A ação de O Mercador de Veneza situa-se na transição do final do século XVI para o início do XVII, em pleno Renascimento.
O pano de fundo económico da cena é indissociável da expansão marítima e da explosão do comércio global. A riqueza de António não provém da posse de terras feudais, mas sim do comércio marítimo internacional de grande escala. A linguagem de Salarino e Salânio reconstrói esta realidade ao descrever as "caravelas" de velas enfunadas que cruzam os oceanos como "senhores" que se sobrepõem às pequenas embarcações.
O comércio representado é global e focado em bens de alto luxo: fala-se de frotas que viajam para trazer "preciosas especiarias do Oriente" e "valiosas sedas". Esta dinâmica reflete o auge das rotas comerciais da época e o imenso risco financeiro associado a estas expedições, onde a perda de um único navio devido a tempestades, ventos adversos, rochedos ou ao encalhe em baixios de areia podia significar a ruína imediata de um investidor. A dependência que a sociedade tinha destes fluxos de mercadorias é de tal ordem que a própria ansiedade quotidiana é pautada por eles.
Por outro lado, Shakespeare não olvida os perigos que muitos corriam ao cruzar os mares. Assim, Salarino descreve os grandes perigos do comércio marítimo através de imagens mentais dramáticas que seriam despertadas por simples ações do quotidiano. O primeiro grande risco refere-se à força destrutiva dos ventos e das tempestades, capazes de provocar graves destroços nas embarcações. O segundo perigo reside nos perigosos baixios de areia do oceano, onde um navio de grande porte, como o seu belo Santo André, poderia encalhar irremediavelmente, inclinando os mastros até à água como se estivesse a beijar a sua própria sepultura. O terceiro risco físico é a colisão com os escolhos e rochedos ocultos que, ao mais pequeno toque, seriam capazes de despedaçar por completo a estrutura das embarcações. Como consequência direta destes acidentes, Salarino destaca o desastre financeiro absoluto decorrente da perda das cargas valiosas, prevendo um cenário em que as preciosas especiarias do Oriente ficariam espalhadas pelas águas e as valiosas sedas vestiriam as ondas revoltas, precipitando instantaneamente o próspero mercador da opulência para a mais profunda miséria.
A cena I do ato I ilustra a transição para um capitalismo comercial primitivo, característico do início da Idade Moderna. O funcionamento social assenta fortemente no dinheiro, na especulação e, acima de tudo, no crédito.
A aristocracia da época, representada por Bassânio, vive num declínio financeiro provocado por estilos de vida excessivamente pródigos e luxuosos, dependendo diretamente da burguesia mercantil e financeira para se sustentar. A relação entre ele e António expõe o funcionamento deste mercado financeiro: na falta de liquidez imediata por ter os capitais retidos no mar, o mercador recorre à sua "consideração pessoal" e prestígio para obter empréstimos a juros nas ruas de Veneza. A honra, a reputação e a fiança são as moedas de troca fundamentais num sistema económico que começava a estruturar-se em torno de contratos e dívidas.
O ambiente cultural do Renascimento manifesta-se de forma exuberante na linguagem refinada das personagens, que partilham uma educação humanista e um profundo conhecimento da mitologia e da história da Antiguidade Clássica.
As referências clássicas são usadas com naturalidade para ilustrar traços de personalidade e descrever o mundo:
- Salânio evoca a figura de Jano bifronte (o deus romano de duas caras) para explicar a dualidade do temperamento humano (aqueles que riem sem motivo e os que se mantêm severos), e menciona Nestor (o sábio ancião da Ilíada) como o padrão máximo de seriedade.
- Bassânio recorre à mitologia grega ao comparar Pórcia ao velocino de ouro e os seus pretendentes a novos Jasões que viajam em demandas marítimas para a conquistar, transformando uma busca matrimonial e financeira numa epopeia heroica clássica.
- Além disso, Pórcia é comparada à sua homónima romana, a filha de Catão e esposa de Bruto, sublinhando que as referências da Roma Antiga eram o padrão de virtude e nobreza com que as mulheres da época eram medidas.
O tempo histórico revela-se ainda em pequenos detalhes do quotidiano e da tecnologia da época. A medição do tempo através da ampulheta é mencionada como um instrumento comum que, ao ver correr a areia, lembra aos homens a brevidade e os perigos da vida. Por outrolado, a famosa declaração de António segundo a qual o mundo é "um teatro onde cada homem tem de representar um papel" reflete a sensibilidade barroca e elizabetana do theatrum mundi (o mundo como palco), uma metáfora artística central no final do século XVI, altura em que o teatro público florescia na Europa como um espelho das ansiedades existenciais do homem moderno.
Na cena II do ato inicial, a configuração geopolítica mencionada pelas personagens aponta claramente para este período. A referência a entidades soberanas e regionais autónomas — como o Reino de Nápoles através do seu príncipe, o Palatinado através do conde, o Ducado de Saxe na Alemanha, o Marquesado de Montferrato em Itália e o Príncipe de Marrocos — reflete a fragmentação política da Europa renascentista e as suas relações com o Norte de África. Adicionalmente, a menção às tensões entre o lorde escocês e o barão inglês, com a intervenção do fidalgo francês como garante de uma promessa, ecoa as alianças históricas e rivalidades constantes que marcaram as relações britânicas e francesas antes da unificação sob uma única coroa.
Outro elemento revelador do tempo histórico é a descrição dos hábitos da nobreza da época, especialmente no que toca às viagens e à moda. A observação sobre o vestuário do barão inglês, que parece ter sido comprado em Itália, em França e na Alemanha, ilustra o costume da aristocracia europeia de viajar pelo continente para adquirir bens de luxo, vestuário e novos modos de comportamento, uma prática muito comum entre as classes abastadas deste período.
O ambiente intelectual e cultural revelado no diálogo é também profundamente renascentista, caracterizado pela fusão do pensamento clássico com o quotidiano. A facilidade com que são evocadas figuras da mitologia e da Antiguidade clássica, como a deusa Diana ou a sibila, demonstra a forte influência do humanismo que revalorizou a cultura greco-romana e a integrou na linguagem e no imaginário das classes instruídas.
Finalmente, a menção ao príncipe de Marrocos e as observações estéticas e religiosas sobre a sua pele escura traduzem os preconceitos e os contactos com o mundo não europeu no final do século XVI, época em que o comércio global e a expansão marítima trouxeram um maior contacto — embora frequentemente moldado por visões distorcidas — com outras geografias e culturas.