Português: Literatura popular: Almeida Garrett e o Romanceiro

terça-feira, 30 de junho de 2026

Literatura popular: Almeida Garrett e o Romanceiro

  1. Vida
    João Baptista da Silva Leitão nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799, filho de um proprietário açoriano, funcionário de alfândega, e de mãe de família burguesa, enriquecida no Brasil, de origem minhota. Os apelidos Almeida e Garrett adotou-os o próprio escritor, respetivamente, do nome da mãe e de um antepassado paterno. Apesar de se manifestar contra a nobreza liberal recente, acabou por possuir o título de visconde. Em 1811, exilou-se na ilha Terceira com a família por causa das invasões francesas. Aí, conviveu intimamente com o seu tio, D. Alexandre da Sagrada Família, bispo de Angra do Heroísmo. Foi aí também que completou a sua educação tradicional, católica no que diz respeito à religião e clássica no que se refere à literatura. Muitos julgaram que seguiria a carreira eclesiástica, como o tio arcebispo ou outros dois tios padres, no entanto optou por estudar matemática, em Coimbra, mas rapidamente trocou pelo curso de Direito.
    O jovem estudante manifestou desde cedo os seus ideais liberais e a oposição ao regime absolutista. Deste modo, escreve, conspira e fala em comícios a favor do liberalismo e contra o absolutismo. Após o triunfo do Vintismo, viu-se confrontado com a abolição da Constituição de 1822 e a necessidade de novo exílio, desta vez em Inglaterra, país para o qual parte em 9 de julho de 1823. A 22 de agosto, regressou a Portugal, graças a uma amnistia, porém foi preso de imediato e apenas solto com a condição de abandonar o país. Assim, passou a viver em Inglaterra, depois em França, tendo regressado a Portugal após a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV (1826). Voltou a ser novamente preso por três meses por causa da sua intensa atividade política. A 3 de maio de 1827, a Carta foi revogada e Garrett mais uma vez sujeito ao exílio. Em janeiro de 1832, após quatro anos de absolutismo em Portugal, D. Pedro organizou, em França e Inglaterra, uma expedição militar que, passado algum tempo, restaurará a Constituição e o liberalismo no país. Almeida Garrett alistou-se como soldado, desembarcou na ilha Terceira, em março de 1832, e foi depois um dos bravos do Mindelo, em julho de 1832. A sua intensíssima atividade política e literária consumiu-lhe a vida, que acabou a 9 de dezembro de 1854.

2. O reformador
    O exílio permitiu-lhe contactar com o movimento romântico, que campeava em Inglaterra, na Alemanha e França. De facto, estimulado pela leitura e exemplos de Walter Scott, Burns, Burger, Percy, Shakespeare, Macpherson, M. Stael, etc., Garrett restaurou o romance nacional e renovou a poesia portuguesa. Assim, deseja que "Vamos a ver por nós, a tirar de nós, a copiar da nossa natureza e deixemos em paz Gregos, Romanos e toda a outra gente", e defende o regresso ao que ele tem por "nossas primitivas e genuínas fontes poéticas", que são os textos medievais e a literatura popular. A legítima poesia nacional, mesmo que com alguma corrupção, era aquela que ecoava na voz do povo. Ao longo dos séculos, tinha sido transmitida de geração em geração, e urgia agora recolher, restaurar, popularizar e estudar. Deste modo, Garrett deu andamento ao projeto de publicar um cancioneiro e um romanceiro, todavia apenas o segundo viu a luz do dia.

3. A coleção
    Na amargura do exílio, Garrett evocou, com saudade, as "xácaras e romances populares de maravilhas e encantamentos, de lindas princesas, de galantes e esforçados cavaleiros" que em pequeno, lhe cantavam a velha criada Brígida e a boa ama Rosa de Lima e em nada as achava inferiores às novelas poéticas de Walter Scott e às baladas de Burger e Burns. Entre 1823 e 1826, escreveu a uma "menina" de sua "amizade" que lhe mandasse xácaras, daquelas que se ouviam nos arredores de Lisboa, e dela recebeu os primeiros quinze espécimenes. Pouco depois contava vinte, a que se juntou meia centena, escritos pelo punho do Cavaleiro de Oliveira nas margens das folhas dos tomos de um exemplar da Biblioteca de Barbosa e em folhas brancas que nele tinha inserido a propósito de "anotações, comentários, emendas, adições" a artigos da referida Biblioteca. Quando regressou a Portugal, em 1832, enriqueceu o pecúlio com outros que recolheu da boca de criadas velhas da sua mãe e de uma mulata brasileira da casa de sua irmã. Teve igualmente acesso a uma pequena coleção reunida pelo cônsul francês no Porto, o Sr. Pichon (1832-1833). A partir daí o espólio continuou a crescer com ofertas provenientes de diversos locais, entre as quais avulta a do seu condiscípulo Emídio da Costa e, em 1838, o grande romanceiro de Durán, bem como o que Ochoa publicou em Paris.
    Por outro lado, Almeida Garrett não se interessou muito pela recolha da tradição oral, todavia sempre o manifestou relativamente à recolha de romances, uma ocupação dileta das suas "horas de lazer", como ele próprio confessou.

3. Tratamento dado à matéria romanesca
    Nenhum dos textos do Romanceiro é uma reposição fiel da versão popular. De facto, alguns nem corriam como romances, antes eram contos ou lendas que Garrett modificou livremente. Outros têm por base a versão tradicional, muito estropiada, que o autor reconstruiu, como foi o caso do romance, refeito sobre D. Silvana, no qual conservou o fundo da história e do desfecho, a que acrescentou diversos acidentes e profusão de enfeites, que formalmente o desfiguraram; e Bernal-Francês, menos alterado. Ambos foram publicados pela primeira vez em Londres, em 1828.
    Estes dois tipos de romance constituem a matéria do 1.º volume, a que Almeida Garrett deu o nome de Romances da Renascença, como se renascessem de um fundo tradicional quase extinto. Nos dois volumes seguintes, o autor procurou apresentar o texto original, através do confronto das diversas variantes. Assim, na busca do arquétipo, corrigiu, substituiu palavras e expressões, versos por versos de outras lições, completou, eliminou. Estamos na presença de um tratamento livre, optando Garrett por tomar por modelo as estimadas coleções de Ellis e do bispo de Percy e d'As Fronteiras de Escócia por Sir Walter Scott e as publicações de Lockhart. Além disso, o autor teve o cuidado de citar em fim de página, referindo a origem e as variantes que não utiliza.

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