, a que se juntou meia centena, escritos pelo punho do Cavaleiro de Oliveira nas margens das folhas dos tomos de um exemplar da Biblioteca de Barbosa e em folhas brancas que nele tinha inserido a propósito de "anotações, comentários, emendas, adições" a artigos da referida Biblioteca. Quando regressou a Portugal, em 1832, enriqueceu o pecúlio com outros que recolheu da boca de criadas velhas da sua mãe e de uma mulata brasileira da casa de sua irmã. Teve igualmente acesso a uma pequena coleção reunida pelo cônsul francês no Porto, o Sr. Pichon (1832-1833). A partir daí o espólio continuou a crescer com ofertas provenientes de diversos locais, entre as quais avulta a do seu condiscípulo Emídio da Costa e, em 1838, o grande romanceiro de Durán, bem como o que Ochoa publicou em Paris.
    Por outro lado, Almeida Garrett não se interessou muito pela recolha da tradição oral, todavia sempre o manifestou relativamente à recolha de romances, uma ocupação dileta das suas "horas de lazer", como ele próprio confessou.

3. Tratamento dado à matéria romanesca
    Nenhum dos textos do Romanceiro é uma reposição fiel da versão popular. De facto, alguns nem corriam como romances, antes eram contos ou lendas que Garrett modificou livremente. Outros têm por base a versão tradicional, muito estropiada, que o autor reconstruiu, como foi o caso do romance, refeito sobre D. Silvana, no qual conservou o fundo da história e do desfecho, a que acrescentou diversos acidentes e profusão de enfeites, que formalmente o desfiguraram; e Bernal-Francês, menos alterado. Ambos foram publicados pela primeira vez em Londres, em 1828.
    Estes dois tipos de romance constituem a matéria do 1.º volume, a que Almeida Garrett deu o nome de Romances da Renascença, como se renascessem de um fundo tradicional quase extinto. Nos dois volumes seguintes, o autor procurou apresentar o texto original, através do confronto das diversas variantes. Assim, na busca do arquétipo, corrigiu, substituiu palavras e expressões, versos por versos de outras lições, completou, eliminou. Estamos na presença de um tratamento livre, optando Garrett por tomar por modelo as estimadas coleções de Ellis e do bispo de Percy e d'As Fronteiras de Escócia por Sir Walter Scott e as publicações de Lockhart. Além disso, o autor teve o cuidado de citar em fim de página, referindo a origem e as variantes que não utiliza.
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