Português: 20/07/26

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Análise de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

 I. Vida de José Mauro de Vasconcelos


II. Obras


III. Obra


IV. Época


V. Ação

        1. Resumo

        2. Estrutura

        3. Resumo dos capítulos

                3.1. Primeira parte

                        3.1.1. Primeiro capítulo

                        3.1.2. Segundo capítulo

                        3.1.3. Terceiro capítulo

                        3.1.4. Quarto capítulo

                        3.1.5. Quinto capítulo

                3.2. Segunda parte

                        3.2.1. Primeiro capítulo

                        3.2.2. Segundo capítulo

                        3.2.3. Terceiro capítulo

                        3.2.4. Quarto capítulo

                        3.2.5. Quinto capítulo

                        3.2.6. Sexto capítulo

                        3.2.7. Sétimo capítulo

                        3.2.8. Oitavo capítulo

                        3.2.9. Último capítulo


VI. Análise dos capítulos

        1. Título da 1.ª parte

        2. Capítulo I

                2.1. Título

                2.2. Ação

                2.3. Caracterização das personagens

                        a) Zezé

                        b) Totoca

                        c) Mãe

                        d) Tio Edmundo

                        e) Pai de Zezé

                2.4. Espaço

                2.5. Tempo

                2.6. Narrador

                2.7. Simbologia

                2.8. Temas

        3. Capítulo II

                3.1. Título

                3.2. Ação



O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Tempo da ação
 
● O tempo cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
 
● Os eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa caminha atravessamento da estrada diálogo memórias regresso a casa.
 
● Embora não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças, lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920 ou 1930.
 
b) Tempo do discurso
 
● O capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da infância, recordado pelo narrador.
 
● O discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses. Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os pensamentos do narrador-personagem.
 
 
c) Tempo histórico
 
● A narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que habitavam em bairros suburbanos da época;
- as referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades, começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da presença de empresas estrangeiras no Brasil.
 
● Por outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do Brasil da época:
- as desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros, operários, trabalhadores domésticos;
- a infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns trocados).
 
d) Tempo psicológico
 
● O tempo psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
 
● O tempo psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque), pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
 
● A recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
 
● Por outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o cavalo Raio de Luar).
 

O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Espaço físico
 
i) O bairro e a rua
 
● A ação decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
 
● Um dos espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia, faz perguntas.
 
● A rua é um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
 
● Outro espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
 
● Há ainda referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória, não cenário de ação.
 
ii) A casa da família
 
● O espaço doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os óculos do Tio Edmundo.
 
● Esses espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas também à música (a canção da mãe).
 
● A casa é um espaço de regras e de repressão.
 
● Em suma, trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
 
b) Espaço psicológico
 
i) O interior de Zezé
 
● O capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
 
● É um espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se fossem um refúgio.
 
● O espaço psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
 
ii) O refúgio contra a dura realidade
 
● Zezé sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
 
● O próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico, visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém explica.
 
iii) Conflito interno
 
● Zezé oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a vergonha.
 
● Quando recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a razão desse sentimento.
 
● No momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
 
c) Espaço social
 
i) A pobreza
 
● Zezé vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
 
● A mãe trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber), Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
 
● O pai está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da família.
 
● A pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
 
ii) Estrutura familiar
 
● A família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe sobrecarregada de trabalho.
 
● Sobre Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte das irmãs.
 
● Totoca assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola) faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
 
iii) Desigualdade familiar
 
● Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
 
● O tio Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e, atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o sustento da família.
 
● A rua é um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem como se deslocar.
 

Caracterização do pai de Zezé (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização psicológica
 
● Vive frustrado e apático por estar desempregado.
 
● Manifesta pouca paciência relativamente a Zezé, castigando-o pelas suas travessuras.
 
ii) Caracterização social
 
● Desempregado, sente-se humilhado pela pobreza e pelo facto de ser a esposa a sustentar a casa.
 
● É uma figura de autoridade distante, dura e cansada.
  

Caracterização do Tio Edmundo (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● Não é um parente biológico de Zezé, mas faz parte da vida da família, assumindo o papel semelhante ao de um tio.
 
● É um homem velho e reformado, de cabelo branco e óculos na ponta do nariz, que passa o seu tempo acompanhando Dindinha.
 
● Fala pausadamente, lê o jornal, adotando a postura de quem já não participa ativamente no mundo do trabalho.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Para Zezé, é um “sábio”, uma referência intelectual que admira pelo seu conhecimento.
 
● É visto pela família como “meio trongola”, meio excêntrico ou «maluco», porém, para o narrador, é o portador de uma sabedoria encantadora.
 
● Velho e separado da mulher, vive sozinho, apesar de ter cinco filhos, que não o visitam.
 
iii) Caracterização social
 
● Está aposentado: recebe pensão da Câmara Municipal.
 
● De condição modesta, é visto como «sábio» e respeitado por Zezé.
 
● É um transmissor de cultura: não sendo professor, é um mestre involuntário.
 

Caracterização da Mãe (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● É alta, magra, mas muito bonita, e tem a pele queimada pelo sol.
 

● Os seus cabelos são pretos, lisos e longos, caindo até à cintura.

 
● Usa um lenço na cabeça para se proteger do sol e um avental na cintura enquanto lava.
 
● A sua imagem surge associada ao tanque de lavar a roupa: as mãos na água, o sabão, a espuma e o estendal.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Reprime Zezé, mas não de forma tão dura como outros membros da família.
 
● Demonstra o seu afeto não por palavras, mas através de pequenos gestos, como, por exemplo, cantar para o filho enquanto trabalha.
 
● A canção que cantava ficou gravada no íntimo de Zezé como símbolo de consolo e memória afetiva.
 
iii) Caracterização social
 
É uma mulher do povo, casada, com vários filhos.
 
É uma mulher trabalhadora: sustenta a casa e a família com o escasso produto do seu trabalho – lava a roupa da família do Dr. Faulhaber.
 
Vive condicionada pelas circunstâncias: o marido está desempregado, as contas atrasadas, a luz cortada.

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