Português: 26/07/26

domingo, 26 de julho de 2026

Apreciação crítica de O Eterno Marido

    A novela O Eterno Marido (1870) consolida-se como uma das obras mais complexas e psicologicamente densas de Fiódor Dostoiévski. O seu grande trunfo reside na subversão radical do modelo clássico do romance de adultério. Em vez de focar a narrativa na figura da mulher infiel e na sua eventual punição moral — como acontece em obras canónicas como Madame Bovary —, a história tem início apenas após a morte da esposa adúltera, Natália. O foco desloca-se, de forma inédita, para o embate tenso, doentio e claustrofóbico entre o viúvo traído, Pável Pávlovitch Trussótski, e o antigo amante, Alexei Veltchaninov, englobando também o destino trágico da pequena Liza, fruto dessa relação extraconjugal.
    A dinâmica entre os dois protagonistas é o verdadeiro motor da obra, pautada por uma ambivalência extrema onde o amor, o ódio, a culpa e o ressentimento se entrelaçam de forma indissociável. Os papéis de "vítima" e "vilão" não são estanques, sendo frequentemente invertidos ao longo da trama. Veltchaninov, inicialmente apresentado como um aristocrata hipocondríaco e vaidoso, revela laivos de afeto paternal na tentativa desesperada de proteger Liza; em contrapartida, Trussótski, que surge como a figura patética do viúvo submisso, demonstra uma crueldade vingativa ao torturar psicologicamente a criança e ao atentar contra a vida do rival.
    Numa leitura psicanalítica, Trussótski funciona como o "retorno do recalcado" na vida de Veltchaninov, emergindo como um sintoma vivo e acusador da culpa suprimida pelo antigo amante e do seu passado amoral. À luz da teoria mimética de René Girard, esta dinâmica ganha contornos ainda mais profundos: a obsessão de Trussótski transcende a mera sede de vingança. Movido por um desejo metafísico, ele persegue o rival no intuito de se apropriar da sua "essência" sedutora e do seu donjuanismo. Trussótski encarna na perfeição o arquétipo do "eterno marido" — o homem estruturalmente submisso, cuja inserção e validação social dependem da figura feminina, e que desenvolve uma necessidade neurótica de se aproximar dos próprios homens que o traem, idolatrando-os e odiando-os em simultâneo.
    No plano formal e estrutural, o romance é uma ilustração brilhante dos conceitos de dialogismo e polifonia, célebres na teoria de Mikhail Bakhtin. A narrativa dispensa um narrador dotado de uma verdade absoluta ou intenção moralizadora. As consciências das personagens chocam em pé de igualdade, atirando o leitor para o centro de um complexo jogo psicológico. Os diálogos são labirínticos, construídos sobre insinuações venenosas, subentendidos e discursos bivocais, onde a verdade nunca é entregue de forma direta, mantendo uma atmosfera de permanente suspense.
    Através desta colisão de neuroses, Dostoiévski tece também uma crítica feroz à racionalidade estrita e ao utilitarismo da sua época. O autor prova que o ser humano não é uma máquina movida exclusivamente pela lógica ou pelo benefício próprio, agindo frequentemente contra os seus próprios interesses, arrastado por instintos autodestrutivos, pulsões caóticas e pelas complexas teias do subsolo da mente humana.

Resumo de O Eterno Marido

Dostoiévski
   Veltchanínov é um hipocondríaco de 38/39 anos, com uma educação esmerada, vaidoso, progressivamente solitário e cismático, perde a memória de coisas recentes e recorda, sob um novo ponto de vista, factos remotos (as duas fortunas desbaratadas, o filho tido de um popular — ambos abandonados, comportamentos "criminosos", calúnia de pessoas), desliga-se por vezes da realidade. Mantém um litígio em tribunal. Toda a angústia e perturbação que sente, conclui, fica a dever-se a uma série de encontros, na rua, com um misterioso homem, de chapéu com fita de luto, que parece persegui-lo.
    Uma noite, sonha que assassinou um homem e ocultou o crime. Outro homem, outrora muito familiar a Veltchanínov, já falecido, está em sua casa e dele depende a sua condenação ou absolvição. Subitamente, desperta e encontra à porta de casa o homem com a fita de luto no chapéu. O homem é, afinal, Pável Pávlovitch Trussótski, um velho conhecido de Veltchanínov, viúvo há pouco tempo. A mulher, Natália Vassílievna fora, então, sua amante, por quem ele faria qualquer loucura que ela desejasse: era uma mulher sedutora, escravizante e dominadora. Após a partida dele, ela teve novo amante: Bagaútov. Trussótski era o "eterno marido", ou seja o homem que casa para ser "cornudo" sem o saber. O poder dela era tal que quem acabava as relações era Vassílievna.
    Trussótski vive em Peterburgo, numa casa miserável, com uma criança de 8 anos, Liza, sua filha. Por isso, Veltchaninov convida-o para sua casa e a enviar a filha para uma casa de seus conhecidos para o tempo que eles ainda estão ali, onde será bem tratada. A criança nasceu cerca de oito meses depois de Veltchanínov ter saído de T... Ora, uma das razões invocada por Natália para acabar o romance com ele foi precisamente a suspeita de uma gravidez deste.
    Veltchanínov confidencia à sua amiga Klávdia Petrovna Pogoréltsev, a mãe de família que acolhera temporariamente Liza, estar convencido que esta é sua filha e que Trussótski o visitou por despeito, para se "vingar" do romance que manteve com Natália. Trussótski sabe que Bagaútov foi amante da falecida mulher, porque esta deixou uma caixinha contendo, entre outras coisas, a sua correspondência com o amante. Veltchanínov suspira de alívio por nunca ter escrito uma carta amorosa que fosse a Natália; por outro lado, fica a saber que trata Liza com grande crueldade, beliscando-a, apelidando-a de bastarda, ameaçando que um dia se enforcará e que a culpa será dela.
    Enfim, Liza adoece e pede a Veltchanínov que a leve de casa dos Pogoréltsev, o que lhe é impossível. Ao décimo dia na casa destes, a criança morre. Veltchanínov passa os últimos dias à cabeceira da sua cama; depois parte em busca de Trussótski, que encontra, mais uma vez, bêbedo, numa casa de passe, dizendo-lhe que o verdadeiro pai de Liza era um alferes de artilharia. Trussótski simula a doença e envia uma carta de agradecimento aos Pogoréltsev, juntamente com 300 rublos para pagar as despesas da estadia e do funeral, mas estes utilizam apenas o necessário para o funeral e devolvem-lhe o restante. Veltchanínov erra pela cidade, desmazelando a sua pessoa por completo (é-lhe indiferente, por exemplo, o facto de ter sido solucionado o litígio que mantinha de forma positiva para si).
    Tempo depois, Trussótski anuncia-lhe o intuito de se casar com uma menina de 15 anos, filha de Zakhlebinin, conselheiro de estado que agia em favor da parte contrária no litígio de Veltchanínov. Trata-se de uma família sem grandes possibilidades de acumular riqueza, constituída por vários filhos, pelo que é necessário casá-los com alguém de posses. Daí o interesse mútuo no casamento; para Trussótski o que o atrai também é a inocência da menina. Ele vem convidar Veltchanínov para o acompanhar à casa de campo da família, para o apresentar a esta. Este apercebe-se de imediato que a pretendida, Nádia, odiava o pretendente e aceita muito a custo a pulseira que lhe oferece. Pelo contrário, o saber estar e conversar em sociedade de Veltchanínov logo o guindam ao centro das atenções, a todos agradando. Nas brincadeiras que efectuam, os jovens troçam e ridicularizam diversas vezes Trussótski que, furioso, "obriga" Veltchanínov a abandonar a casa de Zakhlebinin, perante a estupefacção geral, ao dar-se conta que Veltchanínov conquistara o coraçãosinho de Nádia.
    Quando estão em casa de Veltchanínov, recebem a visita de um jovem de 19 anos, Aleksandr Lóbov, que está comprometido com Nádia, e vice-versa, tendo a mesma já pedido em casamento, apesar da oposição do pai dela, e que vem solicitar a Trussótski que abandone o ignóbil intento de desposá-la. Veltchanínov é acometido de uma crise de fígado durante a noite, tem um sonho semelhante ao que lhe ocorrera algum tempo atrás e, quando desperta, é vítima de uma tentativa de assassinato por parte de Trussótski, com uma navalha da barba. De manhã, Veltchanínov expulsa-o de sua casa.
    No dia seguinte, Lóbov informa Veltchanínov de que Trussótski partiu, de regresso, para T... e entrega-lhe uma carta que ele lhe deixou. Dentro do sobrescrito existe uma carta escrita por Natália para Veltchanínov, mas que ela não enviou afinal e substituiu pela outra. Nessa carta, Natália dizia-lhe estar apaixonada por Veltchanínov e estar grávida dele, Veltchanínov.
    Dois anos depois, Veltchanínov viaja até Odessa para visitar um amigo e na esperança de ser apresentado a uma determinada senhora. É um homem, agora, que recuperou o seu gosto pelo convívio social. Numa paragem do comboio na estação, há um episódio em que uma senhora é ofendida por um comerciante bêbedo e Veltchanínov vai em seu socorro. Ora, essa senhora é "apenas" a nova esposa de Trussotski, que aparece pouco depois. Ele é dominado pela mulher, de quem tem medo, e vive atormentado pela possibilidade de ser novamente atraiçoado.
    Veltchanínov, de mau humor, causado pela despedida intempestiva de Trussotski, acaba por não visitar a sua senhora conhecida, o que provoca um comentário final do narrador pleno de suspense: "Mas ele o viria a lamentar, mais tarde !!!"
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