Esta
cantiga de escárnio e maldizer, da autoria de Afonso Anes do Cotom, constituída
por quatro sextilhas singulares, de rima emparelhada e interpolada, de acordo
com o esquema ABBCCA, e versos decassilábicos, apresenta-nos um sujeito poético
que quer ser pago pelos serviços sexuais prestados a uma mulher chamada Maria
Garcia e que jura que não voltará a fazer serviços de graça. E acrescenta que
tal se justifica pelo facto de não lhe ter amor, enquanto ela recebia prazer.
No fundo, estamos perante uma composição poética que constitui uma sátira a uma
soldadeira velha.
O
primeiro verso explicita diretamente, através de uma apóstrofe, o alvo da
sátira: uma mulher chamada Maria Garcia. O sítio cantigas.fcsh.unl.pt aventa a
hipótese, impossível de documentar, de se tratar de Maria Garcia de Sousa, irmã
do trovador Fernão Garcia Esgaravunha, um dos mais fiéis partidários do futuro
D. Afonso III. A referida senhora foi barregã de D. Gil Sanches, irmão bastardo
de D. Sancho II, falecido em 1236. A expressão que abre o poema ("Bem me
cuidei eu") indicia um engano ou uma expectativa frustrada por parte do
"eu". De facto, ele fodeu ("quando vos fodi") a mulher e
esperava receber um pagamento por isso, porém voltou de "mão vazia",
metáfora que indica que nada recebeu em troca dos favores sexuais prestados. A
presença do nome "serviço" não deixa dúvidas de que estamos na
presença de um negócio, uma troca, uma barganha: o "eu" prestou um
serviço sexual e esperava ser pago por ele, no entanto nada recebeu, nem um
simples soldo (moeda antiga de pouco valor) que pagasse uma refeição ("sequer
um soldo que ceass'um dia" - v. 7).
A
partir da leitura da primeira estrofe, podemos concluir estar na presença de um
texto que aborda uma visão utilitária do sexo: um homem satisfaz sexualmente
uma mulher e espera ser pago por isso. Por outro lado, podemos ser levados a
pensar na prostituição masculina, uma temática cujo tratamento poético não é
muito comum na nossa literatura. Além disso, é interessante constatar que
estamos nos antípodas do esquema conceptual da cantiga de amor, dado que nesta
o homem colocava-se ao serviço da dama como seu vassalo, servindo-a sem
qualquer queixume, algo que não sucede na presente cantiga, visto que o sujeito
masculino reclama por não ter recebido a contrapartida financeira que esperava.
No
primeiro verso da segunda cobla, o trovador refere ter aprendido a lição
("Mais desta serei eu escarmentado" — o verbo "escarmentar"
sugere exatamente essa ideia segundo a qual se aprende com a experiência
frustrante descrita na primeira): no futuro, não voltará a foder "outra
tal molher", exceto se for pago antes do ato ("se m' ant' algo na mão
nom poer, / ca nom hei porque foda endoado"). À letra: nunca voltarei a
foder outra mulher, se antes não me puser algo na mão (nova metáfora,
semelhante à já destacada), pois não tenho por que foder de graça. Estes versos
confirmam, por outro lado, que não há qualquer traço de relação; o foco não é o
amor, mas uma troca negocial associada ao ato sexual. Os três versos que
encerram esta estrofe acentuam a ironia: Maria Garcia, se quiser voltar a foder
e sem pagar, terá de o fazer com outros homens ("se vós, se assi queredes
foder, / sabedes como: ide-o fazer / com quem teverdes vistid' e
calçado."). Note-se que a construção "sabedes como" implica que
a mulher já conhece as condições para a concretização da transação. Por outro
lado, o último verso é profundamente irónico, visto que indicia que Maria
Garcia estava acostumada a manter relações com outros homens, a quem pagaria os
serviços sexuais que lhe prestavam. Se considerarmos que a mulher não paga a
ninguém, então o trovador está a dizer-lhe que, caso continue a não pagar o ato
sexual, deixará de ter relações sexuais.
A
terceira estrofe reafirma a causa inicialmente para, posteriormente, explicitar
o facto ou consequência. Como Maria Garcia não o provê materialmente ("ca
me nom vistides nem me calçades"), nem ele vive em sua casa ("nem ar
soj/ eu eno vosso casal"), isto é, o trovador não está sujeito à sua
autoridade ou poder doméstico, nem ela tem qualquer poder que o leve a fodê-la
("nem havedes sobre mim poder tal / por que vos foda"), só se
relacionará sexualmente com a mulher se for bem pago ("se me nom pagades /
ante mui bem"). Os últimos dois versos e metade do antepenúltimo podem
ter, na nossa opinião, duas leituras. Assim, por um lado, podemos considerar
que constituem a afirmação, por parte do "eu", de que não teme ser
forçado ou submetido a qualquer tipo de imposição proveniente da mulher. Por
outro lado, nos referidos versos, o sujeito poético declara que não receia a
"força" que Maria Garcia lhe faça, isto é, ser violado por ela.
A
derradeira estrofe abre de forma curiosa. Assim, inicia-se com uma apóstrofe
dirigida à "mia dona", um senhal característico da cantiga de amor,
usado para ocultar a identificação da dama e que remetia para a vassalagem
amorosa que o trovador lhe prestava, numa atitude de submissão generosa e
desinteressada materialmente. Todavia, essa apóstrofe e a cortesia que implica
na cantiga de amor é profundamente irónica neste poema, desde logo porque não
existe qualquer sentimento amoroso entre ambos, bem como pelo facto de o homem
ter interesse material na relação, esperando obter proventos económicos dela.
Além disso, no cantar de amor, o trovador tratava a "dona" com
mesura, respeito e cortesia, ora, nesta cantiga, aponta-lhe o dedo, acusa-a de
praticar sexo casual e de (não) pagar para manter relações sexuais (isto é,
recorrendo à prostituição), além de a tratar com desdém e ironia. Introduz, de
seguida, um provérbio popular ("quem pregunta nom erra") serve para
introduzir um desafio irónico que o "eu" lança à mulher: questionar
aos habitantes do lugar onde vive se já fizeram relações sexuais em qualquer
situação — em paz ou em guerra — sem ser por interesse ou por amor. Ou seja, o
sujeito lírico afirmas que as pessoas só praticam o ato sexual por dois motivos
– dinheiro ou amor –, o que constitui uma forma subtil de enquadrar
realisticamente as relações entre ambos: entre ambos, não há amor; ela apenas
quer o prazer, enquanto ele dinheiro. É uma simples troca comercial. O «eu»,
insinuando que não apenas ele havia sido alvo dos desejos de Maria Garcia, com
o seu pedido apela ao senso comum e, dessa forma, mostra como as convenções do
amor cortês se distanciavam da realidade da vida.
A cantiga
termina de forma profundamente sarcástica, como não poderia deixar de ser: o «eu»
manda-a tratar da vida, pois, graças a Deus, “rei há na terra”, ou seja,
haveria muitos homens disponíveis para manter relações sexuais, os da sua
hoste. Manuel Rodrigues Lapa entende que os versos 27 e 28 significam o
seguinte: “Ide tratar da vossa vida, senhora, dai o corpo a troco dinheiro,
que, graças a Deus, tendes renda suficiente para isso.
Em
suma, nesta cantiga atrevida e grosseira, marcada pelo calão, o trovador
sustenta que o homem, nas suas relações com a mulher, obedece a dois
sentimentos: o interesse material e o amor. Não havendo amor neste caso,
entende que tem o direito de censurar Maria Garcia por não lhe ter pago os
momentos de prazer sexual que ele dera.
No que
diz respeito à técnica versificatória, cada estrofe divide-se em duas partes:
nos primeiros quatro versos, o "frons" da lírica occitânica, expõe o
seu propósito e a sua queixa; nos últimos três, a cauda, dá o seu conselho
zombeteiro a Maria Garcia. Este esquema repete-se, grosso modo, nas quatro
cobras da cantiga. Paralelamente a esta divisão interna das estrofes, a
composição também se separa em duas metades graças ao recurso a cobras
capfinidas (que consistem em usar palavras do verso anterior) entre a segunda e
a terceira estrofes (vv. 14-15), ou seja, a meio da cantiga, anunciando que a
partir deste ponto se iniciará um desenvolvimento da situação exposta
anteriormente. Assim, as duas cobras iniciais apresentam a situação vivida pelo
trovador e as duas últimas exprimem as consequências dessa situação e lançam um
desafio à mulher.
Por
outro lado, como já sugerimos noutros pontos desta análise, esta composição
poética caracteriza-se pela inversão do padrão do relacionamento amoroso da
cantiga de amor, na qual o trovador suplica o favor da dama e sofre a coita de
amor, isto é, experimenta o sofrimento causado pela recusa e indiferença dela.
Neste poema, pelo contrário, quem requesta o amor não é o homem, mas a mulher.
O tipo
feminino que mais se prestava à ironia e à sátira era a soldadeira, porém,
neste texto, Maria Garcia, o alvo visado pelo trovador, é retratada como a
"senhor", diante da qual ele se encontraria numa posição de
inferioridade, tal como sucedia no cantar de amor. Todavia, a superioridade
feminina não se refere ao plano moral, tão caro às cantigas de amor, visto que
a figura feminina enganou o homem, recusando-lhe pagar-lhe os serviços sexuais
prestados. A separação existente entre as duas personagens é de caráter social:
é por isso que o trovador reclama o seu pagamento. De facto, ele dirige-se-lhe
recorrendo à forma de tratamento habitual — "senhor" —, num contexto
que remete para o cantar de amor, mas também alude à ideia de
"pedido". Ora, tendo em conta os versos 27 e 28 e a referência à
"renda", é possível fazer uma leitura diferente da apresentada
anteriormente. Nesta segunda hipótese, Maria Garcia seria uma proprietária
rural que possuiria rendas de terras. Para esta noção contribui igualmente o
uso do nome "dona", já que significa "dama",
"mulher", "senhora casada", em oposição a "donzela"
ou "menina", sendo o masculino "dom", um título
nobiliárquico. Além disso, a alusão ao seu "casal" (v. 16)
("casa de campo", segundo Manuel Rodrigues Lapa) parece indiciar que
estamos na presença de um membro da nobreza rural.
A este
propósito, convém relembrar que Afonso Eanes do Coton, noutros poemas,
demonstra não considerar importante o estatuto social da mulher quando o
assunto é o amor, contrariamente à doutrina do amor cortês. Na composição
"As mias jornadas vedes quaes son", por exemplo, afirma ironicamente
que a mulher que o fazia sofrer poderia ser de qualquer classe ou condição,
insinuando que teria vários amantes ("E a dona que m' assi faz andar /
casad' e, ou viuv' ou solteira, / ou touquinegra, ou monja ou freira"). Na
cantiga "Veeron-m' agora dizer", finge-se surpreendido quando o
informam de que a sua amante estaria grávida. Além disso, tudo leva a crer que
não se trataria da dama das cantigas de amor, mas provavelmente de uma jovem
vilã solteira, à qual se refere sempre por "molher", nunca por uma
forma de tratamento mais formal ou cerimoniosa.
Por
outro lado, a relação de vassalagem sugerida nesta cantiga satírica não se
insere apenas nos planos espiritual e literário, como sucede na cantiga de
amor. De facto, o trovador apresenta uma mulher cuja superioridade é concreta e
essencialmente material (social e financeira), visto que dá a entender que se
sujeitou a relacionar-se sexualmente com ela exclusivamente por motivos
financeiros. O próprio vocabulário cortês é afetado por esse olhar realista e
materialista do poeta. Por exemplo, os nomes "senhor" e
"dona" não possuem o significado que lhes é atribuído no cantar de
amor, passando a designar aspetos da realidade social; o serviço que o trovador
alega ter prestado não se inscreve exclusivamente no plano idealizado proposto
pelo receituário do amor cortês, onde se revestia de três formas fundamentais:
a mesura, a fidelidade e o segredo. Ora, Afonso Eanes não respeita nenhum
destes preceitos: como referimos logo no início deste texto, a cantiga começa
desrespeitando a norma do segredo, dado que, logo no primeiro verso, desvenda o
nome da mulher que o enganou; as reclamações/queixas que faz ao longo da
cantiga estão bem longe da mesura com que o trovador deveria tratar a sua
indiferente "senhor"; o serviço a que alude é claramente de natureza
sexual, configurando um "equivocatio" que serve de fundamento para a
compreensão de toda a cantiga.
Tal
como o contrato entre suserano e vassalo previa compensações pelo cumprimento
das obrigações a que o segundo estava obrigado, também o trovador reivindica o
que lhe fora prometido por Maria Garcia. É neste contexto que entra o campo
semântico dos interesses materiais: soldo, vestuário, calçado e hospedagem (vv.
7, 14-15 e 16) são aquilo que ele espera do relacionamento com a mulher. E
acrescenta que não mais a satisfará sexualmente "se m' ant' algo na mão
não poser". O nome "mão" surge duas vezes na cantiga, sempre
associado à ideia de que o homem espera receber algum bem material pelos
serviços prestados. Em vez do caráter abstrato e do idealismo do amor cortês,
encontramos a negação a servir "endoado", ou seja, gratuitamente.
A
relação dita amorosa é, deste modo, rebaixada do plano elevado do cantar de
amor para outro bem mais baixo: o do dinheiro. Nos versos 17 e 18, o trovador
declara que a figura feminina não possui o poder suficiente para que ele atenda
aos seus desejos se ela não pagar ("se me nom pagades"). O verbo
"pagar" tem vários sentidos. A sua etimologia remonta ao latim
"pacare", que significa "pacificar", "apaziguar".
Através de uma associação de ideias, chegou-se à noção de "pagar alguma
quantidade", já que o pagamento contentava o credor (Viterbo, no
Elucidário, apresenta dois verbetes com o verbo "pagar":
"Pagar-se de alguma coisa: agradar-se dela" e "Pagado: pacífico,
sossegado, em paz, sem dúvida ou contradição alguma"). Afonso do Cotom
aproveita a ambiguidade semântica do verbo "pagar" na época, nesta
cantiga: o verso 18 pode, assim, ser interpretado de duas formas — pagamento
como retribuição material, ou "pagar" como "satisfazer",
"contentar". Deste modo, podemos fazer outra leitura da composição:
Maria Garcia não possuía os atrativos físicos necessários para levar o trovador
a relacionar-se com ela sem nada em troca.
Em suma, esta cantiga de escárnio e maldizer subverte os códigos e o discurso amoroso do cantar de amor e do amor cortês. Partindo da queixa habitual do trovador pela falta de retribuição pelo serviço prestado à dama, ele opõe à vassalagem amorosa a inferioridade social; ao casto e sempre recusado pedido do trovador, a vulgaridade do oferecimento da mulher; à gratuitidade e espiritualidade, o interesse material. Ou seja, Cotom faz o discurso amoroso descer do pedestal da espiritualidade e do idealismo à materialidade das coisas, dos relacionamentos e dos interesses.
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