Português

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Capítulo XV de A Sibila

             1. A doença de Quina
 
1.1. "Uma pneumonia prostrou Quina".
 
1.2. A tendência popular para atribuir alcunhas: "Libória, a criada, por alcunha a Sancha...".
 
1.3. Breve retrato de Inácio Lucas: "muito velho e muito trôpego".
 
 
2. Retrato de Custódio
- voltava tarde para casa;
- saía diariamente depois da ceia, ficando por vezes dois ou três dias sem vir a casa;
- libertino;
- fumava muito;
- jogava (p. 178);
- não bebia, mas roubava o vinho para Libória.
 
 
            3. Quina e a família:
durante a sua doença, apenas o cunhado, Inácio Lucas, e Estina a visitam e cuidam de Quina, mas até Estina revela grande contrariedade pela ausência forçada de casa: "Apesar de estreitamente ligadas de coração, Estina sofreu como um exílio aquela época em que esteve afastada dos hábitos..." (p. 183). Todos os outros ignoraram a sua doença e não a visitaram, "porque [Quina] não revelara a seriedade da doença e (...) porque, exceto Estina, os outros se tinham tornado bastante indiferentes, minados por despeitos, ainda que, num plano geral, a estimassem..." (p. 184). No entanto, o seu orgulho não lhe permitiu que confessasse o sofrimento que a indiferença da família lhe causava.

            Mais tarde, Abel visita-a de surpresa nove anos depois do último contacto entre ambos, e constatando a sua debilidade física ("Nunca mais recobrou por inteiro a saúde." – p. 186), insiste para que o acompanhe e se trate na cidade, que a irmã recusa: "... isto é só velhice." (p. 186).

            Note-se como, novamente, se revela a oposição entre o carácter das mulheres da Vessada e dos homens, dúctil e superficial ["Abel (...) era de fácil comoção..." – p. 187].

 
            O materialismo e a ambição de Abel não tardam, todavia, a revelar-se:

. "... magicara adular Quina por intermédio do rapaz...";

. "E, já não podendo conter mais o rancor que, havia anos, acumulava, vazou ali todas as suas queixas, acusou-a de o arruinar, de o lograr (...)" (p. 188);

. "visitando Estina, intrigando contra a irmã que – dizia – o fazia pobre e derramava a rodos o património para satisfazer os caprichos daquele rapaz, mostrou-se magoado e cheio de generosas apreensões..." (p. 188).

            Contudo, e confirmando o espírito de união das mulheres da casa da Vessada já antes demonstrada, Estina, numa atitude "maternal e risonha", limita-se a observar "aquele irmão, bonito, mentiroso, aventureiro..." que "nunca lhe parecera ter crescido". (p. 188)

Capítulo XIV de A Sibila

             1. Quina

- a afeição por Custódio;

- a debilidade física (p. 164);

- última intervenção de Quina como medianeira (p. 165);

- solitária;

- desorbitação de Quina ou o Prometeu libertado (p. 170).

 
 
            2. Retrato de Custódio adulto

- "fizera-se homem";

- degenerado;

 - ingenuidade bronca da criança que teria sido;

- perverso;

- valdevinos;

- liga-se ao crime, integrando o grupo do Morte (p. 171);

- apesar da sua escassa capacidade intelectual, Custódio manifesta, todavia, alguma sensibilidade:  quando o Morte e o seu bando são julgados e condenados, tendo ele permanecido na obscuridade graças ao silêncio dos colegas de banditismo, chorou muito dois dias (p. 173);

- o episódio do pombal (p. 175) revela-nos uma faceta de doçura, carinho e ternura da parte de Custódio.

 
 
            3. Os símbolos
 
            . O pombal (episódio dos borrachos) ≠ o episódio das rãs –  a fragilidade / ternura de Custódio e, simultaneamente, a sua violência primitiva.

Capítulo XIII de A Sibila

             1. Caracterização de Abel
 
            As primeiras referências aos três filhos de Francisco Teixeira e Maria da Encarnação (Abílio, João e Abel) são negativas e caracterizam-nos por oposição à irmã, Quina: fracos, como todos os homens, parecidos com o pai: "Mas todos eles eram muito do pai; volúveis, fracos com aduladores e com mulheres, moralmente a tender para a cobardia das responsabilidades, muitos jogos de argúcia para sofismar a fé que se quer atraiçoar".

            Abel, que não gostava de trabalhar, era, todavia, gastador, instável, amante do luxo e da aventura, e gostava de frequentar ambientes requintados, de preferência onde houvesse "meninas para casar" (p. 52). O gosto pela aventura e pelo luxo, a superficialidade aproximavam-no do pai e, quiçá por isso, da simpatia da mãe (pp. 61-62).

            Casou rico e, inicialmente, não era muito exigente com Quina relativamente à quota que esta lhe devia pagar anualmente pela exploração dos bens. Mantinha na vida e nos negócios o espírito de jogo de azar, como o pai (p. 88).

            Dado que Quina não tinha descendentes, Abel, duma forma perspicaz, chama a atenção de Germa para a necessidade de ser agradável à tia e ele próprio age de uma forma que considera adequada para que a filha seja a herdeira de Quina (p. 123).

            O materialismo de Abel (evidente na "caça à herança" da irmã) contrasta com o pensamento de Germa (p. 142), mas manter-se-á sempre "um diletante da experiência", que encara a vida como um jogo, à semelhança do pai e da irmã, Quina (p. 150).

            Ao contrário de João, que não queria que lhe falassem de Quina, Abel preocupa-se imenso com a herança e inquieta-se com a presença de Custódio e o carinho que a irmã lhe dedica, aponto de discutir com ela. Também a sua situação familiar e económica é diferente da de João. Na verdade, é lógico que dele provenha a herdeira universal de Quina. Só Germa dava garantias de continuidade e respeito pelo «sangue». Todavia, o que ressalta é a ambição desmedida de Abel.

 
 
            2. Caracterização de João
 
            Tem em comum com Abel o facto de não gostar de trabalhar, mas fora esta semelhança, diferem em tudo o mais e as suas vidas vão seguir rumos diferentes.

            João era, sobretudo, caçador, trabalhava pouco, mas, ao contrário do irmão, não era gastador.

            Casou com uma mulher burguesa, proprietária com pretensões fidalgas, feia e bronca, que desagradou muito a Maria da Encarnação: "Ela é uma lorpa, nem do campo nem fidalga, que não sabe ser nem uma coisa nem outra" (p. 69). O que lhe desagradava sobretudo na noiva do filho era a falta de autenticidade, o artificialismo, a pobreza do espírito.

            É por influência da esposa que João vai viver para a cidade e vende a Quina a sua parte da herança. Esta mudança para a cidade e a troca dos bens rurais por dinheiro traduzem o seu aburguesamento. Mas a vida citadina será medíocre e João rapidamente se arrependerá do negócio. A mulher está cada vez mais feia e ridícula. (pp. 122-123)

            Aproximadamente quinze anos depois, quando Abel o procura, João vive no último andar (84 degraus) de um prédio velho, propriedade da mulher, numa situação económica débil ("uma quase pobreza" – p. 149).

            À medida que o tempo passa e se reconhece pobre, enquanto Quina enriquece, João começa a odiá-la por se sentir ludibriado: "Parecia gravemente ofendido (...), mas, mesmo na indignação, era mais sofredor do que agressivo (...). Era um homem fraco, conciliador e liberal na fartura, mas sujeito à inveja e a torturada maledicência quando o êxito de alguém lhe revelava mais profundamente a própria impotência". (pp. 151-152)

            A fraqueza e o carácter "sofredor" revelam-se também no acervo (ultra-)romântico da sua biblioteca. Não tendo filhos legítimos [simbolicamente, a esposa era estéril, como a sua opção pela cidade, a recusa da terra (= fecundidade), o artificialismo, a falta de autenticidade], João, em consonância com as suas leituras "românticas", teve dois bastardos de uma criada.

            Tendo sido sempre um indigente, que ocupa o seu tempo na caça e, mais tarde, no quintal, João acaba por ser dominado pela mulher, intelectualmente medíocre, pretensiosa e ridícula, que o torna ainda mais amorfo e irresponsável. (pp. 154-155)

 
 
            3. Domínio de Custódio sobre Quina: "Ele aprendeu depressa a dominar Quina – ora pelo carinho de menino, ora pela grosseira arremetida que ela temia muito pela suspeita de escândalo que podia ocorrer aos vizinhos.". (p. 153)
 
 
            4. Caracterização de Germa
 
            Com a devida diferença de cultura, Germa segue as mesmas opções que, anteriormente, já tinham sido tomadas por Quina: conceção do casamento como um negócio e submissão a seres inferiores – os homens: "Aquela rapariga de vinte e seis anos, que não casara ainda e que não parecia disposta a transacionar legalmente o seu corpo e todos os seus dotes de educação e mentalidade por uma situação vantajosa para toda a família, parecia-lhe insolente e digna de reproche.". (p. 155)

            Em suma, estamos perante um esboço que aproxima Germa e Quina: solteiras, independentes, insolentes. Este estado de espírito opõe-se diretamente ao do pai, ambicioso e materialista: "Ele entretinha-se, às vezes, a depreciar os seus dotes, com simulado intuito de desafio, para a ver reagir e demonstrar uma atividade útil das suas qualidades – casando-se depressa, procurando um partido indiscutível, ainda que fosse como vingança.". (p. 155)

            É uma intelectual, aristocrata de espírito, que um grande afastamento da mentalidade burguesa citadina do pai e de Bernardo e a aproximação da «aristocracia "ab imo" da terra»: "Tenho espírito demais (...)" até "sessenta dias". (p. 155)

 
 
            5. Retrato de Custódio
 
            Na adolescência ("Aos doze anos..."  -  p. 156), torna-se delinquente ("... moldava em estearina chaves falsas, para abrir as gavetas onde suspeitava valores, que trocava sempre com prejuízo..." ;  "Tornou-se conhecido dos ourives de feira, recetadores de roubos." – p. 156). Chega a roubar a própria Quina, mas esta tudo lhe perdoa. Mantém-no na ociosidade e oferece-lhe até um cavalo branco: "Pobrezinho, és desatinado e tolo, há muitos bem melhores do que tu..." (p. 157); "Custódio roubava-a, ela apenas se precavia mais, sem o repreender; insultava-a, proferindo ameaças, ela optava pelo silêncio." (p. 157). Mesmo quando a sua crueldade o leva a matar "com um pontapé o cãozito rafeiro, cego já e que Quina tinha salvo dum ribeiro havia muito tempo", ela toma outra atitude que não o isolamento e o silêncio.

            A posição tomada para com Custódio compreende-se pelo ascetismo a que Quina aspira:  elevação humana, abandono da vulgaridade dos que a rodeiam, vaidade absoluta e egocentrismo, ostentação dos seus méritos, enternecimento por uma causa humana.

Autárquicas 2021: dar tudo por Oeiras

Capítulo XII de A Sibila

             Inicia-se neste capítulo a terceira e última fase de Quina, coincidente com a adoção de Custódio como uma espécie de filho.
 
 
            1. O apogeu de Quina no poder material e espiritual:

            "Eis aqui a senhora Joaquina Augusta, da casa da Vessada, a quem o seu acréscimo de propriedades e riquezas em rendosos dinheiros conferia já o título de dona. Tinha cinquenta e oito anos, mantinha-se com uma esbelteza de rapariga, se bem que um tanto corcovada e de cabeleira totalmente branca. Estava ela no apogeu das suas faculdades de administradora, de discernimento e de vivacidade. (...) Estava perfeita no seu cargo de sibila...". (pp. 134-135)

 
 
            2. A vulnerabilidade de Quina
 
            Quina recebe em sua casa Emílio, aliás Custódio, uma espécie de filho adotivo, e começa a revelar os primeiros sinais de fraqueza e vulnerabilidade: "Mas não passava duma mulherzinha inteiramente ignara, tola e vulnerável de coração, no dia em que aceitou em sua casa aquela criança e incondicionalmente a adotou". (p. 135)
 
 
            3. A sabedoria popular: as diligências de Quina para conseguir que o menino fale, embora defeituosamente. (p. 135)

            Por outro lado, na página 138, a narradora fez referência à tendência popular para atribuir e conservar alcunhas: "Estava ela [Custódio] registada com o nome de Emílio, mas, como todas as crianças antes do batismo são chamadas Custódios pelo povo, aos quatro anos designavam-no apenas como tal, e nunca o reconheceram com outro nome".

 
 
            4. Custódio
 
                        4.1. Caracterização
 
            Era "um belo menino" que quase não falava (era "belfo"), filho do escudeiro da Condessa de Monteros e duma prostituta. Falecida Elisa Aida, o escudeiro entrou ao serviço de Quina. Um dia, desapareceu e Quina ficou com a criança. (pp. 138-139)
 
 
                        4.2. A importância de Custódio para Quina   -   o despertar da ternura: "Nunca ninguém a considerara tão única, tão imprescindível, tão suprema". (p. 140)

            De facto, a entrada de Custódio na sua vida vai operar nela uma grande mudança, despertando-lhe toda a sua recalcada capacidade de ternura humana: "Tinha-se operado nela uma estranha mudança. (...) Tinha ganho talvez em suavidade e simpatia, mas, de facto, alguma coisa do seu carácter se constrangera até se estiolar.". (p. 140)

 
 
                        4.3. Retrato de Custódio (segundo Germa – pp. 141-142)

- "belo e fatal"

- "quase adolescente"

-"graças dum efebo um tanto selvagem":

. "no expectante do gesto"

. "no movimento da cabeça (...) ingénuo"

- lábio vulgar e espesso demais

- fronte saliente e obtusa

- cabelos curtos

- olhos azuis, baços

 
 
            5. Luta entre Germa e o pai
 
            Abel mostra-se muito preocupado e inquieto com a mudança de Quina, que acolhera Custódio, lhe dedicava toda a sua ternura e podia elegê-lo como seu herdeiro, deixando-lhe a fortuna. Abel sempre sonhara com o dote da irmã solteirona para a filha, Germa, e constatava agora o perigo que constituía a intromissão de Custódio. Germana não se identifica com esta mentalidade calculista burguesa, tem uma diferente visão do mundo e da vida, fruto da sua formação intelectual temperada pelos contactos com o campo e a conceção de vida rural, simbolizados pela casa da Vessada. (p. 142)
 
 
            6. Germa adulta
 
            A memória e o fascínio da Vessada fazem regressar Germa, só que depara com a mudança de Quina e acaba por se sentir a mais. Assim, a Vessada assume as formas de um "paraíso perdido" (pp. 143-145). Contrastando com a sua rápida evolução em criança, Germa, já mulher, manifesta uma certa estagnação mental: "Germa era uma mulher, agora; porém, essa maturidade que se exprime nas criaturas por um estacionamento mental, a súmula de perceções acerca da sociedade e da natureza que regem até à morte o homem, sem que o seu espírito experimente mais ima instigação de curiosidade, de interesse, de reparo, de conclusão nova, isso ela não adquirira". (p. 142)
 
 
            7. A sabedoria popular e a verosimilhança (pp. 143-144).
 
 
            8. Nova focalização de Custódio por Germa
 
            Este novo retrato revela-nos um ser insociável e tímido, donde se destaca a sua animalidade irracional, a violência e a crueldade (a caça às rãs) e o isolamento (pp. 147-148).

Capítulo XI de A Sibila

             1. A adolescência de Germa
 
            Aos treze anos, Germa entra num período de afirmação da personalidade e forte individualismo gerador de contestação e conflitos com a tia, a ponto de durante muito tempo não voltar à casa da Vessada: "Tinha então quase treze anos, e continuava bonita." (p. 122)
            "Foi o contraste de caracteres, a inadaptação, a perene batalha do seu espírito contra o ambiente, que amadureceu muito depressa Germa. Toda a gente, e igualmente Quina, lhe desagradavam. (...) Entrou depois no período esfuziante da adolescência, e durante muito tempo não voltou à casa da Vessada, que achava opressiva...". (p. 125)
 
            Dedica à tia um grande respeito. O convívio com Quina proporciona-lhe um perfeito conhecimento do ser humano.
 
 
            2. Morte de Elisa Aida
 
            A causa imediata da sua morte é uma queda, que lhe quebra uma perna. Gradualmente, a sua vida vai-se degradando, "afastando os amigos e aceitando a falência de certos hábitos" (p. 128), mantendo somente a amizade de Quina.
 
 
            3. Referência ao escudeiro de Elisa Aida: "bonito grumete loiro, com essa petulância (...). Além de filho, disseram-no seu amante". (p. 128)
            Quina recebe-o e acaba por conhecer a sua história: era casado com uma prostituta de quem teve um filho, "um menino de quatro anos, belo como um pastorinho de presépio, e que não falava ainda", mas que "não tinha qualquer significação para si" (p. 134). A prostituta morre, entretanto, e face à indiferença e desinteresse do pai relativamente à criança, Quina decide recebê-lo em sua casa.         

Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa

 

    Este é o primeiro episódio «a sério» do podcast «Que farei com este livro?», dedicado à Poesia Trovadoresca. Para ouvir o original, basta clicar na ligação [Ep. 1.1.].

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Autárquicas 2021: contra o cocó de cão votar, votar!


 

Antes de o ou antes do?

     Por regra, as preposições a, de, em e por contraem-se quando estão seguidas dos determinantes artigos definidos o, a, os, as.

        Ex.: O Benfica foi campeão antes do Belenenses.
                Jesus elogiou Cebolinha pelo seu golo.

    No entanto, quando na frase está presente uma forma verbal no modo infinitivo, a referida contração não ocorre, visto que o determinante artigo faz parte do sujeito da oração infinitiva.

        Exs.:
            O Benfica foi campeão antes de o Belenenses o ter conseguido.
            Jesus elogiou Cebolinha por o seu golo ter sido decisivo.

"Alugar" e "arrendar"

    Os verbos «alugar» e «arrendar» são sinónimos? Não.

    Quando se usa um e o outro?

    O verbo «alugar» usa-se quando nos referimos a bens imóveis:
        Ex.: Vou arrendar uma casa de férias em setembro.

    O verbo «arrendar» emprega-se quando nos referimos a bens móveis:
        Ex.: Vou alugar um carro quando me deslocar ao Brasil.

Autárquicas 2021: Chocolate Contradanças, o elevador


 

Autárquicas 2021: só custa a primeira vez


 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Análise de "Serenata sintética", de Cassiano Ricardo

 
Serenata sintética
 
Rua
torta.
 
Lua
morta.
 
Tua
porta.
 
            O título deste poema de Cassiano Ricardo tem a ver com o facto de o texto se referir a vários elementos relacionados com uma serenata, como «lua», «rua», «porta», de modo sintético.
            Relativamente à forma, o poema é constituído por três dísticos; cada verso é composto por uma só palavra e por uma única sílaba métrica; por outro lado, não foi utilizado nenhum verbo, o que confere maior dinamismo à composição.
            Cada verso é constituído por um nome e um adjetivo ou determinante possessivo. O primeiro dístico, «rua torta», remete para uma rua sinuosa. Metaforicamente, «rua» pode remeter para caminho, passagem, destino, e «torta» como difícil, sinuosa, misteriosa, duvidosa. No verso três, o vocábulo «lua» não se refere apenas ao satélite natural da Terra, mas também ao complemento romântico de uma serenata; no quarto, «morta» significa sem vida. Assim sendo, o dístico «Lua morta» refere-se à ausência da lua, à noite sem luar, sem luz. Se a noite é escura, essa escuridão torna-a misteriosa. A terceira estrofe aponta o destino da serenata: a «tua porta». Que porta? A de casa ou a do coração? Ambas. Porém, não se sabe se ela se abrirá ou não para o seresteiro.
 

Análise de "Poética", de Cassiano Ricardo

 1.
Que é poesia?

Uma ilha cercada de palavras por todos os lados.

 

2.
Que é o poeta?

Um homem que trabalha o poema com o suor de se rosto.

Um homem que tem fome como qualquer outro homem.

 

            O tema do poema é o universo poético, mais concretamente a poesia e o poeta, como indicia o título do texto. De facto, este indica o assunto da composição, funcionando como uma espécie de verbete do qual o poema (as estrofes) representa as definições.

            Ambas as estrofes possuem uma estrutura semelhante: pergunta seguida de resposta. A primeira procura esclarecer o que é a poesia: “uma ilha cercada de palavras por todos os lados”. Uma ilha é uma porção de terra cercada por todos os lados de água. Na realidade, esta definição é incorreta, visto que essa extensão de terra é uma porção emersa de uma montanha submersa. Se fosse mesmo cercada por todos os lados, teria água acima e abaixo da extensão de terra, o que não é verdade. Seja como for, a definição apresentada de poesia enfatiza a importância da palavra: qualquer uma pode ser dotada de poeticidade.

            A segunda interrogação destina-se a saber o que é um poeta. Este é definido como um homem comum, que trabalha e tem necessidades (fome) como qualquer outro homem. Por outro lado, o poeta é um ser que vive do seu suor, do seu trabalho esforçado, e que precisa de se alimentar como qualquer outra pessoa. Ora, estas aproximações roubam um pouco o romantismo associado ao ofício de poeta, que necessita, como qualquer outro indivíduo, de possuir rendimentos para (sobre)viver.

 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Resumo do Canto XVIII da Ilíada

             Aquiles pressente a morte de Pátroclo mesmo antes da chegada do mensageiro de Menelau. Ao tomar conhecimento de que os seus receios eram verdadeiros, Aquiles fica desesperado: chora, puxa os cabelos, bate com os punhos no chão, cobre o rosto de terra e grita, enraivecido, de tal maneira que Tétis o escuta e vem com as suas irmãs ninfas aquáticas do oceano ver o que tanto perturba o filho. Aquiles relata-lhe a desgraça que o atingiu e afirmará que se irá vingar de Heitor, não obstante o facto de ter consciência de que, ao fazê-lo, ao optar pela vida de guerreiro, estará a sentenciar a sua morte. Tétis lamenta que o filho tenha de morrer logo depois de Heitor e diz-lhe que não combata até ela voltar. A deusa do oceano pedirá a Hefesto que lhe faça uma nova armadura, já que a sua é usada agora pelo comandante dos Troianos.

            Enquanto isso, as tropas de Troia continuam a querer apossar-se do corpo de Pátroclo, mas Íris, a mando de Hera, diz a Aquiles que ele deve aparecer no campo de batalha, visto que só a sua presença atemorizará os inimigos e fá-los-á desistir do corpo de Pátroclo. Então, Aquiles sai da sua tenda e solta um grito tão forte que, de facto, causa a fuga dos Troianos. O corpo de Pátroclo é trazido para o acampamento aqueu e os eus companheiros choram-no, enquanto Aquiles jura que o seu amigo não será sepultado até que Heitor caia às suas mãos, embora ordene que as suas feridas sejam limpas para o preparar para o enterro.

            No acampamento troiano, Podidama, temendo as consequências do retorno de Aquiles, aconselha que as tropas regressam à cidade nessa noite, em vez de permanecerem acampados na planície. Todavia, Heitor considera esse gesto num ato cobarde, responde, orgulhosamente, que nunca fugirá de Aquiles e insiste em repetir o ataque do dia anterior. O seu plano é acolhido favoravelmente pelos seus companheiros, destituídos do seu juízo por Atenas.

            Enquanto isso, Tétis dirige-se à morada de Hefesto e pede-lhe que faça uma nova armadura para Aquiles. Grato por ela o ter auxiliado no passado, o deus do fogo forja uma armadura, um capacete, grevas e um escudo extraordinários com imagens de constelações, pastagens, crianças dançando, cidades humanas em relevo, paz e guerra, vida e morte.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Análise do Canto XVII da Ilíada

             O Canto XVI é dominado pela ação de duas personagens inimigas: Heitor e Pátroclo. Num plano secundário, situa-se Aquiles, cujo orgulho ferido o continua a impedir de regressar à batalha e a agir de forma nada humana e patriótica, pois não revela, mais uma vez, qualquer preocupação com o destino dos seus compatriotas e, em última análise, da sua pátria. Já a atitude de Pátroclo é absolutamente diversa: ele chora ao constatar a situação dramática e acusa Aquiles de ser frio e insensível, acusando-o de não ser filho de deuses e humanos, mas do oceano e das rochas, forças que não possuem sentimentos. Neste contexto, Homero cria um momento de ironia trágica relativo ao destino de Pátroclo: Aquiles reza pelo seu sucesso na batalha contra os Troianos e pelo seu regresso são e salvo, mas o poeta lembra ao leitor/ouvinte que o segundo termo da oração não se concretizará. Este passo recorda, de alguma forma, o poema “O menino de sua mãe”, da autoria de Fernando Pessoa, mas especificamente o momento em que a mãe e a criada rezam, lá longe, em casa, pela saúde e bem-estar do jovem, quando, na realidade, já está morto.

            Relativamente à figura de Heitor, o seu tratamento nesta fase da Ilíada parece diferente dos cantos iniciais. De facto, até aqui ele era o guerreiro mais valente e corajoso do exército troiano, o líder incontestado, heroico e exemplar, que chega a censurar fortemente o próprio irmão por se recusar a combater. Porém, chegados a este ponto, somos confrontados com um Heitor que foge da batalha após a entrada em combate de Pátroclo abandonando as tropas que comanda, certamente convencido de que se tratava de Aquiles. O seu companheiro Glauco envergonha-o aquando da primeira fuga, tarefa que cabe ao próprio tio quando a segunda tem lugar, embora neste caso saibamos que foi Zeus quem o tornou cobarde momentaneamente.

            O desejo de proteger o corpo de Sarpédon fá-lo retornar à batalha e enfrentar Pátroclo, mas, até pelo que foi dito, o percurso dos dois é marcado por um contraste óbvio: à medida que Pátroclo se glorifica, Heitor vê a sua glória pessoal de crescer. Além dos dois recuos durante a batalha já descritos, a morte do inimigo às suas mãos nada tem de heroico ou honroso, visto que Apolo retirou previamente a armadura e as armas do guerreiro grego, permitindo que um jovem soldado troiano o apunhalasse pelas costas e só então Heitor entra em cena para dar o golpe final. Em suma, os deuses fizeram a parte essencial do trabalho de conduzir à morte de Pátroclo, não Heitor. Neste contexto, o amigo de Aquiles morre em glória, pois, antes de ser liquidado da forma que conhecemos (foram precisas três figuras para tal, incluindo um deus, e parte dos ataques foi desferida cobardemente, pelas costas), elimina vários inimigos e retira-lhes a armadura, algo que, como já vimos em cantos anteriores, era muito importante na época.

            Uma última nota para a relação entre os deuses e o destino. Tendo em conta os eventos narrados neste canto, é lícito concluir que o destino não é imutável; pelo contrário, ele pode ser contrariado e mudado, visto que Zeus, na iminência da morte do seu filho Sarpédon, considera abrir uma exceção e alterar o destino, poupando a sua vida. No entanto, nem o próprio pai dos deuses se pode dar a esse luxo sem que existam consequências. Como Hera o adverte, se Zeus salvar Sarpédon, deixará de ser respeitado pelos restantes deuses e serão levados a concluir que poderão fazer o mesmo, o que acarretará problemas imprevisíveis.

Resumo do Canto XVII da Ilíada

             Após a sua morte, tem início uma luta feroz em torno do corpo de Pátroclo, com os deuses metendo a colher, como é costume. Um dos que lutam pela armadura é Euforbo, o soldado que atingiu Pátroclo inicialmente pelas costas, mas é morto por Menelau. Heitor, estimulado por Apolo, junta-se à luta, mas acaba por ser afastado por Menelau e Ájax, que veio em seu auxílio, antes que possa remover ou profanar o corpo de Pátroclo. No entanto, não conseguem impedir que o líder dos Troianos se apodere da armadura de Aquiles, que este emprestara ao amigo, que aquele veste de imediato. Glauco censura-o por ter deixado o corpo do inimigo para trás e acrescenta que o poderiam usar como moeda de troca pelo corpo de Sarpédon. Heitor regressa à disputa e promete metade dos despojos da guerra a qualquer soldado que se apossar do cadáver de Pátroclo. Zeus reprova o ato de Heitor relativamente ao corpo do inimigo, contudo, consciente da sua morte iminente, dá-lhe grande poder.

            Menelau e Ájax reúnem as suas tropas e forçam os Troianos a recuar para as muralhas de Troia, incluindo o próprio Heitor. Eneias, revigorado por Apolo, reorganiza os soldados em fuga e convence-os a regressar à batalha, mas continuam a não conseguir capturar o corpo de Pátroclo. O cocheiro de Aquiles, Automedonte, envolve-se na refrega, e Heitor tenta matá-lo para tentar roubar a carruagem, mas o cocheiro desvia-se da lança e derruba um soldado troiano no processo. Ele retira ao morto a sua armadura, crendo que, ao fazer isso, aliviará a dor do espírito de Pátroclo, não obstante os dois guerreiros caídos em desgraça não serem comparáveis no que ao seu valor diz respeito.

            Atenas, disfarçada de Fénix, dá nova força a Menelau, enquanto Apolo, igualmente disfarçado, neste caso de troiano, faz algo semelhante com Heitor. De seguida, Menelau envia Antíloco até Aquiles, informando-o da morte do amigo e pedindo-lhe ajuda. Zeus continua a interferir no decurso da guerra em favor de Troia, mas dá tempo aos Gregos para retirarem o corpo de Pátroclo do campo de batalha.

Análise do Canto XVI da Ilíada

             O Canto XVI é dominado pela ação de duas personagens inimigas: Heitor e Pátroclo. Num plano secundário, situa-se Aquiles, cujo orgulho ferido o continua a impedir de regressar à batalha e a agir de forma nada humana e patriótica, pois não revela, mais uma vez, qualquer preocupação com o destino dos seus compatriotas e, em última análise, da sua pátria. Já a atitude de Pátroclo é absolutamente diversa: ele chora ao constatar a situação dramática e acusa Aquiles de ser frio e insensível, acusando-o de não ser filho de deuses e humanos, mas do oceano e das rochas, forças que não possuem sentimentos. Neste contexto, Homero cria um momento de ironia trágica relativo ao destino de Pátroclo: Aquiles reza pelo seu sucesso na batalha contra os Troianos e pelo seu regresso são e salvo, mas o poeta lembra ao leitor/ouvinte que o segundo termo da oração não se concretizará. Este passo recorda, de alguma forma, o poema “O menino de sua mãe”, da autoria de Fernando Pessoa, mas especificamente o momento em que a mãe e a criada rezam, lá longe, em casa, pela saúde e bem-estar do jovem, quando, na realidade, já está morto.

            Relativamente à figura de Heitor, o seu tratamento nesta fase da Ilíada parece diferente dos cantos iniciais. De facto, até aqui ele era o guerreiro mais valente e corajoso do exército troiano, o líder incontestado, heroico e exemplar, que chega a censurar fortemente o próprio irmão por se recusar a combater. Porém, chegados a este ponto, somos confrontados com um Heitor que foge da batalha após a entrada em combate de Pátroclo abandonando as tropas que comanda, certamente convencido de que se tratava de Aquiles. O seu companheiro Glauco envergonha-o aquando da primeira fuga, tarefa que cabe ao próprio tio quando a segunda tem lugar, embora neste caso saibamos que foi Zeus quem o tornou cobarde momentaneamente.

            O desejo de proteger o corpo de Sarpédon fá-lo retornar à batalha e enfrentar Pátroclo, mas, até pelo que foi dito, o percurso dos dois é marcado por um contraste óbvio: à medida que Pátroclo se glorifica, Heitor vê a sua glória pessoal de crescer. Além dos dois recuos durante a batalha já descritos, a morte do inimigo às suas mãos nada tem de heroico ou honroso, visto que Apolo retirou previamente a armadura e as armas do guerreiro grego, permitindo que um jovem soldado troiano o apunhalasse pelas costas e só então Heitor entra em cena para dar o golpe final. Em suma, os deuses fizeram a parte essencial do trabalho de conduzir à morte de Pátroclo, não Heitor. Neste contexto, o amigo de Aquiles morre em glória, pois, antes de ser liquidado da forma que conhecemos (foram precisas três figuras para tal, incluindo um deus, e parte dos ataques foi desferida cobardemente, pelas costas), elimina vários inimigos e retira-lhes a armadura, algo que, como já vimos em cantos anteriores, era muito importante na época.

            Uma última nota para a relação entre os deuses e o destino. Tendo em conta os eventos narrados neste canto, é lícito concluir que o destino não é imutável; pelo contrário, ele pode ser contrariado e mudado, visto que Zeus, na iminência da morte do seu filho Sarpédon, considera abrir uma exceção e alterar o destino, poupando a sua vida. No entanto, nem o próprio pai dos deuses se pode dar a esse luxo sem que existam consequências. Como Hera o adverte, se Zeus salvar Sarpédon, deixará de ser respeitado pelos restantes deuses e serão levados a concluir que poderão fazer o mesmo, o que acarretará problemas imprevisíveis.

Resumo do Canto XVI da Ilíada

             Pátroclo dirige-se à tenda de Aquiles, informa-o sobre o curso dos acontecimentos e censura-o por manter a recusa de combater. Já que não cede, solicita-lhe autorização para usar a armadura do próprio Aquiles e liderar os Mirmidões na batalha. Como nós já sabemos através das profecias de Zeus, Pátroclo está, resumidamente, a implorar a sua própria morte, a assinar a sua sentença de morte.

            Aquiles concorda em lhe emprestar a sua armadura, mas somente na condição de Pátroclo lutar apenas para expulsar os Troianos dos navios aqueus. Enquanto aquele se arma, as tropas de Heitor incendeiam um navio. Aquiles cede os seus Mirmidões para acompanhar Pátroclo e ora a Zeus para que o amigo regresse são e salvo e os navios se conservam intactos.

            A entrada em cena de Pátroclo, envergando a armadura de Aquiles, e dos Mirmidões altera o curso da batalha, de tal forma que os soldados de Troia abandonam os navios inimigos e recuam. Pátroclo massacra todos os troianos que cruzam o seu caminho, e Sarpédon decide enfrentá-lo. Zeus quer salvar o seu filho de ser morto pelo guerreiro grego, mas Hera convence-o a não agir, pois os outros deuses desprezá-lo-iam para esse gesto e seriam tentados a imitá-lo e a salvar a sua descendência humana. Zeus concorda, mas não contém as lágrimas quando Sarpédon é morto. Heitor e alguns soldados troianos fazem marcha atrás na tentativa de proteger o seu corpo e a sua armadura.

            Zeus decide matar Pátroclo como castigo por este ter roubado a vida do seu filho Sarpédon, mas antes decide glorificá-lo, deixando-o liquidar vários soldados troianos e dotando de Heitor de um momento de cobardia, fazendo-o recuar. Os Gregos obtêm a armadura de Sarpédon, mas Zeus encarrega Apolo de tomar o seu corpo e o conduzir a casa, para ser sepultado. Desobedecendo às instruções de Aquiles, Pátroclo persegue o exército inimigo até às portas de Troia. Provavelmente, a cidade teria caído a seguir se Apolo não o tivesse expulsado dali. De seguida, o deus convence Heitor a atacar Pátroclo, mas este mata o cocheiro da carruagem do líder dos Troianos. Soldados de ambos os lados lutam pela posse da armadura do cocheiro. Apolo aproveita a confusão e atinge Pátroclo pelas costas, atirando a sua armadura e armas para longe. Um jovem guerreiro troiano fere-o nas costas com uma lança, e Heitor acaba com ele espetando-lhe outra no estômago. A seguir, dirige-lhe palavras ofensivas, às quais o moribundo responde predizendo a morte do próprio Heitor às mãos de Aquiles.

Surpresa desagradável


 

Análise do Canto XIII da Ilíada

             Zeus, a única divindade a poder intervir no conflito, tinha controlado a ação nos últimos cantos, no entanto neste afasta o olhar do campo de batalha, o que é aproveitado por Poseidon, que desafia a sua ordem de não interferência. Porém, como receia a reação do pai dos deuses se vier a descobrir a sua intervenção na guerra, não luta diretamente ao lado dos Gregos. Assim, limita-se a aconselhá-los e a manter o moral elevado. Encurralados, os Aqueus reagrupam-se e resistem, pois não têm para onde fugir e precisam de salvaguardar os seus navios a todo o custo, afinal a garantia da sua sobrevivência.

            O Canto XIII centra-se muito mais em questões de estratégia do que na descrição de cenas bélicas. Ambas as partes conflituantes consideram que as suas linhas de combate necessitam de ser reforçadas. A posição de Heitor e dos Ájax, ocupando o lugar central do palco, ilustra os seus papéis centrais na ação. Por seu turno, Páris, que fora retratado anteriormente de forma negativa – como cobarde e indiferente à sorte dos seus companheiros –, revela agora uma determinação e um espírito de luta que reanimam Heitor, que se encontrava desanimado, depois de constatar que grande parte dos seus capitães estava morta ou ferida.

Resumo do Canto XIII da Ilíada

             Zeus, satisfeito com a evolução do conflito, afasta-se do campo de batalha, o que é aproveitado por Poseidon para ajudar os Gregos. Assim visita o Grande Ájax e o Pequeno Ájax, na forma de Calcas, e inspira-os, bem como aos demais aqueus, a resistir ao ataque dos Troianos. Com a confiança restaurada, os Gregos enfrentam os inimigos e os dois Ájax forçam Heitor a recuar. Este dispara a sua lança em direção a Teucro, mas o grego desvia-se e a arma atinge fatalmente Anfímaco, o neto de Poseidon. Cheio de dor e desejando vingar-se, o deus do mar, que não ousa posicionar-se abertamente a favor dos Gregos receando a punição de Zeus, confere um grande poder a Idomeneu, que, em conjunto com o seu feroz ajudante Meriones, liquida ou fere muitos troianos. Tudo isto decorre na zona esquerda da batalha.

            Enquanto isso, à direita, Heitor prossegue o seu ataque, mas os soldados que o acompanham perderam parte da sua força, depois de terem sofrido às mãos dos dois Ájax. Parte deles recua mesmo até às suas próprias fortificações, enquanto os restantes estão dispersos pelo campo de batalha. Polidamas convence o chefe troiano a recuar um pouco e a reagrupar as tropas. Heitor procura os seus camaradas, mas descobre que estão mortos ou feridos. Nesse instante, vale-lhe Páris, que o incentiva e lhe levanta o ânimo. Ájax insulta-o e Heitor responde, prometendo matá-lo; com muitos gritos à mistura, a batalha reacende-se. Enquanto Ájax discursava, uma águia surgira à sua direita, o que é entendido como um presságio favorável aos Gregos.

Análise do Canto XIV da Ilíada

             É curiosa a forma como Agamémnon se deixa abater por vezes quando as coisas não correm a seu favor. Nesta ocasião, necessita de ser incentivado e convencido a não desistir da guerra e a voltar para casa, coberto de vergonha. A cada revês, acredita que Zeus está contra si. Crente nisso e que a derrota se afigura como inevitável, prefere uma sobrevivência desonrosa a uma eventual morte gloriosa e chega mesmo a propor a retirada, enquanto os eu exército ainda combate: Ora, esta opção contrasta com a postura de Aquiles, que prefere exatamente o oposto. Quando lhe foi dada a possibilidade de escolher entre uma vida tranquila e longa na sua pátria e casa, junto à sua família, e uma vida gloriosa, mas breve, ele não hesitou e escolheu a segunda hipótese. O discurso de Ulisses cobre Agamémnon de vergonha. A sorte da guerra está longe de estar decidida e o líder dos Gregos necessita de confiar mais nos deuses.

            Este retrato de um Agamémnon vacilante, cobarde, sem honra, permite compreender a razão por que Aquiles e outros capitães gregos se ressentem da liderança do seu comandante e da reivindicação da maior parte dos saques que obtêm. Por outro lado, Agamémnon aparenta sentir pela primeira vez algum remorso por ter ofendido Aquiles, contudo convém ter presente que tal sucede apenas por causa do modo como as consequências nefastas dessa ofensa o afetam. Dito de outra forma, Agamémnon receia que as suas tropas o culpem pela eventual derrota na guerra.

            Os Gregos continuam a combater, mas chefiados agora por um escasso número de líderes, nomeadamente os dois Ájax e Menelau. Os restantes (Agamémnon, Ulisses e Diomedes) estão todos feridos, enquanto Nestor está ocupado a tratar de Machaon. Este facto contrasta com o que se passa entre os Troianos, onde avultam as figuras de Heitor, Páris e Eneias, nomeadamente as capacidades de liderança do marido de Andrómaca, por exemplo quando assistimos à forma como divide o seu exército ao longo da linha grega e o faz recuar e reagrupar quando tal se torna necessário, ou quando Polidamas e Heitor discutem qual é a secção do exército que necessita de ser reforçada. Isto traduz o facto de, nos últimos dois cantos, a narrativa se preocupar mais com as questões de tática militar do que com os confrontos físicos da batalha. Outro exemplo que comprova esta ideia está presente na cena em que Poseidon exorta os Gregos a redistribuir as armas pelos soldados de forma mais eficiente entre os mais fortes e os mais fracos.

            No que diz respeito aos deuses, mais uma vez oferecem um contraponto humorístico à brutalidade da guerra. É o que sucede com o episódio de Hera e Zeus, que evidencia como as questões de vida ou morte dos humanos são frequentemente determinadas por picuinhices e mesquinhices entre as divindades do Olimpo. Neste caso, a mudança dos acontecimentos tem como causa a líbido de Zeus e a ingenuidade/credulidade de Afrodite, bem como da astúcia e manha de Hera. Esta aproveita-se comicamente da boa vontade da deusa do amor para manipular o seu esposo, explorando o seu ponto fraco. Consecutivamente, os deuses mostram a sua falta de racionalidade e equilíbrio.

            Voltando a Heitor, neste canto ocorre o segundo round do seu confronto com Ájax, do qual volta a sair por baixo, o que ilustra o poder e a força relativos dos exércitos e heróis conflituantes. Heitor é o guerreiro troiano mais forte, mas não consegue sucessivamente derrotar o segundo lutador grego mais forte. Esta questão ganha especial relevância, pois, caso Heitor seja derrotado, não haverá outro troiano de valor aproximado que o possa substituir e liderar as tropas. Em sentido oposto, as hostes aqueias possuem vários outros guerreiros fortes e corajosos. Sucede que, mesmo com a ajuda de Zeus, o avanço de Troia em direção aos navios inimigos é lento e marcado por vários contratempos.

            Note-se, por último, que o poeta procura retratar as duas fações em confronto de forma equidistante e simpática, mostrando como ambos os exércitos lutam com honra, determinação e coragem, porém vai-se percebendo que o lado troiano não possui a mesma forma de combate.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...