Neste capítulo, destacam-se os nomes de três grandes figuras da literatura portuguesa: Teófilo Braga, Adolfo Coelho e José Leite de Vasconcelos. Estes vultos foram os primeiros a dar rigoroso tratamento científico.
Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada, a 4 de fevereiro de 1843, na ilha de S. Miguel, nos Açores, e aí fez os primeiros estudos. Tirou o curso de Direito em Coimbra em 1868 e foi professor do Curso Superior de Letras, de Lisboa, de 1872 a 1924, data do seu passamento. Foi poeta e historiador, etnólogo e filósofo e simultaneamente político ativista, militante do Partido Republicano, tendo alcançado por duas vezes a suprema chefia do Estado (1910 e 1915).
Na esteira de Almeida Garrett, dedicou-se ao estudo do povo e da sua literatura, tendo produzido uma vastíssima obra, que conta mais de trezentos títulos, dentre os quais avultam os volumes que dedicou à literatura popular. Em 1865, quando contava apenas vinte e quatro anos, fez publicar o Cancioneiro e o Romanceiro Geral Português, que viu uma nova e aumentada edição - de dois para três volumes - em 1906-1909, e ainda uma primeira edição da História da Poesia Popular Portuguesa, ampliada para dois volumes numa edição de 1902-1905. Além disso, publicou Contos Populares do Arquipélago Açoriano (1869), Parnaso Português Moderno (1877), Contos Tradicionais do Povo Português (1883), além de outras obras menores dispersas por jornais e revistas.
A maioria dos textos que publicou chegou-lhe às mãos por meio de amigos ou de livros. Raramente se dedicou à recolha direta. Para evitar cometer os mesmos erros praticados por Almeida Garrett, reproduziu com fidelidade o que ouviu ou leu, tendo-nos deixado materiais abundantes e de boa qualidade. Deve-se-lhe o primeiro cancioneiro moderno e o romanceiro mais rico da História portuguesa.
Por outro lado, Teófilo Braga continua a olhar para o povo como uma entidade mítica: um rebanho que vive pela tradição, emocionalmente, irrefletidamente, fazendo o que os outros fizeram, repetindo automaticamente comportamentos aprendidos, sob o império do sentimento, em estado de inconsciência. Além disso, apresenta-o como rude, inculto, ingénuo, uma classe baixa, inferior e ínfima.
Sustentando-se em dados antropológicos inseguros, Teófilo Braga procura as origens da nossa poesia popular na raça proto-árica dos Lígures, anterior aos Celtas e mais civilizada do que estes. Além disso, não obstante a admiração que sustenta pela arte do povo, mantem a tradicional distinção entre poesia popular e poesia artística, quando, na realidade, sem a primeira não se chega à segunda. Face ao exposto, é fácil concluir que Teófilo Braga não se afasta das ideias aristocraticamente românticas de Garrett. No entanto, diferem na função que atribuem à poesia popular: Garrett queria renovar a literatura, ao passo que Teófilo sustenta que, cultivando-a, repetindo-a ao povo, se faria renascer o caráter nacional, e este, tomando consciência das suas virtualidades, ganharia novas forças e coragem para fazer a revolução.
Francisco Adolfo Coelho nasceu em Coimbra a 1 de janeiro de 1847. Frequentou a Universidade e, ao fim de dois anos, abandonou-a desiludido, em busca por si da educação intelectual que não achara. Foi professor de Filologia e Pedagogia no Curso Superior de Letras, diretor da Escola Preparatória de Rodrigues Sampaio e da Escola Normal Superior de Lisboa e um dos promotores das Conferências do Casino, em 1871. Faleceu a 8 de fevereiro de 1919. Foi um cidadão de caráter íntegro, que sempre respeitou quem tinha um pensamento diverso do seu. Além disso, defendeu sistematicamente o que considera justo e verdadeiro, não olhando a pessoas nem a conveniências, granjeando, por isso, o respeito dos seus antagonistas.
Aprendeu, ainda bastante jovem, a falar inglês e alemão, bem como francês, o que lhe proporcionou um contacto permanente com os progressos que as Ciências Humanas iam fazendo na Europa. Os seus mestres prediletos foram psicólogos e etnólogos alemães. Ao longo dos anos, adquiriu uma grande erudição e cultivou com mestria a Linguística, a Etnologia e a Pedagogia, as três áreas que sustentavam o seu ideal cívico: a educação do povo português. No que diz respeito à Etnologia e concretamente à literatura popular, a obra que realizou foi absolutamente notável. Colheu-a diretamente do povo, de livros e do contributo de amigos. Foi, no entanto, essencialmente um trabalhador de gabinete. Ao longo da sua vida, publicou contos, lendas, adágios, jogos, romances, ensalmos, rimas infantis, que acompanhou de estudos sobre a estrutura, a origem e a classificação.
Os seus trabalhos e as suas pesquisas visavam sobretudo a ascensão das classes populares à educação e a democratização do ensino. De facto, esse ideal cívico constituiu uma constante do seu pensamento em todas as matérias a que se aplicou. À semelhança de Almeida Garrett, propôs que a literatura popular fosse fonte de inspiração e alfobre de formas e temas para os artistas contemporâneos, considerando que essa seria a única via por que produziriam uma verdadeira literatura, autenticamente nacional. Acima disso, a literatura popular constituiria o elemento fundamental na educação geral da nação.
Para Adolfo Coelho, o povo é inculto e atrasado; vivendo dominado pelo sentimento e pelo instinto, o seu comportamento é predominantemente irrefletido; repetindo maquinalmente o que lhe vem da tradição e das suas "experiências brutas", não é capaz de organizar sistematicamente os seus conhecimentos. Se é verdade que não lhe faltava imaginação e capacidade de alcançar ideias gerais, não o é menos que a sua falta de cultura, sob o jugo de uma atividade permanentemente prática, o impede de subir às mais altas conceções teóricas. Assim, vive imerso em ideias comuns, num pensamento coletivo; a arte que cultiva não possui o cunho da individualidade, da originalidade e da complexidade. Esse era o privilégio das classes cultas. Pelo contrário, o vulgo, por causa da sua irreflexão, não escolhia as premissas certas para chegar a conclusões certas, ao passo que os estratos cultos cultivavam o logismo, a aptidão de eliminar o que não convém como base de conclusão segura.
José Leite de Vasconcelos nasceu na Ucanha, concelho de Tarouca, a 7 de julho de 1858. Formou-se, no Porto, em Ciências Naturais e Medicina entre 1879 e 1886. Exerceu o ofício de médico durante um ano; depois exerceu a função de conservador da Biblioteca Nacional e, em 1911, tornou-se professor da Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinou principalmente a disciplina de Filologia Românica. Aposentou-se em 1929, mas não abandonou o seu trabalho científico, o que só sucedeu quando a morte o surpreendeu a 17 de maio de 1941. Embora tivesse cursado Ciências, a sua paixão eram as Letras, que cultivou desde cedo. O seu grande sonho era escrever uma história do povo português, um tratado de Etnografia. Para conseguir atingir esse objetivo, tornou-se arqueólogo e filólogo, fundou o Arqueólogo Português, a Revista Lusitana, o Boletim de Etnografia, o Museu Etnológico. No total, escreveu mais de trezentas obras.
Nascido numa aldeia da Beira Alta, de família liberal, conviveu quotidianamente com o povo, foi discípulo de românticos e entusiasmou-se com o movimento científico do século, daí que não seja surpreendente o facto de se ter dedicado a estudos de literatura popular. Começou a coligi-la entre os dezassete e os dezoito anos e aos vinte publicou os seus primeiros artigos na Aurora do Cávado, uma revista editada em Barcelos. Recolheu e publicou romances, cantigas, rimas infantis, orações, contos, lendas, anedotas, provérbios, adivinhas, que acompanhou de notas e comentários nos quais refletia grande sabedoria e reflexão. Entre muitos estudos, destacam-se aqueles que versam a poesia popular, canções de berço, normalmente representar "o modo de ser de um só".
Por outro lado, Leite de Vasconcelos é dos primeiros a explicar a identidade de tradições em diferentes países, nomeadamente de adágios e fábulas, pela transmissão de povo a povo, enquanto o resto da Europa se mantinha fiel à teoria evolucionista da invenção independente.
Leite de Vasconcelos foi o primeiro etnólogo a sustentar a grande importância do trabalho de campo, da recolha direta, e a executá-lo. Para tal, percorreu o país de lés a lés, de caderno na mão, tomando notas de tudo, recolhendo da boca do povo quanto ele sabia.
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