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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Análise do conto "George"


1.º parágrafo

George encontra-se a caminhar numa “larga rua”, num dia de muito calor, rua essa que já percorrera há vinte anos. Ela é uma mulher de 45 anos (como viremos a descobrir mais à frente) que regressa à sua terra natal, mais de 20 anos de ter partido. A sua caracterização será feita em simultâneo com a de Gi.

A dupla comparação («Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças contra o vento, ou como quem caminha, também é possível, na pesada e espessa e dura água do mar.») traduz a lentidão da aproximação das duas personagens e, mais ainda, a dificuldade, o esforço para prosseguir o caminho. Por outro lado, sugere o quão difícil é caminhar contra elementos adversos e prepara a atmosfera pesada da vivência para a qual se encaminha a personagem.

▪ O ambiente que se faz sentir «na longa rua» é marcado pelo calor e por uma aragem de «forno aberto», o que significa que esse ambiente é incómodo e asfixiante.

A convocação de Gi cumpre um objetivo claro: George evoca o seu passado, materializado na figura daquela, representante da sua fase jovem, e perspetiva o seu futuro, criando uma imagem mental de si na velhice, Georgina.

A metáfora da bússola significa o seguinte: George sente que perdeu o rumo, o sentido orientador da sua vida, bem como muitas outras coisas, o que sugere que a personagem se sente desorientada, perdida.

A oração coordenada disjuntiva (“Perdeu ou largou?”) e a interrogação é bastante significativa. De facto, se a personagem «perdeu», poderá ter sofrido e lamentar a sua sorte ou o seu excesso de sonho e esperança. Se, por outro lado, «largou», então fê-lo voluntariamente, algo que pode ser ainda mais doloroso ou frustrante por depender, não do acaso, mas da sua própria vontade e capacidade de decisão. George aprecia a liberdade, por isso evita criar vínculos com objetos e lugares, o que acentua a possibilidade de as perdas serem deliberadas.

▪ Por outro lado, o recurso à conjunção coordenada disjuntiva traduz a incerteza e a ambiguidade do narrador no que à descrição que faz e ao seu discurso diz respeito.

O uso do plural (“caminham”) indica a existência de duas personagens: George e a outra.


2.º parágrafo

As duas personagens vestem vestidos brancos e caminham em sentido contrário, o que significa que se irão encontrar como num espelho. É esta característica física que aproxima o retrato de ambas.

▪ Nota para a referência do narrador ao facto de George ter querido, e quase conseguido, esquecer o nome da «outra», ou seja, o seu passado.


3.º parágrafo

Retrato da personagem: jovem, rosto vago e sem contornos; feições incertas e pálidas (comparação com os mortos). De facto, as feições de Gi começam por ser pouco nítidas e esfumadas, mas a sua voz «é muito real e viva».

Como o encontro com Gi ocorre no espaço interior da memória, a figura dificilmente aparece como visão, mas vai-se desmaterializando, permanecendo apenas como voz que possibilita o estabelecimento de um diálogo, à medida que esse contacto interior se prolonga.

Como se verá, a narração do encontro alterna com outros pensamentos de George sobre o seu passado, o que demonstra que o encontro se dá também em pensamento, por isso de forma fragmentada, como é característico da memória.

▪ Referência à “fotografia que tem corrido mundo numa mala qualquer, que tem morado no fundo de muitas gavetas”: personagem muito viajada.


4.º parágrafo

▪ Retrato da personagem:
- físico: olhos largos, semicerrados; boca fina; cabelos escuros e lisos; pescoço alto de Modigliani;
- socioeconómico: pobre, origens humildes.

▪ Pais de Gi / George: eram gente de trabalho, pobre e inculta, com pouca instrução; olhavam o interessa da filha pela cultura com um misto de superioridade característica dos adultos perante as crianças e de indignação ou vergonha por aquilo que, pensavam eles, faria ria as outras pessoas.

▪ Intencionalidade crítica do parágrafo: a pouca instrução dos pais da personagem está associada ao interesse do poder político em manter o povo na ignorância e afastado do conhecimento de outras realidades para além das que correspondiam ao seu espaço social, à sua mundividência. Desta forma, não desenvolviam o seu espírito crítico, o seu poder de reivindicação, algo que constituía um perigo para o regime de ditadura.


5.º parágrafo

▪ George partiu da vida “à descoberta da cidade grande”, porém, naquela época, não era aceitável uma mulher sozinha fazer isso, pois a cidade era considerada um local de perdição.

▪ George era filha de uma família sem grande cultura e vivia numa pequena vila do interior, com as perspetivas próprias de tal contexto: casar, ter uma casa e família/filhos, ser uma esposa e uma mãe exemplares (“… que hei de um dia ser uma boa senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita…”) – ou seja, encarnar o papel tradicional reservado às mulheres –, mas sacrificar o gosto pela pintura e desenho que desde sempre manifestara e que a família sempre desvalorizara. Daí a sua decisão de partir, deixando para trás os pais, o noivo, as perspetivas de casamento e a própria vila, indo para longe e desligando-se de tudo.

▪ Que razões existem para a partida de George? A protagonista partiu para descobrir novas realidades, novas experiências, uma nova vida, em suma, com liberdade de escolha. A sua partida da vila foi motivada, portanto, pela vontade de romper com a vida convencional que lhe estava destinada, mas que ela não desejava.

▪ Note-se como vários dados biográficos da personagem surgem concentrados em poucas linhas, o que mostra que os factos não têm, atualmente, grande ou nenhum significado para si. Ou seja, como muitas outras pessoas, George quis mudar, teve várias experiências amorosas (umas grandes, outras casuais/superficiais), casou-se, divorciou-se e viajou muito, aquém e além-mar.

▪ Essa mudança espacial repercute-se no seu físico, nomeadamente no cabelo, cuja cor está sempre a alterar. Aliás, a sua caracterização física foca-se precisamente nas alterações que a sua figura sofreu ao longo do tempo.

▪ George quis distanciar-se da sua juventude, da sua vida com os pais, do seu primeiro namorado (Carlos), isto é, de tudo o que a ligava àquela terra, daí ter partido à descoberta da cidade grande «por além terra, por além mar».

▪ A vida de George acaba por se tornar vertiginosa, o que fica bem visível na sucessão de verbos (“casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar”), que nos dá a ideia de movimento constante, de procura também constante, de instabilidade emocional.

▪ Atualmente, vive em Amesterdão.


6.º parágrafo

▪ O sexto parágrafo introduza temática da habitação. Nos primeiros tempos após a partida da vila, George passou por dificuldades, tendo vivido em “quartos alugados mais ou menos modestos, depois em casas mobiladas mais ou menos agradáveis”.

▪ A protagonista esconde da mãe estas questões. Com ela comunica através de cartas, escassas (não gostava de escrever) e pouco minuciosas.

▪ As duas últimas notas biográficas do parágrafo são dedicadas à morte dos pais.


7.º - 10.º parágrafo

▪ Estes parágrafos continuam a focar-se na temática habitacional, focalizando o facto de George só habitar casas mobiladas, como já havia sido referido no parágrafo anterior.
   Nesta passagem do conto, destaca-se a necessidade ou o desejo de a personagem não criar ligações, afetos, não estar presa a nada emocionalmente. Só assim é completamente livre para viver, “senhora de si”.

▪ No entanto, esta forma de vida tem consequências negativas para a personagem. Por exemplo, causa-lhe sofrimento e dor (“fazes isso, enfim, toda essa desertificação, com esforço, com sofrimento”). No fundo, estamos perante uma forma de vida que propicia o vazio, a solidão, o desencanto (“os amigos que julga sinceros, sê-lo-ão?”).

▪ O desejo de ser livre subordina tudo o mais: “Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para partir, para chegar.”.

▪ Psicologicamente, George caracteriza-se pelo desapego («viveu sempre em quartos alugados» ou «em casas mobiladas»), pela instabilidade afetiva («Teve muitos amores […], casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar, quantas vezes?»), pelo desejo intenso de liberdade («Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se mais um dia que fosse.»).

▪ As constantes viagens representam o espírito de liberdade de George. A sua permanente itinerância relaciona-se com o desprendimento das coisas e das coisas, visto que queria estar sempre pronta para partir sem estar presa a nada nem a ninguém. É esta filosofia de vida que a leva a viver em quartos e casas mobiladas em que não conserva quase nada de seu, exceto alguns livros e poucos amigos.

▪ Este desapego das coisas é o mesmo que justifica o abandono da família e a manutenção com ela de contactos superficiais (as escassas cartas escritas à mãe) e que a leva a vender a casa dos pais, mesmo que Gi «talvez ainda [lá] more», isto é, mesmo que a própria George ainda mantenha ligações afetivas com ela e a venda comporte algum sofrimento.

▪ Em suma, a personagem (Gi) deseja ser livre, por isso evita criar vínculos com objetos e lugares, o que nos permite concluir que as perdas na sua vida serão deliberadas.


11.º parágrafo

▪ Os pais, de outro tempo e com outra mentalidade, não compreendiam o desejo de liberdade sentido pela filha.

▪ A referência às malas mostra a mudança do estatuto social da protagonista. De origens humildes, partiu de casa “com uma velha mala de cabedal riscado”, alcançou um bem-estar económico que lhe permite adquirir artigos mais caros e sofisticados (“E as suas malas agora são caras, leves, malas de voar e com rodinhas.”).


12.º parágrafo

▪ As duas personagens encontram-se, finalmente, cara a cara, depois de caminharem devagar uma em direção à outra.

▪ No início, a personagem com quem George depara é envolta em grande mistério. O seu rosto é uma memória esbatida conservada numa fotografia (3.º parágrafo) e vai ganhando nitidez de traços – olhos, boca, cabelos, pescoço (4.º parágrafo). Quando, agora, se encontram, o rosto está novamente esfumado, até o rosto do presente – George – encontrar o rosto do passado, a jovem Gi, uma “rapariguinha frágil, um vime, que ela tem levado a vida inteira a pintar”.

▪ O diálogo que se segue é, na verdade, um encontro de George com a jovem que foi naquela vila, por isso recorda detalhes como o do alfinete de ouro, e na despedida “não se tocam”, nem tal seria possível, e começam a mover-se ao mesmo tempo, lentamente, como quem anda na água ou contra o vento. A cada instante vão-se distanciando cada vez mais. E nenhuma delas olha para trás. “O esquecimento desceu sobre ambas.”.

▪ Em suma, Gi é George e mora na sua memória.


15.º parágrafo

▪ Este parágrafo marca a mudança (a evolução) operada de Gi para George: a juventude, a fragilidade física, as dificuldades económicas e a pobreza (simbolizadas pelo pregador de oiro que penhorou em Lisboa) de Gi → a pintura à maneira de Modigliani > a criação de um estilo próprio, a fama e o sucesso enquanto pintora, de George.


16.º parágrafo e seguintes – o diálogo entre Gi e George

▪ Motivo do regresso de George: vender a casa dos pais.

▪ Simbolismo da venda da casa: a rutura definitiva com o passado.

▪ Retrato de Gi:
- muito jovem
- quieta
- olhar esquecido e vazio
- não espantada com a venda da casa

▪ Projetos futuros de Gi:
1.º) Partir da vila, mesmo sabendo que não terá o apoio e a aprovação da família; sozinha, pois o namorado tem outros projetos que não envolvem sair da região.
2.º) Continuar simplesmente a pintar.

▪ A revelação dos projetos é feita através da memória de George, que, face à imagem de si mesma enquanto jovem, relembra os projetos que então tinha: deixar tudo, partir e pintar.

▪ Esses projetos colidem com os do seu namorado de então, Carlos, que deseja comprar uma terra e construir uma casa, financiados por uma herança recebida.

▪ Também os «outros» fazem projetos para Gi: ser “uma boa senhora da vila”, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita, uma boa dona de casa, “com muito jeito para o desenho”, que será como que tolerado, podendo até “fazer retratos das crianças quando tiver tempo”. Espera-se, em suma, que case (a mãe já lhe está a fazer o enxoval), tenha filhos e cuide da casa.

▪ George tem pressa (tem de apanhar o comboio para regressar; no dia seguinte seguirá para Amesterdão, onde tem um ateliê).

▪ A despedida entre ambas é extremamente significativa: dão um beijo rápido, no ar, sem se tocarem; começam a mover-se ao mesmo tempo, devagar; afastam-se, sem nenhuma delas olhar para trás.

▪ Simbolismo da despedida: como a nota ”ambas dão um beijo rápido, breve, no ar, não se tocam, nem tal seria possível” deixa entender, este encontro é, na realidade, o encontro de George consigo mesma, com a recordação de um passado que não deixou saudades, a que não quer voltar, mas onde havia uma jovem, Gi, que nunca deixou de a acompanhar, isto é, que nunca se apagou da sua memória. Por se tratar de uma mera memória, a despedida não causa dor, visto que Gi permanecerá no passado, sempre jovem e sempre presente na memória de George. Por se tratar de uma mera memória, “não seria possível”, de facto, que as duas se tocassem: uma era apenas memória.

▪ A aproximação e o afastamento destas duas personagens revestem-se de mistério, de estranheza e ambiguidade. Alguns elementos fantásticos determinam estes efeitos: as feições incertas do rosto de Gi comparadas ao que acontece com o rosto das pessoas mortas, o rosto esfumado de Gi quando chega perto de George, a estranheza de Gi continuar jovem cerca de 23 anos depois, o beijo dado por Gi e George em que «não se tocam, nem tal seria possível».

▪ Em suma, Gi representa a imagem de George quando tinha 18 anos que esta imagina encontrar no seu regresso à terra onde nasceu e se criou.


38.º parágrafo

▪ No comboio, George tem consciência de que o passado ficou definitivamente para trás. Ao vender a casa dos pais, não lhe resta qualquer motivo para regressar. Nem ela o quer.

▪ No entanto, sente uma certa nostalgia pelo seu passado, por tudo o que ficou para trás na sua vida.

▪ Não obstante, uma parte de si mantém-se distante, livre de emoções: “uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não.”.

▪ As lágrimas simbolizam precisamente essa fragmentação de George: a lágrima nostálgica do olho direito e a recusa dessa nostalgia através do olho esquerdo, que recusa a emoção.


39.º - 40.º parágrafos

▪ A partir do 39.º parágrafo dá-se o encontro de George com Georgina.

▪ Este segundo encontro é semelhante ao primeiro: gradual, pouco nítido, visto que ambas surgem com contornos indefinidos e difusos que, gradualmente, se tornam mais nítidos.

▪ Note-se que George resiste ao aparecimento de Georgina, dado que fecha os olhos e tenta dormir. Parece mesmo encará-la com alguma hostilidade, visível nas expressões «velha» e «atirar à cara», bem como na forma como decide terminar o encontro, aludindo a uma dor de cabeça.

▪ Retrato da figura misteriosa (Georgina):
- senhora de idade (eufemismo), uma mulher velha
- mãos enrugadas
- uma carteira preta, cara, italiana – sinal exterior de riqueza
- sorri, um sorriso diferente do de Gi
- cabelo pintado de acaju
- rosto pintado de vários tons de rosa, discretamente mas sem grande perfeição
- boca esborratada

▪ A interrogação “porque havia de ter?” aponta para a metamorfose da figura feminina, salientando a sua evolução e transformação: o sorriso de uma mulher velha não é igual ao seu enquanto jovem.


41.º parágrafo e seguintes – diálogo entre George e Georgina

▪ Retrato de Georgina:
- quase 70 anos
- só
- vive de recordações
- sabe que George vive numa casa mobilada
- adivinha o que George sente

▪ Caracterização de George:
- 45 anos
- sente-se velha por vezes
- está a chorar
- gosta do seu trabalho
- irritada, não quer assumir a tristeza que, involuntariamente, sente

▪ Simbologia de Georgina e do encontro com George:

1.º) Georgina é fruto da imaginação de George. Aparece do nada e, quando George abre os olhos, já lá não está, “desapareceu”. Fala sem ter voz, mas George consegue ouvi-la. Estes dados permitem concluir que Georgina não existe, é imaginada por George, pelo que corresponde ao que ela supõe que poderá ser no futuro, daí a cerca de vinte e cinco anos.

2.º) Georgina, enquanto projeção da personagem, sabe tudo sobre George: (a) que só vive em casas mobiladas, (b) que está triste, (c) mas no dia seguinte terá esquecido o encontro com o passado, (d) que um dia será velha e sentir-se-á só, € que sentirá a falta de ligação à família e aos amigos, (f) que irá sentir a falta do afeto de que fugiu durante toda a vida, como simples fotografias, por exemplo.

3.º) Georgina simboliza a voz da experiência, o saber empírico que alerta George para os problemas com que se deparará no futuro, quando for velha. Dado que é um produto da imaginação de George, podemos considerar que a figura de Georgina representa o medo inconsciente do futuro por parte da protagonista do conto.

4.º) Georgina lembra a George que, embora as pessoas novas não pensem no assunto, a velhice chegará inevitavelmente e com ela os sentimentos de perda, solidão e abandono. É então, nesse momento, que se valorizam a família, os amigos e tudo aquilo que se perdeu ou abandonou. Daí que Georgina tenha tentado obter as fotografias que George nunca guardou.

▪ Na fase final do diálogo entre ambas, George queixa-se de uma dor de cabeça: «Dói-me simplesmente a cabeça.».
A causa desta dor é o facto de a protagonista estar a pensar o futuro, pois ela prevê que poderá ficar só, visto que não cultivou laços de amor ou de amizade. Por outro lado, essa situação poderá acarretar um grande vazio na sua vida perante a falta de raízes no que a rodeia.
Esta dor de cabeça poderá constituir também uma espécie de desculpa de que George se socorre para dar por indo o encontro com a sua imagem da velhice.


Penúltimo parágrafo

▪ George fecha os olhos e procura pensamentos mais agradáveis para fugir a essa dor: uma nova exposição, o quadro vendido que lhe rendeu muito dinheiro, a próxima viagem.

▪ George crê que a fuga a essa dor, a essa preocupação com o futuro, a esse vazio que tanto teme, reside no dinheiro e no êxito enquanto pintora, que lhe trará mais dinheiro. Para ela, quem tem dinheiro nunca está só.

▪ George tenta convencer Georgina, o seu «eu» futuro dessa verdade, porém ela já lá não está. Esfumou-se.

▪ Só nesta parte do conto se fica a conhecer o nome de George com quase 70 anos: Georgina. Desta forma, o narrador clarifica a dinâmica do conto, entre a realidade da personagem, a sua memória e a sua imaginação.


Último parágrafo

▪ A sensação de asfixia desaparece: «O calor de há pouco foi desaparecendo e agora não há vestígios daquela aragem de forno aberto.».

▪ George sente-se agora «tranquilizada». Depois das suas viagens ao passado e ao futuro, a protagonista sente-se tranquila, pois vai voltar a casa e, por outro lado, convence-se de que, graças ao seu dinheiro, na velhice, não será uma pessoa só, ao contrário do que Georgina prognosticara.

▪ Além disso, em breve estará de novo em casa, em Amesterdão, onde «vai morar com o último dos seus amores. No entanto, fica sempre no ar a dúvida, a incerteza: «durante quanto tempo?».

▪ O comboio constitui a representação real da viagem do passado para o futuro.

▪ Findo o conto, pode concluir-se que George desvalorizou a mensagem de Georgina, traduzindo isto, talvez, a incompreensão da velhice por parte dos mais novos, «pois esta idade só é verdadeiramente compreendida e sentida por quem a atinge e vive as limitações e o sofrimento que ela implica.». (Manual Palavras 12, p. 170)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Resumo do capítulo VIII de Viagens na Minha Terra

O autor contempla a charneca, uma vegetação épica situada entre o Cartaxo e Santarém, descrevendo-a de forma poética como um lugar ímpar, quase chegando ao ponto de versejar. Não obstante, nega que seja romântico.
Para se distanciar do romantismo indesejado, conta que o companheiro de viagem lhe chamou a atenção para o facto de ali ter ocorrido a última revista do imperador D. Pedro ao exército liberal. Esta referência fá-lo recordar a guerra civil, e todas as guerras, reconhecendo que nenhuma delas tem um vencedor. De seguida, nega que seja um filósofo (que basicamente se opõe a qualquer guerra), e afirma que apenas sente tristeza ao pensar nesse assunto.
Desanimado pelos últimos temas focados, chega à ponte da Asseca.

Resumo do capítulo VII de Viagens na Minha Terra

O autor compara um passeio pelas ruas de Paris, com os seus monumentos e o seu movimento, dentro de um carro motorizado e suspenso por molas – o que já considera uma grande experiência, à sua chegada ao Cartaxo montado numa mula, e sustenta que esta é superior àquela. Explica que é um erro dos que não viajam, que não saem de Lisboa, acreditar que todas as praças são iguais às da sua cidade, ressaltando a singularidade do Cartaxo.
Ao chegar a um café discorre sobre as qualidades da bebida, afirmando que, de acordo com o tipo de café, é possível saber em que género de país está. Ironicamente, descreve o «magnífico» estabelecimento, do tamanho do seu quarto, com utensílios pendurados e moscas pousadas. Mantém um breve diálogo com o dono do espaço, que, quando questionado sobre as novidades da região, responde que só são novidades as notícias provenientes de Lisboa.
Enquanto passeia pelo Cartaxo, ressalta a sua importância – e de Portugal – pela produção de bebidas alcoólicas, como influenciadora de grandes acontecimentos, guerras e revoluções, pela Europa.

Resumo do capítulo VI de Viagens na Minha Terra

Neste capítulo, Garrett enceta um outro tipo de viagem, pelo mundo das ideias.
Assim, começa por ressaltar a sua identificação com Camões, que considera um escritor à frente do seu tempo, valorizando a mistura que fez da cultura cristã com a mitologia grega n’Os Lusíadas, nas suas palavras «a Ilíada dos povos modernos».
A seguir, compara outras obras grandiosas, como a Divina Comédia, de Dante, ou Fausto, de Goëthe, ao poema épico de Camões, destacando as semelhanças que contêm: a fé em Deus, no ceticismo e na pátria, respetivamente. Neste contexto, decide então que a sua se norteará pela sua fé em Camões e lamenta que os autores contemporâneos, vivendo numa época de maior liberdade, não sejam tão despojados quanto os que citou, que viveram em tempos de trevas e, não obstante, produziram obras grandiosas.
De seguida, toma a decisão de viajar para o inferno, ou melhor, para a região dos Elísios, da Estige e do Cócito citando Dante , onde «se pode parlamentar com os mortos sem comprometimento sério», visto que deseja fazer algumas perguntas ao Marquês de Pombal, figura controversa da política portuguesa e adepto do despotismo esclarecido. Lá encontra-o num jogo de cartas com aqueles que, antes, tinham sido seus inimigos políticos. Isto fá-lo observar que não há amigos ou inimigos políticos a partir sua entrada na «eternidade». O autor fracassa na sua tentativa de questionar o Marquês, que desconversa e sai.
Volta então ao mundo real e à sua viagem a Santarém, a qual está agora na região do Cartaxo.

Resumo do capítulo V de Viagens na Minha Terra

O autor e os seus companheiros de viagem chegam ao pinhal da Azambuja, cuja visão o deixa surpreendido, pois tudo era bastante diferente do que imaginara para aí colocar os seus heróis romanescos. De facto, a vegetação era rala e ocupava pouco espaço, o que iria comprometer a escrita do seu livro. A este propósito, perde-se numa tentativa de explicar ao leitor como eram construídos os livros na época, denunciando a sua falta de originalidade e o seu artificialismo. De facto, a literatura romântica seguia uma espécie de receita: uma ou duas damas, um pai, dois ou três filhos, um criado velho e um vilão eram as personagens; de seguida, utiliza-se um pouco do que existe nas obras antigas e está pronto o livro. Em contraste, argumenta que um romance construído de outra forma, mais detalhada e realista, implicaria um trabalho porfiado de pesquisa, algo e, que os escritores não teriam interesse. Trata-se, em suma, de uma forte crítica à literatura romântica cultivada em Portugal, que constituía uma imitação caricatural da má literatura europeia.
Posteriormente, enumera algumas hipóteses pelas quais o pinhal teria ido embora dali, concluindo que estava «consolidado», num óbvio trocadilho com o termo financeiro usado nos orçamentos públicos.
O choito (isto é, o trote de passo curto) de uma mula fá-lo recordar a figura excêntrica de um marquês que gostava desse movimento animal, tanto que, mesmo em Paris, abria mão do conforto de transportes com molas para «choitar» num veículo menos moderno, alegando que nele encontrava «propriedades tonipurgativas».

Resumo do capítulo IV de Viagens na Minha Terra

A propósito da inocência e da modéstia, que ele considera mais importante que a primeira, o narrador cita alguns filósofos, procurando imprimir um cunho de erudição à sua obra.
Nesta senda, considera não existir qualquer problema no facto de um político, um ministro, ser também filósofo ou poeta, contrariamente àquilo que o leitor poderia pensar.
Regressando à questão da modéstia, defende que o seu excesso num homem pode constituir um defeito, visto que lhe causaria acanhamento. No entanto, numa mulher será sempre uma qualidade, dado que realça a sua beleza.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Resumo do capítulo III de Viagens na Minha Terra

O autor dialoga com o leitor, afirmando que irá dececioná-la por não descrever a estalagem de acordo com os cânones literários da época, que exigiriam um estilo mais romântico.
De seguida, retoma a questão do materialismo predominante na sociedade, observando as desigualdades sociais e interrogando-se sobre “o número de indivíduos que se deve condenar à miséria para poder gerar um rico”.
Contrapõe então a literatura romântica, espiritualista, citada no início, à realidade materialista do mundo e constata que a literatura da época era hipócrita.
Por fim, decide que fará a descrição da estalagem simplesmente como a viu: cercada de pessoas repugnantes e com maus serviços – cita mesmo uma limonada feita com limões estragados e água suja que, no entanto, ainda não lhe havia feito mal. Acaba o capítulo referindo que se dirigirá a seguir para o pinhal da Azambuja.

Resumo do capítulo II de Viagens na Minha Terra

O autor congratula-se pelo ideal que norteia a sua obra: não fazer um mero relato geográfico, como diz ser costume da época, mas ir mais além, abordando vários temas.
De seguida, compara o romance de Miguel de Cervantes, D. Quixote, com uma teoria filosófica que divide o mundo entre espiritualismo e materialismo, sendo a figura de D. Quixote o representante do primeiro e Sancho Pança, o seu escudeiro, do segundo. Acrescenta que, na atualidade, o mundo é caracterizado pelo materialismo de Sancho, mas o progresso ocorre tendo por base a alternância entre os dois princípios.
Ao desembarcar em Vila Nova da Rainha, lamenta a feiura do local e contenta-se com uma carroça oferecida por certa figura, o que constitui um luxo, tendo em conta o local onde se encontra.
A propósito da virtude, cita um antigo filósofo, contrapondo-o a um dito de um pensador recente, que considera a sabedoria antiga um sofisma, ou seja, uma afirmação enganosa: para o autor, porém, se a sabedoria antiga se mantém, é porque alguma verdade nela existe.
De seguida, reflete de forma irónica acerca da situação das estradas da região, que se encontram malcuidadas, e afirma que uma solução para os problemas das estradas portuguesas seria obrigar os ministros a mudar de residência de três em três meses.
Os viajantes dirigem-se para a próxima localidade, a Azambuja, e mostram o seu incómodo com o caravançal, uma espécie de hospedagem, que está em estado de acentuada decadência, quase em ruínas, e com a aridez da região.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Resumo do capítulo I de Viagens na Minha Terra

O narrador começa por explicar a inspiração que recebeu do clima prazeroso da sua terra para, ao contrário de Xavier de Maistre, viajar além do seu quarto e relatar tudo o que lhe acontecesse.
A viagem tem lugar em 1843, inicia-se em Lisboa e termina em Santarém. Enquanto navela pelo rio Tejo, aprecia a vista de Lisboa e avalia características das localidades que vai atravessando. Numa atitude que, hoje, seria considerada como «politicamente incorreta» e prejudicial ao clima, acende um cigarro, valorizando o prazer de fumar a bordo um bom Havana, «uma das poucas coisas sinceramente boas que há no mundo”.
Durante a viagem gera-se uma discussão entre dois grupos de viajantes: os ílhavos, homens da região de Ílhavo, ligados à navegação no rio Vouga, e os campinos, ou Bordas d’Água, homens de Alhandra, região do Ribatejo (ou seja, região acima do Tejo), que praticavam o forcado, isto é, uma atividade semelhante à tourada. A disputa centrava-se em saber quem era mais forte e culminou com a «vitória» dos de Ílhavo, pois estes tinham de lutar com o mar, enquanto os campinos o faziam com um touro, e o mar era muito mais desafiador do que os animais.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Viagens na Minha Terra : contexto português

Nesta época, surgiu, em Portugal, uma burguesia de caráter rural que aspirava ao poder e a viver ao nível da burguesia já existente. Era uma burguesia de pequenos rurais, cujo poder que possuía advinha sobretudo do dinheiro e que desejava investir na terra, detida pelo clero. Esta classe social era, pois, a que possuía mais imóveis, fonte de poder que se estendia também às letras e ao ensino (poder intelectual).
No entanto, determinados fatores contribuíram para a perda desse poder por parte do clero:
- a ação de Mouzinho da Silveira;
- a ação de Joaquim António de Aguiar ("Mata-Frades").

Ao chegarmos à segunda década do século XIX (vésperas da Revolução Liberal), Portugal vivia uma situação de crise em diversos planos da vida nacional:
crise política, que se evidencia pela ausência do rei e da corte no Brasil, tornando-se o Rio de Janeiro a capital portuguesa, onde se sediaram os órgãos de administração. Em 1815, o Brasil foi elevado à categoria de reino e, em 1821, D. João VI embarcou para Portugal. Porém, o movimento separatista já se tornara muito forte no Brasil e, em 1822, deu-se a independência daquela colónia portuguesa;
crise ideológica, sobretudo graças à alteração das ideias políticas, considerando-se a monarquia absoluta como um regime obsoleto, opressivo;
crise económica, resultante designadamente da emancipação económica do Brasil que, após a independência, começou a estabelecer contactos económicos com outros países, quando anteriormente eram exclusivamente com Portugal;
crise militar, originada pela presença de oficiais ingleses em altos postos do nosso exército. Com essas presenças, os nossos oficiais veem-se preteridos nas promoções, o que causa uma sensação de mal-estar no exército e conduz à instabilidade.

Foi nesta conjuntura que surgiu a Revolução Liberal de 1820, por impulso de um conjunto de burgueses do Porto, homens politicamente doutrinados que frequentavam o Sinédrio, onde se reunia um grupo de intelectuais.
Na tentativa de modificar a situação, este grupo começou por receber a colaboração de militares das guarnições do norte e, mais tarde, de militares do sul e a revolução acabou por não encontrar resistência. Pelo contrário, foi bem aceite.
Surgem então novas classes e estabelecem-se novas relações sociais: a nova burguesia cria medidas protecionistas para os seus negócios. Mas as pessoas pertencentes ao povo rural eram, quase na totalidade, analfabetas, pelo que a revolução não trouxe igualdade cultural.
Estas transformações vinham na sequência da acumulação de novos temas discutidos por intelectuais, que se reuniam em tertúlias literárias. Uma das mais conhecidas foi a da Marquesa de Alorna, na qual participavam figuras como Alexandre Herculano e Filinto Elísio.
A partir daqui, reforça-se a ideia de que a literatura devia ser um instrumento de transformação de uma nação, transformação que carregava consigo um novo estilo, novas aspirações. Simultaneamente, há também um novo acesso das massas burguesas à cultura: passa a ler-se mais e aparecem novos periódicos.
É cerca da terceira década do século XX que surgem os primeiros poemas portugueses considerados como marco do nascimento do Romantismo pátria lusa; são os poemas Camões e D. Branca de Almeida Garrett, que tinha feito a sua formação na Europa, onde estivera exilado.
Mas será que deveremos considerar estes dois poemas acima citados como iniciadores do Romantismo português?
Não propriamente, porque não são obras com cariz totalmente romântico. Surgem isolados num contexto social e estético-literário, não estabelecendo por si uma corrente literária autónoma e sistematizada. Estes poemas não apresentam ainda um corte radical com os modelos arcádicos, sobretudo no campo formal. É mais correto escolher uma data posterior à da publicação destes poemas para marcar a data da verdadeira implantação do Romantismo em Portugal. Essa data é o período que decorre entre 1835 e 1837 e que coincide com a fase seguinte à do regresso dos emigrantes e exilados devido à guerra civil interna.

Em síntese, podemos afirmar que a introdução do Romantismo em Portugal se ficou a dever sobretudo a dois emigrados: Alexandre Herculano e Almeida Garrett.


Síntese – Contextualização



. Finais do século XVIII, início do século XIX:


a) Europa – Revolução Industrial
– Revolução Francesa – Alemanha
– Romantismo europeu – Inglaterra
– França (mais tarde)


b) Portugal    – Invasões francesas e fuga da família real para o Brasil;
– Revolução Liberal (1820);
– Decadência dos ideais liberais, devido aos interesses da burguesia (materialismo) – Liberalismo de fachada;
– Afirmação do Romantismo: românticos vintistas (Garrett e Herculano).


c) Autor       – Adesão ao Liberalismo;
(Garrett)      – Exílios (em França e Inglaterra);
– Adesão ao Romantismo;
– Crise afetiva e moral: desilusão amorosa; desilusão política; desilusão estético-literária.


d) Obra     – Génese: 1843 (na revista "Universal Lisbonense", em folhetins);
– Publicação em livro: 1846.


e) Assunto – Viagem de Garrett a Santarém a convite de Passos Manuel.


f) Intenção – Fazer uma crónica sobre a viagem, refletindo sobre a sociedade portuguesa, sobretudo sobre a situação do país na primeira metade do século XIX.


De forma mais simples, na sequência das Invasões Francesas (1807-1810), as ideias liberais começaram a difundir-se e a ganhar adeptos.
A família real, fugindo das tropas napoleónicas, deslocara-se para o Brasil e, expulsos os franceses, o poder ficou nas mãos dos ingleses, que tinham vindo para Portugal para auxiliar no combate àqueles.
Em 1820, deu-se a revolta militar no Porto, a favor do liberalismo.
Ainda em 1820, eclode a Vilafrancada, a favor do Absolutismo.
Inicia-se então uma guerra civil entre liberais e absolutistas.

Em 1851 iniciar-se-á um período designado Regeneração.

Viagens na Minha Terra : contexto europeu

a) Antecedentes filosóficos:
Por detrás do Romantismo está uma conceção filosófica que se apoia na teoria de vários filósofos, como Kant, para o qual o conhecimento não podia apreender a verdadeira realidade das coisas; o conhecimento da realidade era um conhecimento mediatizado, deformado, porque não captava a realidade em si mesma.
Esta teoria de Kant foi explorada por Schlegel e Schelling e, em termos literários, estas ideias traduzem-se como menosprezo da realidade objetiva e têm como consequência a valorização do devaneio, da evasão. Valoriza-se a empatia entre o homem e o universo, aceita-se a dimensão do sonho e do inconsciente; valoriza-se o misticismo, que se funde com o natural e o sobrenatural.


b) Antecedentes sociais:
Rousseau (1712-1778) foi um dos teóricos que influenciou a mentalidade do final do século XVIII, através das ideias expressas em obras como Contrato Social (1762), em que procura conciliar a natureza livre do homem com a orgânica da sociedade – há uma espécie de contrato entre o indivíduo e a sociedade, que tinha que preservar os direitos do homem; e Emile, obra em que propõe uma nova pedagogia fundamentada na livre espontaneidade da criança sem coartar os seus instintos naturais.
No entanto, a sua teoria principal e mais marcante é aquela, segundo a qual o homem é bom por natureza, a sociedade é que o corrompe. Deste modo, é necessário que volte ao contacto com a natureza.
O Romantismo propicia uma nova visão da natureza, com ênfase para o pôr do sol; o poeta fá-la confidente e participante dos seus sentimentos e, portanto, o estado da natureza, tal como o Romantismo a descreve, favorece a implantação e o devaneio, "a livre expressão da sensibilidade".


c) Antecedentes históricos e políticos:
Por esta altura, começam a sentir-se as repercussões da Revolução Francesa: exaltam-se os princípios da liberdade e surge uma mentalidade que favorece a revolta contra a ordem estabelecida. Surgem também movimentos em defesa dos direitos do homem e da sua livre expressão, que passa pela livre expressão dos sentimentos. Valoriza-se a sensibilidade e a imaginação.
O ambiente de liberdade causa nas pessoas ambições desmesuradas e, paralelamente, surgem também os primeiros indícios de instabilidade social e política, o que gera no indivíduo um sentimento de frustração e desalento.

Deste ambiente social, político e histórico resulta a consciência de que está em formação um novo homem, que acredita em si e nas suas capacidades, que procura realizar o seu destino, que goza a sua liberdade e os seus direitos, mas é simultaneamente um homem que se sente limitado, porque não consegue realizar algumas das ideias por que lutou.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Retrato de Frei Jorge

▪ Confidente.
▪ Desempenha também a função de coro: comentários, profecias (presságios).
▪ Prenuncia o desfecho do conflito dramático.
▪ Tem a função de despertar a revelação dos pensamentos escondidos das personagens principais.
▪ Contribui para que os acontecimentos trágicos sejam suavizados por uma perspetiva cristã.
Frei Jorge Coutinho, irmão de Manuel de Sousa, amigo da família e confidente nas horas de angústia, ouve a confissão angustiada de D. Madalena. Vai ter um papel importante na identificação do Romeiro, que, na sua presença, indicará o quadro de D. João de Portugal.

Retrato de Telmo Pais

▪ Não nobre: é um escudeiro.
▪ Liga sempre à nobreza (primeiro à família de D. João e depois de Manuel de Sousa).
▪ Confidente de D. Madalena.
▪ Elo de ligação das famílias (de D. João e de Manuel de Sousa).
▪ Chama viva do passado: alimenta os terrores de D. Madalena.
▪ Desempenha três funções do coro das tragédias clássicas:
- diálogo;
- comentário dos acontecimentos (apartes);
- profecia (agouros/presságios).
▪ Conflito interior: dividido entre a fidelidade a D. João e a fidelidade a D. Madalena.
▪ Sebastianista.
▪ Ligado à lenda romântica sobre Camões.
Telmo Pais, o velho criado, confidente privilegiado, define-se pela lealdade e fidelidade. Não quer magoar nem pretende a desgraça da família de D. Madalena e Manuel, mas como verdadeiro crente no mito sebastianista, acredita que D. João há de regressar. No final, acaba por trair um pouco a lealdade de escudeiro pelo amor que o une à filha daquele casal.

Retrato de Maria de Noronha

▪ Treze anos.
▪ Nobre: sangue dos Vilhenas e dos Sousas (I, 2); o epíteto de “dona bela” (I, 2).
▪ Precocemente desenvolvida, física e psicologicamente (I, 2,3 e 6).
▪ Doente: sofre de tuberculose (a doença dos românticos).
▪ Culto de Camões: evoca constantemente o passado (II, 1).
▪ Sebastianista: culto de D. Sebastião, o que martiriza a mãe involuntariamente (II, 1).
▪ Vive no pressentimento de que qualquer coisa terrível estava iminente sobre a família.
▪ Perspicaz, dotada de poderosa intuição e do dom da profecia (I, 4; II, 3; III, 12).
▪ Marcada pelo Destino: a fatalidade atinge-a e destrói-a (III, 12).
▪ Modelo da mulher romântica: a mulher-anjo bom.
▪ Ao idealizar esta personagem, Garrett estaria a pensar na sua filha Maria Adelaide, igualmente não legitimada por um casamento válido.
Maria de Noronha tem 13 anos, é uma menina bela, mas frágil, com tuberculose, e acredita com fervor que D. Sebastião regressará. Tem uma grande curiosidade e espírito idealista. Ao pressentir a hipótese de ser filha ilegítima sofre moralmente. Será ela a vítima sacrificada no drama.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Retrato de D. João de Portugal

▪ Nobre: família dos Vimiosos (I, 2).
▪ Cavaleiro: combate com o seu rei (D. Sebastião) em Alcácer Quibir.
▪ Evoca o nome bíblico de João, o apóstolo de Jesus Cristo.
▪ Ama a Pátria e o seu Rei.
▪ Representante da época de ouro portuguesa.
▪ Imagem da Pátria cativa.
▪ Ligado à lenda de D. Sebastião.
▪ Nos dois atos iniciais, é uma personagem abstrata: existe somente nos pensamentos de D. Madalena, Maria e Telmo (e até de Manuel de Sousa Coutinho e Frei Jorge); torna-se uma personagem concreta no ato III na figura de romeiro.
▪ Personagem simbólica: espécie de personificação da fatalidade, do Destino que vai precipitar o desenlace trágico.
▪ No final da obra, ninguém se compadece dele como marido ultrajado, mas das outras personagens.
O Romeiro apresenta-se como um peregrino, mas é o próprio D. João de Portugal. Os vinte anos de cativeiro transformaram-no e já nem a mulher o reconhece. D. João, de espectro invisível na imaginação das personagens, vai lentamente adquirindo contornos até se tornar na figura do Romeiro que se identifica como Ninguém. O seu fantasma paira sobre a felicidade daquele lar como uma ameaça trágica. E o sonho torna-se realidade.

Retrato de Manuel de Sousa Coutinho

▪ Nobre: cavaleiro de Malta (só os nobres ingressavam nessa ordem religiosa) (I, 2 e 4).
▪ Evoca o nome bíblico de Emanuel (Deus connosco): paz de consciência, desprendimento dos bens materiais e da própria vida (I, 11).
▪ Racional: deixa-se guiar pela razão, no que contrasta com D. Madalena.
▪ Guiado pela razão, toma as suas decisões à luz de um conjunto de valores universais: a liberdade, a moral, a honra, o nacionalismo (por exemplo, a resposta dada às tentativas dos governadores, incendiando o palácio).
▪ Bom marido e pai terno (II, 7; I, 4).
▪ Corajoso, audaz, determinado e decidido (I, 7, 8, 9, 11, 12, 19; III, 8).
▪ Marcado pelo Destino (I, 11; II, 3 e 8).
▪ Após o aparecimento do Romeiro, deixa-se perturbar pela emoção, revelando-se então uma personagem mais romântica do que clássica.
▪ Encarna o mito romântico do escritor: refúgio no convento, que lhe proporciona o isolamento necessário à escrita.
Manuel de Sousa Coutinho (mais tarde Frei Luís de Sousa) é um nobre e honrado fidalgo que queima o seu próprio palácio, para não receber os governadores. Embora apresente a razão a dominar os sentimentos, por vezes estes sobrepõem-se quando se preocupa com a doença da filha. É um bom pai e um bom marido.

Retrato de D. Madalena de Vilhena

▪ Nobre: “família e sangue dos Vilhenas” (I, 8); o epíteto de “dona” só era dado no século XVII às senhoras da aristocracia.
▪ Sentimental: deixa-se arrastar pelos sentimentos muito mais do que pela razão.
▪ Pecadora: o nome “Madalena” evoca a figura bíblica da pecadora com o mesmo nome.
▪ Religiosa; não compreende, todavia, que o amor de Deus possa exigir o sacrifício do amor humano.
▪ O amor de esposa sobrepõe-se ao amor de mãe.
▪ Torturada pelo remorso do passado: não chega a viver o presente por impossibilidade de abandonar o passado, que a deixa constantemente aterrorizada.
▪ Redimida pela purificação no convento, que constitui a saída romântica para a solução dos conflitos.
▪ Modelo da mulher romântica: para os românticos, a mulher ou é anjo ou diabo.
▪ Marcada pelo Destino: amor fatal; ligada à lenda dos amores infelizes de Inês de Castro (I, 1).

D. Madalena de Vilhena é a primeira personagem que aparece na obra, mas pode afirmar-se que toda a família tem um relevo significativo. São as relações entre esposos, pais e filha, o criado e os seus amos ou mesmo o apoio de Frei Jorge que estão em causa. Um drama abate-se sobre esta família e, enquanto Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena se refugiam na vida religiosa, Maria morre como vítima.
D. Madalena tinha 17 anos quando D. João de Portugal desapareceu na batalha de Alcácer Quibir. Durante sete anos procurou-o. Há catorze anos que vive com Manuel Coutinho. Tem agora 38 anos (17+21). Mulher bela, de carácter nobre, vive uma felicidade efémera, pressentindo a desventura e a tragédia do seu amor. Racionalmente, não acredita no mito sebastianista, que lhe pode trazer D. João de Portugal de volta, mas teme a possibilidade da sua vinda. É com medo que a encontramos a refletir sobre os versos de Camões e a sentir, como que em pesadelo, a ideia de que a sobrevivência de D. João destrua a felicidade da sua família. No imaginário de D. Madalena, a apreensão torna-se pressentimento, dor e angústia. É neste terror que se vê na necessidade de voltar para a habitação onde com ele viveu.

A École Dynamique


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A viagem em Viagens na Minha Terra

A viagem constitui a ação central da obra. Iniciando-se no capítulo I e terminando no capítulo XLIX; constitui o nível em que de imediato se vai cumprindo o projeto de "crónica" anunciado pelo narrador. Trata-se, pois, de um percurso seguido por um viajante e pelos seus companheiros de jornada, percurso balizado, do ponto de vista temporal e espacial, pelo narrador da seguinte forma: em termos temporais, a viagem decorre desde 17 de julho de 1843, uma segunda-feira, sensivelmente até sábado; em termos espaciais, os marcos fundamentais da viagem serão Lisboa e Santarém, com regresso a Lisboa e com uma dupla paragem no Vale de Santarém. E já aqui a viagem começa a revelar-se algo mais do que um simples trajeto geográfico: é que o narrador segue até certo ponto o exemplo de Xavier de Maistre, mencionado logo no primeiro parágrafo, depois de ter sido citado nesse lugar estratégico que é a epígrafe, mas tende a superar esse exemplo, indo mais longe e refletindo em profundidade. A "circularidade" da viagem de X. de Maistre cumpre-se também, mas de forma mais alargada: ir a Santarém e regressar ao ponto de partida é levar a cabo um movimento circular, todavia muito mais amplo do que o permitido pelo espaço apertado de um quarto, assim se conferindo uma outra dimensão às alusões simbólicas que a circularidade pode sugerir (acabamento, perfeição, completude). Ao longo desta viagem, Garrett revela um grande amor pelas coisas nacionais e uma profunda angústia perante a degradação do património cultural às mãos de uma sociedade materialista insensível aos valores do espírito.
Há uma certa descontinuidade na apresentação dos vários locais de passagem (Alhandra, Vila Franca, Vila Nova da Rainha, Azambuja, Cartaxo, Charneca, Vale de Santarém e Santarém), que são descritos muito sumariamente ou apenas referidos. As primeiras localidades referidas são a Azambuja (a estalagem e o pinhal) e o Cartaxo (o café). Todavia, nenhum destes espaços é objeto de uma descrição pormenorizada e sistemática; são apenas genericamente esboçados e servem os objetivos de intervenção crítica de Garrett: através da descrição da estalagem (cap. III), denuncia o convencionalismo da literatura romântica da época; o desencanto da chegada ao pinhal da Azambuja (cap. V) vai motivar uma vigorosa crítica à falta de originalidade da literatura contemporânea e uma chamada de atenção para o estado de abandono em que se encontra aquele monumento nacional; a paragem no café do Cartaxo (cap. VII) é pretexto para criticar a autossuficiência e a tacanhez dos lisboetas, que não viajam, "cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a Rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare".
No capítulo VIII, entra-se na charneca ribatejana, aproveitando o autor para reconstituir a beleza clássica de "uma jovem seara do Ribatejo nos primeiros dias de abril" e de "um campo minhoto de milho" em agosto, contrapor-lhe a solenidade romântica de "um bosque antigo e copado" e exprimir a sua emoção perante a charneca. Todavia, Garrett não se detém na contemplação do exterior; a paisagem é para ele, como para os românticos, a ponte para o sonho, o devaneio ou a meditação.
No final do capítulo IX, o narrador atinge o Vale de Santarém que, patrioticamente, considera "um dos mais lindos e deliciosos sítios da terra". A descrição da paisagem aparece logo no início do capítulo X, que funciona como prólogo da novela. Garrett começa por dar uma visão geral da beleza edénica da paisagem, para de seguida ir particularizando, parágrafo a parágrafo, até chegar à reconstituição de "um vulto feminino que viesse sentar-se" ao "balcão" da "janela meio aberta de uma habitação antiga", situada num "maciço de verdura", à esquerda do Vale.
A idealização da paisagem do Vale, em que se acentuam o caráter primitivo e a "harmonia suavíssima e perfeita", serve de enquadramento adequado à apresentação de Joaninha, a heroína da novela. Dir-se-ia que a inocência e a pureza ideais de Joaninha ditaram a idealização da paisagem.
A introdução do 1.º ato da novela interrompe a narrativa da viagem, que só é retomada no capítulo XXVII, com a chegada às proximidades de Santarém, aproveitando Garrett para novamente se insurgir contra o estado de abandono do património, representado pelos olivais de Santarém.
Chegado ao alto da vila, inicia-se a enumeração, mais ou menos descritiva, dos monumentos de Santarém (conventos, mosteiros, palácios, ruas mouriscas, casas senhoriais, etc.), que o narrador reencontra, na sua maioria descaraterizados por sucessivos restauros e transformações, no caminho para a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, junto da qual mora Passos Manuel. São esses "reparos e transformações" que fazem com que só consiga identificar aquela velha igreja quando lha mostram.
Chega, finalmente, aos "palácios de D. Afonso Henriques", habitados pelo chefe do partido progressista, Passos Manuel. Ao jantar discute-se política, literatura, Santarém, "sobretudo das suas ruínas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente".
Na manhã seguinte, acordado pelos sinos da Alcáçova, o narrador vem à janela e observa, extasiado, a paisagem do Tejo e povoações ribeirinhas (Almeirim, Alpiarça).
No capítulo XXIX, o narrador revela que "os sublimes espetáculos da natureza" o fazem "sonhar acordado" (característica romântica), aproveitando para novamente definir o âmbito, a natureza e os objetivos da obra. A metáfora "Santarém é um livro de pedra" constitui uma síntese de quanto Garrett admirava o seu património arquitetónico. Todavia, o seu estado atual merece-lhe violentas críticas às autoridades que, há mais de um século, têm permitido autênticas profanações.
Ao almoço recordam-se as grandes figuras da História de Portugal relacionadas com Santarém e, por fim, a "madrinha e padroeira desta terra", Santa Iria ou Santa Irene. A inserção da lenda ou romance desta santa, que teria dado o nome à vila, constitui uma interrupção da viagem; na parte final do capítulo XXIX, cita-se a versão popular, em trovas, e no capítulo XXX sintetiza-se a "História de Santa Iria" segundo os cronistas e procede-se à sua comparação com o romance.
No capítulo XXXI, inicia-se a visita "de relíquias, templos e monumentos" de Santarém: junto da igreja da Alcáçova, que já está fechada, o narrador interessa-se por algumas portas e janelas trabalhadas ao gosto moçárabe; mais adiante depara com um nicho que contém um antiquíssimo busto degradado de D. Afonso Henriques; chega depois às Portas do Sol, um miradouro "triste" sobre o Tejo. E é junto da muralha ali existente que o narrador prepara a transição para a "história da Menina dos Rouxinóis", cujo 3.º acto decorrerá entre os capítulos XXXII e XXXV, numa cela do convento de S. Francisco.
No início do capítulo XXXVI, o narrador interroga o companheiro de viagem sobre o destino das personagens da novela, com especial incidência em Carlos. Promete-se o fim da "história da menina dos olhos verdes" para o dia seguinte e prossegue a viagem:
. passagem pela porta de Atamarma, franqueada por D. Afonso Henriques, quando conquistou Santarém, já muito descaracterizada por inúmeras reparações e que alguns já pensaram destruir, facto que é mordazmente ironizado como uma ideia "digna da época";
. observação do exterior da capelinha de Nossa Senhora da Vitória, fundada pelo primeiro rei de Portugal, e entrada para lamentar a destruição da "solenidade do antigo";
. observação do "arrendado e elegante frontispício gótico" da Igreja e Convento da Graça, na impossibilidade de entrar para visitar o túmulo de Pedro Álvares Cabral e outras antiguidades, por não ter sido encontrada a pessoa que guardava as respetivas chaves;
. visita à Igreja do Santo Milagre, para admirar "quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de homens e mulheres em relevo (...), relíquias da primitiva Igreja do Santo Milagre", que vários "melhoramentos" transformaram num "desgraçado e desgracioso templo";
. visita à Capela do Santo Milagre, em estilo filipino, local de "grande veneração", onde se terá operado o Santo Milagre de Santarém havido com os restos mortais da infanta D. Maria da Assunção, filha do rei D. João VI, e que hoje se encontra abandonada e em graves ruínas.
O narrador regressa à Alcáçova (casa de Passos Manuel) para "jantar" (= almoçar), continuando a sua visita de tarde, já no capítulo XXXVIII. Acabado o almoço, continua a viagem a cavalo para uma visita à Ribeira, um "subúrbio democrático", a "única parte viva de Santarém", em busca infrutífera da "tenda do Alfageme".
À noite, na alta de Santarém (Marvila), a elegância civilizada do chá em casa da Baronesa de Almeirim fá-lo-á esquecer o desconforto das ruínas suburbanas. A conversa será um pretexto para reflexões sobre a sociedade portuguesa dum modo geral, a "secante" vida na capital do "nosso pobre reino":
. espetáculos enfadonhos de S. Carlos;
. espetáculos da Rua dos Condes e o dramalhão romântico;
. o contraste com a província, onde "não há tal fastio".
Na manhã seguinte (capítulo XXXIX), continua a visita a Marvila de Santarém com passagem pelo Colégio dos Jesuítas, edifício agora convertido em sede de governo civil e que anteriormente fora estabelecimento de ensino criado pelo rei para formação dos infantes e da mocidade do distrito; agora as suas instalações abrigavam o governo dito civil, cuja tarefa era "corromper a moral do povo, sofismar o sistema representativo". E o autor aproveita para criticar a concentração de estabelecimentos de ensino em Lisboa e defender a criação da Casa Pia, Colégio Militar ou outra grande escola em Santarém.
Seguidamente, prossegue a viagem por Santarém com chegada ao mosteiro de S. Domingos, templo que tem vindo a servir de palheiro, como era fácil de verificar pela camada de palha podre e malcheirosa que ainda cobria o lajedo. Apesar disso, Garrett procura a capela e jazigo de S. Frei Gil de Santarém, evoca a sua vida lendária, os "negócios" com o Diabo e posterior salvação pelo arrependimento. Ao deparar com a minúscula e grosseira capela do Santo, sem quaisquer sinais de antiguidade e com o túmulo vazio de pedra pintada, fica completamente desiludido. Até o cadáver do santo tinha desaparecido!
No capítulo XL, recorda-se a chegada de três frades ao convento das Claras, em 1834, trazendo uma espécie de cofre com o corpo de S. Frei Gil, numa altura em que os liberais acabavam de expulsar do país as ordens religiosas. Esta evocação é aproveitada para uma chamada de atenção para a necessária tolerância liberal para com as freiras, socialmente muito úteis, ao contrário dos barões, social e politicamente parasitas.
No capítulo XLI, o narrador atinge o Convento de São Francisco de Santarém, de que fosse guardião Frei Dinis, um daqueles frades que tinham "roubado" o cadáver de Frei Gil para o entregar às freiras do Convento das Claras, a única forma de poupar os restos mortais do santo. Pouca atenção é prestada àquele convento, evocam-se as cenas finais da história de Joaninha que ali se desenrolaram e, depois da frustração face à degradação e descaracterização do património, decide-se pelo regresso a Lisboa. Mas vai ainda procurar o túmulo do rei D. Fernando (cap. XLII), sofrendo novo desgosto, porque o encontra esburacado e quase irreconhecível. Tal situação ilustra o grosseiro materialismo em que os barões mergulharam o país e leva-o a fazer previsões pessimistas sobre o destino nacional, restando-lhe somente a esperança do "povo povo", que ainda não está corrupto. Esta meditação é de extrema importância para a compreensão do significado global da obra, pois é aqui que, pela primeira vez, Garrett indica uma saída do impasse, ao contrapor às corruptoras abstracções da falsa sabedoria dos que detêm o poder, a integridade potencialmente salvadora de um concreto "povo" capaz "da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades, que se não demonstram porque se sentem".
Nessa sexta-feira, o narrador decide regressar a Lisboa. Volta a passar pela casa do Vale e assim se faz a transição para o epílogo da novela. Junto da casa encontra Fr. Dinis, única e última companhia da avó, que lhe dá a ler a carta de Carlos, cuja transcrição ocupará os capítulos XLIV a XLVIII.
A viagem é retomada no cap. XLIX, depois de um curto diálogo com Fr. Dinis a propósito de Carlos. A primeira parte do percurso é feita a cavalo, com pernoita no Cartaxo, onde o narrador sonha com eles e com barões. Este sonho está carregado de simbolismo e de ironia. As sugestões de irrealidade verdadeiramente surrealista ("céu de papel", "noite polar", e as notas de várias cores como "farrapos de neve"), a ironia e a hipérbole ("Eram milhões e milhões e milhões...") e a exploração do contraste com a realidade ("Acordei no outro dia e não vi nada... só uns pobres que pediam esmola à porta") concretizam, mais uma vez, a crítica do materialismo da "constelação de barões".
A segunda parte do percurso é feita de barco, com a chegada ao Terreiro do Paço a ocorrer às cinco horas da tarde.
Terminada a viagem, anuncia Garrett também o final da obra, admitindo-se, todavia, a possibilidade de novas viagens "por esse Portugal fora" (narrativa aberta). A obra finaliza com uma referência crítica aos caminhos de ferro que, por serem de metal e não de papel, os barões jamais construiriam. Garrett entendia que o caminho de ferro seria um melhoramento que apenas beneficiaria as classes privilegiadas e traria prejuízos às massas populares. Ao contrário das estradas "de pedra", cuja construção é vivamente recomendada.

Estrutura de Viagens na Minha Terra : níveis narrativos

É possível localizar nas Viagens três níveis narrativos distintos, para além do nível extradiegético a partir do qual se supõe que o narrador enuncia o relato:
- nível diegético: o da viagem;
- nível hipodiegético (embutido no nível diegético): a novela / a história da
"Menina dos Rouxinóis";
- nível hipo-hipodiegético: a carta escrita por Carlos a Joaninha.


Esta complexa articulação pode ainda representar-se do seguinte modo:


A entidade designada como N1 será o narrador do nível extradiegético, quer dizer, aquele que se encontra num plano exterior à história, tal como os leitores se encontram; P1 será uma personagem do nível diegético ocasionalmente feito narrador desse mesmo nível; a partir do seu relato desdobra-se um nível hipodiegético, no interior do qual se encontram personagens, ações, etc.
Nas Viagens, o nível diegético é o da viagem propriamente dita, dentro do qual se insere a história da "Menina dos Rouxinóis". Já no final da viagem, o narrador-viajante, ao passar de novo no Vale de Santarém, lê uma carta que Carlos escrevera a Joaninha, surgindo deste modo um terceiro nível diegético, o nível hipo-hipodiegético.
Esquematicamente, poderá descrever-se assim a estrutura narrativa da obra:


Como se pode observar, a novela aparece de forma fragmentada; por outro lado, o salto do nível diegético para o nível hipodiegético não é tão abrupto como aparenta. Anunciando a "história da menina dos rouxinóis como ela se contou", o narrador parece fazer uma profissão de fé na palavra do seu companheiro de viagem, narrador efetivo da novela; ao acrescentar, no entanto, que este "é o primeiro episódio da minha Odisseia", o narrador insinua o que, de facto, vai verificar-se: o apropriar-se de um relato alheio, procedendo à sua reformulação em discurso narrativizado (reelaboração de um discurso alheio) e "desvanecendo" assim esse nível narrativo segundo.
Trata-se, pois, de uma redução do hipodiegético ao diegético, de uma incorporação no nível narrativo primeiro (diegético) daquilo que se encontrava num nível narrativo segundo (hipodiegético).
Ao integrar a novela sentimental no nível narrativo que domina (o diegético), o narrador assegura o controlo também dessa novela: em complemento das inúmeras digressões que vai explanando, ele fica em condições de comentar, como e quando entender, a história de Carlos e Joaninha, extraindo dela ilações de teor crítico e ideológico; o que não seria possível se o narrador respeitasse a palavra do companheiro de viagem que contou a novela. Esta atitude de apropriação relaciona-se ainda com a apresentação fragmentada da novela: determinada também pela estratégia folhetinesca que domina as Viagens, essa fragmentação cria vários momentos de articulação entre o nível da viagem e o da novela.
A integração do nível hipodiegético no diegético é importante porque, deste modo, o narrador tende a quebrar a fronteira entre os dois níveis narrativos, fronteira que poderia obliterar as efetivas conexões que vão instituir-se entre os dois níveis. Assim, tal como o pinhal de Azambuja, o café do Cartaxo ou os monumentos de Santarém, a intriga e as personagens da novela serão dimensionadas não como elementos estranhos à viagem, mas como mais um dos seus eventos, decerto o mais importante, contribuindo para reforçar o intuito didático e persuasivo que o narrador incute ao seu discurso. O final da obra demonstra-o, quando o narrador encontra Fr. Dinis e a Avó, no regresso pelo Vale. Assim se concretiza uma metalepse: Fr. Dinis e D. Francisca, que surgiram inicialmente como personagens da novela, acabam por desembocar na viagem.

Pode, assim, propor-se uma nova configuração para a estrutura das Viagens:

Pode, pois, concluir-se que a novela, os seus incidentes e as conclusões que ela permite, vêm convergir no relato da viagem; chegado o seu final, tudo se harmoniza e o que parecia um relato fragmentário ao sabor das circunstâncias, revela-se afinal uma peça importante do todo orgânico que é a narrativa na sua totalidade.


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