I. Cronologia de Aquilino Ribeiro
II. Biografia de Aquilino Ribeiro
III. Obra de Aquilino Ribeiro
IV. Ação
1. Introdução
3. Catálises e funções cardinais
I. Cronologia de Aquilino Ribeiro
II. Biografia de Aquilino Ribeiro
III. Obra de Aquilino Ribeiro
IV. Ação
1. Introdução
3. Catálises e funções cardinais
12/12/1990
O tratamento dramático nas Coéforas, que já têm problemas de exposição a resolver, é muito mais simples e direto que no Agamémnon. Não há uma personagem protática (uma personagem como o vigia do Agamémnon que desempenha um pequeno papel e não torna a aparecer). Pelo contrário, o herói aparece logo no centro da ação na primeira parte, junto do túmulo do pai, do qual os irmãos conjurados tiram a força viva da decisão. O anel de cabelo permite o reconhecimento pela irmã, que o irmão já tinha reconhecido. Electra está excluída da ação, permanece, portanto, inteiramente nos limites da feminilidade. A sua função é salientar a íntima impossibilidade das libações enviadas por Clitemnestra e, juntamente com o coro, elevar a força de decisão do irmão ao nível do inabalável; depois desaparece.
Ao lado de Orestes fica apenas, impressionante pelo seu silêncio, a figura de Pílades, representante de Apolo, que só no momento decisivo da ação toma a palavra para lembrar a Orestes, vacilante, que está preso a Apolo.
Nas Coéforas, há apenas um momento de contemplação: o primeiro estásimo, colocado antes da realização do matricídio. De resto, não se encontra um quadro calmo, como nos Persas e nos Sete contra Tebas (peças de Ésquilo), nem uma narrativa de mensageiro, como nestas duas peças e no Agamémnon.
A grande cena lírica central, o famoso kommós (versos 306-478), é ceia de dinamismo dramático e as preces do coro ocultam, apenas ligeiramente, o pulsar violento da ação.
Significado do KOMMÓS na economia do drama e na estrutura da trilogia
A pergunta fundamental é a seguinte: que significado têm os acontecimentos desta parte do drama relativamente a Orestes? Que se passa nesta personagem durante o kommós e em que a relação estão estes acontecimentos com a ação para que a peça tende deste o primeiro verso?
Schasewaldt negou terminantemente que a decisão de Orestes à ação seja, no kommós, uma variável. Segundo este autor, o matricídio não está perante Orestes como um problema difícil de resolver; a sua decisão é firme desde o começo, ganhando apenas traços mais definidos e tornando-se a sua necessidade mais evidente para o espectador no decurso do kommós.
Contra esta interpretação se insurge Lesky, que propõe uma nova e mais sugestiva explicação. É certo que Orestes entra em cena com a sua decisão formada e que, antes do kommós, sobretudo na sua referência pormenorizada à ordem de Apolo, anuncia, com toda a segurança, esta decisão. Mas, o mais importante é que Orestes é como que conduzido externamente pela ordem de Apolo.
No kommós é que se realizará a identificação de Orestes, com o ato ordenado pelo deus, se vencerão todas as resistências ao matricídio, graças à intervenção do coro e, por fim, à colaboração de Electra. Isto explica que, no kommós, a ordem de Apolo não desempenhe qualquer papel. Um Orestes que obedecesse cegamente às ordens do deus não poderia ser objeto de um acontecimento trágico. O trágico começa, nesta peça, quando Orestes assimila o ato à sua própria vontade. O kommós pode, pois, considerar-se como a parte em que a ação das Coéforas se integra na problemática da Oresteia.
A opinião mais seguida é a de Lesky.
Verifica-se, de facto, essa hesitação de Orestes no decurso do kommós?
19/12/90
Nas Coéforas, a arte da caracterização não é inferior à arte da construção dramática.
Abordam já os anapestos (tipo de métron, é um pé métrico -u) o motivo fundamental da culpa e da expiação e as várias estrofes do párodo (o primeiro canto do coro quando entra na orquestra no início da peça) desenvolvem a aproximação da guerra com augúrios e o sacrifício de Ifigénia, de tal maneira que sentimos a maldição e o pecado como carga terrível sobre esta vitória e na situação de Agamémnon, que não quer renunciar à expedição contra Troia, mas também não quer sacrificar a sua filha e que, sob o jugo da Anankê (o destino), terá de adotar uma destas soluções, repete-se a situação trágica do rei das Suplicantes.
Note-se, porém, que o destino apenas impõe uma decisão, não impõe uma solução. Não é esta a opinião de Page.
Page afirma que Agamémnon é obrigado a fazer o que faz por compulsão (obrigação) do destino.
Fraenkel salienta que Agamémnon é posto em face de uma alternativa de dois males terríveis. Qualquer que seja o destino escolhido, conduzi-lo-á a uma falta insuportável.
Depois de violenta luta interior, resolve sacrificar a filha, plenamente consciente de que vai cometer um pecado imperdoável que terá de espiar. A desgraça que vai cair sobre Agamémnon tem a sua origem primeira nesta decisão voluntária.
Relativamente ao caráter intolerável do elemento de deserção (λιπόγαυς) da alternativa posta a Agamémnon, corrige Kitto a afirmação de Fraenkel sublinhando, com razão, que esse é o pensamento de Agamémnon, não o de Ésquilo, que é perfeitamente claro na condenação do procedimento de Agamémnon.
Vejam-se, por exemplo, os versos 219-20 em que o ato de Agamémnon é classificado de impuro, ímpio, sacrílego. Mas o problema do castigo de Agamémnon não é de fácil solução.
Sendo certo que Zeus, protetor da hospitalidade, pretende, com a expedição chefiada por Agamémnon, vingar a ofensa que lhe foi feita por Páris no rapto de Helena, como explicar que a justiça de Zeus possa admitir o castigo daquele que foi o executor da vontade divina?
Os versos 456-62 pertencentes ao primeiro estásimo permitem-nos visionar outra face do problema. Falando em nome do povo, o coro ameaça agora Agamémnon com o castigo devido ao sangue derramado por tantos cidadãos na guerra de troia.
Como conciliar os dois primeiros aspetos apontados com a exigência do terceiro?
Talvez Agamémnon seja movido não pelo desejo de vingar Zeus, mas por um motivo pessoal de vingança. Numa observação importante, Kitto diz que, para alcançar a justiça, Zeus serve-se de paixões humanas culpadas. No caso de Agamémnon, a justiça de Zeus realizar-se-ia, assim, através de um homem indigno, por isso digno de castigo, e através de uma ação, a expedição a Troia, que a divindade não quer.
A indignidade de Agamémnon estaria clara na história das Cíprias (um poema épico) com a narrativa da ofensa por ele feita a Ártemis e manifestar-se-ia ainda claramente nos excessos atingidos pela sua vingança do rapto de Helena. Os homens são, portanto, instrumentos de uma justiça que a todos toca, inclusive aos próprios. De resto, o caso da tapeçaria de púrpura mostra que Agamémnon é culpado de hybris (insolência para com os deuses).
Não é só a morte de Ifigénia que prepara a ruína de Agamémnon. Ela revela o temperamento do homem e arma o braço de Clitemnestra.
Especial significado no conjunto da trilogia tem a extraordinária cena de Cassandra, que no Agamémnon precede o assassínio. Nas visões da vidente, o olhar desce ao abismo do tempo donde sobe a cadeia de culpa e expiação a que está soldada cada uma das grandes personagens desta trilogia.
Mas, ao papel desempenhado nesta cena do Agamémnon, soma-se a sua artística integração no todo da trilogia pela ligação que nela se estabelece entre a morte da vidente, o destino de Agamémnon e a pena que ferirá Clitemnestra e Egisto pela mão de Orestes.
O apogeu da arte esquiliana é representado pela Oresteia, que, na opinião de Swinburne, "é a maior realização do espírito humano". A obra, que é a única trilogia integralmente conservada, foi representada no ano de 468. Nas Rãs, de Aristófanes, verso 1126, citam-se os versos do prólogo das Coéforas como amostra do prólogo da Oresteia.
Radermacher concluiu com justeza no seu comentário que a segunda peça (as Coéforas) primitivamente também era conhecida pelo nome de Oresteia, designação que depois foi transferida para a trilogia.
Os aspetos do curso exterior da ação já o poeta os encontrou quase todos formados, inclusivamente o caráter de Clitemnestra como criminosa (veja-se a 11.ª pítica de Píndaro).
Com a maior liberdade se comportou o poeta na terceira peça face à tradição que oferece lendas cultuais áticas sobre o acolhimento de Orestes em Atenas e o seu julgamento pelos 12 deuses. A fundação do Areópago por Atena e a ligação deste tribunal com o fim da maldição são tanto contribuição pessoal de Ésquilo como a total iluminação interior do velho mito de Zeus, por meio da sua religião, que se desenvolve para além de toda a tradição.
- Rafael, sabes quem foi Shakespeare?
- Não foi um dos piratas das Caraíbas?
Não, Shakespeare não foi Jack Sparrow...
No link abaixo, encontras um flashcard (isto é, um cartão de estudo digital que te ajuda a rever uma qualquer matéria estudada nas aulas) que te auxilia no estudo do célebre soneto de Camões "Amor é um fogo que arde sem se ver".
Bom estudo!
Clica aqui »»» flashcard-amor-é-um-fogo-que-arde-sem-se-ver
Ora bem, fazendo uma subtração simples (2026 - 1948), chegaremos à conclusão que o escritor foi para o céu com 78 anos.
Porém, quando menos a notícia, somos confrontados com a informação de que, afinal, partiu aos 98 anos. Se calhar, ainda está vivo e, na verdade, só deixará este mundo cruel em 2046.
Para repor a verdade, trata-se um lapso no título: Desmond Morris nasceu em 1928.
Ésquilo, filho de Eufórion, da velha nobreza dos Eupátridas, nasceu em 525-524 a.C., no demo ático de Elêusis.
No ano de 484 alcançou a sua primeira vitória. Estava, então, na plenitude da sua força vital, tinha quarenta anos.
Cinco anos antes tinha tomado parte, com seu irmão Cinegiro, na batalha de Maratona. Cinco anos depois combateu, com seu irmão mais novo Amínias, na batalha de Salamina.
Em 472 Ésquilo venceu com a tetralogia a que pertencem Os Persas.
Em 468 Ésquilo foi vencido por Sófocles que, com a sua primeira representação, obteve a sua primeira vitória. Este facto e a descoberta de um fragmento de uma didascália (uma espécie de ficha técnica do concurso trágico) referente ao concurso em que Ésquilo obteve o primeiro lugar com a trilogia das Danaides, Sófocles o segundo e Mésato o terceiro, permite datar as Suplicantes, primeira peça da trilogia das Danaides, até há pouco considerada a mais antiga das peças conservadas de Ésquilo, com uma data posterior à de Os sete contra Tebas, que é de 467 a.C. Um pormenor do referido fragmento recomenda para as Suplicantes a data de 463.
Pondo de lado o problema da data do Prometeu, aproximadamente 469 a.C., resta referir a vitória de 458 com a Oresteia.
O poeta morreu em 456-455 a.C., em Gela, na Sicília, por ocasião de uma segunda visita a esta ilha.
Primitivamente, os cenários eram maciços. Ainda no tempo de Ésquilo, para figurar um altar ou um túmulo, elevava-se ao fundo da orquestra um altar ou um túmulo, grosseiramente construídos. De acordo com a informação de Aristóteles, Sófocles introduz o cenário pintado. Este cenário devia cobrir a fachada da σκηνή ao fundo do proscénio.
Quanto aos maquinismos, no século V, só há a certeza do uso da μηχανή, uma espécie de guindaste que permitia elevar ou fazer descer uma personagem, por exemplo, o chamado "deus ex machina" (Eurípides fazia descer uma divindade do céu através da μηχανή.
Provas do uso do "ecciclema" (ἐκκύκλημα) só existem paea a época helenística, o que não significa, evidentemente, que não tenha sido usado já no século V. O "ecciclema" era uma espécie de plataforma rolante que saía por uma das portas do fundo, permitindo mostrar o interior da habitação e o que nela se desenrolava, como, por exemplo, um crime.
Citemos, finalmente, o brontéion (βροντεῖον), que servia para imitar o ruído do trovão. Era uma grande bacia de bronze colocada por trás da cena em que se lançavam pedras e ferros com estrondo.
O teatro grego era um teatro ao ar livre, constituído por uma colina natural, em Atenas a Acrópole, onde se talhavam os assentos para os espectadores.
Junto deste hemiciclo, o coro evoluía na orquestra, no centro da qual se erguia o altar de Dioniso.
Sobre os degraus do altar sentava-se o flautista.
Ao fundo da orquestra, frente as espectadores havia uma construção em madeira, mais tarde e pedra, a σκηνή, onde se encontravam os camarins dos atores e dos coreutas.
Em frente da σκηνή e liga a ela havia um estrado comparável ao palco dos nossos teatros.
O proscénio ( προσκήνιον / λογεῖον) estava, no século V, quase ao nível da orquestra, separado dela por apenas dois ou três degraus.
No capítulo da estrutura, uma tragédia do século quinto compõe-se dos seguintes elementos fundamentais:
a) elementos recitativos: o prólogo e os episódios;
b) elementos mélicos, ou líricos: o párodo e os estásimos.
Acrescentam-se ainda o êxodo, que aparece como o último dos episódios; os cantos episódicos, a saber, ἀμοιβαία (amoibaia, ou diálogos inteiramente líricos) e as monódias (canto de um só ator) e, finalmente, os diálogos lírico-recitativos (ou lírico-epirremáticos).
O κομμός era um amoibaion entre o coro e o ator com conteúdo trenético (lamentoso, fúnebre).
O PowerPoint pode ser consultado e descarregado aqui: »»».
Na aula onde se divaga sobre Os Maias, concretamente a temática da Educação, a conversa acaba em bicicletas.
O professor informa que, quando era adolescente, era obrigatório uma bicicleta possuir uma placa (com a matrícula do veículo).
A Maria Luís abre então a sua boca, com um ar de espanto sem medida:
- Para andar de bicicleta, era preciso ter placa de dentes?
Ser professor é uma experiência sem igual e, por vezes, sem explicação.
O PowerPointo pode ser consultado e descarregado aqui: »»».
O PowerPoint pode ser consultado e descarregado aqui: »»».
No início da narrativa, um garoto inglês de cerca de doze anos, Ralph, desce por uma área de rochas até uma lagoa próxima a uma praia em uma ilha tropical. Lá, encontra outro menino, Piggy, que é gordo, usa óculos grossos, sofre de asma e demonstra ser mais intelectual e preocupado. Piggy tem dificuldade em acompanhar Ralph fisicamente, inclusive para nadar, e revela traços de vulnerabilidade: seus pais morreram e ele vive com a tia. Ele também confidencia que odeia seu apelido (“Piggy” / “Porquinho”) e pede que não seja revelado, mas Ralph acaba ignorando isso e mais tarde expõe o apelido aos outros, provocando risos e zombarias.
A conversa entre os dois revela o contexto da situação: durante uma guerra — possivelmente nuclear, envolvendo uma bomba atômica — um avião que transportava um grupo de meninos ingleses foi abatido e caiu em uma ilha deserta no oceano. A aeronave foi parcialmente arrastada para o mar, e acredita-se que todos os adultos a bordo morreram. Não há sinal do piloto, e é provável que ninguém saiba onde os meninos estão, o que reduz drasticamente as chances de resgate. Enquanto Ralph reage com entusiasmo à ausência de adultos e à ideia de liberdade em uma ilha paradisíaca, Piggy demonstra preocupação e senso de urgência, alertando que eles precisam se organizar para sobreviver.
Explorando a praia, Ralph encontra uma grande concha de búzio cor creme. Piggy reconhece que ela pode ser usada como uma trombeta para reunir os sobreviventes. Como Piggy não consegue soprá-la devido à asma, ele orienta Ralph, que produz um som alto e estridente. O som da concha atrai gradualmente outros meninos, com idades entre seis e doze anos. O primeiro a aparecer é um garoto pequeno chamado Johnny, e os demais vão surgindo da selva e se acomodando, por exemplo, em troncos de palmeira caídos, aguardando.
Entre os que chegam, destaca-se um grupo organizado: um coral de meninos vestidos com túnicas e capas pretas, ainda usando seus gorros apesar do calor intenso. Eles marcham em formação sob a liderança de Jack, um garoto mais velho, autoritário e ambicioso, que exige disciplina e postura dos demais. Inicialmente, Jack acredita que um adulto os convocou, mas ao perceber que estão sozinhos, afirma que terão que se virar por conta própria.
Durante a reunião, Piggy tenta registrar os nomes dos meninos, mas encontra dificuldades e é frequentemente interrompido. Jack demonstra desprezo por ele, mandando-o calar e chamando-o de “gordo”, enquanto os outros meninos também zombam de sua aparência e comportamento.
Os meninos decidem então escolher um líder. Jack se apresenta como candidato, alegando que deveria ser o chefe, e os coristas votam nele. No entanto, a maioria dos meninos escolhe Ralph. Sua eleição parece decorrer de vários fatores: sua aparência, seu carisma e, simbolicamente, a posse da concha, que representa autoridade. Todos, inclusive o coral, acabam aceitando a decisão, embora Jack fique visivelmente contrariado e constrangido.
Para amenizar a tensão, Ralph permite que Jack permaneça no comando do coral, designando-os como caçadores. Jack aceita essa função com satisfação. Em seguida, Ralph organiza o grupo e propõe que verifiquem se estão realmente em uma ilha deserta e se há habitantes. Ele escolhe Jack e um terceiro menino, Simon, para acompanhá-lo na exploração. Piggy insiste em ir também, mas é excluído, o que o magoa; Ralph tenta compensá-lo dando-lhe a tarefa de anotar os nomes dos demais.
Ralph, Jack e Simon partem então pela selva densa. Durante a exploração, experimentam entusiasmo, liberdade e um sentimento crescente de amizade e aventura. Eles atravessam a vegetação, chegam a regiões de rochas altas e escalam uma colina íngreme. Do topo, confirmam que estão em uma ilha isolada, sem qualquer sinal de civilização. Ralph sente que aquele território lhes pertence, como se fosse uma descoberta própria. Jack já começa a pensar na caça como meio de sobrevivência.
No caminho de volta, os três encontram um porco (ou leitão/javali) preso em cipós. Jack, armado com uma faca, se prepara para matá-lo, o que representaria sua primeira ação como caçador. No entanto, ele hesita — seja por medo, inexperiência ou conflito interno — e o animal escapa. Jack, envergonhado, promete com firmeza que da próxima vez não falhará.
Após essa longa exploração, os três retornam à praia, onde os outros meninos aguardam, encerrando o primeiro momento de organização e descoberta na ilha.
O eixo dramático de O Senhor das Moscas gravita em torno do embate entre Ralph e Jack. dois polos de liderança que encarnam visões inconciliáveis de organização humana. De um lado, Ralph, com a sua inclinação para a ordem, a deliberação coletiva e o amparo dos mais frágeis; do outro, Jack, cuja autoridade se funda na imposição, no medo e na sedução da violência. Se, num primeiro momento, Jack se curva, ainda que a contragosto, à escolha de Ralph como chefe, essa aceitação logo se revela provisória. A rivalidade latente cresce como uma chama mal contida, até consumir por inteiro a frágil estrutura social erguida pelos meninos.
Mais do que indivíduos, Ralph e Jack configuram arquétipos: são figuras simbólicas de impulsos antagónicos que habitam a própria natureza humana. À medida que o domínio de Ralph se dissolve, enfraquecido pela indisciplina, pela negligência e pelo fascínio que a caça exerce sobre os demais, torna-se cada vez mais evidente a precariedade da civilização. O colapso da sua liderança sugere que os instintos primitivos, quando liberados, tendem a subjugar as convenções sociais, revelando-as como construções delicadas, sempre à beira da ruína. O resgate final de Ralph por um oficial da marinha, representante de uma ordem maior, não chega a oferecer consolo pleno: ao contrário, o pano de fundo de uma guerra global insinua que a barbárie não é exclusividade da ilha, mas atravessa o mundo dito civilizado.
Inserido nesse contexto de conflito planetário, o romance funciona como advertência, tanto em relação ao poder destrutivo da tecnologia bélica quanto à instabilidade inerente ao espírito humano. Ao restringir a ação a um grupo de crianças isoladas, com escassas referências ao exterior, a narrativa adquire um caráter quase mítico, como se aquilo que ali se desenrola fosse inevitável e universal. O microcosmo da ilha torna-se, assim, espelho ampliado do mundo: um laboratório onde se expõem...
Continuação da análise aqui: »»».
O Senhor das Moscas desenrola-se numa ilha deserta do Pacífico, durante uma guerra devastadora — frequentemente interpretada como nuclear —, após um avião que transportava um grupo de rapazes britânicos ser abatido. O piloto morre, e os sobreviventes ficam entregues a si próprios, sem qualquer supervisão adulta, num ambiente simultaneamente paradisíaco e hostil.
Entre os primeiros a surgir estão Ralph e Piggy, um rapaz intelectual, fisicamente frágil e frequentemente ignorado pelos outros. Na praia, Ralph encontra uma concha, e Piggy percebe o seu potencial: ao soprá-la, conseguem convocar os restantes sobreviventes. Reunidos, os rapazes organizam-se e tentam recriar uma ordem semelhante à sociedade de onde vieram. Elegem Ralph como líder, apoiado pelo conselho de Piggy, e atribuem a Jack, chefe do antigo coro, a responsabilidade pelos caçadores.
O grupo divide-se de forma geral entre os “pequeninos”, crianças de cerca de seis anos, e os mais velhos, entre os dez e os doze. Desde o início, Ralph estabelece como prioridade o resgate: decide que devem manter uma fogueira acesa no topo da montanha para sinalizar navios. O fogo é aceso com recurso aos óculos de Piggy, que concentram a luz solar. Contudo, a excitação e a irresponsabilidade dos rapazes fazem com que o incêndio...
Resumo completo: »»».
Quando O
Senhor das Moscas foi publicado pela primeira vez, o mundo procurava ainda
recompor-se da devastação humana provocada pela Segunda Guerra Mundial. Entre
civis e militares, este conflito ceifara cerca de 60 milhões de vidas, deixando
atrás de si uma memória de ruína e perda dificilmente mensurável.
O fim do
conflito foi, quase de imediato, sucedido pelo início da Guerra Fria. O bloco
comunista encontrava-se sob a liderança da União Soviética, que instaurara um
regime totalitário na sequência da revolução de 1917 — revolução essa
alicerçada nas teorias do socialismo. Este defendia a propriedade comum dos
recursos em benefício da comunidade, em oposição à expansão territorial que, na
prática, os líderes comunistas procuravam assegurar. Por sua vez, o Ocidente
capitalista, liderado pelos Estados Unidos, receava a disseminação do
comunismo. Com ambas as superpotências na posse de armamento nuclear, a Guerra
Fria tornou-se um tempo de tensão constante e latente. Ambos estes conflitos
históricos servem de pano de fundo a O Senhor das Moscas.
A
Segunda Guerra Mundial exerceu uma influência profunda sobre William Gerald
Golding. Ao serviço da Royal Navy, participou em combates no Atlântico Norte,
tomou parte na batalha que conduziu ao afundamento do navio de combate alemão
Bismarck, em 1941, e comandou uma embarcação lançadora de foguetes durante o
desembarque na Normandia, em 1944.
Aquilo
que testemunhou durante o conflito marcou profundamente a sua visão do ser
humano e da sociedade. Golding ficou abalado perante a extraordinária
capacidade humana para infligir dor e destruição. Num ensaio publicado em 1965,
intitulado “Fábula”, escreveu: “Comecei a perceber do que as pessoas eram
capazes”. Não foram apenas os horrores perpetrados pelos nazis sobre os
prisioneiros nos campos de concentração, nem os maus-tratos infligidos pelos
japoneses que o perturbaram. Também as ações dos Aliados o inquietaram:
justificavam a destruição em nome de princípios morais, mas essa justificação
abria uma inquietante zona cinzenta, onde o desumano podia tornar-se aceitável.
Todas estas contradições levaram Golding a conceber a natureza humana como algo
simultaneamente selvagem e implacável.
Os ecos
destas ideias percorrem O Senhor das Moscas. Jack e os seus caçadores,
em particular, tornam-se agentes da violência: começam por caçar animais, mas
acabam por matar e torturar seres humanos. Até Ralph, símbolo da ordem e da
sociedade, participa numa caçada e no assassinato de Simon. Tal como o texto
sugere, todos os seres humanos encerram em si a capacidade de praticar o mal.
O
Senhor das Moscas foi escrito durante a Guerra Fria, período em que a
humanidade viveu, pela primeira vez, sob a ameaça concreta de aniquilação
nuclear. As bombas atómicas tinham sido utilizadas duas vezes pelos Estados
Unidos para forçar a rendição do Japão, em 1945. Perante isso, os líderes da
União Soviética sentiram-se compelidos a desenvolver o seu próprio arsenal
nuclear, tanto por razões defensivas como ofensivas. Quando a União Soviética
se tornou oficialmente uma potência nuclear, em 1949, a Guerra Fria já estava em
curso.
Tal
como sucede no romance, onde os rapazes se dividem em grupos que passam a
desconfiar uns dos outros e a procurar a destruição mútua, também as nações se
fragmentaram em blocos. A maioria dos países alinhou-se sob a influência da
União Soviética e dos seus aliados comunistas, ou sob a esfera dos Estados
Unidos e do Ocidente. A tensão entre estes dois polos era elevada, dando origem
a conflitos indiretos, como a Guerra da Coreia — invasão da Coreia do Sul pela
Coreia do Norte entre 1950 e 1953 —, na qual os Estados Unidos apoiaram o Sul,
enquanto a China e a União Soviética apoiaram o Norte.
A
Guerra Fria, com o seu potencial de destruição em massa, bem como a paranoia
que dominava ambos os lados, encontra-se refletida na obra. A narrativa
inicia-se com os rapazes isolados numa ilha, após o avião em que viajavam ter
sido abatido. Acreditam que uma bomba nuclear destruiu o mundo e vivem com o
receio de serem encontrados pelos “Vermelhos”, termo frequentemente utilizado
no bloco ocidental para designar os comunistas.
Desde
cedo revelou inclinação para a escrita: começou a escrever aos sete anos e, aos
doze, já ensaiava o seu primeiro romance. Leitor precoce, mergulhou na poesia
de Alfred Tennyson e na obra de William Shakespeare, influências que o
acompanhariam ao longo da vida. Contudo, a sua infância não foi isenta de
sombras: há registos de que, em pequeno, podia ser agressivo, chegando a
maltratar outras crianças — traço que mais tarde ecoaria na complexidade moral
das suas personagens.
Em
1930, ingressou no Brasenose College, na University of Oxford. Seguindo a
vontade dos pais, iniciou estudos em ciências, mas, após dois anos, cedeu à sua
vocação e mudou para literatura inglesa. Ainda estudante, publicou o seu
primeiro livro — um volume de poesia — integrado na série da Macmillan
Publishers. Mais tarde, viria a desvalorizar essa obra, considerando-a juvenil;
no entanto, nela já se pressente a sua crescente desconfiança face ao
racionalismo herdado. Concluiu o curso em 1935, com um grau em Inglês e um
diploma em educação.
Após a
universidade, experimentou várias ocupações, trabalhando como escritor, ator e
produtor num pequeno teatro londrino, ao mesmo tempo que se sustentava como
assistente social. Considerava o teatro — em especial a tradição dos
tragediógrafos gregos e de Shakespeare — a sua influência literária mais
profunda. Acabaria por seguir o caminho do pai, tornando-se professor de Inglês
e Filosofia em Salisbury, na Bishop Wordsworth's School, onde viria também a
exercer funções de direção. O contacto diário com rapazes proporcionou-lhe uma
visão penetrante da natureza humana que, mais tarde, se revelaria decisiva para
a criação da sua obra mais célebre.
Em
1939, casou com Ann Brookfield, com quem teve dois filhos. No ano seguinte,
porém, interrompeu a vida civil para se alistar na Royal Navy, participando na
World War II. Durante cerca de seis anos, serviu no mar, tomou parte em
diversas missões e foi promovido a tenente, desenvolvendo uma duradoura ligação
ao oceano e à navegação. Terminada a guerra, regressou ao ensino e à escrita.
Foi em
1953 que concluiu Lord of the Flies (O Senhor das Moscas),
romance que viria a ser publicado em 1954, após ter sido rejeitado por vinte e
uma editoras. A receção inicial foi hesitante e as vendas modestas; chegou
mesmo a desaparecer do mercado nos Estados Unidos, embora se mantivesse
disponível no Reino Unido. Só em 1959, com a edição de bolso, a obra conheceu
um renascimento, vindo a afirmar-se como um clássico incontornável da
literatura contemporânea e presença habitual nos currículos escolares.
Ao
longo da sua carreira, Golding escreveu treze romances, além de poesia, peças
de teatro, ensaios e contos. O conjunto da sua obra valeu-lhe o Prémio Nobel da
Literatura em 1983, sendo ainda distinguido com o título de cavaleiro em 1988.
Em 1961, abandonou definitivamente o ensino para se dedicar por inteiro à
escrita.
Golding morreu a 19 de junho de 1993, na sua terra natal, Cornualha, encerrando uma vida marcada pela reflexão profunda sobre a natureza humana, onde a razão e a sombra convivem em tensão permanente.
O romance é uma alegoria ,
ou seja, uma história em que personagens, cenários e eventos representam algo
maior do que eles próprios. Por exemplo, a ilha representa o mundo; Ralph e
Jack simbolizam diferentes abordagens à liderança.
O poema é constituído por três
quadras de redondilha menor (versos de cinco sílabas) e rima interpolada e
emparelhada, segundo o esquema abba.
Na primeira estrofe, o sujeito
poético declara que, enquanto foi criança, viveu sem ter consciência dos
sentimentos (“Quando era criança / Vivi, sem saber” – vv. 1-2), pois não era
dominado pela consciência, pela racionalidade, pelo pensamento. Porém, agora
que é consciente (“Só para hoje” – v. 3), no presente, enquanto adulto, lembra
aquilo que foi no passado (“Aquela lembrança” – v. 4). A antítese entre esses
dois tempos – passado e presente – é marcada pelos tempos verbais (pretérito
imperfeito – “era” – e perfeito – “Vivi” – versus presente) e pelo
advérbio de tempo “hoje”.
A antítese prolonga-se na segunda quadra. Assim, afirma que, no presente (“hoje” – v. 5) reflete, tem consciência de que era feliz no passado, o que contrasta com a infelicidade que o caracteriza atualmente (“É hoje que sinto / Aquilo que fui.” – vv. 5-6). Nos versos 7 e 8, estabelece que “mente”, isto é, que finge, intelectualiza todos os seus...
Análise aqui: »»».
Eurípides foi um dos três grandes dramaturgos Atenas clássica, conjuntamente com Sófocles e Ésquilo, tendo nascido por volta de 484 a.C. na atual capital grega, mais concretamente na ilha de Salamina, e falecido em 406 a.C. na Macedónia.
É complexo escrever sobre a vida de Eurípides, pela simples razão de que ele viveu há milhares de anos, numa época em que se estava apenas no início da escrita de História (Heródoto – 484 a.C. - 425 a.C. –, considerado o seu pai, foi contemporâneo próximo do escritor). Os homens daquela era já tinham começado a registar grandes eventos, no entanto não tinham entendido que o registo da vida de alguém implicava o trabalho de pesquisa sobre a figura em questão. Uma espécie de biografia começou a ser elaborada cerca de duas gerações depois, quando os discípulos de Aristóteles e Epicuro se preocuparam e empenharam em desvendar e registar as vidas dos seus mestres. Contudo, a biografo como a entendemos atualmente nunca foi praticada na Antiguidade, visto que, em regra, era constituída por excertos selecionados da vida do biografado, como, por exemplo, grandes feitos, grandiosos discursos, e concentrava-se nos últimos anos da sua vida, especialmente na sua morte. É isto que explica o facto de pouquíssimas datas de nascimento serem hoje conhecidas, ou o desconhecimento das primeiras obras e primeiros anos de vida dos grandes homens da época.
Por outro lado, a História era um ramo das “belas-letras” e não se preocupava grandemente com a exatidão do conteúdo. Regra geral, contentava-se com a data em que um homem se distinguia, o que constituía uma conceção muito vaga, convencionalmente fixada na época em que realizou a sua obra mais importante ou no ano em que alcançou a maturidade: a idade de quarenta anos.