1. Estrutura
Situação Inicial: A narrativa começa no presente com o narrador, na véspera da sua morte, a iniciar o relato da sua história com o intuito de aliviar a alma. Em seguida, recua ao passado para descrever a sua juventude, caracterizada por uma natureza dócil, terna e por um profundo amor pelos animais. Casou-se jovem com uma mulher que partilhava desta mesma paixão, o que os levou a viver rodeados de vários animais de estimação, destacando-se Plutão, um gato grande, totalmente negro e de surpreendente inteligência.
Problema / Complicação: O desequilíbrio instala-se quando o narrador se afunda no alcoolismo, que ele designa como o "demónio da intemperança". Esta doença altera radicalmente o seu comportamento, tornando-o rabugento, irritável e propenso à violência física contra a esposa e os animais que outrora amara. A grande rutura (o incidente incitante) ocorre numa noite em que, estando fortemente embriagado, o narrador se irrita com Plutão, o gato morde-o e, dominado por uma fúria demoníaca, ele arranca um dos olhos do felino com um canivete.
Peripécias: A partir desta agressão, desenrola-se uma sucessão de eventos trágicos e de degradação psicológica:
- Instigado por um impulso primitivo que chama de "espírito da perversidade", o narrador enforca Plutão no ramo de uma árvore a sangue-frio.
- Na mesma noite do enforcamento, um violento incêndio destrói por completo a sua casa e os seus bens, restando apenas uma parede divisória com a imagem assombrosa de um gigantesco gato enforcado gravada em baixo-relevo no estuque.
- Meses depois, numa taberna, o narrador encontra e adota um novo gato preto, em tudo idêntico a Plutão (também é invisual de um olho), diferenciando-se apenas por uma mancha branca no peito.
- O narrador desenvolve uma aversão incontrolável e um pavor absoluto por este novo felino, sentimentos que se intensificam à medida que a mancha branca no peito do animal adquire a forma nítida de uma forca (símbolo de morte e crime).
- A loucura atinge o limiar durante uma descida à cave: ao tentar desferir um golpe de machado no gato e ser travado pela mulher, o narrador assassina a esposa, cravando-lhe o machado no cérebro.
- De forma fria e calculista, oculta o cadáver da esposa emparedando-o numa falsa lareira da cave. Nos dias que se seguem, o gato desaparece e o narrador desfruta de um falso triunfo e alívio.
Resolução: No quarto dia após o assassinato, a polícia realiza uma busca rigorosa à casa e à cave. O narrador acompanha-os com total tranquilidade. Quando a polícia já se prepara para sair sem ter encontrado nada, o ego do narrador trai-o. Num ato de pura bravata e excesso de confiança, bate com a bengala exatamente nos tijolos que escondem o corpo da mulher. O som dos golpes é respondido por um choro que evolui para um uivo medonho e inumano vindo do interior da parede.
Situação Final: Perante o uivo, os polícias deitam a estrutura abaixo e revelam o cadáver da esposa já em decomposição e coberto de sangue. Empoleirado sobre a cabeça da vítima está o gato preto. O narrador constata, com horror, que emparedara o animal vivo junto com a mulher. A voz delatora da criatura destrói o seu esconderijo e entrega-o ao carrasco, justificando a situação de condenação à morte em que o narrador se encontra no início do relato.
2. Delimitação
A ação do conto "O Gato Preto" é fechada.
Isto acontece porque a narrativa apresenta um desfecho definitivo para os acontecimentos, resolvendo o conflito principal e não deixando o destino das personagens em suspenso.
No final da história, o mistério é totalmente resolvido quando a polícia deita a parede da cave abaixo e descobre o cadáver da esposa em decomposição, revelando o crime. O destino do protagonista fica também irrevogavelmente selado: o uivo do gato que ele emparedara vivo denunciou-o e entregou-o à justiça e à inevitável execução. A certeza deste desfecho é confirmada logo no início da narrativa, quando o narrador revela que está condenado e que morrerá no dia seguinte.
II. Personagens
1. Caracterização
a) Narrador
O conto não fornece uma descrição minuciosa da fisionomia do narrador (como a cor dos olhos, altura ou traços faciais). Contudo, a sua caracterização física pode ser inferida através das suas ações e estilo de vida. A sua saúde e apresentação física sofrem certamente uma forte degradação ao longo do tempo devido ao alcoolismo crónico, apresentando-se frequentemente num estado de embriaguez profunda e com os sentidos entorpecidos. Além disso, demonstra possuir considerável força e resistência física: é capaz de exercer violência extrema (como enforcar um animal e desferir um golpe fatal de machado no crânio da esposa) e de realizar trabalhos de pedreiro bastante pesados, operando um pé de cabra, carregando tijolos, preparando gesso e reconstruindo meticulosamente uma parede inteira para ocultar um cadáver.
A trajetória social do narrador é marcada por um declínio drástico que acompanha a sua ruína moral. Inicialmente, aparenta ser um homem de boas famílias, respeitável e com uma situação financeira confortável. Casa-se cedo, vive numa casa própria com um criado e tem posses suficientes para sustentar e mimar uma grande variedade de animais de estimação. No entanto, o seu vício em álcool afasta-o da civilidade. Após o incêndio que lhe destrói a casa e toda a "fortuna terrena", cai na miséria absoluta, sendo forçado a viver com a mulher na cave de um "velho edifício" e passando os seus dias a frequentar tabernas e "miseráveis antros" infames. Apesar de toda esta degradação, ainda retém uma máscara de sofisticação e educação social, que utiliza de forma cínica para tentar manipular e ludibriar a polícia, dirigindo-se aos agentes com uma falsa e excessiva cortesia.
No plano psicológico, a personagem evidencia uma transformação radical e assustadora:
- Juventude (a docilidade): Nos seus primeiros anos, caracterizava-se por uma enorme ternura, docilidade e humanidade de temperamento. Era um indivíduo pacífico e extremamente afetuoso, encontrando a sua maior felicidade e prazer no amor altruísta e abnegado pelos animais.
- A Queda (o vício): Dominado pelo que chama de "demónio da intemperança" (o alcoolismo), a sua alma corrompe-se. Torna-se temperamental, irritável, rabugento e perde qualquer empatia pelos outros, passando a usar linguagem agressiva e a recorrer à violência física.
- A perversidade e a frieza: O narrador é progressivamente tomado pelo "espírito da perversidade" — um impulso primitivo e inexplicável que leva o ser humano a cometer o mal simplesmente pelo prazer de fazer o que é errado. É esta perversão que o faz mutilar e assassinar o seu amado gato a sangue-frio, perfeitamente consciente do peso moral do seu pecado.
- Paranoia e degradação final: Com a chegada do segundo gato, o narrador é consumido por uma fobia irracional, um pavor paralisante e pesadelos constantes. Os seus pensamentos tornam-se exclusivamente negros e sádicos. Após assassinar a esposa num acesso de fúria cega, revela traços de psicopatia: age de forma fria, metódica e calculista para esconder o corpo, sentindo um imenso alívio e dormindo tranquilamente sem qualquer vestígio de remorso ou culpa.
- Arrogância: O seu traço final é uma soberba e um excesso de confiança desmedidos. É o seu ego e a necessidade de se gabar da sua impunidade que o levam, num momento de euforia despropositada, a bater na parede do túmulo, provocando a sua própria ruína.
b) Esposa
À semelhança do protagonista, a fisionomia da esposa não é descrita detalhadamente ao longo da narrativa. A sua dimensão física é sobretudo percecionada através das suas ações, como quando utiliza a própria mão para agarrar o marido e deter o seu golpe de machado. Fisicamente, partilha também o desgaste da degradação das condições de vida da família, descendo as escadas íngremes da cave para realizar as suas incumbências. No desfecho do conto, o seu corpo assume um papel macabro, surgindo de pé atrás da parede falsa, coberto de sangue seco e já num estado avançado de decomposição.
A esposa partilha integralmente a trajetória de declínio social do marido. Casa-se cedo com o narrador, numa fase em que este dispõe de estabilidade e meios para adquirir e sustentar uma grande variedade de animais de estimação para o lar. No entanto, acaba por ser arrastada para a miséria devido à ruína gerada pelo alcoolismo do marido, vendo-se obrigada pelas circunstâncias de extrema pobreza a viver na cave de um velho edifício. Assume um papel de submissão no seio familiar e encarrega-se da realização das tarefas ou incumbências domésticas.
A esposa destaca-se por ser o principal contraponto de bondade e resignação face à perversidade e loucura do marido:
- Afinidade e Ternura: Apresenta uma disposição inicial pacífica e perfeitamente compatível com a do marido na juventude, partilhando plenamente a sua predileção e amor por animais de estimação. Revela uma humanidade de sentimentos constante, afeiçoando-se de imediato às criaturas, incluindo ao segundo gato preto, cuja presença tanto perturbava o narrador.
- Superstição Ligeira: Possui no íntimo alguns laivos de superstição, sendo ela quem recorda frequentemente a antiga crença popular de que os gatos pretos são, na verdade, feiticeiros disfarçados, embora não levasse essa ideia demasiado a sério.
- Paciência e Resignação: Torna-se a principal mártir da transformação demoníaca do marido. Apesar de ser alvo de uma linguagem destemperada e de violência física frequente, demonstra uma extrema resiliência, sendo descrita pelo narrador como a mais paciente das vítimas dos seus incontroláveis acessos de fúria.
- Coragem e Altruísmo: O seu último ato em vida denota uma bravura instintiva e protetora, uma vez que intervém fisicamente, esquecendo o medo, para travar o golpe de machado do marido e impedir a morte do gato. É este gesto altruísta de proteção que lhe acaba por custar a própria vida.
c) Plutão
Inicialmente, Plutão, um gato, é descrito como um animal excecionalmente notável: singularmente grande, muito bonito e com uma pelagem totalmente negra. Contudo, a sua fisionomia sofre uma alteração brutal e horripilante quando o narrador, num acesso de fúria induzido pelo álcool, lhe arranca um dos olhos com um canivete. A partir desse momento, passa a exibir uma órbita vazada que lhe confere um aspeto assustador. A sua condição física sofre a derradeira e fatal agressão quando é cruelmente enforcado no ramo de uma árvore.
No contexto da dinâmica doméstica, Plutão ocupa um estatuto privilegiado e de grande destaque. Não é apenas mais um animal entre a vasta coleção que o casal possui (que inclui pássaros, peixes, coelhos, um cão e um macaco), mas sim o animal e companheiro de brincadeiras preferido do protagonista. Ocupa uma posição de tal exclusividade que apenas o narrador o alimenta. A sua presença impõe-se na vida do dono, acompanhando-o para todo o lado dentro de casa e tentando até segui-lo pelas ruas da cidade, o que demonstra uma forte integração na rotina familiar antes de a relação se deteriorar.
Embora seja um animal, Plutão é dotado de características comportamentais muito marcadas:
- Inteligência: Possui uma esperteza tão surpreendente que leva a esposa do narrador a recordar frequentemente a antiga superstição popular de que os gatos pretos seriam feiticeiros disfarçados.
- Lealdade e Afeto: Durante vários anos, demonstra uma dedicação, uma docilidade e um amor absolutos pelo seu dono, não lhe dando qualquer motivo para ser maltratado.
- Instinto e Medo: Após começar a ser vítima da crueldade e violência do narrador (culminando na mutilação do olho), o comportamento de Plutão altera-se por puro instinto de preservação. A sua antiga lealdade dá lugar a um terror profundo e a uma antipatia evidente, passando a fugir apavorado sempre que o dono se aproxima. É precisamente esta fuga e aversão compreensíveis que acabam por despertar o "espírito da perversidade" no protagonista, ditando a sentença de morte do inofensivo animal.
d) Segundo gato preto
Este felino é descrito como um animal muito grande, do mesmo tamanho que Plutão e muito parecido com ele em quase todos os aspetos, partilhando inclusive a mesma mutilação: também ele é cego de um olho. A única diferença visível inicial é uma mancha branca, grande e indefinida, que lhe cobre quase toda a região do peito. Contudo, esta característica física sofre uma metamorfose aterradora ao longo do tempo, ganhando gradualmente os contornos rigorosos e nítidos de uma forca — o terrível símbolo da morte e do crime. No clímax do conto, quando a parede é derrubada, o gato apresenta uma figura horripilante e demoníaca, sendo descrito com uma rubra boca aberta e um solitário olho de fogo.
A origem deste gato é misteriosa. É encontrado pelo narrador num "antro infame" (uma taberna), poisado em cima de um barril de álcool, sem que o dono do estabelecimento ou qualquer outra pessoa saiba a sua procedência. Ao ser levado para a cave onde o casal agora habita na miséria, integra-se rapidamente na dinâmica familiar. Torna-se de imediato o grande favorito da esposa, ocupando o vazio deixado pelo animal anterior. Contudo, para o narrador, o gato assume o papel de um perseguidor constante e de um pesadelo encarnado do qual não se consegue libertar.
O comportamento deste animal caracteriza-se por uma afeição insistente e quase antinatural pelo protagonista, contrastando fortemente com o ódio que este lhe tem. Ao contrário de Plutão, que passou a fugir do dono após ser maltratado, este segundo gato demonstra uma predileção pertinaz pelo narrador. Segue todos os seus passos, enrosca-se debaixo da sua cadeira, salta-lhe para o colo para lhe fazer carícias e mete-se por entre as suas pernas, quase o fazendo cair. Embora não demonstre agressividade (até ao desfecho), a sua presença funciona como um instrumento de tortura psicológica implacável. O seu comportamento afetuoso é interpretado pelo protagonista como algo odioso e asfixiante, inspirando um pavor absoluto e pesadelos constantes. No final da narrativa, o gato assume um papel de justiceiro ou de entidade vingativa. Depois de sobreviver vários dias emparedado vivo no escuro com o cadáver, solta um uivo anómalo e inumano, descrito como um misto de lamento de horror e grito de triunfo. É a sua "voz delatora" que entrega propositadamente o assassino à justiça e concretiza a sua condenação.
e) Agentes da polícia
Os agentes da polícia constituem uma personagem coletiva.
No plano físico, os agentes não possuem uma descrição fisionómica individualizada ou detalhada, sendo a sua dimensão física destacada pela sua força e ação coletiva no momento do clímax, quando uma dúzia de braços robustos ataca e derruba por inteiro a parede da cave. No plano social, representam a figura da autoridade, a lei e a ordem, intervindo na narrativa ao quarto dia após o crime para efetuar uma inesperada e rigorosa revista à casa do narrador. Exercem o seu poder de forma diligente e oficial, não deixando nenhum escaninho ou recanto por explorar e pedindo que o dono da casa os acompanhe durante as buscas. No plano psicológico e comportamental, os agentes demonstram ser profissionais, metódicos e persistentes, descendo à cave pela terceira ou quarta vez para garantir que nada lhes escapa. Apesar deste grande rigor investigativo, acabam por ser ludibriados pela aparente inocência e extrema tranquilidade do assassino, dando-se por satisfeitos com a revista e preparando-se para abandonar o local pacificamente. No entanto, a sua postura altera-se de imediato assim que ouvem o uivo inumano vindo do interior da parede onde o corpo estava oculto. Reagem com extrema prontidão a este som aterrador, passando à ação, deitando a parede abaixo e descobrindo o cadáver da esposa em adiantado estado de decomposição. Deste modo, cumprem a sua derradeira função na narrativa: desvendar o crime macabro e assegurar que o protagonista seja entregue ao carrasco.
f) Criado
O criado é uma figura extremamente fugaz na narrativa, não possuindo qualquer descrição detalhada no plano físico. A sua dimensão corporal e a sua ação reduzem-se à sua capacidade de sobrevivência, sabendo-se apenas que consegue escapar com vida, embora com enorme dificuldade, ao repentino e violento incêndio noturno que consome por completo a habitação. É, portanto, no plano social que a sua breve presença assume maior relevância para a história, funcionando como um marcador claro do estatuto socioeconómico original do protagonista. A existência de um empregado doméstico na casa comprova que o narrador e a sua esposa desfrutavam inicialmente de uma situação financeira bastante confortável e estável, com posses suficientes para sustentar uma grande variedade de animais e manter criadagem, numa fase anterior àquela em que o vício do álcool e o fogo lhes destruíram toda a fortuna e os atiraram para a miséria de uma cave. No plano psicológico, a narrativa não explora a interioridade nem os traços de personalidade desta personagem, mantendo-a propositadamente na sombra. O criado atua apenas como um figurante e uma vítima colateral da espiral de degradação e perversidade do seu patrão, partilhando de forma puramente instintiva o pavor, o sobressalto e a urgência da fuga na noite em que o lar é engolido pelas chamas.
g) Dono da taberna
O dono da taberna é uma figura muito pontual na narrativa, não possuindo qualquer tipo de descrição no plano físico, sendo impossível determinar a sua fisionomia, idade ou aspeto. No plano social, esta personagem atua como o proprietário de um estabelecimento comercial que o protagonista descreve como um antro mais que infame, o que reflete o ambiente de profunda decadência, vício e miséria que o narrador passou a frequentar após a sua ruína material e moral. A sua função socioeconómica é a de servir álcool a uma clientela marginal, enquadrando-se no submundo noturno que alimenta o "demónio da intemperança" do personagem principal. No plano psicológico e comportamental, a sua intervenção é extremamente breve, mas desempenha um papel fundamental na construção da atmosfera de mistério da obra. Quando o narrador se depara com o segundo gato preto a descansar sobre um dos barris de álcool do estabelecimento e se propõe comprá-lo, o homem demonstra um total desconhecimento e desapego em relação à criatura. Afirma não ser o dono do animal, não saber nada sobre a sua origem e nunca o ter visto antes daquele momento. Este alheamento e ignorância por parte do proprietário do espaço contribuem fortemente para adensar a aura insólita, misteriosa e quase sobrenatural que envolve o súbito aparecimento deste segundo felino na história.
h) Vizinhos, etc.
A multidão não possui uma descrição fisionómica individual, assumindo uma dimensão física apenas enquanto massa coletiva e densa de pessoas que se aglomera em momentos cruciais da narrativa. No plano social, esta entidade representa a sociedade envolvente, a comunidade de vizinhos e os cidadãos anónimos que funcionam como a testemunha pública da tragédia e da ruína do protagonista. É também a partir desta mesma comunidade que o narrador deduz que alguém, na noite do violento incêndio, terá tido a iniciativa de cortar a corda do gato enforcado no jardim adjacente e de arremessar o animal pela janela do quarto com o intuito de dar o alarme e acordar a família. No plano psicológico e comportamental, a multidão caracteriza-se por uma intensa curiosidade e por um fascínio instintivo perante o insólito. Ao visitar as ruínas da casa e ao deparar-se com a bizarra imagem do gigantesco felino gravada em baixo-relevo na única parede que resistiu às chamas, o grupo examina o fenómeno de forma detida e ansiosa, expressando o seu espanto coletivo através de exclamações como "estranho!" e "singular!". No desfecho do conto, esta presença anónima volta a ser referida sob a forma de espectadores, que se encontram diante da parede derrubada, materializando o olhar chocado da sociedade perante a macabra revelação do cadáver da esposa e atestando publicamente a loucura e a monstruosidade dos atos do narrador.
i) Companheiros de infância
Os companheiros de infância do protagonista são figuras evocadas apenas de passagem na narrativa, não possuindo qualquer tipo de descrição no plano físico. A sua dimensão corpórea reduz-se à de um grupo inespecífico de jovens com os quais o narrador convivia nos seus primeiros anos de vida. No plano social, estas personagens representam o círculo de pares e o ambiente de sociabilidade juvenil em que o protagonista se inseria durante a juventude, muito antes do seu isolamento, do casamento e do subsequente declínio moral provocado pelo vício. É no plano psicológico e comportamental que a sua breve menção adquire algum significado para a construção da história. Contrastando fortemente com a humanidade de temperamento e a extrema ternura de coração que caracterizavam o narrador na sua juventude, estes companheiros demonstram uma atitude insensível perante a sua vincada sensibilidade. Em vez de partilharem ou compreenderem a sua profunda docilidade e o seu amor inato, escolhem fazer do protagonista o alvo constante das suas troças, evidenciando uma falta de empatia típica de um grupo que ridiculariza aquele que se destaca por ser demasiado brando ou diferente.
2. Papel na narrativa
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