Português: 05/07/26

domingo, 5 de julho de 2026

Resumo de Os Insolentes,de Marguerite Duras

Marguerite Duras

    O excerto retrata o ambiente denso e sombrio no apartamento da família Grant-Taneran, situado no sétimo andar de um edifício com vista para um vale industrial, no dia em que a família é abalada por uma tragédia. A narrativa acompanha Maud, que observa o distanciamento emocional e a apatia dos seus familiares na sequência da morte repentina da sua cunhada, Muriel, num acidente de automóvel.

    Na sala de jantar, cujo espaço é dominado por um velho e banal aparador que sublinha a falta de gosto e a inércia da família, encontram-se amontoados os pertences de Jacques, o meio-irmão mais velho de Maud. Jacques, de quarenta anos, está fechado no quarto a chorar compulsivamente a perda da mulher, com quem havia casado há cerca de um ano. No entanto, a família deixa-o inteiramente entregue ao seu sofrimento, partilhando uma desconfiança desdenhosa por expressões de dor que serve de pretexto para o ignorarem e não o confortarem. Neste cenário de profundo silêncio e tensão, quebrado apenas pelos soluços que ecoam pelo corredor, a mãe — que sempre desaprovou o casamento do filho com Muriel — refugia-se na cozinha, num choro silencioso que se prolonga desde o meio da tarde. Entretanto, chega a casa o Sr. Taneran, o padrasto de Maud, um antigo professor de ciências com um ar abatido e solitário. Obrigado a regressar ao trabalho no Ministério da Educação aos sessenta anos para sustentar as avultadas despesas que o casamento lhe trouxe, ele usa a sua rotina profissional como uma forma de escapar à opressão familiar e ao terror constante que o enteado lhe inspira. Ao perceber imediatamente o ambiente anómalo na casa, e após um jantar rápido e taciturno servido por Maud, o Sr. Taneran pergunta e confirma o falecimento da nora em voz baixa. Após confessar de forma contida que, no fundo, não lhe queria mal nenhum, retira-se para o seu quarto, onde a sua inquietação se manifesta nos passos constantes que dá de um lado para o outro sobre o chão de madeira, que estala e chia suavemente debaixo dos seus pés durante muito tempo.

    O texto aprofunda o passado recente de Jacques, revelando a espiral de ruína financeira em que o seu casamento com Muriel mergulhara antes da tragédia. Habituado a esbanjar o dinheiro da mulher de forma inconsequente e a viver numa ociosidade fútil, o homem esgotara rapidamente a fortuna da esposa em esquemas duvidosos e dívidas. Desesperado, passara a mendigar dinheiro à família, encenando dramas para arrancar quantias pontuais à mãe, a Sra. Taneran, que controlava a ajuda financeira com uma mistura de amor e ódio para evitar ser totalmente explorada. O desespero de Jacques agravara-se com a chegada constante de cartas de cobrança de um banco, uma vergonha que ele se esforçava por esconder de Muriel, mantendo-a rigorosamente afastada da sua família. Por isso, a morte súbita da mulher, embora brutal, acaba por ser intimamente encarada pela mãe e pela família como a resolução de um suplício e de um problema financeiro insustentável.
    Por volta das dez da noite, o luto de Jacques atinge um momento de confissão quando chama a sua meia-irmã, Maud, ao quarto. Profundamente abatido e agarrado a uma madeixa de cabelo da mulher, ele relata os contornos bizarros e angustiantes daquela noite: os amigos tinham deixado Muriel em casa desmaiada, e ele passara a madrugada inteira a falar com ela enquanto o seu corpo arrefecia, apercebendo-se apenas com a luz da manhã de que o seu esgar era, na verdade, um sorriso estático. Só então a levou para o hospital, onde viria a falecer nessa mesma noite, deixando Jacques na dúvida sobre se teria sido um acidente.

    No entanto, a aparente vulnerabilidade e a partilha do luto genuíno são abruptamente estilhaçadas. Jacques, rebaixando-se e aproveitando-se do próprio infortúnio, pede dinheiro à irmã, alegando ter contraído dívidas para que Muriel fosse bem tratada. A jovem sente-se humilhada por aquela falsa intimidade e percebe de imediato a manipulação, reconhecendo a mistura perturbadora de dor real e cobiça nos olhos do irmão. Recuperando a frieza, avalia a situação com distanciamento e conta o pouco dinheiro que tem na carteira. Gélida e incomodada com a atitude do irmão, recusa-se a entregar-lhe as notas na mão, optando por pousá-las diretamente sobre o peito de Jacques antes de sair.
    No dia seguinte, Jacques enterra a mulher, acompanhado pela mãe, a Sra. Taneran. No regresso da triste cerimónia, ao caminharem por uma avenida soalheira que anuncia a chegada do verão, ambos partilham um momento de apaziguamento e de reconciliação tácita. Num misto de conforto e convalescença, ele deixa-se guiar, contentando-se em manter uma aparência enlutada apenas por um sentido de pudor. Aproveitando esta rara submissão do filho, a Sra. Taneran sugere-lhe uma viagem a Uderan, uma propriedade rural na Dordonha onde a família vivera no passado, longe de Paris e do Sr. Taneran. Embora a quinta se tenha revelado um enorme fracasso agrícola e a própria mãe tenha acabado por perder o interesse na lida do campo com a inconstância que a caracteriza, a propriedade permanece como um refúgio nostálgico e uma rede de segurança na memória familiar, para onde a matriarca deseja escapar sempre que o futuro lhe parece sombrio.
    Apesar desta invulgar proximidade com o filho mais velho, com quem habitualmente apenas partilha refeições marcadas pela tensão e por uma mútua detestação, a mãe não consegue sentir-se plenamente aliviada. A sombra da jovem recém-enterrada — e a suspeita perturbadora de que Muriel possa ter cometido suicídio — assombra-a, misturando-se com um profundo sentimento de culpa e de deceção face à maternidade. Ao contemplar Jacques, prestes a fazer quarenta anos e mergulhado no declínio resultante de sucessivos desvarios, a Sra. Taneran reflete sobre os seus próprios erros. Reconhece a forma como sempre lhe tolerou as fantasias, alimentando as suas ilusões de riqueza para evitar as suas habituais ameaças de abandono, e lamenta não o ter avisado do jogo perigoso em que se envolvera com o casamento.
    Perdida nestas reflexões, a matriarca pensa também na filha Maud, especulando se ela teria cedido aos pedidos de dinheiro do irmão, e constata que, sem a sua presença, a família se desmoronaria definitivamente. Sente-se a amargurada guardiã de um grupo disfuncional, composto por uma filha que considera ingrata, um filho perverso e um rapaz velho e arruinado. No íntimo, sonha em ser apenas uma velhinha tranquila com a sua missão terminada, livre daquela cidadela de indiferença. O peso desta tutela sufocante leva-a a questionar a razão de prolongar uma maternidade doentia e a dependência dos filhos, apercebendo-se com terror de que estes a consomem física e materialmente. Subitamente esmagada por um cansaço brutal e pela constatação da sua própria servidão, perde a força de aproveitar a manhã de sol. Interrompe abruptamente o passeio para chamar um táxi e, perante o olhar surpreendido e reprovador de Jacques, resigna-se e regressa docilmente à sua velha personagem.
    A dinâmica da família Grant-Taneran é marcada por um misto de repulsa e uma estranha atração magnética que os impede de se separarem definitivamente. Apesar de Maud fantasiar frequentemente com a ideia de fugir e nunca mais voltar a casa, acaba sempre por regressar, enredada naquele círculo estreito onde até as inimizades dão ocasionalmente lugar a tréguas que lhes permitem recuperar o fôlego. Após o jantar, a família costuma dispersar e o Sr. Taneran refugia-se no seu quarto, desfrutando de uma aparente solidão que, na verdade, depende do ruído e da presença constante dos enteados. Ele mantém a esperança teimosa de que a mulher, a quem ainda ama, volte a partilhar a intimidade consigo, usando frequentemente a futura estadia na propriedade rural de Uderan como pretexto para conversar com ela à noite. Por sua vez, a Sra. Taneran, desiludida com a propriedade e oprimida por medos supersticiosos em relação ao futuro, alimenta a ilusão de utilidade do filho mais velho, Jacques. Diz-lhe que ele será o responsável por Maud e pelo irmão mais novo, Henri, caso ela morra, garantindo assim que ele permanece dependente e sob a sua alçada.
    A convivência diária é pautada por humilhações e tensões constantes. Jacques trata o padrasto com um profundo e negligente desdém, embora Taneran sinta um prazer secreto e inconfessável nas raras ocasiões em que o enteado se vê forçado a rebaixar-se e a bater à sua porta para lhe pedir dinheiro. Quando tenta alertar a mulher para os maus caminhos de Henri e a indiferença de Maud, que se ri com escárnio das conversas dos adultos, a Sra. Taneran reage com irritação, defendendo cegamente a sua liberdade para educar os filhos como entende, recusando admitir o fracasso que já se evidenciara com Jacques. O ambiente denso é frequentemente assombrado por memórias de Uderan, reavivadas quando a mulher serve chá de tília ao marido para o consolar. Nessas recordações, a quinta surge como um lugar de isolamento e paranoia para Taneran, que, sentindo-se excluído pela cumplicidade entre a mãe e os filhos, costumava inquirir a pequena Maud, num tom cobarde e conspiratório, sobre o que os outros estariam a tramar na cozinha. Para a rapariga, a figura do padrasto fica intimamente associada a esse odor a tília, ao sorver ruidoso da bebida e à sua natureza amargurada.
    Qualquer frágil harmonia familiar é facilmente destruída, como acontece quando Jacques regressa a casa mais cedo do que o habitual, interrompendo as raras conversas noturnas entre a mãe, o padrasto e a irmã. Com a sua habitual arrogância, atira um jornal aos pés de Taneran e retira-se para o seu quarto, assobiando, indiferente à presença do velho. Em retaliação, este aproveita para culpar a mulher pela infelicidade que ela própria construiu com a sua postura, antes de se retirar para o seu quarto. Nestes momentos de tensão, Maud foge também para o seu quarto em silêncio. Despe-se às escuras para não ser notada, aceitando a sua existência esquecida e insignificante. Na escuridão, é tomada por uma raiva cega e solitária, agarrando-se à cama como um náufrago aos destroços, num desespero avassalador que, no entanto, acaba por se desvanecer rapidamente, tal como os seus antigos e irracionais medos infantis em Uderan desapareciam mal despontava o dia.

Apreciação crítica de Contagem até zero

    Contagem até Zero destaca-se na obra de Agatha Christie pela sua estrutura narrativa inovadora e pela profunda exploração psicológica das personagens. A obra subverte a fórmula tradicional do romance policial ao propor, através da sabedoria do idoso advogado Mr. Treves, que o assassinato não é o ponto de partida da história, mas sim o seu culminar, a "hora zero" para onde convergem diversas circunstâncias, pequenas escolhas e indivíduos guiados pelo destino.
    O aspeto mais brilhante da trama é a desconstrução do próprio motivo do crime. A autora surpreende ao revelar que o brutal homicídio de Lady Tressilian é, na verdade, um crime secundário e meramente instrumental. O verdadeiro e maquiavélico objetivo de todo o plano é forjar provas de forma meticulosa para que Audrey Strange seja condenada à forca, num ato de vingança sádica por parte do seu ex-marido, Nevile.
    A caracterização joga constantemente com as perceções do leitor. Nevile Strange utiliza a sua imagem de desportista perfeito, calmo e carismático como uma máscara que oculta uma mente doentia e psicopata. Em contraste, Audrey é inicialmente vista como uma figura etérea, pálida e passiva, cuja apatia esconde afinal um terror profundo provocado por anos a viver sob a ameaça velada da loucura do ex-marido. A autora cria um excelente jogo de espelhos com as pistas do crime: o assassino planta indícios demasiado óbvios contra si mesmo para ser facilmente ilibado pela polícia, tornando assim as provas subsequentes contra Audrey muito mais credíveis e infalíveis.
    A obra ganha ainda uma camada filosófica invulgar através do arco de Angus MacWhirter. A jornada deste personagem, que começa num hospital após uma tentativa de suicídio por considerar a sua vida inútil, ilustra perfeitamente a tese central do livro de que todos têm um papel a desempenhar no grande xadrez da vida. A sua sobrevivência prova ter um propósito imprevisto, acabando por ser o acaso da sua presença no local exato a ditar a salvação de Audrey, utilizando o raciocínio lógico e a ousadia para enganar o próprio assassino.
    Em suma, trata-se de um brilhante exercício de suspense onde o elemento principal não é o "quem matou", mas sim a anatomia do ódio e a inexorabilidade do destino. O caso é desvendado confiando na análise da psicologia humana e orquestrando um clímax de tremenda pressão psicológica que destrói por completo a fachada de sanidade do antagonista.
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