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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Análise do poema "Erros meus, má fortuna, amor ardente"

 Assunto: balanço/reflexão do sujeito poético da/sobre a sua vida, dominada pela conjura dos erros, da fortuna e do amor, que o tornaram infeliz.
 
 
Tema: o desespero do sujeito poético.
 
 
Estrutura interna
 
1.ª parte (vv. 1-12) – Num discurso autobiográfico, o sujeito poético confessa que viveu uma vida marcada pelo sofrimento, devido aos erros cometidos, à falta de sorte / ao destino e ao Amor.
 
2.ª parte (vv. 13-14) – Conclusão do balanço de vida, numa expressão de raiva e desespero intensificados pelo desejo de vingança.
 
 
Desenvolvimento do tema
 
▪ O «eu» começa por identificar os fatores responsáveis pela sua perdição, pela vida infeliz e pelo sofrimento: os erros próprios, a má fortuna e o amor ardente.
 
▪ Os versos 3 e 4 clarificam quem os erros cometidos pelo «eu» e a «má fortuna» foram seus inimigos ao longo da vida e conjuraram/conspiraram contra si, impedindo-o de ser feliz. Por outro lado, acrescenta que o Amor era suficiente para provocar a sua perdição, para o fazer infeliz – constituindo, pois, o principal responsável.
 
▪ Na segunda estrofe, o sujeito lírico esclarece que o passado interfere e condiciona o modo como o presente é vivido. Assim, os momentos difíceis, as “cousas que passaram”, provocaram tão grande sofrimento que ainda estão bem presentes no seu espírito. Por isso, o passado ensinou-lhe uma lição: aprendeu a não desejar ser feliz, desistiu de procurar ser feliz (“Que já as magoadas iras me ensinaram / A não querer já nunca ser contente.” – vv. 7-8), a fim de evitar mais sofrimento. Assim, no presente sente-se condicionado pelas memórias tristes do passado, que impedem a felicidade e o sossego no presente.
 
▪ No primeiro terceto, de forma amargurada, o «eu» confessa que também é culpado pelo seu infortúnio, pelos sucessivos erros que cometeu, daí que a sorte o não tenha bafejado. Por isso, foi castigado pela Fortuna / Destino, provocando-lhe grandes desilusões (“As minhas mal fundadas esperanças.”). Assim sendo, a sua infelicidade foi resultado dos seus erros sucessivos e das punições do Destino, de quem foi vítima.
 
▪ No verso 12, considera que o Amor lhe provocou “breves enganos”: as suas experiências amorosas constituíram breves ilusões (experiências amorosas curtas e enganadoras) e nunca foram a verdadeira vivência do amor.
 
▪ Nos dois versos finais, o sujeito poético manifesta um desejo impossível de realizar: ver alguém puni-lo por toda a culpa que teve na sua vida infeliz. O «eu» sente-se vítima e deseja vingar-se. Trata-se de mais um momento de hipertrofia do «eu», de excessivo egocentrismo.


Estado de espírito do sujeito poético
 
            O estado de espírito do sujeito poético é marcado por diversos sentimentos, tendo em conta o seu percurso de vida:
▪ amargura (v. 1);
▪ perseguição (v. 2);
▪ dor (v. 6);
▪ exasperação e revolta (vv. 7-8);
▪ mágoa (v. 7);
▪ desilusão e sem esperança (v. 8);
▪ desencanto (v. 8);
▪ amargura (vv. 8-9);
▪ culpa (vv. 9-10);
▪ frustração (v. 12);
▪ cólera (v. 12);
▪ desejo de vingança (vv. 13-14).
 
 
Tom do poema
 
            No poema, predomina o tom confessional, melancólico e de ira.
            Este tom adequa-se a este soneto, no qual o «eu» reflete sobre a sua existência, marcada pelo sofrimento e pela infelicidade, e exprime toda a sua revolta perante o que lhe sucedeu.
 
 

Recursos expressivos
 
Interjeição + exclamação “Oh!” (v. 13): enfatiza o tom emotivo com que o sujeito poético manifesta o seu desespero.

Personificações:
. vv. 1-2: identifica as causas da perdição do sujeito poético (os erros próprios, a “má fortuna” e o amor ardente, que se conjuraram para o perder).
 
• Predomínio da 1.ª pessoa: uso das formas verbais (“passei”), dos pronomes pessoais (“mim”), dos determinantes possessivos (“meus”) de 1.ª pessoa determinam o caráter autobiográfico do soneto, que consiste numa reflexão do sujeito poético sobre o seu percurso de vida.
 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Análise do poema "O dia em que eu nasci, moura e pereça"


 Assunto: o sujeito amaldiçoa o dia em que nasceu e manifesta o desejo de que não volte a repetir-se.
 
 
Temas:

- a ligação do nascimento e da morte (verso 1);

- as relações ambíguas com a mãe (verso 8);

- a visão de si próprio com um ser desmesurado, mesmo monstruoso (versos 6 e 7);

- a sensação de desgraça maior (versos 13 e 14).
 
 
Estrutura interna
 
1.ª parte (2 quadras e 1.º terceto): o sujeito poético amaldiçoa o dia em que nasceu, desejando que ele nunca mais volte, e recria um ambiente monstruoso, apocalíptico, que deseja que se materialize, caso o dia do seu nascimento se repita.
 
2.ª parte (2.º terceto): justificação do desejo – o «eu» considera-se vítima do destino, que começou logo no dia em que nasceu: “[…] este dia deitou ao mundo a vida / Mais desgraçada que jamais se viu!”.
 
 
Desenvolvimento do tema
 
• No verso 1, o sujeito poético manifesta um desejo: que o dia em que nasceu desapareça e que não se repita.
 
• Caso esse desejo não se cumpra e ele se repita, deseja que seja um dia horrível, monstruoso.
 
• Assim, enumera uma série de maldições que deverão ocorrer caso [o dia em que nasceu] se repita:

1.ª) Deseja que haja um eclipse, que o sol desapareça e seja um dia de escuridão total.

2.ª) Deseja que o mundo mostre sinais de que vai acabar.

3.ª) Deseja que nasçam monstros.

4.ª) Deseja que chova sangue.

5.ª) Deseja que a mãe não conheça o próprio filho.

Em suma, o «eu» lírico espera que esse dia seja de escuridão total («A luz lhe falte»), tenebroso e monstruoso («nasçam-lhe monstros») e de alienação («a mãe ao próprio filho não conheça»). O cenário que constrói é de violência, sofrimento, morte e terror geral.
 
Estado de espírito do sujeito poético: ao manifestar o desejo de que o dia do seu nascimento não se volte a repetir, o «eu» expressa fúria e revolta, bem como desilusão, caso tal não suceda. O seu tom é exaltado e de fúria, em consonância com o seu estado de revolta e desespero. O «eu» é um ser magoado, mas sem medo. Apresenta-se como um ser de exceção, uma vez que a desgraça o acompanha desde que nasceu. A sua excecionalidade culmina com a hipérbole presente nos dois versos finais do soneto: ele é o ser mais desgraçado que o mundo já viu, o que o deixa irado e revoltado.
 
• O primeiro terceto reflete e a reação das pessoas ao ambiente tenebroso desejado pelo sujeito poético: espanto (por desconhecerem a causa de tal ambiente catastrófico), angústia, medo, pavor, desespero, perante a destruição desejada pelo «eu». A enumeração desta terceira estrofe realça a antevisão que o sujeito lírico tem do ambiente de horror que marcará o dia do seu nascimento, caso ele volte a repetir-se.
 
• No segundo terceto, o «eu» lírico justifica o amaldiçoamento do dia do seu nascimento: dirige-se à «gente temerosa», incentivando-o a não estranhar («não te espantes» - v. 12) o desejo, visto que esse dia trouxe ao mundo o mais desgraçado e infeliz dos seres humanos.
 
Perceção do destino: no último terceto, o sujeito poético conclui que, desde o dia em que nasceu, nunca foi feliz. Assim, refletindo sobre a sua vida, considera-se uma vítima do poder destruidor do destino, que o persegue desde o seu nascimento, sendo, por isso, considerado o causador do seu infortúnio. Em suma, o destino, para o sujeito lírico, o destino constitui:
▪ a causa do seu infortúnio, da sua vida desgraçada;
▪ o elemento com poder destruidor que o persegue;
▪ o obstáculo à sua felicidade.
 
• Representação e autoimagem do «eu»: no poema, o «eu» apresenta-se como um ser «especial», infeliz e egocêntrico. O seu egocentrismo reside no facto de ele considerar que pode impor aos outros a sua tragédia pessoal, arrastando-os para um cenário imaginário de terror e cataclismo.
 
 
Recursos expressivos
 
▪ Ao nível fónico, estamos na presença de um soneto, constituído por duas quadras e dois tercetos, em versos decassilábicos, com rima interpolada e emparelhada nas quadras (abba) e interpolada nos tercetos (cde/cde), consoante (“pereça”/”padeça”), grave (“pereça”/”padeça”) e aguda (“dar”/”tornar”), pobre (“dar”/”tornar”) e rica (“acabar”/”ar”). A métrica, como atrás foi referido, oscila entre o decassílabo heroico e sáfico, o último.
 
▪ Ao nível morfossintático e ao nível semântico, os recursos utilizados estão ao serviço da expressão do desespero do sujeito poético, amaldiçoando-o o dia em que nasceu, pedindo o seu desaparecimento e, caso o seu desejo não seja correspondido, traçando um quadro apocalíptico que gostaria de ver materializar-se nessa data.
Há, em suma, um tom de exagero da desgraça do sujeito, uma «hipertrofia do eu», que pretende impor à própria natureza e à «gente temerosa» a enormidade da sua tragédia, de uma forma violenta: eclipse, monstros, chuva de sangue, lágrimas, o medo, a destruição do mundo.
Esta hipertrofia do «eu», conjugada com uma grande dimensão hiperbólica da afirmação da excecionalidade individual na desgraça, exprime-se através dos seguintes recursos:

. Pleonasmo: «moura e pereça» – exprime o desejo do desaparecimento do dia em que nasceu.

. Inversão: «Eclipse nesse passo o Sol padeça»; «A mãe ao próprio filho não conheça»; «Sangue chova o ar».

. Apóstrofe: «Ó gente temerosa…» – evidencia a distância entre o «eu» e os outros, pois, enquanto estes se mostram temerosos e ignorantes, o sujeito não receia e conhece a causa para o caos.

. Modo conjuntivo para traduzir o desejo de amaldiçoar tudo e o conselho dirigido à «gente temerosa» para que não se espante com o cenário apoclítico.

. Discurso valorativo: «As pessoas pasmadas»; «gente temerosa», «a vida mais desgraçada que jamais se viu».

. Alternância das rimas em a aberto e e fechado nas quadras, sugerindo espanto e dor, e em i nos tercetos como um grito de desespero.

. Anáfora: «não», «não» – intensifica o desejo do sujeito poético.

 
Hipérboles – são a expressão do desejo de maldição, de um ambiente de terror:

. “não o queira jamais o tempo dar”;

. “cuidem que o mundo já se destruiu”;

. “a vida / mais desgraçada que jamais se viu!”: o sujeito poético teve e tem uma vida infeliz e desgraçada, cujo causador é o destino.
 
Adjetivação: «pasmadas», «perdida» – os adjetivos traduzem a reação das pessoas ao ambiente de terror, o seu assombro e medo ao serem confrontadas com ele, sem terem explicações para esse ambiente. Por outro lado, a adjetivação acentua a violência dos acontecimentos e marca a impotência humana face às forças que regem o mundo.
 
Metáfora: «nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar» – traduz o delírio emocional do «eu», apontando algumas das maldições por si imaginadas / desejadas.
 
Determinante demonstrativo «este» (v. 13): traduz a proximidade afetiva entre o sujeito poético e o dia do seu nascimento.
 
Verbo «chover»: este verbo pressupõe um sujeito nulo expletivo. O facto de, no poema, ocorrer com um sujeito simples, aliado ao hipérbato, acentua o caos verificado na natureza, que também se manifesta ao nível da frase que o representa.
 
Conjunção subordinativa causal «que» (v. 13): introduz a causa do desejo expresso no verso 1 – no dia do seu nascimento foi dada à luz a pessoa mais infeliz e desgraçada que o mundo alguma vez viu.
 
 
Conclusões
 
• Esta luta com o destino, a ira, as imprecações, constituem uma revolta falsa e não uma real tentativa de libertação. A violência das maldições, os gritos de desespero, o desejo de morte representam uma espécie de desculpa para a vida, um desejo de encontrar um culpado e a absolvição para a própria derrota.
 
• Camões apresenta, neste soneto, uma imagem engrandecida de si mesmo com que vai compensando a humilhação da derrota: também aqui a poesia é contraditória, oscilando entre a autodepreciação e o narcisismo: vai crescendo em si a consciência de ser diferente; a perseguição do destino, na singular crueldade e estranheza que a caracterizam, acaba por o tornar singular; o afastamento e o desprezo do vulgo exprime-se na epopeia e na lírica. Reconhece-se um ser eleito, grandioso, heroico, genial.
 
 
Intertextualidade com o Livro de Job
 
            Este soneto pode relacionar-se com o capítulo III do Livro de Job, intitulado “As lamentações de Job”, dado que ambos os textos revelam o sofrimento de ambos os «eus». A infelicidade sentida leva-os a amaldiçoarem o dia em que nasceram, recorrendo a imagens e situações sobre a ausência da luz solar e da alegria, embora no texto bíblico não estejam presentes as imagens de terror que é visível na segunda quadra do poema de Camões.
 

domingo, 11 de abril de 2021

Caracterização dos Vendedores de telefonias

 
▪ Os vendedores de telefonias são jovens, ativos, diligentes e sagazes. A sua paragem na aldeia fica a dever-se a supostos problemas mecânicos no seu carro: este está a precisar de água.

▪ Um deles apresenta-se “bem vestido”, é elegante, de modos agradáveis, sorridente e afável no trato. Ao reparar que a casa do Batola tem energia elétrica (é a única na aldeia), vê, de imediato, uma possibilidade de fazer negócio.

▪ Mostra também ser observador e atento, seguro de si, convincente, hábil e calculista, características que se adequam a um bom negociante, como o mostram as estratégias que usa para vender a telefonia ao Batola: apresenta o aparelho, experimenta-o na presença do potencial cliente e enumera as suas qualidades.

▪ Por isso, convence facilmente o Batola a adquirir o objeto, usando diversas estratégias de persuasão, como as seguintes expressões permitem deduzir: “poisa a mão sobre o ombro de Batola”, “Sem dar qualquer tempo de resposta, ordena…”, “Mostra os papéis, gesticula e sorri, sorri sempre”. Perante a reação negativa da mulher do vendeiro, adota habilmente uma atitude conciliatória, dirigindo-se-lhe de modo mais formal, até porque percebe que é ela quem decide, propondo que a telefonia fique à experiência durante um mês. Se depois não o quisessem, poderiam devolvê-lo e ele restituiria as letras que o Batola havia assinado como forma de pagamento. Além disso, durante esse mês iriam usufruir do aparelho sem pagar nada.

▪ Note-se que toda a atividade de vendedor por parte do sujeito «bem vestido» assenta no engano. De facto, por um lado, alude a um pretenso problema mecânico para justificar a paragem na aldeia e, por outro, aceita deixar o aparelho à experiência durante um mês (ao constatar a oposição férrea da mulher do Batola), mas leva consigo as letras assinadas pelo vendeiro.

 

O mito de Ícaro e Dédalo — Amy Adkins

Caracterização do Rata

 
▪ Uma das personagens que se destaca do coletivo é o Rata (que é evocado, saudosamente, por Batola), uma figura que vivia na miséria.

▪ Era amigo de Batola, mas contrastava com ele: aquele vive conformado e apático; este saía frequentemente da aldeia e percorria o Alentejo, embora o máximo onde tenha chegado tenha sido Beja. De facto, a personagem vivia de esmolas que ia recebendo em várias terras.

▪ Rata é um mendigo e viajante, uma espécie de mensageiro que traz novidades do que se passa para além dos limites da aldeia. “Ao escutá-la durante «tardes inteiras» de forma entusiasmada, também Batola parecia viajar por «todo aquele mundo». Esta hipérbole (o mais longe que Rata viajara fora até Beja) elucida o impressionante isolamento dos habitantes de Alcaria. Quando ficou impossibilitado de viajar «pelos longes», Rata suicidou-se.” (Violante Magalhães, in Conto Português [séculos XIX-XX]: Antologia Crítica). Este suicídio agudiza a solidão do Batola.

▪ Constituía um agente de mudança, pois trazia o mundo exterior até à aldeia, graças às suas saídas, combatendo o isolamento de Alcaria e dos seus habitantes.

▪ Quando a miséria e a doença o forçam a uma existência estagnada e repleta de privações, suicida-se. De facto, o reumatismo tinha-o tornado incapaz de sair da aldeia. Quando se viu preso e impedido de viajar, o Rata mata-se por não se conformar com o isolamento e a solidão a que se viu remetido pela doença incapacitante.

 

Caracterização dos habitantes de Alcaria

 
▪ Esta personagem – coletiva – é constituída pelos habitantes da aldeia, que trabalham na ceifa de manhã à noite e, quando regressam da faina, exaustos, não vão “à venda palestrar um bocado”. As suas vidas são, de facto, marcadas pelo trabalho árduo e extenuante e pela miséria, que não conseguem superar: são pobres, tal como o local onde habitam, e vivem isolados do resto do país e do mundo.

▪ Os homens de Alcaria são apresentados como «figurinhas» (de presépio?) que vivem em casas «tresmalhadas». Atendendo a esta caracterização das casas (continente), os homens que as habitantes (conteúdo) são aparentados com gado. […] eles são «o rebanho que se levanta com o dia, lavra, cava a terra, ceifa e recolhe vergado pelo cansaço e pela noite. Mais nada que o abandono e a solidão». A tudo isto acresce a falta de esperança numa vida melhor. Batola não enfrenta aquele tipo de problemas. Pelo contrário, ele dá-se ao luxo de preguiçar, bebe «o melhor vinho que há na venda», carrega um fio de ouro no colete. Todavia, consciente da vida difícil dos demais aldeãos, ele é solidário. E partilha a condição animalesca dos conterrâneos: […] «rumina» a revolta; os suspiros saem-lhe «como um uivo de animal solitário».” (Violante Magalhães, in Conto Português…].

 

Relação entre Batola e a mulher

 
▪ A relação entre o casal é conflituosa, desde logo porque Batola se sente inferiorizado em relação à esposa. Assim, aquela é marcada pela ausência de sentimentos, pela frieza, pelo silêncio e pelo ressentimento, ocasionalmente pela violência física, dado que ele a agride fisicamente.

▪ A relação que mantêm gera raiva e revolta nas duas personagens. Vivem juntos, mas mal se falam, e o silêncio domina a sua convivência diária, o que gera um estado permanente de tensão, raiva e revolta, o que desemboca na violência ocasional.

▪ A mulher é dominadora, enérgica, autoritária quando tem de tomar decisões; ele é passivo, indolente e torna-se violento quando alcoolizado.

▪ Após a compra da telefonia, a situação muda: o Batola corda cedo e assume a gestão da venda, que antes cabia à mulher, que fica em casa e raramente marca presença no espaço comercial. A própria atitude da esposa relativamente ao marido é bastante diferente: o seu autoritarismo desaparece e, agora, surge «com um ar submisso» e humilde, como o evidencia o modo como lhe pede, humilde, quase sob a forma de murmúrio, que conservem o aparelho radiofónico.

 

Os 12 trabalhos de Hércules - Alex Gendler

Caracterização da mulher do Batola

 
▪ Fisicamente, é muito alta, séria (“grave”) e tem o rosto ossudo e os olhos negros.

▪ Psicologicamente, é uma mulher ativa, dinâmica, diligente e determinada, mas também autoritária e prepotente. De facto, é ela quem gere a casa e o negócio do casal: “abre a venda”, avia os fregueses, “põe e dispõe”.

▪ É ela quem detém, pois, o poder e revela-se “silenciosa e distante” relativamente ao marido, ao contrário de quem toma decisões com lucidez. A vida dura e rotineira que tem não a inibe nem impede de seguir um rumo.

▪ A aquisição da telefonia vai provocar uma alteração na personagem: perde o seu ar autoritário e prepotente e mostra-se submissa, “com uma quase expressão de ternura”, pedindo ao marido para ficar com a telefonia. De facto, se, no início, se distancia para não compartilhar da alegria e do entusiasmo do marido e do povo da aldeia, acaba, no final, por se render ao aparelho e às mudanças que este trouxe, provavelmente porque ganhou gosto pela nova vida que ele lhe aportou. Também ela sentia, como os demais, a necessidade de uma companhia (“Sempre é uma companhia”), de romper a solidão e o isolamento em que vivia.

▪ A sua recusa inicial justifica-se pelo facto de, para si, a rádio não possuir qualquer utilidade, constituindo apenas um luxo e, consequentemente, um desperdício de dinheiro; por outro lado, a compra da telefonia não é uma decisão sua, o que constitui outro motivo para se lhe opor.

▪ Não possui nome próprio no conto, o que pode significar que mais importante do que a sua identidade é o papel que desempenha na ação.

 

Caracterização do Batola

 
▪ António Barrasquinho, conhecido pela alcunha de «o Batola», é, fisicamente, um homem baixo, “atarracado”, de “pernas arqueadas”, com a “cara redonda amarfanhada”, veste-se de forma tipicamente alentejana: “chapeirão caído para a nuca” e “lenço vermelho amarrado ao pescoço”.

▪ Psicologicamente, no início do conto, apresenta-se como um indivíduo desmotivado, passivo, entediado, preguiçoso, desinteressado e deprimido, traços sintetizados na expressão “[…] a vida do Batola é uma sonolência pegada”.

▪ Por outro lado, é agressivo, violento, pouco polido e fraco, como o demonstra o facto de se entregar ao vício da bebida, de agredir a mulher e não conseguir superar a situação em que se encontra, o que gera frustração.

▪ Face à vida que tem, sentindo-se só (solidão essa que radica na ausência de convívio com os habitantes da aldeia) e desesperado, evade-se através do álcool (passa os dias “a beber de manhã à noite”) e da ausência (“para ali fica com um olhar mortiço”).

▪ O comportamento e a relação com a mulher suscitam-lhe revolta, a entrega à bebida e, frequentemente, a agressão / violência física: “Era o Batola, bêbedo, a espancar a mulher”. De facto, a relação do casal é marcada pela agressividade e pela violência.

▪ A venda proporciona ao casal uma vida económica desafogada, comparativamente ao resto da comunidade, o que, todavia, não impede que se sinta só, frustrado e vazio interiormente.

▪ Depois da aquisição da telefonia, o Batola sofre uma mudança de comportamento. Assim, torna-se um indivíduo trabalhador, conversador e interessado no que se passa no mundo, adquirindo gosto pela vida. O convívio com as outras pessoas, que passam a vir à venda para ouvir rádio, quebra a sua monotonia, tristeza e solidão, e a sua existência passa a ser preenchida com a música e a informação que lhe chegam via aparelho.

 

Ação do conto "Sempre é uma companhia"

 1. Estrutura
 
1.ª parte (do início até “[…] lá se vai deitar o Batola, derrotado por mais um dia.”): o narrador apresenta as personagens principais, a sua relação (caracterizada pela incomunicabilidade e violência física) e o ambiente do isolamento e da solidão em que viviam.
 
2.ª parte (de “De facto, na tarde seguinte…” até “Foi de esticão.”): o narrador relata a forma como dois vendedores convencem o Batola a comprar uma telefonia.
 
3.ª parte (de “De facto, era sol-posto, pelos atalhos…” até ao final do conto): o narrador narra a mudança de vida dos protagonistas e de toda a população da aldeia, graças à aquisição da telefonia.
 
 
2. Delimitação: a ação é aberta.
 
 
3. Importância das peripécias inicial e final
 
▪ O comportamento das personagens e a relação existente entre elas muda ao longo do conto.
 
▪ Essa mudança é originada pela aquisição de uma telefonia pelo Batola. O objeto, com efeito, atenua a solidão, o isolamento e o tédio das pessoas, bem como a relação de agressividade e violência existente entre o casal protagonista.
 
▪ A telefonia transmite música e notícias. Aquela traz alegria às pessoas, mais convívio, e corta o vazio, a solidão e a tristeza das suas noites. Por seu turno, as notícias permitem que a aldeia contacte com o país e o mundo, quebrando o isolamento em que a população vivia.
 
▪ Na peripécia inicial, encontramos um Batola frequentemente bêbedo e depressivo, que acumula dentro de si o ressentimento, a raiva e a revolta contra a prepotência e o autoritarismo da mulher e a espancar periodicamente. Exemplo disto é o episódio em que uma criança vai à venda comprar café e Batola se demora para não ter de o atender, esperando que seja a mulher a fazê-lo.
 
▪ Porém, na peripécia final, a situação altera-se e o conto termina com a mulher pedindo-lhe com delicadeza e alguma ternura que compre a telefonia, o que comprova a mudança do comportamento e da relação destas personagens, até porque antes tinha ameaçado sair de casa se o marido a adquirisse. Assim sendo, é possível deduzir que o casal se aproximou e que ressurgiram os afetos entre ambos.
 
▪ A telefonia transmite música e notícias. Aquela traz alegria às pessoas, mais convívio, e corta o vazio, a solidão e a tristeza das suas noites. Por seu turno, as notícias permitem que a aldeia contacte com o país e o mundo, quebrando o isolamento em que a população vivia.
 
▪ Esta mudança tem consequências na vida dos habitantes da aldeia, pois continuarão a poder juntar-se e conviver, à noite, na venda, ao som da música e das notícias do exterior.
 

domingo, 4 de abril de 2021

O mito de Aracne - Iseult Gillespie

Resumo do conto "Sempre é uma companhia"

             O conto situa-se na época da II Guerra Mundial e narra-nos a história de um casal que possui uma venda numa aldeia alentejana e cujo quotidiano é caracterizado pela solidão, pelo isolamento do mundo, pela monotonia e tédio e pela agressividade entre os membros desse casal.

            Este panorama é alterado com a chegada de dois vendedores de telefonias, que convencem o Batola, a personagem principal, a comprar um aparelho. Perante a oposição da mulher, um dos vendedores propõe uma compra à condição: a telefonia ficará à experiência durante um mês. Passado esse tempo, se não a quiserem, poderão devolvê-la e receber de volta as “letras”.

            A aquisição do aparelho provoca uma mudança enorme na povoação e na vida dos seus habitantes: os ceifeiros dirigem-se todos à venda do casal para ouvir as notícias da guerra, saem de lá “alta noite” e a discutir o que ouviram “numa grande animação”. As mulheres deslocam-se igualmente para a venda após a ceia, para ouvir as melodias e até (as velhas” dançar ao som da telefonia. Os aldeãos sentem-se, assim, agora, mais próximos do mundo, por consequência menos isolados e solitários.

            Esta mudança acaba por se estender à própria mulher do Batola, que abandona a sua prepotência e o seu autoritarismo e se mostra submissa, pedindo ao marido para ficarem com a telefonia, visto que “é uma companhia” naquele deserto.

domingo, 28 de março de 2021

"Autobiografia sumária de Adília Lopes", de Adília Lopes

 
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas
 

            Apesar de o título do poema apontar para uma autobiografia, será que estaremos mesmo perante um texto autobiográfico?

            É certo que o elemento «auto-» está presente no título e que a composição inclui os determinantes possessivos «meus» e «minhas». Além disso, o título inclui ainda o adjetivo «sumária», que aponta para uma brevidade formal, como que reconhecendo que “a prática da autobiografia se consubstancia geralmente na escrita de textos extensos ou de livros, sendo que o título do poema […] é incluído no título do livro em que é publicado: A Pão e Água de Colónia (Seguido de Uma Autobiografia Sumária”. Esta ressalva presente no título do poema parece uma forma de validação da escrita da autobiografia em modo poético: atenção, o que se segue é uma autobiografia, mas é diferente das convencionais, porque é muito curta, como se a autora admitisse a possibilidade de escrever um texto mais longo, mas optasse por um texto breve. Neste sentido, este poema pode ser lido como arte poética, por questionar a singularidade da poesia a propósito da autobiografia.

            Uma leitura metafórica do poema permitiria entender «gatos», em sentido figurado, como criador hábil e astuto e «baratas» como traduzindo um real quotidiano e menor, mas vivo, concreto e resistente, sendo a brincadeira («brincar») o jogo bastante perigoso do fazer poético.

            Porém, o poema pode ser lido também de forma literal. Neste caso, Adília Lopes coloca-nos perante um facto do quotidiano doméstico e menor: a poeta possui gatos e baratas e aqueles gostam de brincar com estas.

            O uso do determinante possessivo tanto para os gatos como para as baratas permite concluir que o sujeito poético não estabelece nenhuma hierarquia entre ambos. Mesmo tendo em conta que os gatos são animais domésticos e participam da convivência diária dos homens, as baratas, ainda que detentoras de uma imagem depreciativa, também assumem um papel importante, pois pertencem igualmente ao sujeito poético. Assim sendo, este não tem uma predileção nem por uns (gatos) nem por outros (baratas).

            Numa crónica publicada na revista “Visão”, Ricardo Araújo Pereira refere um episódio vivido com Adília Lopes, ocorrido durante uma entrevista que fez à poeta. Nela, RAP apresentou uma interpretação metafórica do poema, com a qual se identificava pessoalmente: “[o]s meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico […], aquilo que em mim é perspicaz – e até cruel – gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil”. Depois de ter explanado esta sua interpretação perante a própria Adília Lopes, esta respondeu-lhe “o seguinte: ‘Pois. Bom, comigo, o que se passa é que tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas.’. E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.”

            A partir da leitura desta crónica, Ana Bela Almeida, num seu estudo, intitulado Adília Lopes, considera que “[a] resposta de Adília Lopes […] parece menos propícia à interpretação simbólica dos animais dos versos do que à aceitação da inevitabilidade do sofrimento, repetido diariamente”, realçando que “[a] brincadeira entre gatos e baratas só pode ser um jogo de vida ou de morte” – uma luta “corpo a corpo”.

            Assim sendo, esta composição poética é uma espécie de execução da arte poética proposta e seguida pelo poeta no próprio poema. A poesia é um jogo, um desafio de “apanhar um peixe / com as mãos”, que pode conciliar contrários e ser, também por isso, muito perigoso: um título longo e um poema curto; um título sério, que nomeia um género literário, e um poema que desafia o seu sentido, fugindo às convenções estabelecidas sobre o assunto e introduzindo até elementos possivelmente repugnantes; um efeito risível (desconcertante e inesperado) e um efeito trágico (pela violência e pela solidão humana que pode sugerir).

            Além disso, os gatos ligam-se afetivamente à experiência literária da autora, dado que Adília Lopes afirma que foi após o desaparecimento da sua gata Faruk que recomeçou a escrever na juventude, sem nunca mais ter parado, e que os gatos estão associados à primeira memória de prazer da leitura, como se lê em Memória: “O primeiro livro de que me lembro de ter gostado muito foi um livro para crianças com ilustrações a cores. Eram uns gatos que entravam numa casa.”

            O poema, pela relação que estabelece entre o título e o terceto, abre-se a múltiplos sentidos relativamente à questão da autobiografia: a história de vida não cabe no poema, por isso não vale a pena tentar uma narrativa cronológica; uma autobiografia é uma história de circunstância do «eu», do seu contexto, e não uma história da vida interior de uma individualidade; a autobiografia é uma sucessão de «incidentes» (“microbiografias”) que se seguem no tempo, aproveitando as palavras da autora; a veracidade factual dos elementos de uma autobiografia não pode nunca ser totalmente garantida.

            O uso do presente do indicativo na apresentação do «episódio» sugere que se trata de algo que se repete, ou seja, a cena ocorre frequentemente. Por outro lado, também nisto o poema desobedece à autobiografia, que se caracteriza pelo recurso ao pretérito perfeito, dado que compreende o relato de acontecimentos passados.

 

Análise de "Se fores boa menina", de Adília Lopes

 
Se fores boa menina
dou-te um periquito azul
eu fui boa menina
e sem querer abri a gaiola
se tivesses sido boa menina
o periquito azul não tinha fugido
mas eu fui boa menina.
 

            A composição poética constrói-se, em parte, a partir da anáfora dos versos 1 a 5 (“Se” / “se”) e da repetição da expressão “boa menina”, que traduzem o contraste entre o ponto de vista do mundo adulto e o do mundo infantil e a incompatibilidade que existe entre ambos.

            Por outro lado, o poema configura uma espécie de diálogo entre o sujeito poético – um adulto – e uma criança, sendo que os versos 1, 2, 5 e 6 contêm as “falas” do primeiro e os 3, 4 e 7, as do segundo.

            A figura adulta oferece uma recompensa a uma criança (e dar em seguida), se ela se comportar bem (“Se fores boa menina”) e agir de acordo com o padrão estabelecido pelas pessoas adultas. De seguida, o sujeito poético dá conta de que a menina recebeu o seu presente: um periquito azul. No entanto, ela deixa-o escapar, pois esqueceu-se da porta da gaiola.

            A partir deste «episódio», mostra o contraste existente entre os pontos de vista adulto e infantil, evidenciando as lógicas diferenciadas que caracterizam os dois mundos. Se, à primeira vista, o adulto exerce o seu papel de educador, já que parece estar preocupado com a formação e educação da menina, alertando-a para as atitudes que adotar e evitar para se tornar uma “boa menina”.

            Por outro lado, podemos ler a fala inicial do adulto como uma forma de chantagem: ele só dará o presente se a menina obedecer às suas ordens/seguir os seus conselhos e se comportar de determinado modo, ideia sugerida pelo uso do conectivo condicional «se» e pela variação de tempos verbais, nomeadamente no modo conjuntivo, no futuro (“se fores”) e pretérito imperfeito (“se tivesse”). O modo conjuntivo sugere a dúvida que o sujeito poético tinha relativamente à conduta da menina, isto porque, antes mesmo de ter dado o pássaro, o adulto já desconfiava dela, visto que, segundo ele, se a menina tivesse sido boa menina, a ave não teria fugido. Assim sendo, a recompensa dada pode ser interpretada como uma espécie de manobra por parte do adulto, já que as suas suposições relativamente à criança se confirmaram: ela não fora mesmo “boa menina”.

            Por oposição, a fala da criança traduz a sua certeza, visto que está convicta de que foi boa menina, ideia traduzida pelo emprego de formas verbais no pretérito perfeito do modo indicativo (“eu fui”). A mudança do modo conjuntivo, presente nas falas do adulto, para o indicativo, característico das da criança, traduz o contraste de pontos de vista e o seu inconformismo. De facto, para ela, o facto de ter deixado, por descuido, a porta da gaiola aberta, não justifica o julgamento do adulto, isto é, não compreende a razão por que não pode ser considerada uma “boa menina”. O ato de abrir, sem querer, a porta da gaiola, não pode servir como único determinante da sua conduta.

            Há, aqui, uma espécie de conflito quanto ao comportamento ético: o esperado pelo adulto e a conduta efetiva dela. As regras impostas pelos adultos devem ser seguidas e cumpridas, o que faz com que o presente que a criança tinha recebido deveria ter sido preservada com todo o cuidado, o que faz com que o pássaro que se encontrava preso numa gaiola é, de acordo com os parâmetros estabelecidos pelos adultos – e, no fundo, da sociedade em geral, que dita as regras –, um indício de mau comportamento, já que as normas do bom comportamento não foram observadas.

            Todo o poema é percorrido pela ironia, presente, desde logo, na expressão “boa menina”. Para o adulto, a sua conduta configura o oposto: ela é uma “má menina”. Porém, ele não usa o antónimo “má”, o que pode configurar uma forma de maldade por parte daquele, dado que a ideia que a criança tem de “boa menina” se distancia da que está presente na mente do seu interlocutor. Por outro lado, a repetição faz ressaltar as noções de bondade e maldade. Em última análise, o poema questiona quem pode ser realmente mau: o adulto, por causa da forma como recriminou a menina, ou esta por não ter cumprido adequadamente o seu dever?

 

Como estacionar um avião

sábado, 27 de março de 2021

Análise de "A minha Musa antes de ser", de Adília Lopes

 
A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
contaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra
 
            Este poema, constituído por 8 versos, constrói-se a partir da repetição de duas estruturas: “minha Musa” (vv. 1, 2 e 7) e “língua” (vv. 4 e 5), e tem como tema a relação do sujeito poético com a sua Musa.

            A Musa avisa o «eu», antes mesmo de desempenhar a sua função (relembremos que o papel das musas era dar inspiração ao poeta), que lhe cortará a língua por ele ter cantado “sem saber / que cantar custa uma língua” (vv. 3-4). Trata-se, portanto, de uma musa cruel, perversa, castigadora, vingativa e maldosa, características evidenciadas pela “ameaça” que faz ao sujeito poético.

            Apesar de reconhecer a crueldade da sua Musa, o «eu» lírico não tem outra opção que não continuar a conviver com ela. Assim sendo, o retrato da Musa que é apresentado neste poema é oposto ao que a mitologia tradicionalmente sustenta: uma divindade que inspirava e auxiliava os poetas na escrita do poema. De acordo com a Teogonia, de Hesíodo, sem as musas não poderia haver poesia/canto, visto que a elas se atribui o aparecimento da linguagem e, por consequência, o aparecimento do mundo – é na linguagem e pela linguagem que se pode pensar e conceber o mundo. Deste modo, Hesíodo apresenta-nos as musas como as divindades responsáveis pela inspiração dos poetas e pela criação e propagação do canto através da linguagem.

            Sucede que, neste poema, a Musa inspira o sujeito lírico através de um ato cruel e perverso: arrancar a língua. A composição estrutura-se a partir de um suposto diálogo entre ambos: ele fala nos versos 1 e 2, abrindo o texto, e 7 e 8, fechando-o, enquanto a figura mitológica se faz ouvir nos restantes. Esse diálogo é bem evidente pelo uso das formas verbais nas primeira e segunda pessoas.

            A nível estilístico, a repetição irónica da expressão “minha Musa” acentua o papel tirânico e cruel que a divindade desempenha na vida do sujeito lírico. Por sua vez, a repetição do nome “língua” é plurissignificativa. Assim, no verso 4, este vocábulo remete para o órgão humano que é responsável pela produção de sons e pela comunicação através da fala. A expressão “custa uma língua”, presente ainda nesse verso, constitui uma espécie de alerta que a Musa dirige ao «eu» de que o ato de cantar, isto é, de fazer poesia, não é gratuito nem simples. Quem deseja «cantar» tem de ter consciência de que uma língua e uma cultura possuem um arcaboiço literário e de que necessita de respeitar os “pilares literários” que estruturam e contribuíram para a criação desse mesmo arcaboiço. Por seu turno, o uso de “língua” no quinto verso remete novamente para o órgão da fala: como o sujeito poético desrespeitou o aviso da Musa, a sua língua será cortada.

            Este acarretará, naturalmente, consequências. Em primeiro lugar, causa a mudez do sujeito lírico, pois, com a língua cortada, não conseguirá falar, o que inviabilizará a sua comunicação. No entanto e apesar disso, ele ainda produz um canto, o que significa que a Musa lhe cortará a língua para que ele aprenda a cantar e não para o tornar mudo. Assim sendo, este ato paradoxal põe em causa o tipo de “canto” que é permitido ao sujeito poético, que parece distanciar-se “do cantar repassado pela tradição literária”.

 

Manutenção preditiva de aviões

"Eu sou a luva", de Adília Lopes

 
Eu sou a luva
e a mão
Adília e eu
quero coincidir
comigo mesma
 

            Neste poema, o sujeito poético apresenta-se com diversos «eus».

            A composição poética abre com duas metáforas: a da luva e a da mão, que sugerem a ligação entre duas pessoas, equiparando-se no que diz respeito ao modo de pensar e de agir. No entanto, neste poema parece sugerir a existência de conflitos e divisões.

            A ausência de pontuação – nomeadamente de vírgulas – permite-nos fazer diferentes leituras do texto. Assim, o sujeito poético apresenta-se, no início, marcado por dois nomes: a luva e a mão. Poderá isto significar que há dois «eus»: a Adília e o eu, que o sujeito poético procura fazer coincidir, formando um único ser. Deste modo, estaremos perante a união do sujeito poético (eu) com Adília. Convém, neste contexto, ter presente o facto de Adília Lopes constituir o pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira. Deste modo, quando afirma que o «eu» do poema quer coincidir consigo “mesma”, este «eu» parece não ser já Maria José, visto que é com Adília (a figura que assina os textos) que o «eu» se quer unir, formando um único ser. Esta ideia parece ser confirmada por entrevistas dadas pela própria poeta, que afirma que “Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu.”. No entanto, logo de seguida acrescenta: “E muitos outros nomes que eu não sei”.

            Esta nota permite fazer outra leitura do poema. Se separarmos as conjunções coordenativas copulativas «e» presentes nos versos 2 e 3, deparamos com uma pulverização de «eus», visto que, além de Adília Lopes e Maria José, podem existir “muitos outros nomes”. Assim sendo, o «eu» que encontramos no início do poema não seria nem Adília Lopes (embora no terceiro verso apareça uma Adília, convém notar que o sobrenome Lopes não está presente, o que poderá indiciar a existência de outra figura, de outro nome, diferente da poeta que assina os seus textos como Adília Lopes) nem Maria José, mas um «eu» que não sabemos quem é. A leitura do segundo verso, deste modo, estender-se-ia até à segunda conjunção «e», presente no verso 3. Este dado permite afirmar que a mão é, agora, Adília. A ocorrência do segundo «eu». No final desse terceiro verso, poderá remeter tanto para o «eu» do primeiro verso como para outro, distanciando-se do primeiro. É este segundo «eu» que quer coincidir consigo mesmo. Assim sendo, se, de acordo com a primeira leitura, estaremos perante o par Adília Lopes / Maria José, de acordo com a segunda, seremos confrontados com várias «faces», podendo ser ora Adília Lopes, ora Maria José, ou ainda muitos outros nomes.

 

O avião é uma gangorra

ETOPS - Bimotores cruzando os oceanos

“Arte poética”, de Adília Lopes

 
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
 
            Esta composição poética tem como tema o ato de escrita, definido a partir de uma comparação estabelecida entre o poeta e um pescador que pretende “apanhar um peixe / com as mãos”.
            Segundo o sujeito poético, o poeta necessita de ter atenção e cuidado com as palavras, tal como o pescador necessita de muita atenção para pescar o peixe.
            A metáfora do peixe traduz o trabalho necessário durante o ato de escrita, visto que as palavras, “agindo como peixes”, são escorregadias e fugidias. O instrumento do pescador é a cana, enquanto o do poeta são as palavras, pelo que é necessário que o sujeito esteja sempre atento a elas. Para que a palavra não escape das suas mãos, é preciso ter cuidado em cada movimento, a cada verso. Tal como o pescar à mão é complexo, pois o peixe “debate-se / tenta escapar-se / escapa-se”, o poeta necessita também de persistir e lutar com as palavras para elaborar o poema.
            A ideia de luta é traduzida também pela estrutura formal do poema. De facto, a composição é constituída por uma única estrofe, constituída por 23 versos alternados, contribuindo, assim, para a construção da imagem de um peixe que, no instante em que parece estar preso entre as mãos do pescador, logo de seguida parecer escapar. Esta imagem é, pois, sugerida pela alternância de versos curtos (a maioria dos ímpares) e longos (os pares), bem como à concentração de versos mais pequenos, constituídos, no máximo, por três palavras, ocupando uma posição central no poema (versos 7 a 13).
            Deste modo, o sujeito poético sugere que o poema é o resultado de um trabalho árduo, que demanda esforço físico (“eu persisto / luto corpo a corpo / com o peixe”) e paciência. Esta luta constitui uma espécie de questão de vida ou morte.
            Assim, para o poeta, que luta com as palavras, existe apenas uma saída: a morte ou a salvação – “ou morremos os dois / ou nos salvamos os dois”. No fundo, o que está em causa neste poema é o ato de escrita poética, temática abordada por diferentes escritores, sendo o mais célebre Fernando Pessoa e o seu “Autopsicografia”. Durante esse ato, o sujeito poético/poeta necessita de estar atento e concentrado e ser persistente, já que as palavras são escorregadias, como a imagem do peixe sugere, o que implica a tal atenção, precaução e persistência.
            Por outro lado, estas imagens vêm realçar a importância do trabalho com as mãos no ato de criação poética/artística, que exige uma determinada agilidade manual. Com efeito, o poeta necessita de selecionar adequadamente as palavras, as quais constituem a sua matéria-prima, que se materializam e tornam concretas quando são postas no papel. Tudo isto evidencia o “jogo perigoso” em que o poeta se vê envolvido durante o ato de criação poética, bem visível na imagem sôfrega de alguém a tentar apanhar um peixe com as mãos, o qual teima em escorregar e tentar escapar-lhe.
  

Por que razão um monomotor puxa para a esquerda? (parte II)

sexta-feira, 26 de março de 2021

Na aula (XXXIX): ser «acido»


    Ser acido ou assíduo?

    Pelo esforço e camonianismo da linguagem, merecia um 6... Foi... Foi...

André A.
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